O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Passar os Dias Sentado no Sofá

Ela chegava e eu estava lá. Estava sempre lá. Enterrado no sofá, com os pés na mesa de apoio. Às vezes com as botas calçadas. Isso nos dias em que tomava banho, vestia-me e sentava-me na sala, frente à televisão, à espera que ela chegasse com o carro para poder sair. Não saía muito, mas às vezes saía. Farto de passeios a pé à volta de casa, pegava no carro quando ela chegava do trabalho e ia dar uma volta. Às vezes ver o mar. Às vezes ela ia comigo. Às vezes até parecíamos um casal a namorar nas arribas sobre o Atlântico, a fumarmos um cigarro e a olhar o horizonte. Mas só parecíamos.
Ela saía de manhã, para ir trabalhar, todos os dias. Ia de carro. A fábrica ficava nos arredores. Não muito longe. Mas também não tão perto. Precisava do carro para ir trabalhar. Eu, desde que fui despedido, fiquei sem carro. Agora passava os dias em casa. De manhã dormia até ao meio-dia. Depois levantava-me. Espreitava o frigorífico à procura de restos da véspera, que quase nunca havia, e sentava-me no sofá, frente à televisão, a olhar programas da treta cheios de conversas de merda. Passava ali o dia. Às vezes levantava-me. Se estivesse sol, vestia-me e ia dar uma volta a pé pelas redondezas. Se estivesse de chuva, deixava-me estar de pijama em casa, frente à televisão. Às vezes adormecia. Às vezes dormia a tarde toda. Ela chegava e eu estava a dormir. Às vezes ela chegava a casa e ia aspirar, cozinhar, pôr roupa a lavar e, muitas das vezes, nem o barulho do aspirador me acordava.
Outras vezes ela chegava a casa e eu estava sentado no sofá, como o cu enterrado no sofá, a ver televisão. Às vezes ainda apanhava alguns jogos de futebol. Às vezes havia reprises de jogos dos anos ’90. E eu ficava ali a ver. Depois ela chegava e sentava-se no outro sofá. E ficávamos ali os dois. Ela não dizia nada. Não dizia nada por eu estar ali o dia inteiro sem fazer nada, frente à televisão. Nos primeiros dias ainda procurei trabalho nas fábricas ali à volta mas, não havia nada. Umas fábricas estavam a automatizar-se e o número de operários era residual, outras estavam em processo de falência. Havia muita gente a ser despedida. Aquelas fábricas não estavam preparadas para o futuro. Eram de outra época e não souberam prever o futuro que era já presente. Elas eram como eu.
Ela chegava. Ia ao frigorífico e tirava duas cervejas. Uma para ela e outra para mim. E ficávamos ali os dois, sem dizermos nada um-ao-outro, a olhar para programas de merda na televisão. Às vezes ela agarrava no comando e punha-se a ver A Loja em Casa. Não sei por quê. Nunca tinha comprado nada, mas via o canal e os produtos que tinham à venda por ninharias.
Às vezes, quando ela chegava, eu ia buscar a chave que ela largava na fruteira sem frutas em cima da mesa da cozinha e ia para o carro. Punha o carro a trabalhar e esperava dois ou três minutos por ela. Às vezes ela vinha. Outras vezes não.
Às vezes adormecíamos os dois no sofá. Cada um no seu. A meio da noite eu acordava, ia mijar e levava-a para a cama. Ainda podia com ela ao colo. Às vezes custava-me. Não que ela estivesse a ficar gorda, que não estava, ela era daquela mulheres que pode comer tudo o que quiser que nunca engorda nem fica pesada. Era eu que estava a ficar fraco. Sentia-me fraco. Aqueles dias de cama-sofá estavam a tirar-me as poucas forças que tinha.
Hoje de manhã telefonaram cá para casa. Tinham uma proposta de trabalho para mim. Num café à saída da terra. Até posso ir a pé. Não é longe e ponho-me lá em meia-hora, quarenta-e-cinco-minutos. Fiquei contente.
Tomei um banho. Vesti roupa lavada. Fiz umas omeletas com cebola. Abri uma garrafa de vinho. Estou à espera que ela venha. Mas ainda não chegou. Está atrasada. Não costuma atrasar-se. Ela chega sempre à mesma hora. Mas ainda não chegou.

[escritos directamente no facebook em 2020/02/19]

Ausência de Bilhete Validado

Há dias em que não consigo evitar e baixo às emoções do Correio da Manhã. A violência toma conta de mim. Por mais que lhe queira fugir, sinto-me atraído como os insectos voadores por uma lâmpada acesa na escuridão nocturna.
Então, a notícia que estava na ordem do dia era de uma mulher negra que tinha sido espancada por um agente da polícia. Li a notícia no Facebook. Li a notícia sentado no sofá com o iPad nas mãos.
Acendi um cigarro.
Fui às páginas do Correio da Manhã. Comecei a ler.
Era tarde. Não tarde de madrugada, mas já era noite. Uma noite fria. A mãe, cansada, depois de mais um dia como os outros, a correr de um lado para o outro, a cumprir todos os horários que tinha de cumprir, depois de fazer todos os trabalhos que tinha de fazer, depois do sol já se ter escondido para lá do horizonte e das luzes da cidade lhe conferirem uma falsa vida de fantasia colorida ao seu dia, estava finalmente a entrar no autocarro com a filha pequena pela mão. O autocarro que a iria levar para casa. Depois do último trabalho tinha ido a correr buscar a filha à escola antes que a escola encerrasse. E, depois da viagem, ia chegar a casa e preparar o jantar para ela, para a filha e para os outros dois filhos que já lá estavam à espera que a mãe chegasse. Verificar se os filhos tinham feito os trabalho da escola. Um banho rápido, mais um passar por água que propriamente banho. Ela e a filha, aproveitando o mesma água, o mesmo banho. E então, finalmente iria sentar-se um pouco na cadeira da cozinha a olhar, alheada, para a televisão que debitaria qualquer coisa que não lhe iria interessar mas que lhe serviria de companhia até adormecer. Iria acordar com a filha a chamá-la do quarto porque estava a ter um sonho mau e ela iria então para a cama dormir algumas horas deitada antes de ter de se levantar de novo e, de novo, retomar outra vez os mesmos rituais de todos os dias, dias iguais, dias tristes, dias alegres, dias cheios de esperança e desilusão.
Mas não foi o que aconteceu.
À entrada no autocarro, a mãe percebeu que a filha se tinha esquecido do Passe Social. O motorista-cobrador exigiu a validação da entrada das duas. Ela estava cansada. A filha estava com fome e sono. A mãe pediu para que o motorista-cobrador deixasse entrar a filha. Afinal só tinha oito anos. O motorista-cobrador mostrou-se inflexível. É a lei. A lei é para cumprir. E os dois esgrimiram razões. A mãe exaltou-se. O motorista-cobrador também. Elas tinham que abandonar o autocarro, dizia o motorista-cobrador. Que não, era noite, estava frio e a criança estava com fome e sono e ela só queria chegar a casa, dizia a mãe.
Desvairado, o motorista-cobrador arrancou com o autocarro pelas ruas da cidade e parou junto a uma esquadra de polícia. Um agente aproximou-se do autocarro. O motorista-cobrador abriu a porta da frente. Queixou-se ao agente da polícia. Queixou-se da mãe. E da ausência de passagem validada da criança. É a lei, disse o motorista-cobrador. É a lei, concordou o agente da polícia.
O agente pediu à mãe que saísse e fosse com ele à esquadra. Mas a mãe só queria ir para casa. Com a filha. E tinha lá os outros dois filhos à espera. O polícia insistiu. A mãe também. O agente chamou-lhe recusa a uma ordem da autoridade. A mãe enervou-se. Estava cansada. O agente também se enervou. Também estava cansado. Farto das más condições de trabalho. Farto da merda de vida que tinha. E depois de um dia difícil, aquilo ali assim… Para lhe estragar o resto do dia.
O agente pegou a mãe por um braço e puxou-a para fora do autocarro. A mãe gritou. Chamou nomes ao agente da polícia que ainda se enervou mais. O agente da polícia puxou a mãe à força. A criança tentava agarrar a mãe. Chorava com medo. O agente forçou a mãe a descer do autocarro. A mãe caiu para fora do autocarro. Caiu no asfalto. Arranhou a cara. Esfolou as mãos. Rasgou as calças de ganga. Depois tentou voltar a entrar no autocarro com a filha agarrada a ela. O agente deitou a mãe ao chão e tentou imobilizá-la perante o olhar assustado da filha. A mãe debateu-se. Era forte. Cuspiu no agente. O agente bateu na mãe. Deu-lhe dois murros na cara. Rebentou-lhe o lábio. Abriu-lhe um golpe no sobrolho. A mãe gritou. A mãe era preta. Assim como a filha. Mas o sangue brilhava sobre o preto da sua pele. Debateu-se. O agente em cima dela a tentar colocar-lhe umas algemas. Ao lado, a filha chorava.
Acordei.
A cigarro tinha-se consumido inteiro. Estava todo feito num rolo de cinza. Mexi-me e a cinza caiu-me em cima. Esfreguei os olhos. Sacudi a cinza para o chão. O iPad estava a negro. Voltei a acender outro cigarro. Liguei outra vez o iPad. Estava nas páginas do Correio da Manhã. Uma mulher que fora agredida pela polícia, tinha sido constituída arguida. Desliguei o iPad e larguei-o em cima do sofá. E fiquei por lá sentado, agoniado. Não consegui continuar a fumar. Estava com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/21]

As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]

O Tornado

Estou sentado na esplanada da Batel, na marginal da Nazaré, a beber um café. Estou na marginal virado para o mar e tento vê-lo. Espreito por uma nesga de espaço livre entre os insufláveis da Minnie, da Patrulha Pata e do Faísca McQueen, de um lado, e de uma pista de carrinhos de choque infantil e uns discos voadores que rolam em pista no chão, do outro. Mais afastado está uma barraca de hambúrgueres McDaniel’s.
As pessoas vêm à praia para se deitarem na areia, mergulhar no mar, beber uma imperial, comer uma bola de Berlim, lamber um gelado mas, antes de o conseguirem, têm de sobreviver a toda a panóplia de actividades que servem de chamariz às criancinhas que azucrinam a cabeça aos pais Papá eu quero! Papá eu quero! Papá eu quero pular no insuflável!…
A Nazaré tornou-se uma feira durante os meses de Verão. Hoje já não é possível ir para a praia descansar. Agora, as férias são o martírio maior das famílias. Já nem é só pelo dinheiro que se gasta em ninharias, mas o barulho, a confusão, o apelo, os berros, o futebol de praia, a música, há sempre música, há sempre um festival em qualquer canto, em qualquer baiuca, como se o Homem não conseguisse viver sem a confusão e o engano da companhia.
No fundo continuamos todos sozinhos.
Atrás de mim na esplanada, uma mulher dos seus cinquenta anos, de cigarro na mão, pigarreia. Puxa muco do nariz e engole-o. Eu percebo todos estes sons característicos enquanto tento ver o mar lá ao fundo, por entre a nesga de espaço livre.
Ao meu lado um casal de brasileiros, jovens, com três filhas ainda muito novas, bebem uma imperial enquanto as miúdas comem um Magnum cada uma. Os pais comentam o azar pelo mau tempo nas férias. E têm razão. O tempo está encoberto. O horizonte termina logo ali, numa neblina carregada, sobre o mar. E levanta-se vento.
A mulher atrás de mim puxa, agora, expectoração do peito e agarra-a na boca. Ouço-a cuspir para o chão e sinto-me enojado. Tenho vómitos. Mas aguento.
O vento aumenta agora bastante de intensidade. A família brasileira sai da esplanada e foge para o interior da pastelaria.
Vejo aquilo que deve ser um pequeno tornado a vir, rápido, do mar. O vento é muito forte. Cai água. Não sei se é chuva se é água do mar a viajar no vento. Recuo para a beira da esplanada, para debaixo do arco do prédio.
A mulher que pigarreia, chega-se à frente para ver melhor o que está a acontecer. A esplanada voa. A mulher está mesmo à minha frente. E eu estico o pé. Dou-lhe um empurrão no rabo e vejo-a tombar. Mas não cai. É agarrada pelo tornado que a leva na sua espiral de vento junto com as mesas e cadeiras da esplanada.
A mulher desaparece no ar. O vento acalma. A neblina dissipa-se. Volta o sol. Reparo que os insufláveis desapareceram. As pistas também. O McDaniel’s resistiu, mas sem telhado que foi não sei para onde.
As cadeiras e as mesas da esplanada também voaram para parte incerta. Os pais brasileiros avançam até à esplanada com as mesmas imperiais na mão. As miúdas ficaram no interior a comerem os gelados.
Eu acendo um cigarro enquanto reparo que agora já vejo o mar.
Volta o sol. As pessoas começam a levantar-se na praia e andam de um lado para o outro à procura das suas coisas e das pessoas que perderam naquela confusão.
Encontro uma cadeira virada no chão, que não era desta esplanada, e sento-me nela. Tenho muito para observar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/20]

A Picada

Sentia o vento correr de uma janela à outra e levantar-me os cabelos que, por vezes, me tapavam os olhos.
Percorria Trás-os-Montes. Estava numa zona árida. Rochosa. Quente. Solitária. Uma paisagem lunar. Não via ninguém há que tempos. Nem me lembrava do último carro com que me tinha cruzado. Nem uma vaca. Nem uma ovelha. Só aridez. Calor. Talvez houvesse um sardão, mas não me recordo de o ter visto.
Conduzia um Hyundai. Sem ar condicionado. Nem vidros eléctricos. Nem fecho centralizado de portas. Um carro analógico. Mas tinha rádio. Levava por companhia uma qualquer música popular portuguesa. Esticara-me por cima do banco do lado e abri o outro vidro.
O cotovelo pousado na janela aberta. A mão esquerda no volante. A mão direita no manipulo das mudanças. Nos dedos um cigarro a fumegar. Na rádio uma pimbalhada. À frente os quilómetros por fazer. Uma recta sem fim. Um horizonte que fugia cada vez que me aproximava. O céu azul, de um azul eléctrico. Dois farrapos de nuvem. O sol difuso, com uma argola brilhante em toda a volta, aumentando-o ainda mais. Estava sozinho no mundo. Eu, o cigarro na mão e a música na rádio. Depois lembrei-me que também ouvia o motor do carro. Sim, não conseguia escapar-lhe. Parecia um motor de rega.
Mandei a beata janela fora. Tinha sede. Precisava de um café.
De repente uma picada. Uma picada no pescoço. Uma picada que quase me paralisou. Uma picada atrás, no pescoço.
Guinei o volante para a esquerda. Travei. Reduzi as mudanças. Continuei a travar. Parei. Travão de mão. Chave. Carro desligado. E uma dor do caralho.
Saí do carro. O sol queimava. O asfalto parecia borbulhar. Dei a volta ao carro e fui para a berma. Para cima de uma rocha. Uma rocha a ferver. Eu transpirava. Doía-me o pescoço. Não o pescoço todo. No sítio onde senti a picada. Começou a inchar. Fui olhar no espelho retrovisor. Não via nada, era atrás. Mas sentia já uma batata a crescer.
Teria sido uma abelha? Uma vespa? Uma vespa asiática?
Sentei-me numa rocha e senti o rabo a aquecer. Tinha sede. Doía-me o pescoço. Estava a ficar sonolento. Devia ir para o carro. Devia pôr o carro a trabalhar. Devia arrancar. Devia procurar uma casa. Uma terra. Um hospital.
Vi o carro a afastar-se de mim. Não estava a ir embora, estava só a afastar-se. Como se o espaço entre nós estivesse a aumentar. O sol descia sobre a Terra. Sobre mim. Senti o coração disparar. Tive medo. Transpirava. Transpirava de calor e de medo.
Queria levantar-me, mas não conseguia. Comecei a arrastar-me. Parti as unhas a tentar ferrá-las na rocha para me puxar. Fiz sangue nos dedos. Comi o pó da berma da estrada. Cheguei ao carro. Invoquei todas as minhas forças para agarrar o manipulo do carro. Abrir a porta. Entrar. O coração parecia saltar do peito. As suas batidas feriam-me os ouvidos. Não conseguia mexer o pescoço. Estava muito inchado.
Estiquei-me. Forcei o meu corpo a esticar-se. Mais e mais. Como se fosse elástico. Estava quase a chegar ao manípulo.
E o sol tombou sobre a Terra. Sobre a minha cabeça. Tudo ficou vermelho. Depois amarelo. Finalmente ficou tudo branco. Branco e vazio.
E é onde eu estou agora. Num espaço branco. Asséptico. Vazio. Silencioso. Não sei onde estou. Não sei como estou. Estou aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/19]