Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

O Dia em que o Pingo Doce Acabou com a Passagem de Modelos

A velha saía todos os dias de casa. De manhã. Pela fresquinha. Para dar as suas voltas. Passear. Arejar um pouco. Nunca se afastava muito das redondezas. Tinha medo de lhe faltarem as forças. Tinha medo das pernas fraquejarem.
O mais longe que arriscava era ir até à Praça. O centro da cidade. Gostava de se sentar lá, numa das esplanadas, a olhar os miúdos e miúdas que tomaram a Praça de assalto, e lembrar o tempo em que ela também era assim. Também ela teve o cabelo comprido. Saias rodadas. Os peitos direitos. O rabo rijo. Também ela corria de um lado para o outro. E corava. E passeava de mãos dadas com os rapazes. Bom, isso não, que os tempos eram outros. As meninas não andavam por aí de mãos dadas com os rapazes. Mas podiam ter andado que daí não vinha mal nenhum ao mundo, pensava com os seus botões. Quando ia até à Praça tinha de parar várias vezes para recuperar forças e a respiração. A sorte da velha é que ainda havia alguns bancos públicos plantados ao longo do trajecto. Fazia o seu tabuleiro de xadrez. De casa em casa. Até à Praça. Bebia um carioca. Às vezes um chá. Ou um Compal. Observava a louca vida de quem não se arrasta com uma bengala. E ficava feliz. Ficava feliz por eles. E por ela. Por ainda poder ir até ali. Por não ter de ficar fechada em casa. Por não ter de ficar fechada numa casa cheia de gente como ela. De não ter de ficar presa a uma cama. Dava muitas graças por isso. Não corria. Mas ainda conseguia andar. Devagar. Devagar mas ainda chegava ao seu destino.
Ia à Praça só de vez em quando.
Nos outros dias saía de casa e andava ali à volta. Ia aos correios. À farmácia. Ao supermercado. À loja dos chineses – gostava de ver toda aquela confusão de bric-a-brac. Ao quiosque dos jornais. Fazia o Euromilhões. Às vezes comprava uma raspadinha. Dizia que tinha tido muita sorte no amor. E agora o jogo não queria nada com ela. Nunca ganhou nenhum prémio de jeito. Às vezes ganhava um euro ou dois nas raspadinhas. Dava para se ir mantendo no jogo. Depois ia a um café. A outro. Conhecia as empregadas. Quando estava dois ou três dias sem aparecer, perguntavam-lhe logo se tinha estado doente. Ela queixava-se logo do tempo. Do frio. Das dores nas costas. Da dificuldade em calçar as botas. Desistia de sair. Fica para amanhã, pensava.
Mas onde ela ia mais vezes, de manhã e à tarde, e onde gostava mais de ir, era ao Pingo Doce ver as Passagens de Modelos, como ele lhe chamava. Ia ao Pingo Doce, que à entrada tinha uma pequena pastelaria, com umas cadeiras de plástico, e ela sentava-se lá, ela e os outros velhos, a beberem um café, um garoto, um chá, comiam um folhado misto, um Pastel de Nata, um Croissant e conversavam, conversavam e olhavam. Muito gostavam eles de olhar quem entrava e saía do supermercado. Havia sempre muita gente nova por ali. Gente que descia das escolas para comprar um almoço mais leve, ou um pedaço de frango assado, uma fruta, chocolates e latas de Coca-Cola. O que aquela juventude consumia de chocolates e latas de Coca-Cola, dizia. Diziam. Uns aos outros. E depois lembravam o passado. No tempo deles não era assim. Infelizmente. Que também gostariam de ter bebido Coca-Cola. E comido um chocolate. Daqueles com coisas lá dentro. Passas. Avelãs. Nougat.
Havia sempre gente conhecida no Pingo Doce. Estavam lá sentados à espera uns dos outros. Ou passavam. Às vezes por acaso. Viam-se amigos que já se julgavam mortos. Ou a viverem em lares. Mas não. Andavam por ali, também. Como eles. E era mais um para o grupo. Contavam histórias. Riam. Viam quem passava. Faziam as compras para o almoço. Uma couve portuguesa. Umas tranches de Salmão. Umas cavalas. Tomates. Uma melancia. A quantidade de melancia que aqueles velhos consumiam no Verão. Os empregados cortavam-nas às metades e assim não as deixavam estragar em casa. Meia melancia para cada um deles era uma delícia que escorregava garganta abaixo.
Um dia o Pingo Doce fechou. Para obras. É verdade que já precisava. Era o único supermercado ali, naquela zona baixa da cidade. Durou uma semana. E durante uma semana, a velha e os velhos, esperaram. Esperaram para se voltarem a encontrar. Mas esperaram em vão.
O Pingo Doce não é a Santa Casa da Misericórdia e, vai daí, as obras alteraram profundamente a estrutura do espaço e, por arrasto, a vida daqueles velhos.
Os lineares deixaram de ser cortados a meio e, agora, são corredores enormes que os velho têm dificuldade em percorrer até ao fundo. Mudaram o local de alguns dos produtos. E é vê-los, perdidos, à procura, nem sabem bem do quê, mas que costumava estar ali. Ali naquela prateleira. E agora perdi-lhe o rasto. Já nem sei o que é que queria, dizia a velha.
Mas o pior, o pior foi que retiraram a pastelaria da entrada. Levaram a pastelaria para o interior do supermercado. Retiraram as cadeiras de plástico. E as mesas. Agora o Pingo Doce é um supermercado moderno e tem mesas redondas altas e sem bancos, para os jovens encostarem os cotovelos enquanto puxam os cabelos para trás. E os velhos? Os velhos não conseguem estar em pé. Os velhos estão cansados e precisam de descansar quando vão às compras ao supermercado. E chove. E faz calor. E precisam de esperar. Sentados. E dar dois dedos de conversa. E ver os miúdos. E as miúdas. Os jovens que são o que eles já foram.
Os velhos perderam o seu pouso. O supermercado ignorou uma das faixas principais dos seus clientes. Agora os velhos distribuem-se pelos vários cafés da zona. Alguns até têm grandes montras por onde podem olhar para a rua. Mas não é a mesma coisa. Agora já não há Passagem de Modelos. Agora já não estão todos juntos na galhofa. Agora já não encontram tantos amigos no jogo do acaso.
A velha continua a sair de casa todos os dias. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/22]