Não Tenho Ninguém à Espera em Casa

Saio mais tarde do trabalho. Já é de noite. Não tenho ninguém à minha espera em casa. Não tenho nenhuma obrigação. Deixo-me ir estrada fora. Perco-me nas pequenas localidades aqui à volta. Vou à aventura.
Percebo a dificuldade de conduzir nestas estradas a esta hora. As luzes públicas são quase inexistentes e as poucas que existem parecem fracas, parecem não iluminar nada, parecem ser só pontos de referência. Muitos dos candeeiros estão fundidos ou, pelo menos, não estão a funcionar. Outros carregam lâmpadas tremeluzentes. Cruzo-me com carros em sentido contrário e os faróis cegam-me momentaneamente. Não estou habituado a grandes focos de luz desde que iniciei esta pequena viagem.
As estradas também não estão em grandes condições. Esteve a chover durante a tarde. As estradas estão molhadas. Escorregadias. Há muitos buracos. Há muitos remendos e, alguns desses remendos já desapareceram e a brita utilizada para encher os buracos anda à solta pelo pouco asfalto existente, muita terra batida, às vezes lama, por onde eu circulo. Eu vou aos solavancos. Sinto as rodas do carro aos saltos. Sinto o carro aos saltos. E eu aos saltos dentro do carro.
Os cruzamentos tornam-se perigosos. Tenho os vidros do carro embaciados por dentro. Tenho os vidros do carro sujos por fora. A chuva espalhou o pó. Não tenho água do depósito do limpa-vidros. Liguei as escovas e borrei o pára-brisas. Dava-me jeito que chovesse agora. Não muito. Um bocadinho. O suficiente para me lavar os vidros.
Páro à entrada do cruzamento. Olho para todo o lado. Não vejo luzes. Arranco. Faço o cruzamento e sigo em frente.
Vou a conduzir sem música. Perdi a antena do carro. Ou roubaram-na. Não sabia que ainda se roubavam antenas. Quando era miúdo também roubava umas antenas mas era para fazer espadas e setas e lutar com os outros miúdos da rua. Hoje os miúdos já não brincam na rua. Já não há malta da rua. Os carros já não têm antena exterior. O meu carro ainda tem. Tinha. Roubaram-na. Não consigo sintonizar nenhuma estação de rádio. Não consigo ouvir música. Vou atento aos barulhos dos carros. Não vejo bem a estrada. Também preciso de actualizar as lentes dos meus óculos. Já tenho alguma dificuldade em focar ao longe. Ao perto, ainda é pior. Não consigo ler a ementa de um restaurante. Quando almoço fora, e estou sem os óculos de ler, peço sempre a diária. Mas ouvir, isso ouço bem. Vou atento ao barulho dos outros carros. Ao barulho que o meu próprio carro faz. Tem um barulho peculiar. São muitos anos a queimar gasóleo. São muitos anos a transportar-me para todo o lado. Já me levou a Andorra. Outros tempos. Éramos todos mais novos. Mais disponíveis. Menos exigentes.
Entro numa localidade. Talvez uma aldeia. Não conheço. Nem vi a placa. Acho que nunca aqui passei. É uma rua. Uma única rua. Mal iluminada. Há um café. Café Central. Páro o carro mais à frente. Páro na berma da estrada. Tenho sede. Vou fumar um cigarro.
Saio do carro e recebo o bafo quente do início da noite. Está quente e húmido. Há uma orquestra de grilos a cantar no campo todo amarelado, cheio de azedas. Este Inverno é muito primaveril.
Ao fundo aproxima-se um carro de bois. Digo bois, mas podem ser vacas.
Entro no café. O balcão está cheio de homens que discutem futebol. Há dois deles muito nervosos. Falam muito alto. Tão alto que não se ouve nada da televisão pendurada em cima, por trás do balcão, onde um Fernando Mendes muito mais magro pergunta O Preço Certo em Euros. Os dois tipos que discutem, parece que vão chegar a vias de facto. Mas talvez não. As pessoas são só assim. Fervem em pouca água. Depois esvaziam.
Procuro uma nesga entre dois corpos e peço uma mini. Agarro na garrafa e vou para a rua beber a cerveja. Acendo um cigarro. O carro de bois passa à minha frente. São mesmo bois, afinal. Alguém toca-me no ombro a pedir-me lume.
Fico por ali um bocado. Ainda bebo mais duas minis e fumo mais um cigarro. Depois vou-me embora para casa. Vou sem pressa. Não tenho ninguém à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/03]

Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Um Quarto ao Sul e um Calor Infernal

Calor. Um calor infernal.
Estamos no sul. Num quarto de hotel, à beira-mar. Numa terra a sul.
A ventoinha gira mecanicamente no tecto. Faz Flap-Flap-Flap que se mistura, languidamente, com o som das ondas do mar a bater lá em baixo na areia, e com o cântico das cigarras no monte de capim seco do outro lado da marginal.
A janela está aberta. Devia estar fechada para entrar menos calor no quarto. Mas nenhum de nós se quer levantar.
Ela está deitada sobre a cama. Nua. Está deitada, nua, sobre a cama. Tem a cama aberta. O lençol de cima puxado para baixo. Para os pés. Está transpirada. Tem uma respiração cansada. Vejo-lhe os movimentos do peito. Para cima. Para baixo. Depois pára. E de novo para cima. Para baixo. Olha para a ventoinha no tecto. Segue aquela canção com o olhar, Flap-Flap-Flap.
Eu estou sentado no sofá. Mais deitado que sentado. Esparramado. Estou esparramado e também estou nu. Também estou transpirado. Cai-me água pelo corpo abaixo. Tenho os cabelos compridos. Devia ter cortado o cabelo antes de vir para cá. Agora é a fonte da minha transpiração. Está quente, pegajoso e húmido. Tenho um cigarro por acender na mão. A outra mão agarra na pila. Está mole. Morta. Tento animá-la. Mas em vão.
Aos meus pés está uma garrafa de cerveja que larguei ainda cheia. Aqueceu mal a tirei do frigorífico. Morreu antes de a beber. Já não consigo levá-la à boca. Não consigo fumar. Não consigo foder.
Ela faz barulho. Desvio o olhar para ela, deitada sobre a cama. Vira-se ao contrário. Tem as costas marcadas a vermelho. Das dobras do lençol. Dá as costas à ventoinha. Tenta refrescar-se.
Eu olho-a. Mas nem a visão do seu rabo virado para cima me dá alento.
Está um calor de morte.
Ela balbucia qualquer coisa. Não percebo o que diz. E pergunto O quê?, e nem eu percebo o que acabei de murmurar. Aclaro a garganta. Está seca. Volto a dizer O quê? e olho para ela.
Ela continua deitada de costas na cama. Depois, muito lentamente, a arrastar-se, volta a virar-se de barriga para cima. Pára quieta a recuperar do esforço. E diz Não consigo foder contigo!
Eu olho para ela. Vejo-a debaixo da ventoinha que continua no seu Flap-Flap-Flap imparável. Tenho a pila mole na mão. E digo Está morta!
Percebo que ela não percebeu. Nem eu percebi. Tossico. Tento aclarar, de novo, a garganta seca. Digo Eu também não!
Ela levanta-se. Devagar. Senta-se na cama. Olha à volta. Agarra nas cuecas. Veste-as. Levanta-se da cama. Agarra no vestido caído pelo chão e enfia-o pela cabeça e deixa-o deslizar ao longo do corpo. Enfia os pés nas Havaianas e sai do quarto. Ouço a porta a bater.
Eu fico ali sozinho. Eu, o Flap-Flap-Flap monocórdico da ventoinha no tecto, as ondas do mar a morrer na areia, lá em baixo na praia, e as cigarras em grande festival de cantorias entre o capim do monte lá do outro lado.
Não sei se percebi o que é que acabou de acontecer.
Está muito calor. Um calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/28]

Com o Martelo na Cabeça

Acordei com o barulho do tractor. Ainda não eram oito horas da manhã, e o vizinho da frente já andava com o tractor a acordar as redondezas.
Claro que as redondezas era eu. Eu era o único vizinho. E afinal, ele nem era bem meu vizinho. Era só o dono do terreno em frente a casa. Um terreno abandonado, ocupado pelas silvas a rodear uma casa deserta, e a cair de podre, que os miúdos da zona aproveitavam para ir para lá fumar umas ganzas e namorar.
Levantei-me nu e fui até ao alpendre. Acendi um cigarro.
Vi o tractor na sua marcha imparável, a destruir as silvas, a acabar com o matagal e a devolver o verde ao castanho da terra. Já não chovia há algum tempo e o terreno estava seco. O pó castanho da terra levantava-se e vinha cair sobre a minha roupa estendida de véspera para aproveitar o calor matinal sem se deixar queimar pelo sol do meio-dia.
A atravessar a estrada, do terreno dele para o meu, uma série de cobras. Era vê-las a deslizar alcatrão fora, de um lado ao outro. No meio, uns riscos verdes. Os sardões também fugiam ao barulho e à, agora, falta de esconderijos no terreno em frente e vinham à procura de segurança aqui, à minha volta.
Deitei fora o cigarro.
Fui à despensa e peguei no martelo.
Saí porta fora. Saí porta fora e nem reparei que estava nu.
Desci com calma o caminho até à estrada.
Cruzei-me com as cobras e os sardões. Eles para cá e eu para lá.
Fui até ao tractor e o homem só me viu quando me aproximei do tractor e saltei para cima dele em movimento e lhe dei uma martelada na cabeça. Duas. Três. Quatro marteladas. O tractor parou.
O sangue esguichou para cima de mim. Sobre o tractor. Espalhou-se sobre o terreno castanho tornando-o escuro e húmido.
E, de repente, o silêncio.
Um saboroso silêncio.
Quase parecia um vazio.
E depois lá apareceu um chilrear, o voo chato das moscas varejeiras, os grilos, as cigarras, os carros a passarem na estrada municipal lá mais para baixo.
Desci do tractor. Deixei lá o corpo rebentado do homem. E voltei para casa.
Entrei na casa-de-banho e fui tomar um banho. Lavar-me. Despejar todo aquele sangue que jazia em mim. E levei o martelo comigo para o duche.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/03]