Sem Conseguir Falar

Tudo começou quando ela deu entrada no hospital.
Eu já não sabia dela há vários anos. Embora vivêssemos ambos na mesma cidade, nunca mais nos vimos depois de eu ter saído de casa dela e batido com a porta. Ela ainda escreveu uma enorme mensagem no Messenger. À qual eu respondi. Depois disso fui bloqueado no Facebook. E nunca mais falámos. Nunca mais no cruzámos nas ruas da cidade, mesmo tendo amigos em comum. O destino trabalhou por nós. Separou-nos. E acho que respirámos melhor.
Entretanto ela deu entrada no hospital. Ela deu entrada no hospital e eu fui avisado.
Eu?
Aparentemente eu fui o contacto que ela deu quando deu entrada no hospital.
Eu? Perguntei várias vezes a quem me telefonou a avisar do internamento no serviço de oncologia. Oncologia? Também o perguntei várias vezes. E sim. Não havia erro. Ela dera entrada no serviço de Oncologia do hospital.
Soube depois que ela andou vários dias, talvez semanas, a vomitar toda a comida e bebida que tentava ingerir. Vários dias, talvez semanas, sem se conseguir alimentar. A perder forças. A definhar.
Foi encontrada desmaiada no meio da rua. Estava em cima de um monte de vómito. Não muito. Não muito que ela não tinha nada no estômago. E foi a sorte dela. Ou o azar. Não morreu sufocada no seu próprio vómito. Foi encontrada por um arrumador de carros que telefonou para o cento e doze.
O INEM levou-a para o hospital. Fizeram umas análises. Fizeram uns testes. Fizeram o diagnóstico. Nada que ela já não soubesse. Nada que ela já não adivinhasse. Tentou ignorar. Tentou ignorar o estado em que estava como fazia com tudo o que a incomodava na vida. Ignorava. Ignorava e esperava que desaparecesse. Foi o que vez comigo, também. Ignorou-me. Bloqueou-me no Facebook.
Telefonaram do hospital a dizer que ela estava lá. E então? E então eu era o contacto. Era a mim que ela queria ver no hospital.
E fui lá.
O que levar? O que se leva a quem está no hospital no serviço de Oncologia e sem saber exactamente como é que está quem vamos ver?
Aparentemente, nada. Nada é o melhor que se pode levar.
Quando entrei no quarto ela estava a dormir. Tinha uns tubos a entrar dentro dela. Devia ser soro. Talvez. Ela estava a dormir. Sentei-me ao lado da cama e esperei. Olhei para ela. Não a reconheci. Estava magra. A cara muito seca. Notavam-se os ossos. Mas ainda se percebia que era bonita. Ou que seria bonita noutras condições.
Agarrei no telemóvel e passei pelo Facebook. Passei pelo Instagram. Agarrei-me ao 1010!, e fiquei ali, ao lado da cama dela, a jogar.
E já muito tempo tinha passado, e eu já tinha perdido vários jogos e recomeçado outros tantos, quando ouvi, saída do fundo de um poço, uma vozinha muito frágil e fininha, muito sumida, Olá! e levantei os olhos e cruzei-me com os olhos encovados dela.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, feito parvo, a olhar para ela a olhar para mim, e mesmo depois de ela perguntar Como é que estás? eu não soube o que responder, não consegui responder.
Senti umas lágrimas a caírem-me pelas faces abaixo. Não queria chorar mas não estava a conseguir bloquear-me. Chorei. Agarrei-lhe nas mãos. Agarrei-lhe nas mãos magras e ásperas com força, massajei-as com os meus dedos e continuei em silêncio. Não conseguia falar. E depois tive uma convulsão de choro e chorei em jorro e convulsivamente durante algum tempo. E depois acalmei. Limpei as lágrimas e o ranho com as costas das mãos e respirei fundo, a recuperar a calma. Mas continuei sem falar.
Passaram horas. Depois passaram dias e semanas. Ela começou a fazer quimioterapia e foi enviada para casa.
Eu acompanhei-a a casa. Ajudei-a a instalar-se. Preparei as coisas para os dias mais próximos. E, de repente, parei. Olhei para a rua através da janela da cozinha. Olhei em volta. Reconheci alguns daqueles espaços. Já tinham sido meus, também. Já não eram. Mas eram dela. Eram dela e eu decidi. Decidi que ia ficar ali com ela. Decidi que ia passar por tudo aquilo com ela.
E fiquei.
Até hoje ainda não consegui falar com ela. Ainda não consegui dizer-lhe palavra. Vamos vivendo como conseguimos. Um dia a seguir ao outro.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/18]

Sábado de Carnaval

É Sábado à noite. Sábado de Carnaval. As pessoas divertem-se. Mascaram-se, embebedam-se, drogam-se, dançam, dançam muito. Riem. Brincam umas com as outras. Estamos em Portugal e estamos bem. Isto é uma espécie de cantinho do céu. Às vezes.
Na TSF está a dar uma gravação do Estado de Sítio. De novo, e sempre, a Síria. Continuam os bombardeamentos. Há quase um milhão de pessoas em êxodo em direcção à Turquia que tem as fronteiras fechadas. Continua a morrer gente. Todos os dias. Todos os dias nascem mais crianças. Há gente que se torna pai e mãe debaixo de bombardeamentos. Há crianças que nunca experimentaram uma vida sem bombardeamentos. Estas pessoas ainda desencantam comida. Mantêm hospitais em caves. Ainda riem. Ouço o testemunho de alguém que está lá, na Síria, que vive numa dessas cidades sitiadas e bombardeadas. E enquanto ele fala, ouve-se a queda de duas bombas muito próximo. Ele pára, mas logo recomeça o testemunho. Há quase dez anos que a Síria está assim, em guerra. Com os russo a bombardear. E os americanos… O que é feito dos americanos?
É Sábado de Carnaval. É Sábado de Carnaval e as pessoas divertem-se.
Vejo, no feed do Facebook, nem sei como nem porquê, numa página da Cruz Vermelha, uma criança contente, aos saltos, a dançar e a cantar, a experimentar a sua nova prótese que lhe permite andar sem muletas e ser autónomo.
É Sábado de Carnaval. E o direito à vida é inviolável.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

Uma História de Amor

Conheci-a no dia em que o pai morreu. Entrei no bar. Sentei-me ao balcão. Pedi um gin tónico, Pode ser Bombay, disse, e ouvi uma fungadela ao meu lado. Era ela. Estava a chorar. Ofereci-lhe um lenço. Aceitou. Depois de ter bebido o meu gin, ofereceu-me ela outro. Aceitei. Conversou comigo. Foi aí que soube que o pai tinha acabado de morrer. Estava no hospital e tinha acabado de morrer. Ela largou toda a gente no hospital o pai, a família, os amigos, o namorado e foi dar uma volta a pé pela cidade. Começou a chover. Entrou naquele bar. Bebeu um whiskey. Começou a pensar no pai. Na ausência do pai. Na falta que já sentia. Começou a chorar. E eu ofereci-lhe um lenço.
Foi nessa altura que vi como era bonita. Cabelos castanhos, nem muito escuros nem muito claros. Um pouco abaixo do ombros. Tapava-lhe o pescoço quando vista por trás, e eu sei porque vi quando fui à casa-de-banho e, ao regressar, regressei pelas costas dela.
Tinha uma voz doce, embora naquela altura estivesse um bocado amargurada. Mas percebia-se a doçura que lá estava. Era calma a falar. Mesmo no meio de toda aquela tristeza. Tinha os dedos esguios, compridos e finos, numas mãos elegantes, nem muito grandes nem muito pequenas. Eu reparei quando ela colocou a mão em cima da minha e me convidou para ir à casa dela. Eu lembrei-me dela ter mencionado um namorado. Hesitei por momentos. Mas momentos tão curtos que acho que ela nem se apercebeu da minha hesitação.
Entrei em casa dela nessa noite e nunca mais saí de lá. A partir desse dia aconteceu uma história de amor. Uma verdadeira história de amor. Como a dos romances de cordel. Eu gostava dela, ela gostava de mim e vivemos felizes para sempre. E foi mesmo isso que aconteceu. Vivemos felizes para sempre.
Estou a falar disto agora porque se acabou o Para sempre. Ela morreu. Morreu de morte natural, ao contrário do pai dela. Já estávamos velhotes. Ela e eu. Ela já foi e eu hei-de ir. Já não falta muito. Eu devia ter ido primeiro. O que é que estou aqui a fazer sem ela?
Acho que fiquei por cá para contar esta pequena história.
A nossa história começou com uma morte e acabou com outra. Primeiro o pai dela, agora ela. No meio, uma história de amor com final feliz. Mas o que ela não sabia, nunca soube, nem ninguém mais soube, foi que houve outra morte nesta história. Uma morte que só eu é que soube que acontecera. Quer dizer, toda a gente soube da morte, mas ninguém nunca soube como é que verdadeiramente morreu. Só eu. E sei porque estava lá. E fui o responsável pela morte. Pela morte do namorado dela. Para toda a gente foi um suicídio. Mas não foi.
Estávamos, eu e ela, a viver juntos já quase há um mês. O pai tinha morrido, tinham feito o funeral e a missa de sétimo dia quando, uma noite, depois de ter ido jantar um prego no pão ao balcão de uma tasca no centro da cidade, perto do sítio onde estava a trabalhar, era já tarde e resolvi comer um prego no pão antes de ir para casa, quando fui abordado por um tipo. Não o conhecia de lado nenhum. Mas ele conhecia-me. E apresentou-se. Era o namorado. O ex-namorado dela. Então primeiro apresentou-se e em seguida ameaçou-me. Que eu não sabia quem ele era, mas que não era flor que se cheirasse (palavras dele), e que sabia que ela ainda gostava dele só que estava desnorteada pela morte do pai e eu tinha ajudado a esse desnorte. O melhor a fazer era afastar-me. Eu ouvi-o. Mais por educação que por respeito. Eu nunca disse nada. Limitei-me a ouvir. No fim, quando percebi que já tinha debitado todas as ameaças para que eu enfiasse o rabo entre as pernas e saísse de casa dela, da vida dela e do amor dela, virei costas e fui para o carro. Estava ao volante do carro quando o vejo virado para mim, levar a mão à cabeça a formar um pistola e fazer um gesto com a boca que, na minha cabeça, ressoou como Bang!
Pus o carro a trabalhar. Fiquei ali uns momentos a olhar para ele com a mão em pistola na cabeça, até que começou a rir, a rir à gargalhada. Cínico. Eu meti a primeira, pisei o acelerador e arranquei com o carro para cima dele. Ao aproximar-me, guinei o volante para a direita mas, ele já se tinha assustado e tinha mandado um salto para a esquerda e acabou a pular o muro que dava para a linha do comboio que ali, naquela zona da cidade, passava desnivelado da estrada, e caiu no meio da linha no momento em que o comboio ia a passar.
Eu ainda parei o carro. Olhei para o muro. Percebi o comboio a passar. Ouvi o comboio a apitar. Percebi o comboio a travar. E fui embora. Não queria saber mais do que tinha acontecido. Talvez não tivesse acontecido nada. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Mas não queria saber. Queria apagar aqueles últimos minutos da minha cabeça. Queria esquecer. E esqueci.
Vivi… Quantos anos?… Mais de trinta anos com ela. Vivi… Vivemos uma verdadeira história de amor. Um com o outro. Eu esqueci o que tinha acontecido. O ex-namorado tinha realmente morrido na linha do comboio. Atropelado pelo comboio. Foi considerado suicídio. Por algum tempo, ela culpou-se por o ter deixado da forma que deixou. Mas passou. Tudo passa, não é?
Foi depois da morte dela que me lembrei daquela noite. Foi depois da morte que me lembrei onde estava ancorada a nossa felicidade.
É por isso que eu tenho de fazer o que vou fazer. Tenho de fechar o círculo. Espero conseguir levantar as pernas por cima do muro. É que o corpo já não me obedece como dantes.
Já vou ter contigo, meu amor.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/08]

Dia de Greve na Função Pública

Levantei-me cedo. Tinha uma consulta no hospital. Uma consulta muito cedo. Tinha de apanhar a carreira mais cedo ainda. Estes poucos mais de vinte e cinco quilómetros que me distanciam da cidade e do hospital são na verdade muito mais que os quilómetros que as placas à beira da estrada anunciam. Os horários curtos. As inúmeras paragens. As voltas pelas redondezas numa viagem pelo que é o país profundo, consomem as voltas dos ponteiros do relógio que giram rápido a olho nu. Quase que tenho de sair de véspera se quero chegar a tempo às minhas obrigações, mesmo que sejam de saúde, esse bem precioso que me custa os olhos da cara mesmo que seja barato ao olhos sempre financeiramente aguçados dos economistas de serviço.
Levantei-me de noite. Antes do galo. Fui cantar à janela para o acordar e mostrar-lhe como é terrível ter que o aturar todas as manhãs. Gostas de estar do outro lado, cabrão? Estava a chover.
Tomei um duche com todos os cuidados do mundo. Não posso cair. Ando com vertigens. Tenho de tomar cuidado com os passos que dou. Com as voltas do corpo. Agarro-me. Às vezes esqueço-me. Às vezes ainda penso que sou um jovem adolescente na flor da idade e de perna ligeira. Já quase caí. Mas ainda não aconteceu.
Vesti-me no quarto. Em silêncio. A tentar esquecer o frio que estava.
Fiz café para beber antes de sair de casa. Liguei a televisão pequena, a televisão a preto e branco da cozinha, a televisão que muda os canais com um rotor que preciso de rodar sempre para a direita para mudar de canal. Às vezes é preciso força. Deixei no canal que estava. Notícias. Ainda bem que liguei a televisão.
Era dia de greve na função pública.
Primeiro nem percebi muito bem o que estava a ouvir. Sabia que era algo que me interessava. Que me afectava, de algum modo. Mas nem percebi logo. Depois, o clique. Greve. A greve. A greve da função pública.
Pus café numa caneca. Acendi um cigarro. Fui pôr-me à janela da cozinha. A olhar para fora, para a rua. Mas via-me a mim, não via a rua. Via o meu reflexo. Lá fora estava escuro. O dia ainda era noite. Só via o meu reflexo na janela. O meu reflexo de caneca numa mão e cigarro na outra.
Imaginei o cabrão do galo a rir-se de mim.
Ainda não via o contorno das montanhas lá ao fundo. Ainda era de noite. A manhã ainda vinha longe. A carreira devia estar a passar lá ao fundo. Ao fundo da estrada. E continuava a chover.
Apaguei o resto do cigarro no resto do café que já não conseguia beber.
Comecei a despir-me ali, na cozinha. Tirei a camisola. As botas. As calças. A t-shirt. Os boxers. As meias. Fiquei nu. Vi-me nu na janela da cozinha. No meu reflexo iluminado no vidro da janela contra o escuro da rua. Senti um arrepio de frio.
Para que é que ia à consulta? perguntei-me. E já não me lembrava ao que ia.
Tentei forçar a memória. O porquê da consulta. E então só me vinha à memória a Suzi Quatro. Porquê a Suzi Quatro? Vi-a de calças de cabedal pretas e camisola de alças branca, justa, os peitos volumosos, uma guitarra nas mãos a cantar 48 Crash.
Virei costas ao meu reflexo. Percorri a casa nu, na companhia da Suzi Quatro, e voltei para a cama. Ouvia a chuva a cair lá fora.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/31]

A Fazer o que Não Devia

Estava a fazer o que não devia. Para encontrar o que não queria. E no meio de tanta negativa, por que raio é que insisti em fazer o que fiz?
Há alturas em que sabemos que não estamos a agir bem. Que sabemos que percorremos um caminho sem volta. Há alturas em que até paramos por momentos, pensamos, pensamos mesmo se queremos fazer o que estamos a ponto de fazer, pesamos os prós e os contras, chegamos à conclusão que é melhor estarmos quietos, dizemos não ao que íamos fazer, já estamos a virar costas, ponderada a decisão e, num momento de loucura, rápido para não termos tempo para o arrependimento, lá estamos nós a fazer o que não devíamos estar a fazer e contra o qual arranjamos todas as razões e mais alguma.
Mas é assim a vida. É assim a minha vida. Não desperdiço uma boa oportunidade para fazer merda.
Então, andava descalço, e em cuecas, antes de ir para o banho, de volta das gavetas dela. Não sei o que andava à procura. Talvez de lenha para me queimar. Talvez soubesse quando encontrasse. O quê? Não sei. Alguma coisa. Alguma coisa haveria de haver. Alguma coisa que preenchesse o vazio que eu teimava em encontrar em mim. Que me justificasse esta ansiedade que não me largava.
Abria e fechava gavetas. Algumas das gavetas, acabava por perceber que tinham coisas minhas. Afinal, o quarto também era meu. Vivíamos juntos. Partilhávamos a casa, o quarto, a cama. Partilhávamos-nos um-ao-outro. Abria as gavetas. Remexia. À procura sei-lá-do-quê!
Estava descalço e, então, uma gaveta puxada com maior virilidade, talvez fúria, sim, talvez já estivesse furioso por não encontrar nada que suportasse este mal-estar que me atormentava e que, julgava eu, tinha origem nela, a gaveta voou para fora do móvel e caiu ao chão, em peso em cima do meu dedo grande do pé direito, o que uso para rematar nos jogos de futsal aos fins-de-semana no pavilhão das freiras.
Fo-da-se-ca-ra-lho! foi o que me saiu em grito das goelas mas com origem nas entranhas e na dor que me percorreu todo o corpo.
Fo-da-se-ca-ra-lho! E eu não estava bem quietinho?
A gaveta estava cheia. Era pesada. Caiu, em cheio, em cima do dedo grande do meu pé direito. Vi a unha a passar por vários cinzentos até ficar preta. Vi o dedo a ficar vermelho, púrpura, violeta, roxa, cor-de-rosa velho, talvez também cor-de-rosa shock. Vi algum sangue a sair fora do dedo. Vi um bocado da unha levantado, descolado do dedo. Senti-me agoniado ao olhar o estado do dedo e da unha. Senti um vómito a subir pelo meu interior, chegar à boca e projectar-se para fora, para cima do móvel que era dela e meu, o móvel que até tinha uns action figures meus, do Homem-Aranha, do Wolverine, do Surfista Prateado, e vi o vomitado a varrer os action figures para fora do móvel e vi tudo acontecer até deixar de acontecer e de ver, caiu uma tela preta sobre a minha consciência e eu deixei de ver, de sentir, de estar ali onde estava.
Quando acordei, estava no hospital. Ela estava sentada numa cadeira ao lado da cama.
Eu perguntei O que é que me aconteceu?
E ela perguntou-me O que é que andavas a fazer?
Eu olhei para ela e não soube o que responder.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/20]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]