Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

Lavar a Louça É Terapêutico

E o tipo, com um olhar muito sério, disse-me Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Estávamos na véspera da véspera do ano novo. Eu e um grupo de amigos tínhamos alugado uma casa em Vila Nova de Milfontes. Fomos uns dias antes. Para ir fazendo a despedida do ano. E eu já estava zangado com toda a gente, com o ano velho e com aquele que ainda não tinha chegado.
Naquela época eu zangava-me com muita facilidade. Era um rapaz muito sensível. Qualquer coisa, por mínima que fosse, mexia-me com os nervos.
Talvez por não fazer sexo. Naquela época não conseguia arranjar namoradas com facilidade. Eu era um tipo complicado. Muito chato. Picuinhas. Às vezes, até, um pouco arrogante. As namoradas não passavam dos primeiros dois ou três dias, de umas mãos dadas transpiradas e uns beijos sôfregos sem consequências. Talvez por não saber o que fazer da minha vida. Estava tentado a desistir do curso superior que frequentava mas também não sabia muito bem para onde ir. Muitos problemas. Muitas dúvidas. Muito vinho. Muita droga. Porra! que a vida juntou-se toda só para me chatear. Basicamente era assim, a minha vida. De problema em problema. E depois de explodir, depois de mandar toda a gente à merda, ficava sozinho. Curtia a minha depressão. A minha ressaca da zanga. Normalmente dava-me para lavar a loiça. E foi o que fiz depois da terrível discussão em Vila Nova de Milfontes sobre qualquer coisa de muito importante mas que já não me recordo hoje, passados todos estes anos.
Então, era véspera da véspera. Tínhamos acabado de almoçar. Saíram todos de casa, em grupo, e eu odeio grupos!, para irem beber café à rua. Eu fiquei em casa. Eu e a minha neura. Pus-me a lavar a loiça. A loiça de almoço de, quê? cerca de vinte pessoas? Talvez isso. Mais uma, menos uma. Durou uma hora. Ali, em pé, curvado sobre o lavatório da cozinha, de esponja na mão, embalagem de detergente a esguichar em abundância. Fazia muita espuma. Queria sentir a gordura a desaparecer dos pratos, das minhas mãos. Queria ver os copos brilhantes, sem dedadas nem lábios de batom ou de comida.
Quando acabei, doíam-me as costas e tinha os dedos enrugados.
Sentei-me no sofá a olhar para a televisão. Um programa de merda qualquer daqueles para matar horas e entreter os velhos. Um copo de vinho nas mãos. Um cigarro aceso. A neura estava a ir embora. Estar ali a esfregar pratos e talheres e copos e despejar os restos no caixote do lixo e apanhar todas as garrafas vazias de vidro de cerveja e de vinho espalhadas pela casa, tinha-me acalmado.
Depois de fumar o cigarro e beber o copo de vinho, fui à rua levar o lixo. Os caixotes já estavam cheios. Mandei tudo para cima do monte que já se erguia acima da boca do caixote. Pensei quando é que o lixo ia começar a cair para o chão. Vi que já havia muita gente da cidade em Milfontes. Os cabrões! E regressei a casa. Curtir a casa silenciosa e calma antes do regresso dos outros todos, a pensar que Vila Nova de Milfontes já estava a ser inundada de gentinha chata vinda da capital. Gente assim como eu, não é?
Acendi a lareira. Continuei a beber a garrafa de vinho tinto. Entre o calor da lareira e o embalo do vinho, deixei-me adormecer.
Fui acordado com a chegada dos outros. Disseram-me, aos gritos, que íamos fazer uma prova de vinhos cega, com os rótulos tapados. E eu, acordado assim de chofre, aos berros, por gente muito feliz e histérica, a correr de um lado para o outro para preparar a mesa disse Vão para o caralho! Eu não jogo!
Um deles sentou-se ao meu lado, no sofá, e perguntou-me Porquê, pá? e eu respondi Já bebi uma garrafa inteira, sozinho, porque estava sozinho, não estava aqui ninguém, foi-se tudo embora e eu bebi a garrafa sozinho e estou bêbado.
Ele riu-se, o filho-da-puta, e disse Estás bêbado, mas ainda não estás muito bêbado. Por isso não é grave. Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Eu levantei-me do sofá. Acendi um cigarro e fui sentar-me à mesa, à frente de um copo de vidro ainda vazio e várias garrafas de vinho tinto com os rótulos tapados. À vez iam chegando queijinhos e patés e tostazinhas integrais à mesa. Eu agarrei num bloco, numa caneta, e esperei que me servissem o vinho para começar a prova. Ainda não via aranhas.
Nessa passagem de ano continuei sem ter sexo. Lavei a louça todos os dias. Sozinho.
Nesse ano desisti do curso e fui trabalhar enquanto pensava no que fazer à minha vida.
Já passaram, o quê?, mais de trinta anos desde essa época, e eu continuo sem saber o que fazer à minha vida. Mas tenho fé que um dia descubro. Ainda gosto de lavar a louça.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/23]

É Importante Mostrar que Sofremos

Há anos que não a via. Tinha deixado de a querer ver. Na verdade ela estava para mim aquilo que se diz muitas vezes de pessoas com quem quebrámos todos os laços: estava morta. Para mim. Sim, para mim estava morta.
As pessoas são boas. Quero dizer, na sua essência. Mas depois deixam de ser. Algumas delas até querem ser. Mas não conseguem. Não é sequer o instinto de sobrevivência que as condiciona. É porque têm de ser melhor. Maior. Mais comprida. Mais brilhante. Mais rica. Mais esperta. Mais amada. Mais desejada. Elas são princesas e suspiram. Eles são gestores, vão ganhar rios de dinheiro e enriquecer antes dos 30 anos. No intervalo fazem um interlúdio e fodem-se uns aos outros. Lembro-me sempre do Psicopata do Bret Easton Ellis.
Mas isso foi nos anos ’80. Isso foram os yuppies. Sim, claro, os grandes homens de grandes negócios especulativos. Vejam onde isso nos levou.
Hoje também é assim. Continua a ser assim. E vejam para onde vamos.
Nunca mais a quis ver. Estava morta.
Ressuscitou.
Encontrámos-nos agora. No funeral da mãe. Da nossa mãe.
Agora chorou. Gritou. Arranhou a cara. Puxou os cabelos. Mostrou que sofria a saudade. É importante mostrar. Mostrar saudade.
Veio falar comigo. Que não podíamos estar assim. A vida era dois dias. Se não for a família o que nos resta? Que devíamos reatar relações. Tinha saudades. Saudades minhas. Também já tinha dela, da mãe, claro. Viram? Viram as minhas lágrimas? Viram como sofro a sua ausência? Deixem-me tirar uma selfie para mostrar ao mundo a minha dor. Anda para aqui, dizia ela. Anda para aqui tirar uma selfie comigo. Anda.
Eu vi uma figura pequenina e perdida. Só. Triste. Triste mas cheia de lantejoulas e purpurinas porque a vida é cor e brilho.
Eu deixei-a falar. Estava assim um pouco histérica. Deixei-a falar até se cansar. Eu não disse nada. Depois virei costas e fui embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/01]