Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

No Mad

Estava no Mad. O Mad é o bar/restaurante do Slavo. O Slavo é um chef. Um bom chef. Na verdade, um excelente chef. Da esplanada do Mad vê-se o mar Atlântico, a norte da Praia do Norte. O Mad fica no Vale Furado, no destruído Pinhal do Rei, e é uma praia que fica no fundo de uma falésia. O Mad fica na falésia, mas não junto à arriba. Junto à arriba há um pequeno miradouro do qual se pode ver toda a costa para sul até à Praia do Norte e se pode adivinhar a Nazaré, se o tempo estiver limpo. Do norte, há muitos anos, chegava o cheiro da Leirosa, a celulose nas cercanias da Figueira da Foz. Ultimamente o cheiro não tem cá chegado. Ou ando constipado.
Estava no Mad. Bebia umas imperiais sentado na esplanada. Via ao longe o mar cheio de carneiros. Estava vento no mar e levantava espuma na crista das ondas. Também estava vento no Vale Furado. Do Mad não se consegue ver a praia. Só do miradouro. Há dois caminhos para a praia. Um pelo lado direito do miradouro, que é também um parque de estacionamento, e outro pelo lado esquerdo. Desço sempre pelo lado esquerdo que é a descida oficial, embora seja tudo muito oficioso e arcaico e arrancado à força dos braços e da vontade das pessoas que gostavam de ir para a praia do Vale Furado e escavaram degraus na terra e nas rochas e depois colocaram algum cimento e fabricaram uma descida íngreme, que também é uma subida abrupta. Sempre que está na hora de subir rezo aos santinhos que me ajudem a galgar todos aqueles degraus e que os meus pulmões aguentem o esforço. Nunca fui pelo lado direito.
Estava no Mad a beber umas imperiais na esplanada e a comer uns tremoços que o Slavo lá foi deixar, barrados em piri-piri e sal, quando senti uma vontade enorme de me levantar e ir até ao miradouro olhar para o mar.
Levantei-me. Deixei a imperial a meio, no copo, mas agarrei um punhado de tremoços que fui a comer enquanto cruzava o parque de estacionamento em terra batida e vazio, até chegar ao miradouro e deitar as cascas fora para o mar.
Olhei para sul e não conseguia ver a Praia do Norte. O tempo estava enublado. Mas via as enormes praias que faziam a costa até ao Vale Furado. Pouca areia. Muito mar. Via-o agitado a alongar-se pela areia. Só não consegui ver a praia do Vale Furado que o mar tinha comido e agitava-se lá em baixo, ao fundo, espumoso, agressivo, batido pelo vento, e então falou-me Vem cá abaixo, meu filho-da-puta! Vem cá abaixo ter comigo! e senti uma enorme vontade física de me envolver nos braços tempestuosos do Atlântico, mesmo se, na cabeça, não queria.
Levantei uma perna e depois a outra. Passei para o outro lado da varanda do miradouro. Senti-me impelido a aproximar-me da arriba. Sentia a forte maresia a subir pela arriba e inundar-me os pulmões, o cérebro, o coração. Senti-me encorajado a dar um passo mais em frente. Porquanto a minha cobardia ser mais forte que a coragem que me era transmitida não sei por quem, senti-me empurrado e acabei por dar o último passo. No vazio.
E caí.
Mas ainda vou a cair. Ainda não cheguei ao fundo do Vale Furado. Estou em queda e não sei quando é que lá chegarei.
Vou estragar as sapatilhas novas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/17]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

Foto-Sinto-Me

Está frio.
O sol chama-me lá para fora. Saio. Saio de casa. Passo o alpendre. Vou até ao quintal. Desço a ladeira até à estrada de terra batida.
O sol está quente. A rua é mais quente que a casa. A casa é fria.
Não há carros.
Ouço, ao longe, um cão a ladrar.
Vejo, lá em cima no céu, o chemtrail de um avião. Para onde irá?
Do outro lado da estrada, um casal de velhos está a podar as oliveiras. Lembro-me de os ter visto a apanhar a azeitona. Agora podam as oliveiras. Ouço a velha Vê lá se me cortas o dedo, Velho! Sorrio.
Abro os braços. Deixo o corpo espreguiçar-se. Todo eu tremo. É bom sentir o corpo a espreguiçar-se. Pareço crescer.
O sol está quente. Gosto do sol quente no Inverno. Não gosto do Inverno.
Quero regressar ao Verão.
Quero chegar ao Verão. Mergulhar no mar. No mar da Nazaré. Rever o nevoeiro matinal de São Pedro de Moel. Comer um arroz de marisco no Coelho, na Vieira. Umas navalheiras no Tonico, em Paredes de Vitória. Beber umas imperiais no Casino, no Pedrogão. A ver o Atlântico. Sempre a ver o Atlântico.
O gato veio ter comigo à estrada de terra batida. Roça-se na minha perna. Sobe a uma oliveira. Olha para o casal de velhos. Depois vira-se para mim e mia. Quer leite.
Subo a ladeira. Gosto de sentir o sol a bater-me nas costas. Na cabeça. Sinto-me retemperado.
Entro em casa. Regressa o frio. A casa é fria, já tinha dito. Tremo. Visto um casaco. Um casaco de lã. Abro o frigorífico. Agarro o pacote de leite e vou ao alpendre despejar um pouco num pires para o gato.
Largo o pacote de leite no murete do alpendre. Desço as escadas. Volto ao sol. É aqui que estou bem. É aqui que sinto. Que me sinto. Foto-sinto-me.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos. Fumo o cigarro, debaixo do sol, de olhos fechados. A vida às vezes é simples. Bem simples.
Hoje joga o Benfica.
Que me interessa o estado do mundo quando posso estar assim.

Um dia visitei as cataratas de Iguazú. Confluem lá três países. Argentina. Brasil. Paraguai. Eu estava no lado argentino. E via os outros dois lados. Mas o que vi realmente foi o poder de toda aquela água a cair. A fúria. O voo. O som. O princípio e o fim. O princípio e o fim de tudo. Vi a água levar-me. Lavar-me. Abençoar-me. E achei que podia morrer. Depois de ver Iguazú, podia morrer. Feliz.

Abro os braços. Capto o sol. Recebo todo o calor que consigo. Guardo todo o conforto que me dá.
E, depois disto, posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/11]

Estarei num Sonho?

Maldoror is dead / Little brick / Buried in the earth / Maldoror is gone / Was I a man? / Was I a stone? …”

Descubro-me a cruzar o pequeno jardim Camões no centro histórico de Leiria. Estarei num sonho?
A cidade está a preto e branco. As árvores são em cinquenta tons de cinza. O céu está num branco sujo. Estarei a sonhar?
Ouvi dizer que os sonhos são a preto e branco. Estarei a sonhar?
Sento-me num banco do jardim. Num banco de ripas de madeira a meio do pequeno jardim do centro histórico. Acendo um cigarro. Olho o castelo à minha frente, lá no alto do monte. À direita do castelo, na torre altaneira, as Cibeles, mais para baixo, a Torre Eiffel, logo a seguir o menino a mijar e umas putas de mamas expostas a espreitarem atrás de umas montras na avenida mais concorrida de Leiria.
Fumo o cigarro. Pergunto-me se terão droga. Estarei a sonhar?
Aproxima-se de mim uma bela fräulein que me estende uma bratwurst bem cheirosa. Estendo as mãos para a agarrar – estou com fome! –, mas o que agarro são uns fish’n’ships que uma miss sorridente, a quem falta um dente da frente, acaba por me oferecer.
Enquanto mastigo umas chips, vejo ao fundo, no fim da alameda do jardim, o Coliseu, onde uma turba de gente eufórica festeja um golo de CR7.
Foda-se! Onde é que estou? Estarei a sonhar?
Ao lado vejo a Julie Andrews a dançar no meio das vacas e o Capitão Von Trapp a entoar “Raindrops on roses and whiskers on kittens / Bright copper kettles and warm woolen mittens / Brown paper packages tied up with strings / These are a few of my favorite things”.
Uma das vacas é roxa e vem trazer-me uma tablete Milka. Mas o sonho não era a preto e branco? Era! É! Mas a vaca tem manchas roxas!
Atrás da vaca vejo passar o Eça de Queiroz na conversa com o Afonso Lopes Vieira, o Miguel Torga e o Rodrigues Lobo. Mais ao lado, afastado deles, segue o António Campos. Sozinho. Acho que vão à Praça beber umas imperiais e comer uns hambúrgueres. Ouvi dizer que eram bons. Tento levantar-me e ir ter com eles, mas acabo por ficar sentado. Alguém me traz um copo de vinho das Cortes. Um néctar de Deuses. O que os sonhos nos fazem!, penso. E sorrio. Estou mesmo a sonhar.
Acabo o cigarro ao mesmo tempo que termino com o fish quando volto a olhar para o castelo e vejo lá alguém debruçado sobre as ameias. Parece o David Tibet, mas devo estar a sonhar, mesmo. Que raio é que ele estaria aqui a fazer? Neste pequena, pobre e triste cidadezinha de província? Sem nada de interessante para ninguém? A não ser a morte?

“… / The black angel weeps / The waters part / Maldoror / Maldoror / Maldoror / All fall down / Dead.”

Espero acordar na minha cama. Espero acordar sozinho. E que ainda tenha cigarros. E vinho tinto. Umas azeitonas também não era mau. E um bocado de pão do Soutocico. Sim, não era mau. E tenho de ir cortar o cabelo. Sim, tenho de ir cortar o cabelo.
Acorda. Acorda, pá. Acorda, vá lá. E vê a vida a cores.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/23]

Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]