Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Aniversário

sim, lembro-me que era uma quinta-feira, uma quinta-feira como hoje, como hoje não que não chovia e hoje chove e agora mesmo caiu uma forte carga d’água, estava sol mas se calhar não estava e estas memórias já são falsas, mas era fim-de-dia, acho que era, ouvi-te chorar e sorri, ainda sabia sorrir então, sim ainda sabia sorrir e ainda não tinha sentido o medo e a mágoa que se lhe seguiu, por isso sim, era um dia assim quase como o de hoje, mas sem chuva, e eu sorria, como sorrio agora ao lembrar, ao ouvir-te chorar, e fazias uma cara tão feia a chorar, acho que fazias, mas não eras feio, só fazias uma cara feia a chorar e foi por isso, foi talvez por isso que paraste de chorar, para que não fizesses mais uma cara feia a chorar, e eu ainda sorri mais porque paraste de chorar e também sorriste como deves fazer hoje, pelo menos é o que eu acho que fazes, sorris, talvez, no dia de hoje como fizeste naquela quinta-feira que lembro, pelo menos acho que lembro, que te vi sorrir para mim assim como eu sorria para ti

[escrito directamente no facebook em 2019/11/07]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão espremido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

O Domingo Tornou-se um Bom Dia

Estou em casa e olho para ela. Ela ignora-me. Já não nos falamos. Há dois meses que não nos falamos. Isso tem evitado que nos matemos um ao outro. Porque os olhares, os olhares disparam balas certeiras que nos fere mas não nos mata. Ainda estamos vivos. Ainda.
Mas hoje ouvi umas notícias.
Estou em casa e olho-a. Ela ignora-me mas eu não consigo não olhar para ela.
Hoje ouvi que a autora de um livro policial intitulado Como Matar o Seu Marido, Nancy Crampton Brophy, foi presa acusada de ter matado o próprio marido. Aparentemente ele foi morto exactamente como a esposa-escritora descreveu no seu livro best-seller.
Ela está a arranjar uma sandes de fiambre com manteiga. Bebe um copo de leite frio.
Eu não consigo beber leite. Acho que, com os anos, tenho-me tornado intolerante à lactose. Mas só do leite porque, estranhamente, tenho continuado a comer queijo sem problemas. Então, larguei o leite e comecei a beber vinho tinto a acompanhar o queijo.
Abro uma garrafa de vinho tinto. Adega Cooperativa de Portalegre.
Enquanto abro a garrafa, continuo a olhar para ela. Ela sai da cozinha a trincar a sandes de fiambre com manteiga sem olhar para mim. Sem levar um guardanapo. A espalhar migalhas. Cabra!
Fico na cozinha a beber o copo de vinho, encostado à bancada, e penso na outra notícia.
Uma mulher matou o marido com ajuda do amante. Mataram-no em casa e despejaram-no a cento e trinta quilómetros de casa. Mas morto com um tiro de pistola de uma arma registada pelo amante da mulher e o corpo enrolado num tapete da própria casa.
Abano a cabeça. As pessoas são idiotas.
Não, não tenho ideias parvas.
Não há crimes perfeitos. Leio livros há muito tempo. Vejo filmes à tempo demais para não saber que é assim.
Vamos continuar a não nos falarmos. Ela vai olhar para mim e eu vou ignorá-la. Eu vou olhar para ela e ela vai ignorar-me.
A casa é pequena. Não temos como nos evitar. Mas sabemos que vamos continuar assim. A olhar. Sem falar. A ignorar. E a foder uma vez por semana. Ao Domingo. Hoje.
Vou acabar o copo de vinho tinto e tomar um duche.
Quero estar bem-cheiroso. Mas é por mim, não para ela. Não a suporto. Mas gosto de estar bem-cheiroso quando ela se coloca em cima de mim. E se esfrega. E deixa cair a cabeça sobre o meu pescoço. E diz o quanto me odeia enquanto me beija. Não fala comigo. Fala com ela própria.
O Domingo tornou-se um bom dia.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/30]

Hipnotizado pela Velocidade

O tipo estava à minha frente a estender-me o passa-montanhas. Toma, disse. Vais precisar. Vou precisar?, pensei. Vou precisar para quê? Vamos até à Serra da Estrela?, perguntei-lhe. O tipo sorriu e depois largou uma pequena gargalhada sonora. Deu-me uma pancada nas costas e entrou para dentro do carro. Eu entrei para o outro lado.
Há muito tempo que não saía de casa. Há muito tempo que esta depressão não me deixava levantar da cama. Muita gente tentou lá ir buscar-me. Mas era difícil levantar-me. Sair. Ver gente.
Este tipo não me deu hipótese. Já não o via desde que fizemos a tropa juntos. Fomos próximos. Fumámos umas ganzas. Aturámos bebedeiras um ao outro. Fomos às putas juntos. Depois, e no fim do serviço militar, cada um foi à sua vida e desencontrámo-nos. Hoje apareceu aqui à entrada de casa. Agarrou em mim e levou-me a beber café. E depois disse que precisava de mim. Acho que deve estar separado. Soube que tinha sido pai há pouco tempo. As coisas devem ter dado errado.
Dei por mim no carro dele a acelerar na auto-estrada. Ia a 180kh. Eu estava colado ao banco. Não conseguia sequer falar. Ainda ensaiei abrir a boca, mexi-a, mas não saiu qualquer som. Não consegui dizer nada. Estava hipnotizado pela velocidade. Mas íamos para sul, não para norte.
Não sei o que se passou no entretanto, que deixei de estar presente. Desapareci da viagem. Adormeci. Quando abri os olhos o tipo estava a parar o carro na berma da estrada junto a um mato, um pinhal. Assustei-me. E ele disse Vamos, e saiu do carro. E eu saí também. Com medo.
Saí e deparei-me com uma série de carros ali parados e um monte de tipos acabados de sair de um ginásio, cheios de bíceps enfolados e t-shirts de número abaixo a dar dimensão aos corpos. Achei-me no meio da testosterona. De repente senti-me excitado com tanto macho alfa. Que merda se passa comigo?
Começaram todos a andar muito depressa ao longo da estrada. O tipo que eu conhecia fez-me sinal com a cabeça para o seguir. Agarrou no passa-montanhas e disse-me Coloca-o. E eu assim fiz. Coloquei-o na cabeça. Como ele.
Descobri-me frente a uma entrada campestre onde estava escrito Academia Sporting. Porra! Onde é que eu estou?, pensei. E vi-me a correr, no meio de cinquenta tipos, cheios de tesão, com ferros e cacetetes nas mãos, a correr espaço adentro, a bater em toda a gente que apareceu à frente, e entrar por uns balneários onde dei comigo frente-a-frente com o Jorge Jesus.
Fiquei paralisado. Estava frente a Jorge Jesus e não conseguia reagir. Não conseguia falar. Não conseguia dizer nada. Ele parecia assustado comigo e, de repente, lembrei-me: a máscara. Estou com o passa-montanhas na cabeça. Comecei a tirar o passa-montanhas quando um tipo apareceu por trás de mim e mandou uma cabeçada no nariz do Jorge Jesus. Ele vacilou, mas não caiu. Ficou um bocado atordoado. Fechou os olhos. Ouvi-lhe um pequeno queixume.
Eu fiquei ali parado, com a mão no passa-montanhas mas sem o conseguir tirar, a olhar para Jorge Jesus e ver o sangue a jorrar do seu nariz. E um silêncio ensurdecedor. Parecia que estávamos sozinhos no mundo. Eu e ele. Estávamos sós, frente-a-frente, sozinhos no mundo. Não se ouvia nada. Não se ouvia uma mosca. Não ouvia a minha respiração. E só pensava nos campeonatos que ele dera ao Benfica.
E, de repente, o jorro de um barulho caótico, de gritos, choros, berros. Muitas asneiras, queixas, palavras de ordem, insultos e muita agressividade. E o tipo que eu conhecia a agarrar-me o braço e a dizer-me Embora! Vamos embora!
E eu fui. Sem saber muito bem o que é que tinha acontecido. Sem saber para onde é que ia. Mas fui. A correr atrás dos outros. Não sabia bem para onde.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/15]

Preciso de Ver o Brilho do Mundo

Recomeçou a chover.
Desde que saí de casa, hoje de manhã, já é a terceira vez que chove. Ainda não tinha secado o corpo da última chuvada, quando esta apareceu.
Não que me preocupe. A chuva. A possível constipação. É só que me chateia o peso da roupa encharcada em cima de mim.
Vou a subir a montanha. Quero chegar lá acima. Quero chegar lá acima e poder dizer adeus ao vasto horizonte que vou ver.
Não quero partir assim, fechado em casa, às escuras, sozinho, sem conseguir perceber o que vou perder.
Quero dizer, eu sei o que vou perder, também não é muito, é verdade, mas é alguma coisa e eu sei-o. É mais o olhar. Preciso de ver o brilho do mundo. Preciso de ver as luzes. Sentir que vou cá deixar gente. Que vou cá deixar mundo. Que o mundo vai continuar a existir.
Parou a chuva. Mas estou todo molhado. E ainda falta muito para lá chegar acima.
Só espero que esta caminhada toda não me faça mudar de ideias. Só espero que todo este caminho não seja uma maneira de adiar o que não quero adiar.
Deixei tudo lá em baixo. As chaves. A carteira. A bomba da asma.
Deixei a família e os amigos.
Estou cansado. Estou cansado e molhado. Mas quero chegar lá acima e poder olhar o mundo. E dizer-lhe adeus antes de partir. É importante dizer adeus. Mesmo que à distância.
Estou a ficar com fome. E não trouxe nada para comer. Esperava que fosse tudo mais rápido. Mas acho que sou eu. Sou eu que estou a engonhar. A tentar resistir.
Também bebia um vinho. E fumava um cigarro. Mas é melhor parar com estas vontades de merda se não, ainda volto para trás. E eu não quero voltar para trás.
Pois não? Não quero voltar para trás, pois não? Não quero!
Então porque é que estou parado? Estou à espera da próxima chuvada? Estou à espera de me encharcar mais?
Não, vou continuar a subir.
E se descesse? E se fosse beber um copo de vinho tinto?
Mas, sozinho?
Já fumava um cigarro. Estou sem a bomba, mas já fumava um cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/28]

Um Jantar Caseiro numa Sexta-feira 13

É Sexta-feira.
Normalmente é dia de sair com amigos (e são incontáveis, os dias, e foram incontáveis, os amigos).
Normalmente são dias em que janto fora de casa com os amigos (e quantos foram os jantares que já lhes perdi a conta e as contas).
Mas hoje jantei em casa.
Jantei em casa. Não na minha, que não tenho. Mas em casa. Em casa de alguém que tem casa e gosta de a partilhar.
Comi comida confeccionada em casa, como se fosse um banquete de amigos num restaurante cinco estrelas onde os amigos se reúnem debaixo de um prazer colectivo: o prazer único pela comida e pela conversa. Nada de muito especial. Nada de muito refinado. Nada de gourmet (palavra tão sem sentido como gomas de coca-cola).
Mas em casa.
Comida feita em casa. Com coisas encontradas em prateleiras e gavetas e armários da casa. Como o frasco das pimentas (de diversas estirpes), todas misturadas à mão, abertas de uma caixa merdosa de plástico frágil, e passadas para uma embalagem de plástico mais grosso e com ar mais… Mais fixe!, e que fica bem plantado na mesa onde se come.
Serviram-me bifanas fininhas estaladiças, com partes encarnadas, tostadas, apelativas como um pitéu sul-coreano (ainda tenho memória da Expo94 que faz 20 anos), acompanhadas de legumes salteados mas não muito fininhos, daqueles que mal se percebe o que se está a comer. Não, legumes cortados com o tamanho suficiente para se perceber o que se estava a comer e como e porquê e se deixava explodir na boca em todo o seu esplendor e sabor.
O vinho? Uma adega de Borba que estava em promoção, a 2,40€, e que soube como se fosse um Mouchão.
No final da refeição eu deveria ter avançado para a limpeza da cozinha e lavado a louça, coisa que gosto de fazer e me dá especial prazer. Mas achei mais importante vir falar das amizades construídas, não à base de, mas à volta da mesa. No final ainda irei ajudar a acabar outra dessas garrafas de promoção que caem tão bem na alma.
Sexta-feira? 13? Há dias em que são uma maravilha.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/13]

Queria Não Ser Assim como Era

Hoje chorei.
Acordei de manhã, com um fiozinho de sol a bater-me nos olhos. Ergui-me um pouco na cama, encostei-me à parede, mas não consegui levantar-me. Tinha vontade de urinar, mas não consegui sair da cama. Puxei os cobertores para cima de mim, para me tapar, só deixei de fora os olhos que viam o fiozinho de sol a dançar no interior do quarto. E comecei a chorar.
Fiquei encostado à parede, com os cobertores sobre mim, a chorar. Chorei muito. Parecia ter em mim uma dor enorme, não tangível, mas que me angustiava e me fazia chorar. Abri muito a boca para conseguir respirar, os olhos ficaram mais pequenos, mas a enxurrada de lágrimas era cada vez mais caudalosa.
Depois solucei. E parei de chorar.
Deixei-me escorregar para dentro da cama, para debaixo dos cobertores. Estava quente.
O choro tinha-me aliviado o corpo, e sentia-me mais leve. Respirava melhor. Parecia que tinha crescido. Mas por pouco tempo.
Ouvi a campainha da porta da rua. Não me levantei. Continuei deitado. Enfiado na cama. Alheio a tudo. De olhos fechados a pensar que o mundo era aquilo ali, a minha cama quente e acolhedora, o meu quarto, dentro da minha casa, e não tinha necessidade de mais.
Tive fome. E sede. Mas não me levantei. Não conseguia. Continuava deitado. Nem me mexia. Não me virava. Continuava como estava.
O telemóvel tocou. Uma vez. Duas vezes. Não o fui atender. Depois ouvi o sinal de chegada de mensagem. E isso não me despertou qualquer vontade. Sentia-me apático. Sem vontade. Morto.
Despertei com vontade de vomitar.
Levantei-me o mais rápido que consegui e fui para a casa-de-banho. Baixei-me para a sanita e vomitei, uma espuma amarela esverdeada. Tive vários solavancos no corpo que me fizeram expelir uma data de espuma. No fim só saía um fiozinho.
Sentei-me na retrete. E deixei-me estar ali algum tempo. Comecei a arrefecer. Senti o corpo a ficar dormente. A cabeça fugia-me e queria levar-me com ela. Para a cama. Senti-me a cair. Levantei-me a custo. Puxei o autoclismo e regressei à cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores e tapei-me todo. Nem os olhos viam a luz do quarto.
Quando voltei a abrir os olhos, não via nada.
Levantei a cabeça para fora dos cobertores, mas continuei sem ver. Fiquei assim um bocado, a tentar perceber o que se passava. Os olhos habituaram-se à escuridão e comecei a distinguir sombras. Sombras familiares. Percebi onde estava.
Sentia-me angustiado. Estava com fome. E sede. Mas não conseguia levantar-me. O telefone voltou a tocar. E eu voltei a enfiar-me debaixo dos cobertores e cobri-me todo.
Não queria ouvir o telefone. Queria não estar ali. Queria não ser eu. Queria ser uma simulação de computador. Queria morrer. Queria desnascer. Queria voltar atrás e não ser assim como era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/19]

E se Fui Eu?

Acordei numa cama que não era a minha.
Não sei como é que vim aqui parar. Não me lembro da noite de ontem. A memória mais recente leva-me ao balcão do restaurante onde jantei uma omeleta de queijo. Acho que bebi um copo de vinho. E depois, está tudo em branco.
Até hoje de manhã.
Acordei numa cama que não era a minha. Estava sozinho, mas a cama estava remexida. Não estive aqui sozinho. Levantei-me. Fui à casa-de-banho urinar, lavar as mãos, a cara e os dentes. Não encontrei escova nova e usei o dedo.
Depois voltei ao quarto. Vesti os boxers e fui à aventura, descobrir onde estava. E com quem.
Desci umas escadas. Encontrei a cozinha. Fiz café. Duas torradas. Enquanto esperava, fui olhando lá para fora pela janela, para um pequeno quintal nas traseiras. Tinha três árvores, um roseiral e uma mesa de madeira com várias cadeiras. Abri a porta da rua e fiquei ali, à entrada, a beber o café e a comer as torradas.
Sai da cozinha e aventurei-me pelo resto da casa. Quando cheguei à sala fiquei petrificado. À minha frente, caída no chão, uma mulher nova, nua, com as tripas fora do corpo e um mar de sangue à sua volta. Não me contive e vomitei ali mesmo, sobre o corpo morto. Perdi as forças. As pernas cederam e caí no chão. Voltei a vomitar.
Com dificuldade, consegui arrastar-me para fora da sala e fugir daquela visão.
Voltei à cozinha. Abri a torneira do lava-loiças e enfiei lá a boca. E lavei-a. Lavei as mãos. A cara. A cabeça.
Subi ao primeiro andar e peguei no telemóvel. Comecei a marcar o número das emergências. Mas parei. O que é que estou a fazer?, pensei.
Vesti-me rapidamente e saí da casa a correr.
Quando estava a sair pelo portão de entrada pensei que não valia a pena fugir. Eu estava por toda a casa. Nunca conseguiria não ter estado ali. O medo e o desespero transformaram-se em frustração. Um peso enorme tombou-me sobre os ombros, deixei-me cair e sentei-me no lancil do passeio frente ao portão de entrada. E se fui eu?, pensei. As minhas mão tremiam.
Peguei outra vez no telemóvel e, com alguma dificuldade, telefonei para as emergências.
Acendi um cigarro e fiquei ali sentado, a fumar e à espera da polícia. Fumei os cigarros todos que ainda tinha. E pus-me a rezar para que não tivesse sido eu. E foi com alguma admiração que descobri que ainda sabia rezar.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/16]