O Chão Parecia Querer Fugir de Mim

Desde de manhã que se ouvem os morteiros. Desde há seis dias que sou acordado, de manhã, pelos morteiros. Há uma semana que anda tudo em festa. A aldeia engalanou-se para a festa do Santo e bem-receber os seus filhos emigrados de retorno. Eu sou acordado, todos os dias, com os morteiros.
Hoje havia uma missa campal. Numa pequena capela que a aldeia construiu fora de portas, ao lado de um riacho que, no Verão, serve de praia fluvial aos mais encalorados.
Desde manhã que ouvia a passagem de carros e motas e vozes de gente a pé, lá em baixo, ao pé do portão. Iam preparar a missa. Depois da missa, havia sempre uma pequena festa com comes e bebes que os paroquianos levavam e dividiam por toda a gente. Mas havia gente que ia para lá só para encher o bandulho e não levava nada. Não que eu soubesse quem era. Eu nem conheço ninguém! Mas contaram-me. Contaram-me ao balcão do café para onde eu fui para ver a festa mais de perto.
Farto de acordar cedo com os morteiros, e de andar a rebolar na cama, hoje levantei-me e fui até ao café da aldeia. Encostei-me ao balcão e deixei-me estar. Comecei por pagar umas ginginhas a uns tipos que já lá estavam e, depois, eu também passei a ser um daqueles a quem se paga um copo, seja lá do que for, porque já lá estava.
Fui para lá ainda não eram nove da manhã. Fui embora quase eram quase duas da tarde. E eu sem almoçar. Ainda não tinha comido nada. Mas tinha bebido bem. A missa devia estar a acabar. Depois iam todos piquenicar. Toda a aldeia. Toda a aldeia, menos os que estavam lá, no café, comigo e, tal como eu, encostados ao balcão e sem se conseguirem levantar.
Eu mudei de bebida. Passei para o Martini Rosso com cerveja. Uma casca de limão e é imbatível.
Um pouco depois apareceu lá uma velha para buscar o marido e levou-o puxado por uma orelha. Eu não tinha ninguém que me fosse buscar. Eu não passo vergonhas.
A mulher do dono do café esteve a guisar um pouco de bochechas de porco para levar para o piquenique e o marido colocou uns pires no balcão. Para nós. Mais uns bocados de pão saloio, cortado às tiras grossas. Eu peguei num palito e fui picando e comendo todos os bocados de carne que fui encontrando. Descobri que estava com fome. Uma fome dos diabos. Rasguei pedaços de pão e embebi-os no molho. Uma delícia.
Passei para a imperial. Sem mais nada. Só cerveja, mesmo. Estava com sede. E foi de um golo.
Estava calor. Estava com calor.
Fui até à entrada do café. Tirei a camisola. Abri o primeiro botão das calças. Libertei a barriga. A aldeia estava deserta. Devia estar tudo no piquenique.
Decidi ir para casa. Comecei a andar, mas parecia difícil. O chão estava torto. E parecia querer fugir de baixo de mim. Senti uma mão no ombro. Virei-me. Era o dono do café. Aparentemente, esquecera-me de pagar. Tirei uma nota que tinha no bolso dos calções. Dei-lha para a mão. Acho que a nota caiu ao chão. Mas fui embora e ninguém foi atrás de mim.
Passei o largo da igreja. Desci a rua que sai da aldeia até à rotunda. Penso que ia muito depressa. Porque tudo estava a passar muito rápido por mim e eu não conseguia focar nada. Mas, ao mesmo tempo, parecia-me que estava a demorar muito tempo a chegar a casa.
Cheguei à rotunda. Tentei acender um cigarro. O cigarro caiu ao chão. Tentei acender outro. Voltou a cair. Deixei de lado a vontade e continuei estrada fora até casa. Encontrei o portão. Abri-o e entrei.
Senti-me mal disposto. A cabeça às voltas. Vómitos. O estômago a refilar comigo. Peidei-me.
Caí na alameda. Vomitei. Adormeci.

Acordo com vozes. Vozes em conversas várias. Vozes em gritos de brincadeira. Motores. O barulho vem de baixo. Do outro lado do portão. Estou caído na alameda. A cabeça no chão de terra batida. A boca aberta a aspirar pó e o que me parece uma formiga passeia-se pelos meus lábios. Ergo-me. Dói-me a cabeça. As ancas. Magoei-me. Deve ter sido da queda. Tenho a cara presa. É vomitado seco.
Agarro um cigarro. Acendo-o. Agora consigo acendê-lo. Levanto-me. Sacudo os calções. Vejo que tenho sangue nos joelhos. Agarro a camisola do chão. Também tenho o corpo com vomitado.
Olho para o portão. Imagino as pessoas do outro lado a virem em grupo, alegres e contentes, em grupo, da missa e do piquenique. Provavelmente alguns mandaram-se ao ribeiro e tomaram banho. Num ribeiro benzido por Deus.
Eu viro as costas ao portão e começo a subir a alameda. O cigarro aceso ao canto da boca. Mas o fumo começa a incomodar-me os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/19]

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Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Fome

Sobrevivo com o pouco que consigo roubar a esta gente já de si com tão pouco.
Hoje tiro um pão desta saca. Ontem tirei daquela ali atrás. Amanhã, vou tirar da saca daquela porta ali à frente. Aqui ainda se deixa uma saca de pano pendurada na porta para o padeiro encher na sua passagem madrugadora.
Ontem foram umas batatas nuns terrenos lá em baixo. Hoje já foram umas espigas de milho, aqui ao lado. Amanhã vão ser umas batatas doces que já vi lá mais em cima, para os lados do cemitério. Vou repartindo as minhas dores pelas dores alheias. No fim acabo por fazer um belo cabaz. Eles não dão por nada. E eu ainda acabo por ajudar quem ainda tem menos do que eles. Menos do que eu. E bem menos capacidade para roubar.
Sim, roubar é feio. Aprendi na catequese. Na escola. Em casa. Mas às vezes, é o que nos resta depois de nos roubarem, a nós, todo o pouco que temos.
E custa. Custa fazê-lo. Mas às vezes é isso ou a morte. E deixarmos-nos morrer, também é pecado.
Às vezes vou à caixa das esmolas da igreja. Especialmente nestas alturas. Nestas épocas de grande santidade. Como a Páscoa, agora. No treze de Maio. No Natal. Há sempre muitas contribuições. E eu só lá vou buscar alguma, pouca, ajuda financeira.
Custa-me ir à caixa das esmolas da igreja. Tenho sempre a sensação de Deus está a ver-me. Mas depois penso que se está a ver-me, sabe da minha condição. Sabe da minha necessidade. E sabe que também vou ajudar quem precisa. Quem precisa e não consegue estender a mão. Não consegue estender a mão para pedir ajuda nem para a enfiar na caixa da esmolas.
Normalmente levo as notas maiores. São as que foram dadas pelos abastados aqui da zona. Não farão falta a ninguém. Não estou a roubar de ninguém desesperado. E vou dar bom uso ao que levo. No fundo não acumulo nada. Não acumulo riqueza. Desfaço tudo no estômago. No meu e dos outros como eu. Quando morrer fica cá tudo. Não levo nada. Talvez o estômago aconchegado.
Às vezes vou à biblioteca. Trago alguns livros. Mas esses devolvo-os. Não os quero aqui para nada. Leio-os e devolvo-os para outras leituras. Outros olhos. Outras fomes.
Esta semana gostaria de deitar a mão a um folar. Mas isso é bem mais difícil. Estão debaixo dos olhares. Não quero arranjar problemas. Já me bastam os que me bastam.
É Segunda-feira Santa. É dia dos arrependimentos. Também tenho os meus. Mas não são os que pensam.
Há um cordeiro lá em baixo. No pasto. Acho que não vou arrepender-me de o ir buscar. Vai matar a fome a muita gente. E de onde vem este, há muitos outros. Eles às vezes perdem-se. O campo é grande. Do tamanho da minha fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/15]

No Domingo de Ramos

Entrámos na semana da Páscoa. A Semana Santa. Hoje celebra-se a chegada de Cristo a Jerusalém. Hoje também joga o Benfica. Hoje também é o último dia do fim-de-semana. Amanhã, há regressos ao trabalho. Os miúdos ficam por casa. Não há escola. São as férias. Uma dor de cabeça para alguns pais. E para mim. Eu já não posso ir ao café. Há muita confusão. Muita miudagem. Demasiada brincadeira de miudagem à solta, para mim.
Sento-me no sofá com vontade de pensar em tudo isto. Depois lembro-me das notícias que, cada vez mais, declaram que isto, isto tudo, esta vida que vivemos, estas vidas que vemos viver, não passam de simulações.
Sento-me no sofá mas já não penso em nada. Olho para a televisão. Apanho, em directo, o Nuno Rogeiro a comentar a semana política. Arranco no zapping. Cada vez mais rápido. Estou a ficar bom nisto. Nisto de carregar com o dedo no botão a grande velocidade e ainda conseguir ver, pelo menos, um frame de cada canal. Por vezes ainda consigo ouvir uma sílaba. Um esgar. Uma onomatopeia.
Mando o comando contra a parede. Vejo-o estilhaçar-se. Ouço-o quebrar-se em milhares de pequenas peças.
A televisão fica ligada num canal qualquer. Nem sei o que é. Nem percebo o que vejo.
Levanto-me. Vou até à janela da cozinha. Penso Podia estar a chover. Mas não está. Não está a chover. Os gatos estão a dormir sobre o pequeno muro do alpendre. O cão anda lá em baixo. Levanta a perna em todas as árvores. Como é que tem mijo para tanta árvore?
Olho em volta. Vejo o maço de cigarros na mesa da cozinha. Acendo um cigarro. Saio para o alpendre. Ouço o som da televisão lá ao fundo na sala, enquanto saio. Os gatos abrem os olhos. Olham para mim. Mas ignoram-me.
Ainda não comi nenhuma fatia de folar. Nem um ovo de chocolate. Não gosto de chocolate. Devo ser a única pessoa no mundo que não gosta de chocolate. Mas gosto do folar. Sem ovo. Nunca percebi para que serve aquele ovo.
O sino na igreja começou a bater. Está a chamar para a missa. Será que vai muita gente? Se calhar, nesta altura, vai lá muita gente. É preciso reforçar os pedidos de ajuda ao altíssimo.
O cão viu-me. Corre na minha direcção. Salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Depois volta lá para baixo. Mais uma mija. Raios o partam.
Os gatos levantam a cabeça mas regressam ao sono.
Acabo o cigarro. Vou para mandar a beata ao chão e penso que depois sou eu que tenho de a apanhar. É melhor levá-la já para dentro de casa e colocá-la num cinzeiro.
Volto para dentro de casa. Penso Hoje é Domingo de Ramos. Entrámos na Semana Santa. Mas não sei o que quero dizer com isto.
Lembro-me que quebrei o comando da televisão. Penso Amanhã tenho de comprar um comando universal.
Apetecia-me beber uma aguardente, mas lembro-me que já acabou e ainda não comprei outra garrafa.
Volto para a sala. Quero sentar-me no sofá a olhar para a televisão e vou na esperança que o Nuno Rogeiro já tenha ido embora. Depois volto a lembrar-me que já não tenho comando. Vou olhar para o que estiver a dar. Ou então tenho que me levantar cada vez que queira mudar de canal. Decido que olho para um canal qualquer. Tenho a secreta esperança de conseguir adormecer no sofá, embalado por um qualquer canal televisivo que me consiga levar. Os Domingos de Ramos são bons para dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/14]

O Regresso à Cidade

Era hoje. Era hoje o dia. Estava nervoso. Já vinha nervoso desde ontem à noite. Fui várias vezes à casa-de-banho. À noite. Durante a madrugada. Mal dormi. Passei metade do tempo a levantar-me. A ir à casa-de-banho. Passava pela cozinha. Bebia um copo de água. Regressava à cama. Virava. Revirava. Completamente desperto. Acendia a luz do candeeiro. Ligava o iPad. Lia as gordas dos jornais online, mas era tudo igual. Não havia notícias novas. Ou os jornalistas estavam a dormir.
De manhã levantei-me. Não despertei porque não cheguei a adormecer. Levantei-me e arrastei-me para debaixo do duche onde fiquei a vegetar por longos minutos. A absorver a água quente que me caía em cima e deslizava por mim abaixo. Acabei por acordar em sobressalto com a água fria. Acabou o gás. A botija tinha ficado sem gás. Eu tinha adormecido. Finalmente. Tinha adormecido debaixo do duche quente. Despertei com a água fria. Saí do duche. Sequei-me. Olhei-me ao espelho. Vi as enormes olheiras. Pesei-me. Pensei Tenho de emagrecer. Olhei para a rua através da janela da casa-de-banho e disse Estou nervoso.
Vesti-me no quarto. Uma roupa sóbria. Menos eu. Mais outro eu. Pedi uma certa elegância. Tentei-a. Talvez a tenha conseguido. Olhei-me ao espelho. Não desgostei do que vi. Não sei se é bom sinal. Mas enfim. Não me sentia mal. Estava nervoso. Mas ao mesmo tempo, decidido. E até, de certo modo, confortável.
Vestido e calçado fui sentar-me no sofá. Sentei-me direito, para não engelhar a roupa. Para não fazer dobras.
Fumei um cigarro.
Abri a janela para arejar a sala. Para o fumo sair. Para eu não ficar impregnado naquele cheiro enjoativo do tabaco frio.
Não almocei. Estava demasiado nervoso para almoçar.
Também não lanchei. Não conseguia ingerir nada. Tinha o estômago às voltas. Nervos.
Continuei a fumar. O fumo do tabaco a invadir-me os pulmões, acalmava-me.
Foi ao final da tarde que me levantei do sofá. Já me doía o rabo. Tinha as pernas presas. Saí de casa e dei umas voltas a pé pela estrada. Fui até ao largo da igreja e regressei a casa. Em passo rápido. Para desentorpecer as pernas. Depois entrei no carro. E arranquei.
Finalmente estou na Praça. Na Praça da minha cidade. Na cidade onde não ia há muito tempo. Tanto tempo que já nem sei há quanto.
Vejo gente conhecida. Vejo que, alguns, falam de mim. Falam baixo. Mas eu ouço. Percebo. Eles cochicham. Eu apanho.
Estou nervoso. Olho para mim. Fecho os olhos e olho para mim. E digo-me Estás bem. Estás muito bem, assim. E na verdade estou. Estou nervoso, mas sinto-me bem.
Estou na esplanada da Praça. Bebo uma imperial. Trinco uns tremoços. Está tudo igual. Está tudo na mesma. Reconheço as pessoas. E elas reconhecem-me. Algumas fazem-me um gesto de reconhecimento. De cumprimento. Retribuo. Com um ligeiro aceno de cabeça. Com um movimento insonoro dos lábios.
Aguardo por quem me convocou. Aguardo na esplanada da Praça. Estou nervoso pelo regresso a uma cidade que já foi a minha cidade. Estou nervoso, mas estou tranquilo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/20]

A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]