O Dia Seguinte

Cada vez se torna mais difícil sobreviver ao dia seguinte.
O dia em que o mundo quer morrer.
O dia da ressaca.
O dia que passo debruçado na retrete a deitar fora o que o fígado já não quer tratar.
Cada vez se torna mais insuportável descobrir-me velho, velho e fraco. São os cabelos que acordam comigo na almofada, a minha única companheira de cama. São as peles que respondem à gravidade e tombam por mim abaixo. São os papos nos olhos. Os dentes que caem. Os pêlos que crescem nas narinas. As unhas que encravam. Os lábios finos, ridículos. As manchas no corpo. O cheiro, o cheiro a velho, o cheiro a velho e a morte.
Ontem dancei até de madrugada. Beijei perfumes. Bebi vinho tinto alentejano. Shots de vodca. Linhas de velocidade.
Ainda sei o que era um B52.
Um broche.
Uma chinesa.
E hoje?
Hoje é o dia seguinte.
O dia em que juro e prometo.
O dia em que me vendo em troca de um pouco de juventude.
Já não vou à igreja.
Nem a casa dos pais.
Já não frequento os amigos.
E perdi a família.
O que me resta é o resto. O que fica.
O que ninguém quis. Ninguém quer.
Ontem dancei até de madrugada com os fones nos ouvidos. Ninguém quer mais ouvir Cabaret Voltaire e Ultravox.
Ontem dancei até de madrugada e depois fui comer pão quente com manteiga Milhafre.
Bebi um chocolate quente.
Depois entrei no carrossel de Maio de onde ainda não saí.
E já não tenho mais nada para deitar fora.
Só se me deitar a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/27]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

A Minha Madalena

Cada um tem as suas madalenas. As minhas chegaram em forma de mensagem. Uma mensagem. Uma mensagem foi quanto bastou. A mensagem tornada máquina do tempo. E lá estava eu. Vinte anos mais novo. Alguns quilos a menos. Ou seriam a mais? E um sorriso idiota plantado na cara.
Vi-a surgir do nada. Como num gesto de prestidigitação. Primeiro o vazio, depois tudo. Como uma bomba nuclear a prometer um big bang. O início de tudo. O princípio do infinito. O nascimento da razão. E fez-se vida. Plim.
E, afinal, nada mais era que uma banalidade. A vida é uma banalidade. Encontra-se em qualquer esquina, dentro de uma loja dos CTT, numa igreja em hora de missa, ao balcão de uma pastelaria a destruir uma bola de berlim cheia de creme e de pequenas pedrinhas de açúcar que tombam sobre o prato, o guardanapo, a barba. A vida é, aqui na Terra, uma banalidade. E, no entanto, tão extraordinária era ela para me deixar assim, de sorriso parvo na cara a olhar para uma banalidade que era minha. Minha.
A banalidade depois foi à sua vida. Claro que sim. Que as vidas são únicas e autónomas. Ganham uma dimensão que são só delas. Mas há momentos que são só nossos. A banalidade ainda não era autónoma. E aquele momento, aquele momento ali, aquele momento preciso é só meu. Aquele momento em que o vazio se encheu de vida e eu vi o nascimento, vi o truque de prestidigitação feito à minha frente, o nada tornado tudo, aquele momento é só meu porque o vi, porque o vivi. Porque existiu só para mim.
E é por isso que vinte anos depois, a minha madalena abre as portas da memória e me faz recordar quando o mundo prometia mundos e eu era o mais feliz dos homens.
Nada mais importa, lembro-me de ter pensado naquele exacto momento. Nada mais importa. Depois de ter olhado e me ter apaixonado pensei que, naquele momento, depois de ter visto o meu big bang, podia morrer. Morrer feliz e cheio. Porque nada mais importava. E é verdade ainda hoje. Nada mais importa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/28]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descobri hoje num jornal online que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]

Para um Diário da Quarentena (Primeiro Andamento)

No segundo dia de quarentena e não noto diferença no ritmo da minha vida. Continuo fechado em casa, com vários passeios pelo quintal a olhar as montanhas ao fundo, a beber copos de vinho tinto e a fumar cigarros no alpendre. Nada que já não faça nos outros dias da minha vida desde que resolvi virar costas à cidade que me estava a tratar mal.
Normalmente dou uns passeios pela aldeia. Bebo um café e um bagaço no café central, ao lado da igreja, e abasteço-me de pequenos produtos alimentares, frescos e pão, na mercearia. Ontem e hoje não saí daqui. Amanhã talvez vá comprar pão fresco. Se a mercearia estiver aberta.
Hoje o dia começou com sol. Não estava frio mas estava vento. Fumei um cigarro no alpendre, em pé, com um dos gatos a roçar-se nas pernas despidas. Depois voltei para casa e por cá tenho ficado.
Devia ir levar comida ao cão e aos gatos, mas estou com preguiça. Hoje não comem ração. Talvez cacem um rato ou um coelho. Os gatos costumam caçar coelhos e partilham-nos com o cão. Dão-se bem e não estão muito dependentes de mim. Mas eu prefiro dar-lhes ração para não andarem para ai restos de animais mortos e bolas de pêlos a voar. Sou alérgico aos pêlos dos animais.
Hoje não tomei banho. Já não lavo o cabelo há três dias. E está muito grande. Devia cortá-lo, mas não há-de ser agora. Não irei à cidade durante os próximos tempos.
Desde que me levantei que tenho andado nu cá por casa. A casa é quente e confortável. Tenho andado indeciso sobre o que fazer e ainda não vesti nada porque estou sempre a ponderar voltar para a cama e ir dormir.
Hoje não me apetece trabalhar. Comecei a ver uma série nova, The Outsider, e estava com vontade de terminar a temporada de uma vez mas, deu-me a fome e acabei por parar no terceiro episódio para ir grelhar um hambúrguer. Comi-o dentro de um pão da avó que torrei. Juntei-lhe uma fatia de queijo Limiano e um pouco de ketchup Heinz. Acompanhei com um resto de uma garrafa de vinho sobrevivente. Já tinha um pouco de pé. Ainda bem que o acabei. Amanhã tenho mesmo de ir à mercearia. Ou procurar alguém que tenha uns garrafões para vender.
Enquanto estava a comer o hambúrguer apanhei o Primeiro-Ministro na televisão a explicar as novas medidas de emergência. Não consegui concentrar-me no que ele disse. Sinto-me um pouco tonto. Tenho vertigens quando me falam de coisas que não quero ouvir. Mas acabo por perceber o geral da conversa. E percebi. Vou continuar fechado cá por casa. Nada a que não esteja habituado. Vou continuar a trabalhar em casa. O que já faço. Não vou a concentrações de pessoas. E não vou mesmo. Mesmo quando posso. Ou podia.
Passo na casa-de-banho para mijar. Lavo os dentes depois de ter comido o hambúrguer.
Páro no corredor. Sinto falta dos jogos de futebol. Tento perceber o que vou fazer. Tento perceber o que é que me apetece fazer. E percebo que não me apetece fazer nada. Acabo por rumar à cama. Deito-me. Tapo-me com o edredão por cima da cabeça.
Espero que os dias passem todos muito depressa, eu envelheça e mude de opinião. Às vezes gostava de voltar ao convívio das outras pessoas. Depois passa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/15]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]

O Chão Parecia Querer Fugir de Mim

Desde de manhã que se ouvem os morteiros. Desde há seis dias que sou acordado, de manhã, pelos morteiros. Há uma semana que anda tudo em festa. A aldeia engalanou-se para a festa do Santo e bem-receber os seus filhos emigrados de retorno. Eu sou acordado, todos os dias, com os morteiros.
Hoje havia uma missa campal. Numa pequena capela que a aldeia construiu fora de portas, ao lado de um riacho que, no Verão, serve de praia fluvial aos mais encalorados.
Desde manhã que ouvia a passagem de carros e motas e vozes de gente a pé, lá em baixo, ao pé do portão. Iam preparar a missa. Depois da missa, havia sempre uma pequena festa com comes e bebes que os paroquianos levavam e dividiam por toda a gente. Mas havia gente que ia para lá só para encher o bandulho e não levava nada. Não que eu soubesse quem era. Eu nem conheço ninguém! Mas contaram-me. Contaram-me ao balcão do café para onde eu fui para ver a festa mais de perto.
Farto de acordar cedo com os morteiros, e de andar a rebolar na cama, hoje levantei-me e fui até ao café da aldeia. Encostei-me ao balcão e deixei-me estar. Comecei por pagar umas ginginhas a uns tipos que já lá estavam e, depois, eu também passei a ser um daqueles a quem se paga um copo, seja lá do que for, porque já lá estava.
Fui para lá ainda não eram nove da manhã. Vim embora quase eram quase duas da tarde. E eu sem almoçar. Ainda não tinha comido nada. Mas tinha bebido bem. A missa devia estar a acabar. Depois iam todos piquenicar. Toda a aldeia. Toda a aldeia, menos os que estavam lá, no café, comigo e, tal como eu, encostados ao balcão e sem se conseguirem levantar.
Eu mudei de bebida. Passei para o Martini Rosso com cerveja. Uma casca de limão e é imbatível.
Um pouco depois apareceu lá uma velha para ir buscar o marido e levou-o puxado por uma orelha. Eu não tinha ninguém que me fosse buscar. Eu não passo vergonhas.
A mulher do dono do café esteve a guisar um pouco de bochechas de porco para levar para o piquenique e o marido colocou uns pires no balcão. Para nós. Mais uns bocados de pão saloio, cortado às tiras grossas. Eu peguei num palito e fui picando e comendo todos os bocados de carne que fui encontrando. Descobri que estava com fome. Uma fome dos diabos. Rasguei pedaços de pão e embebi-os no molho. Uma delícia.
Passei para a imperial. Sem mais nada. Só cerveja, mesmo. Estava com sede. E foi de um golo.
Estava calor. Estava com calor.
Fui até à entrada do café. Tirei a camisola. Abri o primeiro botão das calças. Libertei a barriga. A aldeia estava deserta. Devia estar tudo no piquenique.
Decidi ir para casa. Comecei a andar, mas parecia difícil. O chão estava torto. E parecia querer fugir de baixo de mim. Senti uma mão no ombro. Virei-me. Era o dono do café. Aparentemente, esquecera-me de pagar. Tirei uma nota que tinha no bolso dos calções. Dei-lha para a mão. Acho que a nota caiu ao chão. Mas fui embora e ninguém foi atrás de mim.
Passei o largo da igreja. Desci a rua que sai da aldeia até à rotunda. Penso que ia muito depressa. Porque tudo estava a passar muito rápido por mim e eu não conseguia focar nada. Mas, ao mesmo tempo, parecia-me que estava a demorar muito tempo a chegar a casa.
Cheguei à rotunda. Tentei acender um cigarro. O cigarro caiu ao chão. Tentei acender outro. Voltou a cair. Deixei de lado a vontade e continuei estrada fora até casa. Encontrei o portão. Abri-o e entrei.
Senti-me mal disposto. A cabeça às voltas. Vómitos. O estômago a refilar comigo. Peidei-me.
Caí na alameda. Vomitei. Adormeci.

Acordo com vozes. Vozes em conversas várias. Vozes em gritos de brincadeira. Motores. O barulho vem de baixo. Do outro lado do portão. Estou caído na alameda. A cabeça no chão de terra batida. A boca aberta a aspirar pó e o que me parece uma formiga passeia-se pelos meus lábios. Ergo-me. Dói-me a cabeça. As ancas. Magoei-me. Deve ter sido da queda. Tenho a cara presa. É vomitado seco.
Agarro um cigarro. Acendo-o. Agora consigo acendê-lo. Levanto-me. Sacudo os calções. Vejo que tenho sangue nos joelhos. Agarro a camisola do chão. Também tenho o corpo com vomitado.
Olho para o portão. Imagino as pessoas do outro lado a virem em grupo, alegres e contentes, em grupo, da missa e do piquenique. Provavelmente alguns mandaram-se ao ribeiro e tomaram banho. Num ribeiro benzido por Deus.
Eu viro as costas ao portão e começo a subir a alameda. O cigarro aceso ao canto da boca. Mas o fumo começa a incomodar-me os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/19]

Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]