Foder

Estávamos a foder no parque de estacionamento. A porta do lado dela aberta, ela agarrada ao tejadilho e eu por trás, a arfar junto ao ouvido, enquanto mantinha aquele vai-e-vem acelerado mas a tentar que não fosse demasiado rápido, quando ela, deixando a cabeça para trás, pendurada pelo pescoço diz És mesmo o homem da minha vida! e eu já não aguentei mais e acabei por chegar rápido, demasiado rápido para ela, mas não podia fazer de outra maneira depois de ter ouvido o que ouvi naquela voz rouca e sussurrada que fez chegar aos meus ouvidos. Isto foi à saída da praia. Estávamos ambos a arder em calor. Eram duas da tarde e, depois, haveríamos ainda de ir comer uma sardinhada.
Nós fodíamos. Nunca fizemos amor. Fodíamos. Assim. Onde quer que fosse. Quando fosse. Às vezes corríamos para as casas-de-banho de cafés e de museus. As dos museus são melhores, mais limpas. Mas as dos café dão mais tesão. Há sempre gente a querer entrar. Há sempre gente à espera que saiamos. Sai um. Depois o outro. Olham escandalizados para nós. Inveja, é o que era. Acabávamos a beber uma imperial nas esplanadas. Às vezes ela punha as cuecas na mala e abria as pernas para me mostrar como estava. Eu ficava doido. Às vezes queria voltar à casa-de-banho. Ela tinha de me chamar à razão.
A nossa relação era assim. Uma relação de doidos cheios de tesão.
Não sei quanto tempo aquilo durou. Mas durou bastante. Durou um casamento e três filhos. Filhos feitos sem amor, mas com muito desejo. Todos eles foram feitos na rua.
A primeira vez que fodemos assim, na rua, ela encostada à porta do carro, foi à saída do Armando, uma cervejaria ali em Leiria, a caminho da Guimarota.
Foi lá que nos conhecemos. Entre pequenas trincas em pedaços de camarão de Moçambique. Ambos esquecemos os amigos com quem tínhamos ido e acabámos por lá ficar um com o outro. Ainda partilhámos um creme de marisco onde eu queimei a língua. Ficámos a beber imperiais até sermos postos na rua, já de madrugada, os últimos a serem expulsos da cervejaria que queria fechar as portas. Quando saímos eu acabei a vomitar logo ali, nas escadas do Armando. Ela riu-se e levou-me para o carro dela. Mas não chegamos a entrar no carro. Ela ainda meteu a chave na fechadura. Eu não a deixei abrir a porta. Ela não se importou. E foi ali, à saída do Armando, de madrugada, que fodemos pela primeira vez. Fodemos contra a porta do carro. Foi a primeira de muitas.
Não sei quando é que tudo acabou. Mas acabou. Acabou antes mesmo de nós acabarmos. Ela disse que eu já não tinha tesão por ela. Eu achava, ainda acho, que foi ela que perdeu o desejo por mim. Já não fodíamos como dantes. Já nem fodíamos. No fundo ela queria que eu crescesse e eu queria que tudo ficasse na mesma, e fôssemos adolescentes para sempre. Mas já tínhamos três filhos. Ela queria uma casa. Um SUV. Um cão. Eu queria continuar a ir ao cinema, a concertos, a perder-me nas noites de Sexta-feira e a poder andar de sapatilhas.
Hoje, os filhos andam cá e lá. Eu continuo de sapatilhas. Ela não tem uma casa nem um cão. Não sei se é feliz. Talvez seja. Eu?…

[escrito directamente no facebook em 2020/05/30]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]