Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Não Tenho Medo de Morrer

Não tenho medo de morrer.
Tenho medo da doença, da deficiência, da incapacidade. Tenho medo da consciência da morte. Tenho medo de ficar ainda mais dependente, do que já sou, dos outros.
Não tenho medo de morrer.
Tenho medo do medo das pessoas que me são queridas. Tenho medo de filho e de pai. Tenho medo de amante e de amado. Tenho medo de amigos, alguns, os que trago aqui no peito, os que não são sangue mas são alma.
Mas não tenho medo de morrer.
A minha vida já vai longa. Acho que vivi uma boa vida. Pode não ter sido a melhor das vidas, mas foi a vida que consegui viver da forma que quis e me foi possível. E tenho gostado da vida que fui vivendo. Se pudesse voltar atrás acho que poderia repetir quase tudo. Quase tudo. E quase tudo diz muito sobre a vida que vivi.
Por isso não tenho medo de morrer.
O que se está a passar agora no mundo assusta-me, mas não me faz temer a morte. Faz-me ter medo pelos outros, os que ainda têm tanto para viver, os que ainda não puderam viver o que eu já vivi. Os que ainda acalentam planos para o futuro e têm esperança.
Eu não tenho medo de morrer.
Tenho mais medo dos caminhos que escolhemos e que nos trouxeram até aqui. Não todos os caminhos, mas muitos deles. Alguns caminhos que fomos percorrendo nestes últimos tempos são caminhos de cabras em direcção a sítio nenhum que não o lucro pessoal de meia-dúzia de gente egoísta.
Temo pela falta de memória e desconhecimento da História. Temo pela verdade escondida e pela mentira gritada alto para se fazer ouvir como a única verdade. Temo pela mentirosa falta de alternativas. Temo pela falta de líderes capazes e pela glorificação de bestas inúteis e mesquinhas. Temo pela ignorância geral. Pela falta de lucidez. Pelo não querer saber. Pelo fechar de olhos.
Eu não tenho medo de morrer.
Acho que está na hora de mudarmos de vida. Chegámos do nada a isto. Ainda temos de ir de isto ao futuro. A História não chegou ao fim e este neo-liberalismo canibal não pode ser, não é, o único caminho. O Homem tem de ser o centro da vida, como o está, parece, a ser agora. Ou quase.
O que a vida me ensinou é que há sempre alternativa. Há sempre outro caminho. Mesmo quando achamos que não. Mesmo quando todos nos gritam que não existe. Porque existe. E a História tem demonstrado que há sempre outra escolha.
Eu vejo-os já a fazer contas. E estarão certas as contas, com toda a certeza. Eles são economistas, gestores, matemáticos, professores. As contas estão certas. Nem ponho em causa os seus resultados. Os elementos da equação é que talvez sejam os errados. Os elementos da equação é que talvez sejam outros. Talvez devam ser outros.
Penso sempre numa prova de 100m, cujo recorde está constantemente a ser quebrado nos Jogos Olímpicos ou em cada novo campeonato do mundo. É a superação pessoal e humana de corrida para corrida. E imagino que mantendo esta progressão de quebra de recordes, chegaria o dia em que o atleta cruzaria a meta no momento da partida. Ora, isso não é possível. Há um espaço a percorrer que não admite a ausência do tempo. O mesmo se passa com o capitalismo como o conhecemos. É uma bizarria pensar que haverá sempre um crescimento constante. Há-de chegar uma altura em que o crescimento não é mais possível porque se chegou ao limite do espaço-tempo como na prova de 100m.
Para que se encontrem novos caminhos é necessário mudar os elementos da equação. Se calhar o Homem, e não o dinheiro ou o trabalho, tem de passar a estar no centro da economia. Um Homem vale muito mais que todo o trabalho físico que conseguir produzir. Porque um Homem também é muito mais que os braços e as pernas e os turnos numa fábrica a fazer rolhas. Contar estórias ajuda a prevenir o caos, a afastar a loucura. Olhem à volta. Olhem o que está a acontecer. Reparem na importância das coisas. Vejam o valor de uma simples carcaça feita nestas condições, por quem a faz, e o que é necessário ultrapassar para a adquirir. Reparem na importância da música, do cinema, da literatura, nestes dias que correm mais devagar. Reparem na importância que, neste momento, se descobriu na calma, no lazer, no tempo. Reparem na relevância de médicos, enfermeiros, cientistas, motoristas, padeiros, merceeiros… Qual a contabilização destes factores numa equação?
Ao ver o que se passa hoje no mundo, tenho esperança que as coisas mudem. Porque no meio do caos e do terror que estamos a viver, há um humanismo e uma civilidade de que duvidava.
Claro que há bolsas de gente má, gente malformada, gente mesquinha e gananciosa, gente boçal que continua a querer colocar o pé em cima da cabeça alheia para chegar mais alto que os outros. Mas os bons, os de coração puro, os bem-intencionados e amigos dos amigos e de gente que nunca viu em lado nenhum estão em franca maioria. Não sei se é o medo da morte. Não sei se é o medo da perda de um modo de vida. Mas há vida nestes dias e nestas gentes.
Eu não tenho medo de morrer.
E estou num grupo de risco. Tenho problemas respiratórios e já estou a entrar na idade da velhice. Se for infectado pelo Covid-19, há fortes possibilidades de não conseguir sobreviver. Mas não tenho medo de morrer. Tenho pena de deixar a ausência aos meus amores. Tenho pena de deixar a solidão a quem me ama. Mas fico descansado porque acho que, talvez, talvez alguém tenha aprendido alguma coisa com estes dias e a nossa civilização possa arrepiar caminho e criar um novo paradigma mais de acordo com as esperanças da maioria. Talvez.
Eu não tenho medo de morrer. E se tal acontecer, vou de coração cheio pelo que tenho visto nos últimos dias. Dias de morte, mas também dias de enorme coragem e humanismo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/19]

A História em Directo

O tipo está sentado à minha frente. Muito lá para a frente. À frente das câmaras que filmam tudo aquilo que diz. E eu vejo. E ouço. Ouço em primeira mão as histórias de um participante na história do meu país. Estou na primeira fila, na verdade em segunda que as câmaras estão primeiro que eu, a ouvir contar a história por quem a viveu.
Por vezes faço comparações. Entre o que ouço e o que sabia. O que julgava saber. A história não tem contemplações. Foi. Aconteceu. Por vezes vivemos enganados em ideias imaginadas e difundidas por outros que ouviram as mesmas história mas contadas em segunda, terceira, quarta mão. E quem conta um conto…
Passam as horas. O tipo não pára de falar. De contar eventos. De colocar a história no seu lugar. De recolocar a história no seu caminho. De colocar os pontos nos is. Quantas histórias existem na história? Quantas histórias a história concebe? Quantas são verdade? Quantas não passam de fantasia?
Os que a vivem fazem crer nelas. E fico ali, feito parvo, a ouvir falar do meu país como se fossem histórias de um qualquer filme de Hollywood.
Há pessoas que nos adormecem. Nem sempre na melhor das camas. Há outras pessoas que nos despertam, nos fazem tomar atenção e ansiar por mais conhecimento.
A luz cai. O dia da lugar à noite. Muda-se a luz. Mas continuamos em frente. O tipo não pára. É uma metralhadora de memórias. E dispara. Dispara sem parar. Dispara recordações. Se bem me lembro…
O tempo passa. Adormeço? Talvez. Acordo noutra realidade.
Vejo a figura do Primeiro-Ministro na televisão a avisar-me da emergência. Estamos em caso de emergência mas não tanto. Há decisões a tomar mas só se tomam algumas. Talvez as mais simples. Talvez. Há algumas decisões que parecem ser tomadas já demasiado tarde. Mas estamos todos a aprender coisas novas todos os dias. Há que ouvir os técnicos. Sim, claro. Há que ouvir os técnicos. Os técnicos é que sabem. Mas as decisões são políticas. São sempre políticas. E são os políticos que têm de tomar as decisões. Não podem fugir à responsabilidade.
Estou a viver a história em directo. Mas o que me fascina mesmo é a história contada à distância. Uma história já arrefecida e percebida. Uma história que me é contada por quem a viveu. E que me parece mais real que a história que eu vivo em directo que mais me parece um sonho que tenho acordado.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/12]

A Serra Onde Eu Passeava

Naquela época, quando vim para cá viver, aos fins-de-semana pegava no carro e ia até à serra. Ia de carro até ao sopé da serra. Havia um cafezinho lá mesmo onde começava o trilho para subir a serra. Eu parava o carro debaixo de uma oliveira, para o proteger do sol, bebia um café expresso, queimado, era uma característica daquele cafezinho, tinha sempre o café queimado, fumava um cigarro à entrada, a olhar a subida que me esperava, e depois ia por ali fora, arranjava um cajado, havia sempre uns paus, uns ramos de árvore caídos, e eu aproveitava a ajuda de um qualquer cajado que me impulsionava os passos serra acima.
Levava uma garrafa de água e umas peças de fruta numa mochila às costas, uma máquina fotográfica, uns binóculos, e lá ia eu, trilho acima. Fotografava muito. Procurava identificar as aves. Tentava não me cruzar com os lobos. Sentava-me em enormes pedras a fumar um cigarro e a descansar da subida. Às vezes a minha respiração ressentia-se do esforço. Repousava um pouco. E recomeçava. Às vezes saía dos trilhos e aventurava-me pela serra dentro. Mas nunca achei que a serra fosse muito perigosa. Lá de cima via sempre casas cá em baixo. Nunca me senti isolado. Só. Nunca imaginei que poderia vir a perder-me ou outra coisa qualquer pior. Mais tarde, no entanto, vim a saber de pessoas que tinham desaparecido na serra e nunca chegaram a ser encontradas. Nem nunca apareceu nenhum corpo. É verdade que a serra estava cheia de buracos, entradas para grutas, algumas delas ainda desconhecidas e por explorar. Às vezes as rochas impediam a progressão do caminho e tinha de voltar para trás. Às vezes perdia-me naquela beleza e via a noite tombar comigo fora dos trilhos. Sempre soube regressar ao trilho, ao sopé da montanha, ao carro. Essas pessoas que desapareceram, isso só soube mais tarde. Só soube isso numa altura em que já não podíamos passear assim pela serra.
Nas primeiras décadas do novo milénio, começaram a montar turbinas eólicas ao longo do cume. O cimo da serra, outrora orgulhosamente careca e de horizonte aberto, começava a ser inundado de turbinas eólicas numa tentativa verde de prescindir dos combustíveis fósseis. Não demorou muito para que, o que começou por serem pequenos actos de vandalismo, se tornarem verdadeiros actos de terrorismo.
Logo quando montaram as primeiras turbinas, os postes onde as hélices estavam plantadas foram grafitados. Nada de novo. Tudo o que era passível de ser grafitado, era grafitado. Qualquer muro, parede, superfície em branco era um convite ao grafite selvagem. Mas logo começaram os ataques à próprias hélices. Algumas delas já tinham sido deitadas ao chão antes ainda de estarem a funcionar.
Não tardou que a serra fosse vedada. Começava logo no sopé. Umas redes impediam a progressão de quem queria subir a serra. Mas havia vários níveis de protecção. As primeiras redes ainda se conseguiam ultrapassar. Depois, lá mais para cima, vinha o arame-farpado e mais acima, as cerca electrificadas. Também havia umas guaritas, em vários pontos da serra, com guardas-florestais recuperados por causa das turbinas eólicas.
A serra que tinha sido de toda a gente, um oásis de natureza tão rico, com tantos pássaros (ainda se viam, hoje, inúmeras águias e falcões e milhafres) e alguns animais no seu estado selvagem (lobos e linces), para além de algumas árvores que já só se encontravam ali, estava agora fechada ás pessoas. Só as empresas responsáveis pelas turbinas eólicas e as autoridades florestais lá podiam entrar. No início ainda houve algumas reclamações. Mas não deram em nada. E a serra acabou numa espécie de privatização de estado.
Mesmo assim, não acabaram os atentados terroristas. Diminuíram, mas não terminaram.
Agora eu passava os fins-de-semana no alpendre aqui de casa a olhar a serra à distância e a recordar as belas tardes em que me perdia nos seus trilhos. Tenho saudades desses tempos. Do silêncio que me acompanhava lá em cima. Da solidão que me permitia estar mais em contacto comigo próprio.
E pensava se todas estas coisas valiam a pena. Perder o acesso à beleza natural do mundo para ter acesso à beleza tecnológica do mesmo mundo. É claro que com tudo isto vinha o conforto, o prazer, o descanso. O conhecimento. E isso era bom, claro que era bom. Mas, e eu? O que é que eu podia fazer agora nas minhas tardes de Sábado e Domingo, agora que não podia subir à serra e ver todas as belezas que já só há nos livros de história?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/20]

Uma História de Amor

Conheci-a no dia em que o pai morreu. Entrei no bar. Sentei-me ao balcão. Pedi um gin tónico, Pode ser Bombay, disse, e ouvi uma fungadela ao meu lado. Era ela. Estava a chorar. Ofereci-lhe um lenço. Aceitou. Depois de ter bebido o meu gin, ofereceu-me ela outro. Aceitei. Conversou comigo. Foi aí que soube que o pai tinha acabado de morrer. Estava no hospital e tinha acabado de morrer. Ela largou toda a gente no hospital o pai, a família, os amigos, o namorado e foi dar uma volta a pé pela cidade. Começou a chover. Entrou naquele bar. Bebeu um whiskey. Começou a pensar no pai. Na ausência do pai. Na falta que já sentia. Começou a chorar. E eu ofereci-lhe um lenço.
Foi nessa altura que vi como era bonita. Cabelos castanhos, nem muito escuros nem muito claros. Um pouco abaixo do ombros. Tapava-lhe o pescoço quando vista por trás, e eu sei porque vi quando fui à casa-de-banho e, ao regressar, regressei pelas costas dela.
Tinha uma voz doce, embora naquela altura estivesse um bocado amargurada. Mas percebia-se a doçura que lá estava. Era calma a falar. Mesmo no meio de toda aquela tristeza. Tinha os dedos esguios, compridos e finos, numas mãos elegantes, nem muito grandes nem muito pequenas. Eu reparei quando ela colocou a mão em cima da minha e me convidou para ir à casa dela. Eu lembrei-me dela ter mencionado um namorado. Hesitei por momentos. Mas momentos tão curtos que acho que ela nem se apercebeu da minha hesitação.
Entrei em casa dela nessa noite e nunca mais saí de lá. A partir desse dia aconteceu uma história de amor. Uma verdadeira história de amor. Como a dos romances de cordel. Eu gostava dela, ela gostava de mim e vivemos felizes para sempre. E foi mesmo isso que aconteceu. Vivemos felizes para sempre.
Estou a falar disto agora porque se acabou o Para sempre. Ela morreu. Morreu de morte natural, ao contrário do pai dela. Já estávamos velhotes. Ela e eu. Ela já foi e eu hei-de ir. Já não falta muito. Eu devia ter ido primeiro. O que é que estou aqui a fazer sem ela?
Acho que fiquei por cá para contar esta pequena história.
A nossa história começou com uma morte e acabou com outra. Primeiro o pai dela, agora ela. No meio, uma história de amor com final feliz. Mas o que ela não sabia, nunca soube, nem ninguém mais soube, foi que houve outra morte nesta história. Uma morte que só eu é que soube que acontecera. Quer dizer, toda a gente soube da morte, mas ninguém nunca soube como é que verdadeiramente morreu. Só eu. E sei porque estava lá. E fui o responsável pela morte. Pela morte do namorado dela. Para toda a gente foi um suicídio. Mas não foi.
Estávamos, eu e ela, a viver juntos já quase há um mês. O pai tinha morrido, tinham feito o funeral e a missa de sétimo dia quando, uma noite, depois de ter ido jantar um prego no pão ao balcão de uma tasca no centro da cidade, perto do sítio onde estava a trabalhar, era já tarde e resolvi comer um prego no pão antes de ir para casa, quando fui abordado por um tipo. Não o conhecia de lado nenhum. Mas ele conhecia-me. E apresentou-se. Era o namorado. O ex-namorado dela. Então primeiro apresentou-se e em seguida ameaçou-me. Que eu não sabia quem ele era, mas que não era flor que se cheirasse (palavras dele), e que sabia que ela ainda gostava dele só que estava desnorteada pela morte do pai e eu tinha ajudado a esse desnorte. O melhor a fazer era afastar-me. Eu ouvi-o. Mais por educação que por respeito. Eu nunca disse nada. Limitei-me a ouvir. No fim, quando percebi que já tinha debitado todas as ameaças para que eu enfiasse o rabo entre as pernas e saísse de casa dela, da vida dela e do amor dela, virei costas e fui para o carro. Estava ao volante do carro quando o vejo virado para mim, levar a mão à cabeça a formar um pistola e fazer um gesto com a boca que, na minha cabeça, ressoou como Bang!
Pus o carro a trabalhar. Fiquei ali uns momentos a olhar para ele com a mão em pistola na cabeça, até que começou a rir, a rir à gargalhada. Cínico. Eu meti a primeira, pisei o acelerador e arranquei com o carro para cima dele. Ao aproximar-me, guinei o volante para a direita mas, ele já se tinha assustado e tinha mandado um salto para a esquerda e acabou a pular o muro que dava para a linha do comboio que ali, naquela zona da cidade, passava desnivelado da estrada, e caiu no meio da linha no momento em que o comboio ia a passar.
Eu ainda parei o carro. Olhei para o muro. Percebi o comboio a passar. Ouvi o comboio a apitar. Percebi o comboio a travar. E fui embora. Não queria saber mais do que tinha acontecido. Talvez não tivesse acontecido nada. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Mas não queria saber. Queria apagar aqueles últimos minutos da minha cabeça. Queria esquecer. E esqueci.
Vivi… Quantos anos?… Mais de trinta anos com ela. Vivi… Vivemos uma verdadeira história de amor. Um com o outro. Eu esqueci o que tinha acontecido. O ex-namorado tinha realmente morrido na linha do comboio. Atropelado pelo comboio. Foi considerado suicídio. Por algum tempo, ela culpou-se por o ter deixado da forma que deixou. Mas passou. Tudo passa, não é?
Foi depois da morte dela que me lembrei daquela noite. Foi depois da morte que me lembrei onde estava ancorada a nossa felicidade.
É por isso que eu tenho de fazer o que vou fazer. Tenho de fechar o círculo. Espero conseguir levantar as pernas por cima do muro. É que o corpo já não me obedece como dantes.
Já vou ter contigo, meu amor.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/08]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei, outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]