No Dia da Morte de Agustina

No dia da morte de Agustina e da sua passagem ao panteão da imortalidade, onde se firmam os pequenos deuses da história do Homem, penso na minha própria imortalidade.
Mas a minha não é figurada. Eu não sou construtor de vidas. De obras. Eu não deixo legado. Não preciso.
Eu sou mesmo imortal. Num certo sentido, sou Deus.
Sou eu que concebo o mundo e todas as coisas que ele contém. Todas as coisas que existem acima do céu. Todas as coisas que existem abaixo da terra no cemitério e abaixo do fundo do mar. Todas as coisas tão longínquas que não consigo ver nem imaginar que lá estão. Mesmo as coisas que não percebo. Mesmo as coisas de que ignoro a existência. Tudo isso faz parte do meu processo criador. Tudo isso faz parte da parte criada por mim.
No dia da minha morte, se por ventura a minha morte, a morte de um imortal, fosse possível, o mundo deixaria de existir. Deixaria de existir num piscar de olhos. Se eu largasse o último suspiro o mundo extinguir-se-ia, não como com uma explosão, abalo ou agitação em jeito de apocalipse, mas como o sinal de televisão a morrer no cinescópio, reduzido a um ponto branco que diminui de tamanho até ao micro-qualquer-coisa e, por fim, deixar de ser. E ser nada. Sem dramas. Nem dor. Inexistir.
Penso nisso enquanto movimento o aspirador aqui por casa.
Lembrei-me que já tinha o aspirador arranjado. E lembrei-me que há já algum tempo que não aspirava a casa. Já via acumular-se o cotão pelos cantos não habitados da casa. Vi começar a aparecer algum verdete. Algum bolor. A casa é húmida. E eu não tenho muita paciência para tratar dela.
Peguei no aspirador e comecei a aspirar a casa. Comecei pelo quarto. Percebi que estou a perder cabelo. Não que me sinta careca. Mas percebi que anda a cair. A cair nas almofadas que me amparam o sono. A cair pelo chão do quarto. Na casa-de-banho reparei no mesmo. Mas também havia uns pêlos mais curtos. Presumo que da barba que aparo de vez em quando. Os pêlos haviam de ter de ir para algum lado. Vão para o chão, afinal. E eu tendo a não os ver. Mas vi agora. Agora que estou a aspirar a casa e vejo o soalho a mudar de cor, a ganhar brilho, outra luminosidade. Os tapetes a recuperarem os motivos originais.
Parece que tenho uma casa nova. Uma casa digna de um imortal.
Preciso de mudar as lentes dos óculos de ver.
A Agustina viveu uma vida cheia. Cheia e comprida. A minha vai ser ainda mais comprida. Tão comprida quanto eu quiser. Vou manter este mundo enquanto tiver paciência para o aturar.
Na sala descubro que ando a deixar cair cinza. Cinza dos cigarros. Isso desperta-me a vontade de fumar um. Desligo o aspirador. Acendo um cigarro. Vou até à janela. Abro-a. Debruço-me sobre a rua. E penso se tenho vontade de estender a minha imortalidade para além da Agustina. Para além de Matusalém. Penso se não começo já a ficar cansado deste rame-rame que se repete sempre da mesma maneira todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, todas as vezes nas minhas vidas numa só.
Às vezes estou cansado. Às vezes estou tão cansado de conceber um mundo tão imperfeito que me apetece terminá-lo. Deixo cair um bocado de cinza no chão da sala. E penso que a minha vida é uma sucessão de repetições. E penso que começo já a sentir-me farto.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/03]

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A Minha Vida Corre Toda Igual

Estou preso num loop. Queria saltar fora. Não consigo.
Repito-me à exaustão. Tudo de novo. Sempre o mesmo. O mesmo todas as vezes. As vezes que refaço tudo de novo.
É fim de tarde. Saio de casa. Vou ao café da aldeia beber um favaios. Como ontem. Como amanhã.
Saio de casa três vezes por dia. De manhã e depois de almoço para ir beber um café. Expresso. De máquina a sério. Não aquela coisa Nespresso caseira que imita o café a brincar. Ao final do dia, como agora, para beber um favaios antes de jantar. Antes de jantar e para sair um pouco de casa. Respirar um pouco de ar da rua. Ouvir barulho. Ver gente a passar, nem que seja à distância
Passei o dia a pintar bonecos de chumbo. São bonecos para os jogos de matraquilhos. Mandam-se bonecos para eu pintar de vermelho e branco. Só pinto bonecos do Benfica. Suponho que haverá quem pinte outros de outras cores de outras equipas. Eu, só pinto jogadores do Benfica. Foi assim ontem. Será assim amanhã. Será assim enquanto houver jogos de matraquilhos para vender e forem necessários bonecos pintados com as cores das equipas nacionais.
Tudo se repete. Sei de cor tudo o que se passa. Tudo o que se irá passar.
Subo a estrada que leva ao café. A esta hora não haverá lá muita gente. Alguma para eu poder olhar. Mas não tanta assim que me faça não querer lá ir. Irei pedir um favaios fresco. A senhora do café há-de-dizer Não tenho fresco, quer uma pedra de gelo? e eu irei dizer Não! Mas não faz mal, bebo mesmo assim. E irei beber o favaios ao balcão. Irei bebê-lo de um trago. Irei largar o copo vazio no balcão. E umas moedas. Irei sair do café e sentar-me no muro ao lado e irei acender um cigarro. Irá passar um velhote que me irá dar as boas-noites, embora ainda seja de dia. Eu irei responder. Irei fumar o cigarro. Deitar a beata fora. Irei ver duas ou três pessoas a passar ao longe. Geralmente são as mesmas. Depois irei regressar a casa. Começarei a sentir a aragem fresca do fim do dia. A luz irá começar a cair. E, quando vier a descer a estrada para casa, irei pensar nesta vida cheia de vazios que se repetem, uns atrás dos outros. Irei pensar que já nada me surpreende. Que tudo é igual. Que tenho vontade de saltar fora em andamento, em alguns momentos, mas acabo por me retrair e fazer sempre os mesmos caminhos, da mesma maneira, dia-após-dia, semana-após-semana, a tentar perceber quando e como é que tudo isto irá acabar. E depois irei pensar, de uma forma séria, e dizer alto para entender melhor E se eu for imortal? e irei o resto do caminho a pensar que, se calhar, lá no fundo, lá bem no fundo, eu sou uma peça tão importante nesta engrenagem que será impossível morrer. Sou eu quem concebe o mundo e, no dia em que deixar de o conceber, deixará de haver mundo. Ainda irei galvanizar por uns minutos até perceber que, afinal, sou um gajo como os outros, talvez até menos que os outros por pensar estas merdas e que a minha vida não tem nada de especial, eu não sou nada de especial e as repetições dos meus dias é tudo o que consigo fazer. Faço as coisas todas iguais para não me esquecer. Para não fazer merda. Para não descarrilar. E irei deprimir durante um bocado.
Agora chego ao café. Dirijo-me ao balcão e peço Um favaios fresco, se faz favor. E a senhora olha para mim e diz Não tenho fresco, quer uma pedra de gelo?, e eu olho para ela e digo Não! Não faz mal, bebo mesmo assim. E bebo o favaios de um trago.
Saio do café. Sento-me no muro. Acendo um cigarro. Ao fundo vejo um velhote, de bengala, que se aproxima.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/30]

Do que Me Lembro à Distância

Isto aconteceu há muitos, muitos anos, numa outra vida, era eu uma criança, livre e solta, ainda não conspurcada pelo ensino e as obrigações da escola.
Vivíamos, eu e os meus pais, nos arredores da cidade. Zona de campo, pomar, hortas e pinhal. De árvores de fruto a couves e resina, de tudo um pouco havia para sujar a roupa e levar a minha mãe ao desespero. Sim, vivia na rua. Não vivia propriamente na rua, tinha casa e televisão, e o meu pai até tinha carro (que era, aliás, um automóvel), mas passava o tempo todo na rua, a brincar, a conhecer amigos, a fazer asneira, a crescer.
Lembro que uma das minhas brincadeiras preferidas, e isso já um pouco mais tarde, porque já tinha ficado quadrado pela escola – sabia ler e escrever -, era assentar, numa agenda roubada ao meu pai, as matrículas dos carros que passavam em frente a casa. Foi a minha primeira colecção. Com muitas matrículas repetidas e que utilizava para troca com os meus vizinhos.
Mas ainda mais atrás, antes de ir para a escola, andava eu, um dia, atrás de uns patos que se passeavam lá pela zona soltos a grasnar quando, de repente, perco o chão e tombo num tanque que por lá havia, sem protecção (os tempos eram outros), e onde os patos costumavam nadar.
Era Inverno, eu estava cheio de roupa pesada, camisola interior de algodão, camisola de gola alta, camisola de lã, cuecas, ceroulas, calças de fazenda, dois pares de meias e botas grossas, tudo encimado por um casaco grosso e quente. Pesado, portanto. E não sabia nadar. Nunca tinha nadado. Mas recordava-me da televisão. Recordava-me de imagens de gente na água. De gente a mexer os braços à frente do corpo e a bater os pés para se mover dentro de água.
De olhos bem fechados, não fosse a água cegar-me (ainda hoje não consigo abrir os olhos dentro de água), comecei a mexer os braços à minha frente e a bater os pés, pesados, na água. Lembro-me de tocar em coisas estranhas na minha fuga, folhas, plásticos, lixo e outras coisas não identificáveis. Passou o tempo. Não sei precisar quanto. Mas muito. O tempo de uma vida, do que me lembro à distância.
Quando dei por mim estava a bater com as mão na parede do outro lado do tanque. Consegui agarrar-me e subir para o pequeno muro. Sobrevivi. E nessa altura percebi que era imortal – ainda hoje acho que o sou.
Encharcado, a tremer de frio e de medo, dirigi-me para casa. Ia com receio do que a minha mãe me pudesse fazer. Imortal, mas com respeito aos pais. Não lhe podia contar a verdade. E se eu lhe dissesse que tinha chovido muito?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/28]