Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

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Fecha os Olhos e Deixa-te Adormecer

Abro um olho e olho para as luzes do despertador digital. São vinte horas. Ponho uma orelha de fora e ouço o zumbido. Parece o coro das cigarras. Mas a esta hora é pouco provável. Talvez o zumbido seja dos cabos de alta tensão. Ou do incêndio que, afinal, talvez esteja já aqui à porta.
Eu vi quando o fogo apareceu lá ao fundo, na zona dos eucaliptos. Mas não liguei muito. Depois dos eucaliptos há um descampado. O fogo devia morrer por ali.
Fui deitar-me em cima da cama. Devo ter adormecido. Acordei a baterem-me na porta. A chamarem-me. Levantei-me em silêncio. Fui à janela da cozinha e espreitei lá para fora. Fui ver quem era. Era gente aqui das redondezas. E a guarda. Andava toda a gente no meu quintal. Às voltas no meu quintal. Bateram à porta. Às portas. Nas janelas. Tentavam espreitar cá para dentro para ver se eu cá estava. Se estava cá alguém.
Eu não queria ver ninguém. Eu não estava. Se eu não estivesse, eles iam embora.
Voltei para a cama. Meti-me debaixo do edredão, mesmo com todo este calor. As vozes continuavam lá por fora. À volta da casa. Ninguém se foi embora, aparentemente.
Ouvi água a cair sobre as janelas, sobre a casa. As vozes aumentavam. Tapei-me com o edredão. Tentei abafar as vozes e os ruídos lá de fora.
Devo ter adormecido, de novo.
Continua a haver barulho lá fora. Já não me parecem vozes. Ou talvez sejam vozes, mas estão diferentes. Ouço um zumbido. Há, outra vez, água a cair sobre a casa. Estará a chover?
Cheira-me a torradas. Ponho o nariz de fora. Cheira-me mesmo a queimado. O zumbido! O zumbido pode ser do pinhal a arder. Talvez o incêndio tenha ido dar a volta lá por baixo, pela estrada. Talvez o descampado não tenha apagado o incêndio. As chamas podem ter dado a volta lá por baixo. Os pinheiros chegam até aqui ao quintal. Entram dentro do quintal. Estão aqui, mesmo ao lado da casa.
O zumbido parece que está mais alto. Já não parece bem um zumbido. Parece mais um crepitar. Cheira-me a queimado. E aquilo ali? será fumo?
Enfio de novo a cabeça debaixo do edredão. Quero acordar. Acorda! digo. Destapo-me e apuro os sentidos. Sento-me na cama. Ouço um crepitar de madeira. Cheira-me a queimado. Vejo fumo a invadir-me o quarto.
Sinto-me tonto. Volto a deitar-me. Tapo-me outra vez. Pode ser que não seja nada. Tenho a cabeça às voltas. Sinto-me tonto. Será uma vertigem? Sinto-me adormecer.
E então vejo-a. E ela diz Fecha os olhos. Deixa-te adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/31]

Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

Com um Curso de Sociologia

Quase todos os meus colegas de Sociologia estão desempregados. Os que não estão sem trabalho estão em call centers. Há dois deles a dar aulas de Filosofia. Um está a dar Comunicação Social. Todos no secundário. E ainda há um outro que é Bibliotecário, mas tirou um curso de especialização quando percebeu que com a Sociologia não ia a lado nenhum.
Eu sempre fui um ingénuo.
Porque é que há cursos de Sociologia? Porque raio fui eu para Sociologia?
Lembrei-me disto enquanto confirmava que o Verão foi violado pelo Inverno, na sua própria casa, e não há autoridade que lhe meta a mão e organize o que está desorganizado.
Estas alterações têm implicações em mim. No meu funcionamento. No funcionamento do meu corpo.
Estou com tanta bronquite que voltei ao Ventilan. O Xoterna não é suficiente. Mas estou com dores nos pulmões. Parece que estão a arder. Mas não é a arder de acidez, como às vezes acontece na garganta e tenho de chupar um Kompensan. Não. É como se os pulmões encolhessem e não houvesse espaço suficiente para albergar todo o ar que necessito em cada movimento respiratório. Depois sinto umas picadelas, insisto e parece que começam a arder.
Estou à janela, curvado sobre mim, com os polegares nas presilhas das calças para aguentar o meu corpo curvado, a olhar para a rua e a ver as nuvens escuras que passam sobre a casa, sobre as montanhas lá ao fundo, e trazem a promessa de chuva forte e furiosa.
Estou em Agosto e estou cheio de bronquite à espera que chova.
E foi assim que regressei à Sociologia. Porque a culpa é da Sociologia. Se estivesse a trabalhar, provavelmente não estava agora em casa à espera da chuva porque não iria tirar férias em Agosto, porque não gosto de férias em Agosto, ia estar a trabalhar, não pensava nestas alterações tão visíveis à minha frente, nem tenderia a ficar com bronquite porque o trabalho não me deixaria pensar nisso (e uma grande percentagem da minha bronquite é psicológica que se torna física porque não consigo desviar a cabeça daí), não pensaria que estas alterações de clima interferem na minha respiração, não teria dificuldade em respirar, não precisava de Ventilan e os pulmões não me iriam doer por excesso de cortisona.
Ah, porra! A culpa é da Sociologia e do desemprego para onde me despejou.
Tenho tentado concorrer aos hipermercados aqui da zona. Sou eliminado por excesso de formação. Na verdade acho que têm medo que leve a revolução aos lineares.
Faço uns biscates. Corto alguma lenha. Mas já tenho as costas muito velhas para conseguir forçar o machado nos veios do pinho. Ajudo os vizinhos na apanha da fruta. Faço de copy para as pequenas lojas das redondezas a tentar sobreviver aos hipermercados. Este ano também ajudei a limpar o mato. Mas se houver um incêndio, vai haver um incêndio. O que se limpou faz a mata ficar mais bonita, afasta o início de incêndios por incúria, mas se vier um fogo por aí a baixo, passa por cima de tudo isto na mesma.
Na verdade, a única coisa boa, nisto tudo, é o Inverno ter ocupado o lugar do Verão. É mais fácil evitar incêndios com dias de chuva do que com a mata limpa em dias com quarenta graus.
Andou um tipo a estudar Sociologia para isto.
E agora nem um cigarro consigo fumar. Raios me partam!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/05]

Flávio com F de Folha

Três dias a tomar Nimed não me arrasaram o fígado, mas trouxeram-me de volta a bronquite. O Xoterna já não me defende. O Ventilan já quase não funciona como s.o.s.. Mando várias bombadas na tentativa de abrir os pulmões. Mas parece que estão cada vez mais fechados. Levo cada vez mais, menos ar aos pulmões que parece que estão cheios de outra coisa que não ar. Faço uma grande barulheira a respirar. Parece que tenho um saco de gatos no peito. O coração bate rápido e parece querer saltar para fora. Talvez saia pela boca junto com um vómito. Estou cansado. Parece que acabei de correr a maratona. Tenho de me agarrar à parede enquanto caminho para o carro. Tenho de sair de casa.
Sento-me no carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Doem-me as costas. O Nimed não resolveu o assunto. E tive de parar por causa da bronquite. Hoje tomei um Voltaren. Encosto-me direito no banco. Descanso. Estico as costas. Recupero o ritmo da respiração. Mas continua muito acelerada. Tento não virar nem dobrar as costas. Ligo o rádio.
Na rádio informam que há um grande incêndio activo em São Bartolomeu de Messines. Cada vez que ouço falar em São Bartolomeu de Messines lembro-me dos Flávio com F de Folha (mais tarde Supernova) o melhor nome de banda que alguma vez existiu.
Ali para os lados das serras d’Aire e dos Candeeiros também se vêem umas colunas de fumo. Há fogo, provavelmente. O país é para queimar. Burn bitch, burn!
Tenho de ir a casa da minha mãe. Prometi aspirar-lhe a casa. Provavelmente não devia lá ir. Não devia mexer com pó. Não devia agarrar no aspirador. Não devia baixar-me. Mas prometi.
Agarro o volante e espero. Espero estar em condições para arrancar com o carro. Olho para o braço. Está cheio de borbulhas. Parecem bolhas de água, mas não são. Isto é alergia ao calor. Tenho de tomar um Zyrtec. Quando voltar. Tenho os comprimidos em casa. Ainda posso voltar atrás. Vou voltar atrás. Preciso só de descansar um pouco.
Na rádio ouço alguém dizer que o Kit de Incêndio distribuído às populações das Aldeias Seguras é afinal um brinquedo para ajudar na prevenção. Acho que anda alguém a brincar com isto tudo.
Acabo por sair do carro. Regresso a casa. Tomo um Zyrtec. Abro o frigorífico e empurro o comprimido com água directamente de uma garrafa. Gosto de água fria. Gelada. Mesmo de Inverno. Sinto o corpo estranho. Doem-me os olhos. Acho que me dói tudo. Ultimamente dói-me tudo. Devo estar a chocar alguma. Agarro na caixa de Antigrippine e tomo dois comprimidos. Bebo mais um gole de água. Vou a sair de casa. Abro a porta da rua mas volto a fechá-la. Tenho de me prevenir. Agarro num copo. Verto água fria lá para dentro e mando-lhe com uma Cecrisina. Olho enquanto se desfaz. Vejo as borbulhinhas a explodir para fora do copo. Molha-me a cara com gotas minúsculas. Quando está toda diluída e a água cor-de-laranja, bebo tudo de um gole. Gosto do sabor da Cecrisina.
Agora sim, saio de casa. Vou amparado à parede até ao carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Agarro no volante e espero que a respiração acalme. Descanso. Penso que não devia ir a casa da minha mãe. Penso que devia ir para a cama. Enfiar-me debaixo do edredão de Verão e esperar até estar outra vez bem. Sim, porque tudo acaba sempre por passar. Mas não posso. Não posso não ir a casa da minha mãe depois de lhe ter dito que ia lá. Tenho de ir aspirar a casa dela.
Estou cansado. O país está a arder. Os ministros respondem mal às pessoas. Já não sei que comprimidos tomei. Já não sei que mais comprimidos podia tomar para ficar melhor. Se calhar devia fumar um charro. Talvez me acalmasse. E então, volto a pensar de novo nos Flávio com F de Folha e penso Porque raio é que as coisas boas acabam tão depressa? Agarro o volante e espero acalmar. Se melhorar, hoje vou ver um concerto do Zé Café & Guida. Tenho de viver o meu Verão. Enquanto estou vivo.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/26]

No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]