Matar Saudades

Passeio de braço dado com a minha mãe. Ou melhor, eu levo as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga coçadas e ela tem a mão dela agarrada ao meu braço, e como que é puxada por mim, mas não a puxo, deixo-a ir à velocidade dela, devagar, muito devagar, com a bengala a servir de apoio, depois pára, cumprimenta alguém, há sempre alguém para cumprimentar, mas à distância, sempre à distância, levanta o braço, Olá! Boa tarde!, como se já não visse os seus conhecidos há uma eternidade. E é! Na sua contagem, é uma eternidade o tempo que tem estado em casa, a ver a vida a fugir-lhe, o tempo a encurtar, conta os anos, os aniversários que faz, almoçamos juntos no dia de anos e diz Que para o ano aqui possamos estar outra vez! E vamos estando, mal ou bem vamos estando por aqui e talvez consigamos chegar a outro aniversário. Já não falta muito! Pois não, mãe, já não falta muito.
Passeamos ali à volta da casa dela. Olha as montras. Conta-me histórias. Histórias que já ouvi tantas vezes. Outras são novas. Não sei se são histórias reais ou se as inventa. Mas ouço-a. Às vezes respondo-lhe. Mas eu estou ali para a ouvir falar, não para comentar. Passeamos pela cidade. Eu à velocidade dela, pela cidade quase-deserta e sinto-lhe uma certa tristeza no olhar. O vazio incomoda-a. Gosta de ver gente. De ver gente nova a andar sempre atrasada pelas ruas da cidade.
Recordo quando era ela que me levava. Mãos-dadas. O meu braço esticado. Puxado pela sua velocidade. Naquele tempo era ela que andava depressa. Às vezes tinha de correr. Correr para acompanhar o passo decidido da minha mãe.
Recordo um dia na praça da Nazaré, eu e a minha mãe de mãos-dadas a caminho da praia. Eu estava chocho. Estás a chocar alguma, dizia-me a minha mãe. Parávamos no quiosque a meio da praça e eu escolhia umas bandas-desenhadas. Na altura eram só histórias aos quadradinhos. O Fantasma. O Mandrake. O Buffalo Bill. Histórias do FBI. Histórias do Faroeste. E naquele dia estava chocho e acabámos por regressar a casa. Eu fui-me deitar na cama. Veio o médico. Estava doente. E fiquei de cama durante muito tempo. Mas as revistas foram sempre chegando. Já não era eu que as escolhia, era a minha mãe. Talvez o meu pai. Devorava-as todas. Mais que uma vez. Fiquei muito tempo em casa naquela altura. Lembro-me da saturação. O estar farto, mesmo com tantas histórias aos quadradinhos para ler. Mas já não saía com a minha mãe. Já não andava na rua de mãos-dadas com a minha mãe. Já não corria. Já não via pessoas. Já não ouvia o barulho ensurdecedor da cidade a pulsar.
Percebo como a minha mãe está saturada de estar em casa. Sozinha em casa. E os cuidados que lhe estou sempre a recomendar. Mas acho que tenho de alargar o cordão sanitário à sua volta.
Vamos passear, mãe. Vamos à rua. Vamos passear pela cidade. Ver as montras. Ver pessoas. Dizer olá às pessoas conhecidas. Contares-me as mesmas histórias de sempre. Ou outras que te lembres. Ainda te levo à padaria para comprar pão. Talvez uma broa de milho. Ao talho para comprares umas iscas de vaca de que tens saudades. Talvez à peixaria para ver se compras uns jaquinzinhos, não é mãe? Ou umas petingas. Temos de matar saudades de tudo o que temos saudade, não é mãe?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/24]

As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Os Almoços com a Minha Mãe

Não era só aos Domingos. Nem era sempre aos Domingos. Mas era muitas vezes aos Domingos. Eu telefonava de véspera à minha mãe e dizia-lhe que a ia buscar no dia seguinte para irmos almoçar fora. Ela gostava de almoçar fora. E gostava muito mais ainda de almoçar fora comigo. Gostava de se amparar no meu braço, como fazia com o meu pai. E depois dizia às moças dos restaurantes que eu era o namorado dela. É bonito, não é? perguntava às moças, que riam, e eu corava de vergonha e dizia baixinho Oh, mãe!
Às vezes ia com ela à Barosa e partilhávamos uma picanha. Uma dose de picanha vinha com quatro fatias jeitosas de picanha, batata-frita, arroz branco, feijão preto e uma salada de tomate, a que a minha mãe acrescentava sempre o pedido de Um bocadinho de alface, se faz favor! Uma dose de picanha, que era para uma pessoa, chegava para nós os dois. Às vezes a minha mãe ainda conseguia levar uma fatia de picanha para o jantar. Ali, na Barosa, mas não só, também à volta da cidade era assim, em quase todo o lado ali à volta, as doses eram cavalares e enfartavam brutos.
Nesses dias em que almoçávamos no D. Duarte, na Barosa, sentados frente-a-frente, eu bebia uma imperial e ela bebia um panaché. Comíamos uns bocadinhos de pão tostado com pasta de atum enquanto esperávamos pela picanha, que demorava sempre mais que o franguinho que estava sempre a sair porque também vendiam para fora e era uma fila que se juntava ali no parque de estacionamento a partir das onze da manhã que quem não conhecesse o local julgava tratar-se da missa das onze.
Nunca fazia reserva de mesa. E, no entanto, a partir do meio-dia já era difícil arranjar. Ao meio-dia já havia gente a almoçar. As mesas das duas salas ou estavam ocupadas ou reservadas, com as mesmas mesas reservadas para horas diferentes e lá tinha eu de fazer o choradinho, Só para duas pessoas, somos rápidos, e a mesa a ser desencantada com um passe de mágica, junto à enorme janela que dava para o campo e que a minha mãe se arregalava de olhar. Principalmente em dias de chuva Chove, chove que é necessário, coitadas das hortaliças.
Enquanto trincávamos os pedacinhos de pão tostado com pasta de atum e azeitonas banhadas em azeite e alho, eu despejava a imperial e pedia outra e ela dizia Mas será que é possível? Já bebeste tudo? Não sei a quem sais! A mim não é, de certeza! E ao teu pai também não que ele não era muito de beber. E depois contava-me as peripécias da semana. O que se passava na novela que andava a ver, mas andava a ver sem grande entusiasmo que os actores eram sempre os mesmos e as histórias também. Que se deitava cedo porque tinha frio e na cama estava mais quentinha principalmente porque encontrara o cobertor castanho, grosso e muito fofinho que já não se lembrava onde é que o tinha guardado. Ou que se levantara a meio da noite para ir à casa-de-banho e acabou a sentar-se um pouco à janela a ver quem passava lá em baixo, na rua, sob as iluminações de Natal Tão bonitas, este ano, devias ver! e eu a acenar a cabeça, sim-sim, enquanto empinava a segunda imperial debaixo do olhar reprovador que me lançava.
Vinha a picanha. Eu servia um prato. Cortava a picanha aos bocadinhos. Ela dizia para deixar a gordura, se ela fosse fininha, que gostava do sabor da gordura e sim, era fininha e eu deixava a gordura nos pedaços de picanha que ela comia devagar e cheia de prazer. Tínhamos duas fatias para cada um. Às vezes ela só comia uma fatia e levava a outra para casa e dizia Assim já tenho jantar! e assim já tinha jantar, cortava a fatia também aos pedaços, punha dentro de uma carcaça, acompanhava com um copo de vinho tinto e ficava satisfeita e pronta para voltar à sua dieta semanal de peixe, principalmente cozido.
Por vezes, a meio do almoço, lembrava-se de algo e dizia-me para que eu me lembrasse mais tarde Lembra-te quando lá fores a casa, abre-me a garrafa de vinho que eu não consigo, e eu dizia Sim, mãe, mas esquecia-me que a minha cabeça estava pior que a dela, mas invariavelmente ela acabava por se lembrar quando eu lá estivesse em casa e pedir-me-ia que abrisse a garrafa.
Depois perguntava-lhe se queria sobremesa mas já sabia a resposta Não me apetece doces. E tenho fruta em casa, e então eu pedia um café para mim, um carioca para ela, que o descafeinado deixava-a maldisposta e eu ainda lhe perguntava, a brincar, se ela queria uma aguardente ao qual ela me respondia Queres ver-me a dançar a valsa, é? e ria-se da sua resposta ao meu atrevimento.
No fim de almoço levava-a a casa. Normalmente levava-a por um caminho mais comprido para que visse as alterações da cidade e para que se recordasse do que era e como está. Ela ia descansar um pouco. Sentar-se no sofá, se calhar adormecer e passar pelas brasas frente a qualquer filme de acção que ela gostava de ver e que ia vendo aos pedaços que não se preocupava muito se perdia o fio à narrativa, o que ela gostava mesmo de ver eram as cenas de acção, principalmente se fossem com o Jackie Chan com quem, dizia, Farto-me de rir!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/01]

Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

O Dia em que o Pingo Doce Acabou com a Passagem de Modelos

A velha saía todos os dias de casa. De manhã. Pela fresquinha. Para dar as suas voltas. Passear. Arejar um pouco. Nunca se afastava muito das redondezas. Tinha medo de lhe faltarem as forças. Tinha medo das pernas fraquejarem.
O mais longe que arriscava era ir até à Praça. O centro da cidade. Gostava de se sentar lá, numa das esplanadas, a olhar os miúdos e miúdas que tomaram a Praça de assalto, e lembrar o tempo em que ela também era assim. Também ela teve o cabelo comprido. Saias rodadas. Os peitos direitos. O rabo rijo. Também ela corria de um lado para o outro. E corava. E passeava de mãos dadas com os rapazes. Bom, isso não, que os tempos eram outros. As meninas não andavam por aí de mãos dadas com os rapazes. Mas podiam ter andado que daí não vinha mal nenhum ao mundo, pensava com os seus botões. Quando ia até à Praça tinha de parar várias vezes para recuperar forças e a respiração. A sorte da velha é que ainda havia alguns bancos públicos plantados ao longo do trajecto. Fazia o seu tabuleiro de xadrez. De casa em casa. Até à Praça. Bebia um carioca. Às vezes um chá. Ou um Compal. Observava a louca vida de quem não se arrasta com uma bengala. E ficava feliz. Ficava feliz por eles. E por ela. Por ainda poder ir até ali. Por não ter de ficar fechada em casa. Por não ter de ficar fechada numa casa cheia de gente como ela. De não ter de ficar presa a uma cama. Dava muitas graças por isso. Não corria. Mas ainda conseguia andar. Devagar. Devagar mas ainda chegava ao seu destino.
Ia à Praça só de vez em quando.
Nos outros dias saía de casa e andava ali à volta. Ia aos correios. À farmácia. Ao supermercado. À loja dos chineses – gostava de ver toda aquela confusão de bric-a-brac. Ao quiosque dos jornais. Fazia o Euromilhões. Às vezes comprava uma raspadinha. Dizia que tinha tido muita sorte no amor. E agora o jogo não queria nada com ela. Nunca ganhou nenhum prémio de jeito. Às vezes ganhava um euro ou dois nas raspadinhas. Dava para se ir mantendo no jogo. Depois ia a um café. A outro. Conhecia as empregadas. Quando estava dois ou três dias sem aparecer, perguntavam-lhe logo se tinha estado doente. Ela queixava-se logo do tempo. Do frio. Das dores nas costas. Da dificuldade em calçar as botas. Desistia de sair. Fica para amanhã, pensava.
Mas onde ela ia mais vezes, de manhã e à tarde, e onde gostava mais de ir, era ao Pingo Doce ver as Passagens de Modelos, como ele lhe chamava. Ia ao Pingo Doce, que à entrada tinha uma pequena pastelaria, com umas cadeiras de plástico, e ela sentava-se lá, ela e os outros velhos, a beberem um café, um garoto, um chá, comiam um folhado misto, um Pastel de Nata, um Croissant e conversavam, conversavam e olhavam. Muito gostavam eles de olhar quem entrava e saía do supermercado. Havia sempre muita gente nova por ali. Gente que descia das escolas para comprar um almoço mais leve, ou um pedaço de frango assado, uma fruta, chocolates e latas de Coca-Cola. O que aquela juventude consumia de chocolates e latas de Coca-Cola, dizia. Diziam. Uns aos outros. E depois lembravam o passado. No tempo deles não era assim. Infelizmente. Que também gostariam de ter bebido Coca-Cola. E comido um chocolate. Daqueles com coisas lá dentro. Passas. Avelãs. Nougat.
Havia sempre gente conhecida no Pingo Doce. Estavam lá sentados à espera uns dos outros. Ou passavam. Às vezes por acaso. Viam-se amigos que já se julgavam mortos. Ou a viverem em lares. Mas não. Andavam por ali, também. Como eles. E era mais um para o grupo. Contavam histórias. Riam. Viam quem passava. Faziam as compras para o almoço. Uma couve portuguesa. Umas tranches de Salmão. Umas cavalas. Tomates. Uma melancia. A quantidade de melancia que aqueles velhos consumiam no Verão. Os empregados cortavam-nas às metades e assim não as deixavam estragar em casa. Meia melancia para cada um deles era uma delícia que escorregava garganta abaixo.
Um dia o Pingo Doce fechou. Para obras. É verdade que já precisava. Era o único supermercado ali, naquela zona baixa da cidade. Durou uma semana. E durante uma semana, a velha e os velhos, esperaram. Esperaram para se voltarem a encontrar. Mas esperaram em vão.
O Pingo Doce não é a Santa Casa da Misericórdia e, vai daí, as obras alteraram profundamente a estrutura do espaço e, por arrasto, a vida daqueles velhos.
Os lineares deixaram de ser cortados a meio e, agora, são corredores enormes que os velho têm dificuldade em percorrer até ao fundo. Mudaram o local de alguns dos produtos. E é vê-los, perdidos, à procura, nem sabem bem do quê, mas que costumava estar ali. Ali naquela prateleira. E agora perdi-lhe o rasto. Já nem sei o que é que queria, dizia a velha.
Mas o pior, o pior foi que retiraram a pastelaria da entrada. Levaram a pastelaria para o interior do supermercado. Retiraram as cadeiras de plástico. E as mesas. Agora o Pingo Doce é um supermercado moderno e tem mesas redondas altas e sem bancos, para os jovens encostarem os cotovelos enquanto puxam os cabelos para trás. E os velhos? Os velhos não conseguem estar em pé. Os velhos estão cansados e precisam de descansar quando vão às compras ao supermercado. E chove. E faz calor. E precisam de esperar. Sentados. E dar dois dedos de conversa. E ver os miúdos. E as miúdas. Os jovens que são o que eles já foram.
Os velhos perderam o seu pouso. O supermercado ignorou uma das faixas principais dos seus clientes. Agora os velhos distribuem-se pelos vários cafés da zona. Alguns até têm grandes montras por onde podem olhar para a rua. Mas não é a mesma coisa. Agora já não há Passagem de Modelos. Agora já não estão todos juntos na galhofa. Agora já não encontram tantos amigos no jogo do acaso.
A velha continua a sair de casa todos os dias. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/22]