Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]

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Espírito Natalício

Sinto-me azedo. Chega esta altura do ano e começo com as irritações. Não gosto do espírito natalício. Não o espírito natalício em si, que não tenho nada contra, antes pelo contrário, e até era gajo para gostar do Natal, não tanto do aniversário mas, de tudo aquilo que o Natal podia representar. Amizade. Amor. Humildade. Bem estar.
Mas é tudo muita mentira.
O trânsito na cidade anda caótico. As pessoas estão agressivas.
Parei na senhora das castanhas, a eterna senhora das castanhas que está ali, naquela curva da cidade, desde antes do princípio dos tempos, a vender castanhas assadas, e assisti. O carro parou antes da passadeira para dar passagem a um casal de namorados. Eles passaram lentos, apaixonados, arrogantes, sozinhos no mundo. Só eles e o seu desejo. A meio da passadeira pararam para dar um beijo. Um beijo terno e apaixonado. Um beijo cheio de tesão. O homem do carro começou a apitar. Colou a mão à buzina. Vi a boca dele a abrir e fechar. Senti os gritos. A baba que caía pelo ódio abaixo. E depois, pé no acelerador, arrancou num foguete, queimando borracha no asfalto e deixando cheiro de borracha queimada a sobrepor-se ao cheiro das castanhas assadas, quase atropelando o par. Fiquei parado a olhar o carro a arrancar, doido, e a ter de parar uns metros mais à frente para dar passagem ao autocarro que saía da garagem. Karma.
Pedi uma dúzia de castanhas. Havia duas estragadas. Não me importei. Mas elas são pagas quase ao preço do ouro. Fui andando pela cidade. As luzes. As músicas. Os sacos. As cores. Tudo em excesso. Tudo demasiado. Tudo em promoção.
A cidade de lantejoulas mas em saldo. O brilho é falso. É tudo mentira.
Compras aqui e eles oferecem X a uma instituição de caridade. Compras ali e uma % das tuas compras vai para uma IPSS. Mais ao fundo são mais baratos. Mais ao lado são melhores. Na loja a seguir são os presentes ideais. Mas o melhor de tudo é que nem precisas de pensar muito no que é que vais oferecer à pessoa a quem queres oferecer. Compras um cheque. Um vale. Um valor. Compras um valor para oferecer. E depois, a pessoa troca o valor por algo que queira ou, não querendo, qualquer coisa porque já está pago. Não interessa o que se dá. Interessa é dar.
É o espírito natalício.
As pessoas oferecem presentes porque podem. Para mostrar que podem. Coisas caras. Únicas. Exclusivas. A minha carteira não tem fundo.
As pessoas oferecem presentes à família, aos amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amigos-secretos. É obrigação. Oferece-se porque sim. Fica mal se não se oferecer. Mas ninguém gosta do que recebe. Quase nunca. Às vezes gostam. São uns simplórios, estes.
As pessoas oferecem presentes, muitos presentes para pagar as ausências, as faltas, as falhas, os erros, os enganos, as mentiras. As pessoas compram-se umas às outras.
Houve um tempo de meias. Houve um tempo de Ferrero-Rocher. Agora é o cheque-qualquer-coisa.
É o espírito natalício.
Em Outubro comecei a armazenar comida em casa. Enchi a despensa. Tudo para evitar entrar agora, nesta época, nos supermercados, hipermercados, megamercados, centros comerciais e todas as outras catedrais de consumo. Quero distância.
A cidade está iluminada. Há barracas. Barraquinhas. Presépios. A vaquinha. O burro. O menino Jesus nu, deitado numas palhinhas. Ao lado o carpinteiro José. E a mãe Maria. Uma árvore cheia de fitas e fitinhas e bolas e neve, de muitas cores, cores muito bonitas e apelativas. Um velho gordo, barbudo, com um saco enorme com presentes, meninos sentados ao colo e que só diz Ho-ho-ho.
Era uma vez um casal pobre, refugiado, emigrante, que não conseguiu um quarto para albergar a mulher grávida. Era uma vez uma mãe que teve de dar à luz num estábulo porque ninguém lhe abriu as portas. Era uma vez uns miseráveis escorraçados por toda a gente. Era uma vez uma estória de amizade, amor, bondade, humildade e bem-estar. Mas não era esta. Era uma vez uma estória que não tem nada a ver com esta que se conta todos os dias de Dezembro nas nossas cidades.
Se eu tivesse dinheiro, comprava-te um frasco anti-rugas ou anti-envelhecimento da La Prairie. Mas estou a brincar contigo. Gosto das tuas rugas. Das histórias que elas me contam. Preferia gastar esse dinheiro numa garrafa de vinho e sentar-me contigo a beber e a conversar.
Estou azedo. Amargo.
Mas estou mais ainda é triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/30]