Tenho uma Amante

Tenho uma amante.
Tenho uma amante que conheci na zona dos frescos do InterMarché. Estávamos ambos desesperados com a falta de frescura dos legumes e saladas, já era tarde, já estava tudo muito escolhido e mexido, quando ela disse Esta Couve Lombarda está mais engelhada que a minha. E parou a olhar para mim depois de perceber o que tinha dito e dito alto. Levou a mão à boca a censurar-se. Tarde demais. Eu parei a olhar para ela a tentar perceber se o que ela tinha dito foi o que tinha querido dizer. Achei que sim. E deu-me uma tesão louca. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim na zona dos frescos do InterMarché.
Quando dei por mim estávamos no Motel Caribe, ali a caminho da Maceira. Entrámos de carro directamente para uma garagem. Subimos da garagem ao quarto. Nem tivemos tempo para mais nada. Rasgámos as roupas e fodemos logo ali, à entrada do quarto alcatifado, lembro-me de que o quarto era alcatifado porque ela queimou as costas e eu os joelhos.
Foi só depois de tratarmos do desejo que nos apresentámos.
O meu nome. O nome dela. Ela era casada. Mas estava a passar por uma crise. Não estamos sempre todos? Depois disse que devia de ter ido buscar os filhos ao ATL, mas que o desejo que eu demonstrara por ela tinha sido mais forte e cagara nos filhos.
Foi ali que decidimos que éramos amantes.
Encontrava-me duas ou três vezes por semana com ela. No Íbis. No Motel Caribe. Assim em hotéis baratos. Sempre para foder. Não tínhamos mais nada em comum além de uma grande tesão. Podia tê-la trazido para casa. Sou um solitário. Vivo sozinho. Mas achei que a relação que tinha com ela era uma relação de hotéis. Eu nunca lhe disse que vivia sozinho. A única coisa que lhe disse foi o meu nome. E podia ter mentido que ela não iria duvidar.
Na semana passada encontrei-me com ela no Hotel Villa Batalha. Ia fazer seis meses que nos conhecíamos, achei que podíamos ter um upgrade de hotel.
Nem jantámos. Eu cheguei primeiro. Tomei um banho e esperei por ela. Ela chegou e eu não esperei que ela tomasse banho. Só foi tomar banho depois.
Enquanto ela tomava banho, abri a janela da rua e ouvi uns acordes e alguém a cantar Ela é amiga da minha mulher // Pois é pois é // Mas vive dando em cima de mim // Enfim enfim // Ainda por cima é uma tremenda gata // Pra piorar a minha situação // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Não pego, eu pego // Não pego, eu pego // Não pego não…
Acendi um cigarro e fiquei ali a ouvir Seu Jorge que dava um concerto no campo da bola ali perto. A minha sorte, não? Seu Jorge em Agosto na Batalha. Seu Jorge no meu querido mês de Agosto.
E pensei Tenho uma amante. E sorri. Sorri da amante. Do Seu Jorge. De estar ali assim, num hotel com uma mulher casada. De me sentir ainda apto à vida. E ela chegou. E perguntou-me Porque é que ris? E eu encolhi os ombros e disse Por nada.
E ela começou. Foda-se, ela tinha de começar. Enquanto estávamos ali à janela a ouvir o Seu Jorge, eu a fumar um cigarro, nu, a apreciar o fresco da noite, o cheiro fresco que ela trazia do banho, começou a contar-me o dia que tinha tido. As chatices com o chefe. A estafa com os filhos. O desinteresse do marido. As amigas que passam férias em Varadero. A vontade que chegasse a noite para estar comigo. O stress para arranjar alguém que ficasse com os miúdos. A mentira que teve de construir para o marido, para poder estar ali assim, comigo.
E eu comecei a ouvi-la a distanciar-se de mim. A distanciar-se cada vez mais. A ir para longe. Tão longe que deixei de a ouvir. Era já só uma memória de uma foda no Motel Caribe.
Eu tinha uma amante. Mas começava a achar que não tinha paciência.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/26]

Isto Vai Durar Até Quando?

Saí de casa. Estou sempre a sair de casa. Vai-não-vai, aí vou eu. Saio de casa e fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas. Para se ouvir. Para se ouvir que saí de casa.
Faço uma pequena mochila com algumas coisas. Cuecas, meias, um livro. Coisas assim. Essenciais à vida de todos os dias. E penso Desta vez é que é! Como se fosse. Mas nunca é.
Pego na mochila. Saio de casa. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas e entro nas ruas da cidade. Nos dias de chuva é mais chato. Gosto mais dos dias de sol. Caminho pelas ruas luminosas enquanto penso no que fazer. Para onde vou? Casa de amigos? Pensão? Alojamento local?
Acabo quase sempre por optar pelo Ibis. Não é caro. É relativamente anónimo. Não está bem no centro da cidade embora não esteja longe. É um hotel discreto.
Mas é sempre uma tristeza.
Acabo deitado em cima da cama. Uma cama sem colchão. As camas do Ibis são de espuma. Deito-me e afundo-me. Cinco minuto depois estou cheio de dores nas costas. Mas aguento. Porra! aguento tanta coisa. Também aguento uma dor nas costas.
Acabo deitado em cima de uma cama de espuma num quarto do Ibis. Vestido. Calçado. O cinto a apertar a barriga. As sapatilhas a sujar a manta branca. O comando da televisão na mão a fazer zapping em canais que nunca vejo a não ser lá, de todas as vezes em que habito lá. Já tenho ficha no Ibis. Já me fazem desconto. Já me arranjaram dormida num dia treze de Maio de lotação esgotada com os peregrinos de Maria. Sou um bom cliente. Um cliente habitual.
Há vezes em que ainda nem decidi o que fazer, ou seja, ainda estou a adiar a solução Ibis, e já o telemóvel toca. Não atendo. Sei que é ela. Ouviu a porta a bater com estrondo. Primeiro fica furiosa. Depois arrepende-se. Em seguida liga-me. Eu não atendo. Volta a ficar furiosa. Manda umas mensagens a refilar comigo. A chamar-me nomes. És um merdas! Depois pára. Normalmente eu já estou no Ibis, deitado sobre a espuma da cama, de comando da televisão na mão a fazer zapping sem nenhum objectivo quando chega a primeira mensagem das desculpas.
Desculpa, diz. Desculpa desculpa desculpa, volta a dizer. Desculpa, não queria dizer o que disse, insiste. Depois chegam várias outras mensagens a explicar porque chegámos ali, aquele ponto. Àquele ponto específico. Aponta as culpas dela. Aponta as minhas culpas. Eu não respondo logo. E ela pergunta onde estou. Onde é que estás?, pergunta. E eu continuo sem responder. E ela avança logo Estás em casa de alguma amiga, não é? E eu rio-me. Um riso amarelo, é certo. Mas acho piada a que tudo se resuma a isso. Estás com alguma amiga, não é? Apetecia-me dizer-lhe que não. Não, não estou com nenhuma amiga, percebes? Estou sozinho. Sozinho no Ibis. Sozinho no Ibis a fazer zapping por canais de merda que nem sei do que falam. Mas não digo nada. Não telefono. Não mando mensagens. Não atendo nem respondo ao que me lança. Ainda estou muito zangado. Não saí de casa por sair. Saí porque me zanguei. Fiquei farto. Quis cortar a ligação. Ir embora. Disse-me Desta vez é que é. E não! Não é!
Passa um dia ou dois. Acabo por atender o telefone. Acabo a falar. A ouvir as desculpas dela. A pedir as minhas desculpas. A pensar que é uma idiota. Que sou um idiota. Que somos todos uns idiotas que só estamos bem onde não estamos. Que só queremos o que não temos.
Olho para o livro na espécie de mesa-de-cabeceira. Não consigo ler. Não tenho espírito para ler. Continuo no zapping. Acabo por ficar num qualquer canal alemão onde não entendo nada do que é dito.
E, depois, acabo por voltar para casa. Acabo sempre por voltar para casa.
A última vez que aconteceu foi hoje ao fim da tarde. Já nem sei porquê. Mais uma discussão parva. Voltei a sair de casa. Voltei a bater a porta com estrondo nas minhas costas. Voltei a caminhar pelas ruas da cidade, já a escurecer e com o frio a cair sobre mim. Voltei a decidir-me pelo Ibis. Voltei a não atender o telemóvel.
Estou deitado em cima da cama de espuma com as sapatilhas a sujar a manta branca. Tenho o comando na mão e faço zapping por canais que nunca vi. Já recebi várias mensagens dela. A última era a perguntar Qual das tuas amigas te cedeu cama? Qual delas te abriu as pernas? E eu estou zangado. Estou sozinho. Estou sozinho a precisar de calma. Não vou responder a estas mensagens. Amanhã vamos fazer as pazes. Daqui a dois dias estou de regresso a casa. E pergunto-me Isto vai durar até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/16]

Explodi

Fiquei cego de dor.
As mãos fecharam-se e as unhas cravaram-se na carne. A cabeça estava prestes a explodir, e antes que ela explodisse, explodi eu. Peguei no prato com um resto de bife grelhado, arroz branco frito e um ovo estrelado que estava na mesa à minha frente e mandei-o na direcção dela. Ela desviou a cabeça um pouco para o lado e o prato raspou-lhe na cara e foi estatelar-se na parede em frente, espalhando comida por toda a cozinha.
Ela calou-se. Finalmente calou-se e olhou-me admirada. Não esperava esta reacção. Não esperava nenhuma reacção. Ela berrava. Eu ouvia e calava. Ela refilava comigo, diminuía-me, insultava-me, e eu baixava o olhar para não alongar a discussão. Mas hoje ceguei. Ceguei de dor. E ripostei.
Levantei-me da mesa da cozinha e saí de casa batendo a porta da rua com força. Todo o prédio deve ter ouvido, mas não me importei. Os vizinhos que se fodessem. Estava cansado. Farto. E explodi.
Cheguei à rua e senti frio. Finalmente a porra do Outono resolveu chegar. E eu na rua, já de noite, de manga curta e cheio de frio.
Acendi um cigarro e fui a fumar até um café. Entrei e pedi uma aguardente. Batia o dente. Mas acabei por aquecer um bocado. A aguardente ajudou.
O telemóvel começou a vibrar no bolso das calças. Mas nem fui ver quem era. Não queria falar com ninguém. Não queria ver ninguém. Naquele momento só me apetecia andar à pancada com alguém. Mas não sou um tipo violento. Nem sei como bater em quem quer que seja. O mais certo era levar uma carga de porrada e ficar por aí caído, algures.
Não era a primeira discussão. Aliás, nos últimos tempos, elas tinham-se multiplicado. Havia uma saturação de parte a parte. Falta de paciência. Nervosismo. Parvoíce. E cada um de nós, com a certeza da sua razão.
Sabia que quando voltasse para casa, acabaríamos por fazer as pazes. Era sempre assim. Mas já não tinha vontade. Tinha chegado ao fim de mim mesmo. Acabara.
Saí do café e rumei, a pé, até ao Ibis. Pedi um quarto. Enfiei-me no duche e deixei-me ali ficar muito tempo, debaixo da água quente que me aquecia. Sabia muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/07]