O Candidato Messias

Eu vi. Eu vi as mulheres. Eu vi os milhares de mulheres a manifestarem-se nas ruas e nas praças das cidades brasileiras. Eu vi os milhares de mulheres brasileiras na rua por todo o mundo onde há comunidades brasileiras a gritar #EleNão.
Manifestavam-se contra o candidato presidencial Jair Messias Bolsonaro.
Bolsonaro candidato que, quando votou pela destituição da, então, presidente Dilma Rousseff, dedicou o seu voto ao coronel Brilhante Ustra, que era o líder da polícia política da ditadura militar, que torturou a mesma Dilma Rousseff.
O candidato Messias defende a ditadura militar porque, ali entre 1964 e 1985, os anos de chumbo brasileiros, foi, segundo o Messias, uma época gloriosa, vinte anos de glória e progresso que só pecou por torturar demais e matar de menos.
O candidato Messias declara-se racista porque os pretos não fazem nada, nem servem já para procriar.
O candidato Messias é contra a homossexualidade e afirma que preferia que um filho seu morresse num acidente do que aparecesse com um bigodudo por aí.
O candidato Messias é contra Dilma Rousseff porque não gosta dela, é feia e nem mereceria ser violada por ele.
O candidato Messias é contra a democracia porque é uma porcaria e, se fosse presidente do país, fecharia o Congresso.
O candidato Messias também disse que, se não ganhasse estas eleições, não iria aceitar o resultado.
O candidato Messias promete salários mais baixos para as mulheres porque engravidam.
O candidato Messias tem quatro filhos e uma filha que, disse, foi uma fraquejada que teve.
E eu vi. Eu também vi. No dia seguinte às manifestações contra Jair Messias Bolsonaro, as projecções das sondagens davam-lhe uma grande subida nas intenções de voto, sendo o candidato mais votado na primeira volta e em empate técnico com o candidato Fernando Haddad na segunda.
O que eu não vi foi o candidato Messias afastado da corrida presidencial pelas bárbaras e criminosas afirmações proferidas.
Eu vejo que o Brasil está doente.
A Europa está doente.
O mundo está doente.
Mas eu já vi o que o Homem pode fazer por outro Homem.
Eu já vi o que as mulheres podem fazer.
Eu vi as mulheres na rua.
Eu vi a força das mulheres quando saíram à rua
Eu sei que elas vão tomar o seu destino nas mãos e empurrar o demónio para o seu buraco.
Eu fumo um cigarro. Estou nervoso. Estou a assistir à História ao vivo. Às transformações da História.
Só espero que as transformações sejam para o melhor. Para o melhor da humanidade.
Espero ter cigarros suficientes.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/02]

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A Culpa

Lembro-me de quando casámos. Uma cerimónia simples e íntima. Só para alguns amigos mais próximos, e para a família mais chegada, aquela com que contactávamos no dia-a-dia. Aquela família de que podia dizer que eram amigos, também.
Foi um casamento de igreja, mas numa capela, também ela pequena. E a recepção foi num hotel e foi basicamente um almoço tardio. Acabou rápido e rapidamente cada um de nós voltou às suas vidas. Eu com ela, pela primeira vez. Mas ao contrário dos outros, nós não fomos para casa, a nossa primeira casa. Fomos de lua-de-mel. Nada de chique nem exótico, cinco dias num hotel de cinco estrelas no Algarve, em época baixa, mas mesmo assim, passámos a maior parte do tempo na praia.
Lembro-me que tivemos sexo. Algum sexo. Não seria uma lua-de-mel sem essa experiência corporal de nos tocarmos e atingirmos o nirvana através do orgasmo debaixo da instituição do casamento. Ela mais que eu.
E lembro-me que foi o suficiente. Foi tiro certeiro. Ela engravidou. De gémeos. Um casalinho. Eu tinha a minha vida feita. E depois disso, nunca mais a procurei sexualmente. E ela sentiu a falta.
Não faltou muito para ela perceber que os meus desejos eram outros. Mas nunca me disse nada. Os nossos filhos tinham pai e mãe, e isso era-lhe suficiente.
Mas as crianças começaram a crescer. A necessidade que tinham dela começou a diminuir e o tempo livre que passou a ter começou a fazê-la perceber que a sua vida não estava preenchida. E então, começou a ter amantes. Vários. Coisas puramente sexuais. Mas voltava sempre para casa. Até que um dia não voltou.
Um dia apaixonou-se por alguém que lhe deu atenção. Atenção enquanto mulher. Mãe, já era. Mulher, também passou a ser.
Mas o mais difícil não foi para mim, foi para ela. É claro que íamos acabar em divórcio. Mas ela não queria ser a mulher adúltera, a mulher que engana o marido, a mulher infiel.
E eu estava disposto a assumir a culpa. Pela ausência. Pela falta de desejo. Por todas as falhas que sentia existirem.
Mas não precisámos de chegar a isso.
Um dia foi morta pelo amante. Ele achava que ao trair-me, ela estava a dizer-lhe que a traição era banal e que também o podia vir a trair a ele. E de mulher, ela passou a ser a infiel, a traidora, a adúltera. E uma vez adúltera, adúltera para sempre. E um dia, no calor de uma discussão mais acesa, espetou-lhe uma faca na barriga e deixou-a a agonizar no quarto de hotel até morrer.
Nesse dia eu morri também um pouco. Amava-a. À minha maneira, eu amava-a. E não descansei enquanto não coloquei o amante na cadeia. Não fiz nenhuma asneira, nada de que me viesse a arrepender. Não. Quis que ele fosse preso.
E agora, todos os anos, no aniversário da morte da minha mulher, vou visitar o amante assassino à cadeia e todas as vezes lhe digo o mesmo Podias estar nos braços de um anjo e acabaste nos braços de um brutamontes. E vou embora.
Não quero pensar no dia em que ele será libertado.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/25]