Onde É que Arranjaste o Dinheiro?

O frio tinha finalmente chegado. Entrou com o último sol de ontem. Um sol mentiroso. Um sol brilhante, lá no céu, mas um frio terrível cá em baixo. Quando o sol se foi, o frio ficou.
Hoje nem houve sol. Só o frio.
Estava deitado dobre o tapete da sala a olhar para uma racha no tecto. A televisão desligada. A lareira apagada. Ela sentada no sofá, com uma manta por cima. Eu deitado no tapete da sala, de casaco vestido, a olhar para o tecto, a ver a racha a meio e o bolor da humidade que se estava a instalar nos cantos e por cima da janela. Pensei que tinha de pintar o tecto. Um dia destes.
Ela perguntou Já não há cigarros, pois não? e eu abanei a cabeça. Não sei se ela viu ou não o meu abanar de cabeça. Tentei responder mas a minha voz não saía. Depois ela perguntou Nem há vinho? e eu voltei a abanar a cabeça.
Levantei a mão para o tecto. Tentei apagar a racha com a minha mão, mas os cantos bolorentos estavam sempre visíveis. O tecto estava mesmo nojento.
Ela perguntou Tens algum dinheiro? e eu voltei a abanar a cabeça e fiz um enorme esforço para falar e disse Não. Não sei se ela ouviu. Também não sei se o meu tom de voz era audível. Eu mesmo não me ouvi. Mas eu já não me ouvia há muito tempo. Mantinha acesa a sensação de que falava, mesmo quando não o fazia, e assim nunca sabia quando falava ou estava calado mesmo quando estava a pensar que o estava a fazer.
Enfim.
Não tinha dinheiro. Nem eu, nem ela. Estávamos sem trabalho há algum tempo. Trabalhos precários dão nisto. A disponibilidade desvaloriza-te e a falta de reverência, digamos que também não abonava muito na hora de contratar alguém. Mas não importavam os motivos. A verdade era que estávamos os dois sem trabalho e sem dinheiro. Nem tínhamos direito ao subsídio de desemprego. Fazíamos parte de um grupo de gente marginal que nunca entra nas contas. Éramos artistas. Passávamos recibos verdes. Fazíamos todo o tipo de trabalhos mal pagos. Nunca conseguíamos juntar dinheiro. Andávamos sempre nas lonas. Éramos miseráveis. Uns indigentes.
Ela levantou-se. Saiu da sala.
À minha volta, sobre o tapete onde eu estava deitado, via uns bichinhos a passearem-se. Não eram formigas. Não sei que bichos eram. Mas andavam de volta das migalhas que estavam lá pelo chão. A casa estava um bocado imunda. Precisava de uma barrela. Mas quanto menos se faz, menos se tem vontade de fazer. Não conseguia levantar-me. Não conseguia ir buscar o aspirador. Ou a vassoura. Sentia-me incapaz. Queria ficar ali deitado no chão e deixar-me morrer assim.
Ela entrou na sala de casaco vestido. Tinha pintado os olhos. E os lábios. Os lábios estavam vermelhos. Um vermelho vivo. Tinha dado um jeito ao cabelo. Escovou-o. Prendeu-lhe uma flor. Perguntei-lhe Vais sair? E ela baixou-se ao pé de mim, deu-me um beijo rápido, leve, sobre os lábios e disse Já volto. E saiu de casa. A porta da rua a bater ficou a ecoar dentro da minha cabeça. Agora estava sozinho em casa e não queria estar sozinho em casa. O silêncio era ainda maior. Tentei dizer algumas palavras alto. Para me acompanharem. Rothko. Batman. Godard. Bife com batatas fritas. Um sonho de menino. Mas não sabia se estava mesmo a falar ou não. Não me ouvia. Mas podia dar-se o caso de estar a dormir. A sonhar. Ou estar afónico. Talvez surdo. Não, surdo não, que a ouvi dizer Já volto. Ou foi Já venho? Não tenho a certeza. Esqueci-me. Ando a esquecer-me das coisas.
Queria ir olhar pela janela. Queria ir olhar para a rua. Ver se a via passar lá em baixo. Mas não conseguia levantar-me do chão. E não sabia se era preguiça ou incapacidade física de fazer esforço para me levantar. Estou fraco, pensei. E devia estar. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Nem me lembrava o quê.
O tempo passou. Eu continuei deitado no chão da sala. Deitado em cima do tapete sujo da sala. Devo ter passado várias vezes pelas brasas. Estava sonolento. A luz tinha baixado bastante.
Ouvi a porta da rua. Alguém entrou. Ela, com certeza.
E antes de a ver, ouvi-a Levanta-te, vá. E foi então que a vi com uns sacos de papel do McDonald’s. E com um cigarro aceso ao canto da boca. Já não tinha os lábios pintados. Nem a flor no cabelo. E ela ainda disse E há vinho.
Eu tentei levantar-me mas não consegui. Disse-lhe Ajuda-me a levantar, mas não sabia se ela me tinha ouvido e estiquei-lhe um braço. Ela agarrou-me na mão e levantou-me. Senti umas dores nas costas à medida que me erguia. Vacilei. Mas não caí. Agarrei-me a uma cadeira que estava à volta da mesa da sala. E perguntei-lhe Onde foste arranjar o dinheiro? mas percebi que a minha voz não estava audível. Vi-a colocar os hambúrgueres e as batatas fritas em cima da mesa. Vi-a colocar um volume de cigarros e um cinzeiro na mesa. Vi-a abrir uma garrafa de vinho tinto e a encher dois copos. Estendeu-me um. Batemos levemente com o copo um no outro. Bebemos.
E ela disse Não me perguntes onde é que arranjei o dinheiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/16]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]

O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]

O Tornado

Estou sentado na esplanada da Batel, na marginal da Nazaré, a beber um café. Estou na marginal virado para o mar e tento vê-lo. Espreito por uma nesga de espaço livre entre os insufláveis da Minnie, da Patrulha Pata e do Faísca McQueen, de um lado, e de uma pista de carrinhos de choque infantil e uns discos voadores que rolam em pista no chão, do outro. Mais afastado está uma barraca de hambúrgueres McDaniel’s.
As pessoas vêm à praia para se deitarem na areia, mergulhar no mar, beber uma imperial, comer uma bola de Berlim, lamber um gelado mas, antes de o conseguirem, têm de sobreviver a toda a panóplia de actividades que servem de chamariz às criancinhas que azucrinam a cabeça aos pais Papá eu quero! Papá eu quero! Papá eu quero pular no insuflável!…
A Nazaré tornou-se uma feira durante os meses de Verão. Hoje já não é possível ir para a praia descansar. Agora, as férias são o martírio maior das famílias. Já nem é só pelo dinheiro que se gasta em ninharias, mas o barulho, a confusão, o apelo, os berros, o futebol de praia, a música, há sempre música, há sempre um festival em qualquer canto, em qualquer baiuca, como se o Homem não conseguisse viver sem a confusão e o engano da companhia.
No fundo continuamos todos sozinhos.
Atrás de mim na esplanada, uma mulher dos seus cinquenta anos, de cigarro na mão, pigarreia. Puxa muco do nariz e engole-o. Eu percebo todos estes sons característicos enquanto tento ver o mar lá ao fundo, por entre a nesga de espaço livre.
Ao meu lado um casal de brasileiros, jovens, com três filhas ainda muito novas, bebem uma imperial enquanto as miúdas comem um Magnum cada uma. Os pais comentam o azar pelo mau tempo nas férias. E têm razão. O tempo está encoberto. O horizonte termina logo ali, numa neblina carregada, sobre o mar. E levanta-se vento.
A mulher atrás de mim puxa, agora, expectoração do peito e agarra-a na boca. Ouço-a cuspir para o chão e sinto-me enojado. Tenho vómitos. Mas aguento.
O vento aumenta agora bastante de intensidade. A família brasileira sai da esplanada e foge para o interior da pastelaria.
Vejo aquilo que deve ser um pequeno tornado a vir, rápido, do mar. O vento é muito forte. Cai água. Não sei se é chuva se é água do mar a viajar no vento. Recuo para a beira da esplanada, para debaixo do arco do prédio.
A mulher que pigarreia, chega-se à frente para ver melhor o que está a acontecer. A esplanada voa. A mulher está mesmo à minha frente. E eu estico o pé. Dou-lhe um empurrão no rabo e vejo-a tombar. Mas não cai. É agarrada pelo tornado que a leva na sua espiral de vento junto com as mesas e cadeiras da esplanada.
A mulher desaparece no ar. O vento acalma. A neblina dissipa-se. Volta o sol. Reparo que os insufláveis desapareceram. As pistas também. O McDaniel’s resistiu, mas sem telhado que foi não sei para onde.
As cadeiras e as mesas da esplanada também voaram para parte incerta. Os pais brasileiros avançam até à esplanada com as mesmas imperiais na mão. As miúdas ficaram no interior a comerem os gelados.
Eu acendo um cigarro enquanto reparo que agora já vejo o mar.
Volta o sol. As pessoas começam a levantar-se na praia e andam de um lado para o outro à procura das suas coisas e das pessoas que perderam naquela confusão.
Encontro uma cadeira virada no chão, que não era desta esplanada, e sento-me nela. Tenho muito para observar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/20]

A Estudante

Tive de abandonar o meu quarto. Assim. De um momento para o outro. Nem pude ir buscar algumas das minhas coisas. As mais necessárias. As mais úteis.
Estava a viver num quarto. Em Coimbra. Perto da universidade.
Estava. Já não estou.
Alguns problemas anteciparam-se. Perdi o quarto. Quando estava para lá ir, para ir buscar algumas coisas, já lá estava a polícia. Foi por um momento. Por um breve momento. Por um triz.
E, então? O que fazer?
Havia um concerto no Gil Vicente. Pensei em passar por lá. Talvez arranjasse qualquer coisa. Talvez arranjasse alguém. Talvez um desenrasque.
Tinha fome. Pensei em passar no Mac primeiro. Havia sempre restos de hambúrgueres nas bandejas. Batatas fritas, não. Comem-nas todas, os cabrões.
E foi então que a vi. Conhecia-a. Sim, conhecia-a. Do Piolho. Era uma gaja de uma das repúblicas. Já nos tínhamos engalfinhado, em tempos. Na casa-de-banho do Piolho. Podia ser uma solução. As repúblicas eram sempre uma confusão de gente. A entrar. A sair. Os comensais. Os namorados. As namoradas. Os amigos. Os dealers. Gente. Sempre muita gente.
Seria fácil entrar. E foi.
Segui-a. Estava gente à entrada. Deixei-me estar por lá. Cravei um cigarro. Fumei-o. Andei ali de grupo em grupo. Entrei em casa. Fui ao frigorífico. Agarrei numa cerveja. Subi as escadas. As portas dos quartos fechadas. Circulei. Fui à janela. Olhei para baixo. Para a entrada. Fiz-me sentir à vontade. Fiz-me sentir em casa. Se me sentisse em casa, viam-me como alguém de lá. Circulei a bebericar a cerveja. E vi-a sair de um quarto. Do quarto dela. Foi para a casa-de-banho. Ia enrolada numa toalha. A porta fechada mas não trancada. Entrei. Parei com a porta fechada nas minhas costas. Olhei para tudo. Vi tudo. Estudei tudo. Vi uma carteira. Abri-a. Duas notas de vinte euros. Guardei-as. Na secretária um maço de cigarros. Agarrei nele. Mas não tinha cigarros. Tinha charros. Já prontos a fumar. Só acender o isqueiro. Sorri. Sou um filho-da-puta com muita sorte.
Abri a porta do armário. Era grande. Quase um mini-quarto. Ela tinha uns casacos bonitos. Experimentei um. Ficava-me bem. Ouvi barulho. Tirei o casaco. Entrei dentro do armário. Fui até ao fundo. Sentei-me a um canto. Entre toalhas e umas almofadas.
Ouvi-a entrar no quarto. Deitou-se na cama. Ficou em silêncio. Eu ouvia o meu coração a bater. Alto. Rápido. Tomei atenção aos barulhos para ver se ela saía. Nada. Depois senti uns movimentos. Atrito. Movimentos muito suaves. Quase imperceptíveis. Não conseguia perceber o que era. Mas era alguma coisa. Ouvia cada vez mais alto. Mais sonoro. Mas sem conseguir identificar. Até que percebi a respiração ofegante. A língua a estalar na boca seca. Os pequenos gritinhos abafados. Os gemidos. Ela estava a masturbar-se. Cheguei-me à frente, no armário. Tentei espreitar. Mas estava tudo fechado. Não podia correr o risco de abrir a porta e fazer barulho. Encostei o ouvido. Deixei-me absorver todo o percurso que ela fazia com a mão. Com os dedos. Acompanhei-a. Em silêncio. Até que ela chegou. Um grito estrangulado na garganta. A satisfação. Voltou o silêncio. Depois um isqueiro. Estava a fumar um cigarro. Senti o cheiro.
Alguém entrou no quarto. Disse qualquer coisa. Não percebi. Senti-a levantar-se. Percorrer o quarto. Abriu o armário. Deixei-me ficar quietinho. Ao fundo. Ao fundo do armário. No meio das almofadas. E das toalhas. Escolheu roupa. Vestiu-se. Ouvi a porta do quarto a bater. Deixei sair a minha respiração. Descontraí. E pensei. Saio? Fico?
Naquela noite fiquei. Fiquei lá. Deixei-me adormecer no fundo do armário. Acordei a meio da noite. Silêncio no quarto. Abri a porta do armário com cuidado. Levantei-me. Espreitei a cama. Ela já lá estava. Estava sozinha. Estava a dormir. Também não ouvia barulho no resto da casa. Devia ser tarde. Saí do armário. Saí do quarto. Percorri o corredor. Desci as escadas. Entrei na cozinha. Olhei em volta. Um saco de pão. Um saco de pano de pão. À antiga. Abri-o. Tirei um. Abri o frigorífico. Havia restos de frango assado. Bebi uns golos de um pacote de leite. Tirei uma coxa e uma asa do frango. Fui para a janela da cozinha comer os dois pedaços de frango assado frio com o pão. Soube-me bem. Chupei os dedos. Depois tirei um charro do maço de cigarros e acendi-o. Fumei-o ali. À janela. Na companhia da madrugada e das árvores que me olhavam sombrias na ausência de luar. Depois voltei para o meu armário.
Tenho passado assim os meus dias. As minhas noites. A minha vida. Eu e ela. Eu aqui, no armário. Ela ali, na cama. Às vezes vem mais alguém. Raramente a mesma pessoa. Ela é desapegada. Faz sempre uma grande barulheira. E eu irrito-me. Estou a ficar ciumento. Mas gosto de estar aqui. Escondido. A espreitar. A ouvir.
Comecei a escrever as minhas memórias de dentro do armário.
Todas as madrugadas, e depois da casa adormecer, saio. Ando pela casa. Com cuidado. Assalto o frigorífico. Vou à casa-de-banho. Escrevo as minhas memórias enquanto fumo um charro à janela da cozinha.
Um dia publico-as. Mas para já, estou bem aqui onde estou. Eu e ela. Ela na cama. Eu no armário. Tem tudo para ser uma boa relação.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/07]

A Questiúncula

Senti o apelo. Recebi o convite e fiquei contente. Com vontade de ir. Uma espécie de magusto antes de tempo porque a Sexta-feira é sempre um bom início de fim-de-semana e não obriga a esperar por Domingo. Ao Domingo, dia de neura, dorme-se e recupera-se da Sexta-feira. Água-pé e castanhas assadas. O que eu estava a precisar para limpar o estômago dos hambúrgueres e das Coca-Colas que têm sido as minhas refeições diárias. O Mac fica a caminho e é mais fácil estar dez minutos na fila, sem sair do carro, que ir para casa cozinhar sem ter vontade nenhuma de o fazer.
Tomei um banho quente e rápido para me desfazer da transpiração laboral e vesti roupa lavada. Liguei a rádio, coisa que faço cada vez mais. Bebi um copo de vinho tinto enquanto me vestia. Trinquei uns cajus. Procurei as botas que não uso há um ano. Revirei a dispensa à procura delas, mas encontrei-as. Mais tarde teria de voltar a arrumar aquilo tudo.
E, então, ouvi.
Ouvi aquela voz na rádio. Uma voz grave. Poderosa. Muito rápida. Quase que diria arrogante – e sim, mais tarde poderia confirmar que era mesmo isso que a voz era, arrogante. Imaginei a figura. O pé a bater na laje. Ritmado. A soca na mão. Ameaçadora.
No início não percebi muito bem do que se tratava. Até que lá cheguei. José Silvano 2.0. Ou a versão Emília Cerqueira, a jurista.
Ouvi a explicação através das ondas hertzianas, que também me trouxeram os perdigotos lançados através do espaço, não já da fake news, que não era disso que se tratava, mas da desfaçatez de alguém que me grita que a ética é algo de somenos. Uma questiúncula, portanto. Nada de ilegalidades. Parece que é assim que nascem os Bolsonaros. Assim e assado. Com questiúnculas, mentiras e touros. Até parece o nome de um filme pornográfico dos anos setenta, época em que as senhoras ainda usavam matagal e os senhores bigodes farfalhudos. Era tudo uma questão de pêlo. Em pêlo anda agora a honra. Com os tintins a dar-a-dar à espera de passar despercebida a sua ausência. Que bom que ainda há jornalismo. Jornalistas. Gente que, mais que indignada, se preocupa em não deixar morrer o nojo. Gente que não é virgem, mas sente-se ofendida.
Mas o que é que estava para ali a dizer? A filosofia não me assentava. A honestidade estava fora de moda. A verdade uma quimera. O objectivo de vida era ser o melhor e sacar o máximo. Isso sim, era o que eu era. Mas não, não era. Às vezes gosto de tentar ser normal. Não é isto o novo normal? Ser aldrabão? Falar mentiras com a indignação da verdade? Convictamente?
Desliguei a rádio. Tenho voltado a gostar bastante de a ouvir. Atirei o Silvano e a Emília para trás das costas e pensei no magusto antecipado que me esperava. Já salivava pela água-pé e pelas castanhas. E com um pouco de sorte, alguém me viria aconchegar a bebedeira à cama.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/09]

Estarei num Sonho?

Maldoror is dead / Little brick / Buried in the earth / Maldoror is gone / Was I a man? / Was I a stone? …”

Descubro-me a cruzar o pequeno jardim Camões no centro histórico de Leiria. Estarei num sonho?
A cidade está a preto e branco. As árvores são em cinquenta tons de cinza. O céu está num branco sujo. Estarei a sonhar?
Ouvi dizer que os sonhos são a preto e branco. Estarei a sonhar?
Sento-me num banco do jardim. Num banco de ripas de madeira a meio do pequeno jardim do centro histórico. Acendo um cigarro. Olho o castelo à minha frente, lá no alto do monte. À direita do castelo, na torre altaneira, as Cibeles, mais para baixo, a Torre Eiffel, logo a seguir o menino a mijar e umas putas de mamas expostas a espreitarem atrás de umas montras na avenida mais concorrida de Leiria.
Fumo o cigarro. Pergunto-me se terão droga. Estarei a sonhar?
Aproxima-se de mim uma bela fräulein que me estende uma bratwurst bem cheirosa. Estendo as mãos para a agarrar – estou com fome! –, mas o que agarro são uns fish’n’ships que uma miss sorridente, a quem falta um dente da frente, acaba por me oferecer.
Enquanto mastigo umas chips, vejo ao fundo, no fim da alameda do jardim, o Coliseu, onde uma turba de gente eufórica festeja um golo de CR7.
Foda-se! Onde é que estou? Estarei a sonhar?
Ao lado vejo a Julie Andrews a dançar no meio das vacas e o Capitão Von Trapp a entoar “Raindrops on roses and whiskers on kittens / Bright copper kettles and warm woolen mittens / Brown paper packages tied up with strings / These are a few of my favorite things”.
Uma das vacas é roxa e vem trazer-me uma tablete Milka. Mas o sonho não era a preto e branco? Era! É! Mas a vaca tem manchas roxas!
Atrás da vaca vejo passar o Eça de Queiroz na conversa com o Afonso Lopes Vieira, o Miguel Torga e o Rodrigues Lobo. Mais ao lado, afastado deles, segue o António Campos. Sozinho. Acho que vão à Praça beber umas imperiais e comer uns hambúrgueres. Ouvi dizer que eram bons. Tento levantar-me e ir ter com eles, mas acabo por ficar sentado. Alguém me traz um copo de vinho das Cortes. Um néctar de Deuses. O que os sonhos nos fazem!, penso. E sorrio. Estou mesmo a sonhar.
Acabo o cigarro ao mesmo tempo que termino com o fish quando volto a olhar para o castelo e vejo lá alguém debruçado sobre as ameias. Parece o David Tibet, mas devo estar a sonhar, mesmo. Que raio é que ele estaria aqui a fazer? Neste pequena, pobre e triste cidadezinha de província? Sem nada de interessante para ninguém? A não ser a morte?

“… / The black angel weeps / The waters part / Maldoror / Maldoror / Maldoror / All fall down / Dead.”

Espero acordar na minha cama. Espero acordar sozinho. E que ainda tenha cigarros. E vinho tinto. Umas azeitonas também não era mau. E um bocado de pão do Soutocico. Sim, não era mau. E tenho de ir cortar o cabelo. Sim, tenho de ir cortar o cabelo.
Acorda. Acorda, pá. Acorda, vá lá. E vê a vida a cores.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/23]