A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

Sem Conseguir Falar

Tudo começou quando ela deu entrada no hospital.
Eu já não sabia dela há vários anos. Embora vivêssemos ambos na mesma cidade, nunca mais nos vimos depois de eu ter saído de casa dela e batido com a porta. Ela ainda escreveu uma enorme mensagem no Messenger. À qual eu respondi. Depois disso fui bloqueado no Facebook. E nunca mais falámos. Nunca mais no cruzámos nas ruas da cidade, mesmo tendo amigos em comum. O destino trabalhou por nós. Separou-nos. E acho que respirámos melhor.
Entretanto ela deu entrada no hospital. Ela deu entrada no hospital e eu fui avisado.
Eu?
Aparentemente eu fui o contacto que ela deu quando deu entrada no hospital.
Eu? Perguntei várias vezes a quem me telefonou a avisar do internamento no serviço de oncologia. Oncologia? Também o perguntei várias vezes. E sim. Não havia erro. Ela dera entrada no serviço de Oncologia do hospital.
Soube depois que ela andou vários dias, talvez semanas, a vomitar toda a comida e bebida que tentava ingerir. Vários dias, talvez semanas, sem se conseguir alimentar. A perder forças. A definhar.
Foi encontrada desmaiada no meio da rua. Estava em cima de um monte de vómito. Não muito. Não muito que ela não tinha nada no estômago. E foi a sorte dela. Ou o azar. Não morreu sufocada no seu próprio vómito. Foi encontrada por um arrumador de carros que telefonou para o cento e doze.
O INEM levou-a para o hospital. Fizeram umas análises. Fizeram uns testes. Fizeram o diagnóstico. Nada que ela já não soubesse. Nada que ela já não adivinhasse. Tentou ignorar. Tentou ignorar o estado em que estava como fazia com tudo o que a incomodava na vida. Ignorava. Ignorava e esperava que desaparecesse. Foi o que vez comigo, também. Ignorou-me. Bloqueou-me no Facebook.
Telefonaram do hospital a dizer que ela estava lá. E então? E então eu era o contacto. Era a mim que ela queria ver no hospital.
E fui lá.
O que levar? O que se leva a quem está no hospital no serviço de Oncologia e sem saber exactamente como é que está quem vamos ver?
Aparentemente, nada. Nada é o melhor que se pode levar.
Quando entrei no quarto ela estava a dormir. Tinha uns tubos a entrar dentro dela. Devia ser soro. Talvez. Ela estava a dormir. Sentei-me ao lado da cama e esperei. Olhei para ela. Não a reconheci. Estava magra. A cara muito seca. Notavam-se os ossos. Mas ainda se percebia que era bonita. Ou que seria bonita noutras condições.
Agarrei no telemóvel e passei pelo Facebook. Passei pelo Instagram. Agarrei-me ao 1010!, e fiquei ali, ao lado da cama dela, a jogar.
E já muito tempo tinha passado, e eu já tinha perdido vários jogos e recomeçado outros tantos, quando ouvi, saída do fundo de um poço, uma vozinha muito frágil e fininha, muito sumida, Olá! e levantei os olhos e cruzei-me com os olhos encovados dela.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, feito parvo, a olhar para ela a olhar para mim, e mesmo depois de ela perguntar Como é que estás? eu não soube o que responder, não consegui responder.
Senti umas lágrimas a caírem-me pelas faces abaixo. Não queria chorar mas não estava a conseguir bloquear-me. Chorei. Agarrei-lhe nas mãos. Agarrei-lhe nas mãos magras e ásperas com força, massajei-as com os meus dedos e continuei em silêncio. Não conseguia falar. E depois tive uma convulsão de choro e chorei em jorro e convulsivamente durante algum tempo. E depois acalmei. Limpei as lágrimas e o ranho com as costas das mãos e respirei fundo, a recuperar a calma. Mas continuei sem falar.
Passaram horas. Depois passaram dias e semanas. Ela começou a fazer quimioterapia e foi enviada para casa.
Eu acompanhei-a a casa. Ajudei-a a instalar-se. Preparei as coisas para os dias mais próximos. E, de repente, parei. Olhei para a rua através da janela da cozinha. Olhei em volta. Reconheci alguns daqueles espaços. Já tinham sido meus, também. Já não eram. Mas eram dela. Eram dela e eu decidi. Decidi que ia ficar ali com ela. Decidi que ia passar por tudo aquilo com ela.
E fiquei.
Até hoje ainda não consegui falar com ela. Ainda não consegui dizer-lhe palavra. Vamos vivendo como conseguimos. Um dia a seguir ao outro.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/18]

Perna Partida

Parti uma perna. Tive sorte. Não parti a bacia. A bacia é algo que os velhos como eu costumam partir quando caem. Eu caí e só parti uma perna. Vá lá. No meio do meu azar, acabei por ter sorte.
A bacia é a pélvis e ficou muito conhecida graças a Elvis Presley e à sua forma de dançar. A alcunha que ganhou, The Pelvis, foi por mexer a pélvis de forma muito sexual. As raparigas adoravam. Os pais delas não.
Parti a perna em casa. Que é também um dos sítios onde os velhos, como eu, mais caem e partem partes do corpo. A bacia é a pior delas, mas há outras coisas a quebrar. No meu caso foi a perna. Tive sorte. Podia ter sido pior.
A minha casa, como muitas das casas arrendadas na baixa da cidade, casa de poucas assoalhadas, para tempo muito limitado e uma rotação muito grande de inquilinos, o que não é o meu caso que já estou aqui há cinco anos, é de mosaico. Um mosaico vidrado que facilita a limpeza. É só passar um pano húmido. Mas no Inverno é terrível. Está sempre húmido. Nunca seca. E então, em dias de chuva, parece que a chuva que cai lá fora vem toda cá para dentro de casa.
Eu amarrava uma toalha de turco, absorvente, na escova da vassoura para limpar a humidade de casa. Mas durava só alguns minutos. No melhor dos casos, uma hora. Depressa voltava tudo a ficar húmido, molhado e cheio de água. Às vezes parecia que nascia água debaixo das lajes.
E foi o que aconteceu.
Começou a chover. Chegou o frio. O chão começou a ficar cheio de humidade. Eu estava na mesa da cozinha a acabar de comer uma omeleta. Uma omeleta simples, só de ovo, com uma pitada de sal e pimenta e um pouco de salsa fresca picada, salsa que roubei do vaso da vizinha do lado e que me obrigou a estender no muro da varanda e que por pouco não caí lá em baixo na rua. Comi a omeleta na companhia de um copo de vinho tinto. Levantei-me para ir colocar o prato, sujo e vazio, no lava-louças e apanhar um pequeno prato com um marmelo assado com canela, que uma amiga cá veio trazer a casa, quando me desequilibrei, deixei cair o prato que se partiu em mil-e-um-pedaços ainda dantes de me colocar em queda, que vi acontecer em câmara-lenta, um pé que escorregou na laje molhada, torceu o tornozelo, puxou o corpo para baixo, obrigou a levantar a outra perna, e fez-me cair em força sobre o rabo, o pé torcido, todo torcido de lado, e as costas foram projectadas para trás e acabei por bater com a cabeça no chão. Até saltitou, a cabeça.
Ouvi um barulho seco quando a cabeça bateu no chão.
Assustei-me.
Mas não aconteceu nada à cabeça. Foi só mesmo o barulho. Nem aconteceu nada às ancas e à queda de rabo. Só me magoei num pulso, devo ter pousado a mão no chão para me amparar na queda e nem me apercebi, e depois a perna dobrada que se partiu e me provocou dores horríveis.
Consegui, no entanto, arrastar-me até ao telemóvel que estava na mesa da cozinha onde estava a almoçar e chamei o INEM.
Hospital.
Perna partida.
Gesso. Várias semanas com gesso.
Tenho passado estes dias à janela a olhar a chuva a cair lá fora. Fumo um cigarrito. Bebo um copo de vinho e pronto, assim está a minha vida. Ando numa cadeira de rodas e não tenho saído de casa. Não com este tempo assim.
Há uma moça que vem cá a casa de dois em dois dias para ver se preciso de alguma coisa. É gira a miúda. Estou a pensar em convidá-la para jantar comigo. Talvez ela aceite. Talvez não se preocupe com a minha perna partida. Ou talvez a perna partida a faça aceitar o convite.
Afinal, talvez a perna partida tenha sido uma coisa boa.
É mesmo gira, o raio da miúda.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/04]

A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

Um Corpo a Boiar no Rio

Vi o corpo a boiar no rio. Uma massa disforme. Estava preso nuns ramos mais baixos das árvores. Uns ramos que roçavam o leito do rio. Parecia-me o corpo de uma mulher, mas não tinha a certeza. Não conseguia aproximar-me mais do corpo. Só se entrasse dentro de água. Mas não quis molhar-me.
Caminhava ao longo das margens do rio quando vi o corpo a boiar. Parei. Espreitei. Aproximei-me o mais que pude, o que não era muito, e confirmei que era um corpo. Um corpo a boiar no rio Liz.
Telefonei para o Cento e Doze.
Chegou a polícia. Os bombeiros. O INEM. Mais tarde a equipa forense da polícia judiciária.
Eu mantive-me lá por perto. A observar tudo. Disse aos primeiros polícias a chegar que tinha sido eu a lançar o alerta sobre o corpo. Os polícias esperaram os bombeiros para puxarem o corpo para a margem.
Acendi um cigarro. Os bombeiros puxaram o corpo. O INEM confirmou a morte. Alguém da equipa forense mandou-me sair dali e apagar o cigarro. A polícia estendeu uma fita de plástico a demarcar área. A equipa forense montou uma tenda de plástico na margem desnivelada a cobrir o corpo.
Juntou-se gente. Curiosos.
Mas já não se via nada de interessante. Só gente a acotovelar-se junto à fita de plástico demarcadora. Polícias de olhar acutilante. Os bombeiros foram-se embora. O INEM também. Agora tudo pertencia à equipa forense.
Tudo o que interessava estava a acontecer dentro da tenda em desnível na margem. Fora dos olhares curiosos.
Olhei em volta. Não se passava nada. Não se passava mesmo nada.
Fui embora. Fui até aos Jardins do Liz beber um café. Já eram oito e meia da manhã. A cidade já estava acordada e a funcionar.
Pedi uma bica curta e percebi que, entre os empregados, havia algum desagrado. Tinha faltado uma empregada. A empregada que devia ter aberto a pastelaria. E que não abriu. Não apareceu. Não atendia o telemóvel. Ninguém sabia onde estava.
Eu sabia.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/28]

A Vida É Difícil

Vim de carro à cidade. Tinha de tratar de uns papéis e vim de carro. Não compreendo isto. Cada vez mais tecnológicos e digitais e ainda temos de passar a vida com papéis e a comparecer ao vivo para provar que nós somos nós e não outros a fazerem-se passar por nós. E, no entanto, nós andamos por todo o lado, vendidos por toda a gente a toda a gente que nos queira comprar. Somos os novos escravos. Aqueles a quem prometeram a democracia e acabaram por levar com a tecnocracia.
Ia eu já de carro, numa estrada via-rápida, quando comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Não sei como surgiu. Nem se surgiu ali, naquele momento. Pode ter aparecido antes mas só ter dado conta ali, talvez por ser mais silencioso, talvez por ser uma zona de muitos cabos de alta-tensão, talvez por eu estar mais atento.
E pensei que, ultimamente, tenho ouvido muito zumbido nos ouvidos. E pensei mais ainda, se seria melhor ouvir zumbidos nos ouvidos ou vozes na cabeça?
Parecia-me que era melhor ouvir vozes. Seria dado como maluquinho e ninguém me levava a mal e perdoavam-me as parvoíces e descontavam-me as asneiras. Com um zumbido nos ouvidos, ninguém se preocupa nem muito menos quer saber.
O quê? o tipo dos zumbidos nos ouvidos? Esse gajo é parvo!
O quê? o tipo das vozes na cabeça? Esse gajo é tontinho, coitado, tens de dar um desconto.
A vida é difícil para quem sai da norma.
Tomo uns comprimidos. Para isto é para outras coisas. Mas às vezes esqueço-me. Não me lembro de tudo. Não consigo lembrar-me de tudo. De tudo, destas coisas, porque há coisas que não me esqueço. Por exemplo, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Em dois mil e dezanove, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Disto lembro-me. E quando me esqueço vou ao site da Pordata para confirmar. É sempre bom confirmar os factos. A história. As notícias. Não confio em ninguém que manda coisas assim, da boca para fora. Se nem eu sou de confiança para mim próprio…
Cheguei à cidade. Dei várias voltas para estacionar. Nem parece Agosto. Ou se calhar é por isso. É Agosto. Chego à repartição pública e assusto-me. A fila dá a volta ao quarteirão. São famílias inteiras. Algumas com cães. Muitas destas famílias estão em calções de banho e biquínis. Sinto-me na Praia da Vieira. Fala-se francês por todo o lado. Há algum inglês. Pouco. Um casal falava em alemão. Parecia-me.
Abri os braços para o céu. Dirigi o meu olhar para lá. Comecei a rezar um Pai Nosso em alta-voz, enquanto me aproximava do início da fila. Quando acabou o Pai Nosso, avancei com uma Avé Maria. Ao chegar ao início da fila abençoei as pessoas que lá estavam executei uma pregação sobre a vida dos escolhidos de Deus para governar a Terra e pus-me em primeiro lugar.
Já ninguém respeita ninguém. Começaram a refilar comigo. Chamaram-me herege e, perante a minha insistência em nome do Bom Jesus, deram-me uma carga de porrada que me deixaram estendido no chão.
Um funcionário público, lá do interior, viu o que estava a acontecer e chamou a polícia e o INEM. O INEM não apareceu, mas apareceram os bombeiros. Antes ainda da polícia. E levaram-me ao hospital.
Dou graças ao SNS. É a minha vingança. Os gajos que me mandaram para aqui são os gajos que estão a pagar o meu internamento. Sim, fiquei internado.
Continuo com o zumbido nos ouvidos. Agora também já ouço vozes na cabeça. Tomo vários comprimidos ao longo do dia que não sei para o que são. Ninguém me diz nada. Mas são às cores. Parecem saídos de uma embalagem de M&M’s. Eu acho que me dão inibidores sexuais para não saltar para cima das enfermeiras. São giras, as enfermeiras do SNS.
Mas agora, o que me preocupa é o carro. O ticket de estacionamento já passou do prazo há muito tempo. O que é que lhe vão fazer. O quê? Não, não levam nada para a sucata. Queres ir agora? Ah! Depois de almoço? Vamos os dois? Está bem, pá. Vamos os dois para a Praia da Vieira. Mas porquê a Praia da Vieira? Há lá enfermeiras do SNS?

[escrito directamente no facebook em 2019/08/09]

Na Livraria

Houve uma época em que trabalhei numa livraria. Foi uma época de que gostei especialmente, não tanto pelo trabalho, mas por estar rodeado de livros.
Gostava de cheirá-los. Ler as contracapas, mesmo as dos livros que à partida não me interessavam. Folheá-lhos. Pegar neles e ser o primeiro a roubar-lhes a frescura da novidade.
Havia dias em que agarrava um livro, um livro qualquer, um livro que nem sabia o que era, mas que me agarrava, o livro agarrava-me a mim, e eu esquecia onde estava. Esquecia a loja, os outros livros, o trabalho, os clientes. Nem ouvia as pessoas entrar na loja e quando chegavam e me dirigiam a palavra, irritava-me com elas por me interromperem a leitura e chegava a mandá-las Para o caralho, pá! E depois pedia a um dos meus colegas que atendessem aquela, aquelas, pessoas, que eu estava num mundo de onde não podia ser arrancado assim, a frio, daquela maneira tão bruta e estúpida.
Ler era litúrgico.
Havia dias em que as noites eram passadas lá, na livraria. Saía à hora de sair. Jantava, normalmente um jantar leve. Comprava uma garrafa de vinho. Fumava logo dois ou três cigarros depois de jantar para não fumar na livraria, e regressava ao meu local de trabalho, com a garrafa de vinho, e lia o que apanhava à frente. Lia e bebia. Lia mais que bebia. Havia sempre mais que ler que beber. A garrafa era só uma. Normalmente despejava-se depressa. Mas os livros, os livros duravam a noite inteira. Intercalava-os. Misturava leituras. Romance. Banda-desenhada. Policiais. Poesia. Ensaios. Era assim que aguentava as noites sem adormecer. A saltar de um livro para outro. De uma história para outra.
Tinha muito cuidado com os livros que manuseava. No dia seguinte tinham de seguir intactos para as mãos dos novos donos que pensavam estar a adquirir um livro ainda virgem. Se soubessem… Se soubessem o que lhes acontecia durante as longas noites naquelas prateleiras onde navegavam mãos ávidas de agarrar estórias fantásticas escritas por mentes de deuses extraordinários…
Tudo isto terminou numa noite de Verão, está a fazer por esta altura uns bons anos, quando o dono da livraria, que não me conhecia, eu tinha sido contratado pelo gerente de loja, me encontrou, deitado no chão de um dos corredores da ficção internacional a ler o Aleph do Borges e, num acto heróico de uma novela da Corín Tellado, sacou de um canivete que usava para cortar os charutos, espetou-mo na barriga, abriu-me um rasgão que me fez verter sangue para cima da pilha de livros novos que tinha ali ao lado para ler, ainda me lembro que eram A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt, Todo-o-Mundo do Philip Roth, O Homem do Castelo Alto do Philip K. Dick, Histórias de Cronópios e de Famas do Julio Cortázar, Poemas Quotidianos do António Reis, Eliete da Dulce Maria Cardoso e o Homo Deus do israelita de quem esqueço sempre o nome, raios-me-partam a memória que já não é o que era, e sobre os quais acabei por cair, desmaiado, não pelo rasgão que não foi assim tão grande quanto isso, mas pelo sangue do qual nunca fui grande amigo e cada vez que o vejo fico agoniado, dá-me a volta ao estômago e à cabeça, normalmente vomito, naquela noite desmaiei.
O dono chamou a polícia. O INEM. Eu fui levado para o hospital. Guardado por um agente.
Fiquei dois dias internado. Sem nada para ler. Fiz o meu depoimento. O dono da livraria acabou por perceber que era meu patrão. Despediu-me logo de seguida. Nem direito a indemnização tive. Tens sorte que retire a queixa e não te faço pagar os livros que estragaste com o sangue, disse-me.
Quando saí do hospital, não sabia o que fazer. Estava sem trabalho, sem casa e sem dinheiro. E sem livros para ler.
Acabei por arranjar trabalho no Continente, como repositor de lineares. Mas evitava passar pela zona dos livros. Achava um crime a forma como os livros eram tratados no supermercado. Eram atirados para ali. Não havia ordem. Não havia amor. Estavam assim ao monte. Eram uma mera mercadoria. À espera de serem levados por gente que não ligava a livros. Gente que tinha prateleiras em casa para encher. O livro era um bibelot. E isso, isso eu não conseguia aguentar.
Depois disso deixei de ler livros. Nos últimos anos comecei a escrever e comecei a ler o que escrevo. Há dias, de noite, porque eu gosto muito de ler à noite, que me sinto Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/23]