O que É que Estás a Pensar?

O que é que eu queria, afinal? Saúde? Uma mulher muito bonita? Boa? O Euromilhões? Na verdade o menu é tão extenso que não sei dar prioridade.
Estava sentado. Estava em calções e chinelos. Lembro-me dos chinelos porque me lembro do triângulo de sombra que cortava o pé direito ao meio. Os dedos para um lado. O calcanhar para outro. Às vezes a sombra desaparecia ou ocupava o pé todo conforme o pé ia ou vinha, de uma perna cruzada sobre a outra, num nervosismo que me é constante e que se agrava quando não sei o que quero.
Tentava dar prioridade à saúde. A verdade é que, nos últimos tempos, tenho andado com um saquinho de comprimidos atrás de mim para tentar minimizar as mazelas. Sim, saúde é prioritário. Lembro-me disso cada vez que sinto as dores provocadas pelo nervo ciático. Pelo músculo do pescoço que me bloqueia os movimentos de cabeça e do braço esquerdo e me faz parecer um robot dos anos ’80 a dançar o Fade to Grey dos Visage. Mas já tenho idade suficiente para saber que vou esquecer as mazelas assim que me livrar de todas elas. A saúde só é um problema quando não a temos. Quando estamos bem, estamos bem! Com excepção dos hipocondríacos. E eu não sou um.
E entre uma saúde que pode ser importante e uma mulher, qual deveria ser a prioridade? É que é difícil decidir. Porque uma boa mulher pode fazer esquecer a falta de ar num ataque de bronquite. Eu sei porque já me fizeram esquecer de tomar o Ventilan num ataque de bronquite. E, depois, não há nada melhor para fazer inveja aos invejosos dos amigos que uma mulher bonita. E se for bonita e boa, é ouro sobre azul. Imagino, então, se para além de bonita e boa, é culta e inteligente? Para todas as outras mulheres, será, com certeza um estafermo. Para os outros homens será, de certeza, motivo de guerra. Mas não quero entrar em disputas com ninguém. Está demasiado calor.
O Euromilhões era sem dúvida a melhor aposta na lista das necessidades. Com o Euromilhões viria o resto. A saúde e a mulher boa e bonita e culta e inteligente. A minha mãe sempre me disse que dinheiro chama dinheiro. Por isso é que as pessoas ricas continuam ricas. Com excepção das que fazem cambalachos e acabam por perder tudo. Mais cedo ou mais tarde. Por vezes até nos sentamos a assistir à queda desses ídolos que, afinal, têm pés de barro. Se fosse religioso diria que Deus escreve direito por linhas tortas, mas como não sou, a melhor definição é mesmo cá se fazem, cá se pagam.
Foi nessa altura que entrou na minha linha de visão uma imperial dentro de um copo de fino, gelado, a borbulhar, com um dedo de espuma branca no topo. O copo foi colocado na mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços, não daqueles bojudos que as senhoras vendem em pequenas bancas nas praças das pequenas localidades, mas aqueles pequeninos e rijos, com umas pedras de sal grosso polvilhadas por cima e ainda molhados por terem acabado de sair do balde onde estão mergulhados à espera de poderem servir os desejos de um bebedor de cerveja.
Descruzo as pernas. Perco o triângulo de luz e sombra sobre o pé e levanto o olhar. Vejo à minha frente o mar a bater na areia. Miúdos e miúdas mergulham e brincam dentro de água. Vejo, perto, o nadador-salvador. Ao fundo, o pau da bandeira. Está verde, a bandeira. Há gaivotas no mar. Gente em colchões-de-ar. Um casal passeia-se num caiaque. Passa uma velha com uma mala térmica a vender bolas de Berlim com creme. Estamos a meio da tarde. Está sol e calor. O povo desfruta deste feriado religioso a banhos. Ela dá-me um toque com o braço dela no meu e diz Acorda! Está aí a imperial!, enquanto vai chupando um Cornetto de morango.
Eu queria tudo aquilo. Eu já tenho tudo aquilo. Tenho a saúde que os meus cinquenta anos aguentam. A mulher dos meus sonhos quando acordo e abro os olhos. E dinheiro suficiente para pagar esta imperial. Que mais poderia querer?
Pego no copo de imperial e bebo um longo gole que me congela a garganta. No fim digo Ah! em jeito de satisfação. Pego em meia-dúzia de tremoços e vou comendo-os, um de cada vez, com casca e tudo, enquanto vejo o mar a refrescar os corpos do povo, ávido de libertação. Ela olha para mim e pergunta O que é que estavas a pensar? E eu olho para ela e já nem sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/15]

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As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidos por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Acordado às Quatro da Manhã

Quatro da manhã.
Parece o início de uma música do António Manuel Ribeiro. Mas não é. São mesmo quatro da manhã. E eu estou acordado.
Não consigo pregar olho. Não sei porquê.
Viro-me para um lado. Viro-me para o outro. Suspiro. Acendo a luz. Bebo água. Se calhar devia beber uma aguardente.
Volto a deitar-me.
Ouço o vento lá fora. A chuva a bater leve nos vidros da janela. Os passos dos cães no soalho. Também não conseguem dormir. Andam aí pela casa à procura do sono. Espero que o encontrem. Dêem três voltas sobre si e enrolem-se em cima de um tapete.
Ligo o telemóvel. Vejo as notícias. Ainda não começou a guerra. Espero que consigamos chegar ao Verão. Gostava de mergulhar mais uma vez no Atlântico.
Daqui a nada tenho de me levantar. O melhor é já não adormecer, garantir que me levanto e mantenho certas as obrigações.
Volto a olhar para as notícias. Ainda não começou a guerra mas as coisas estão complicadas. Vai ser muito difícil chegar ao Verão. É melhor ir amanhã à praia. Ganhar coragem e ir ao mar. Se não, pode ser tarde demais.
Acho mesmo melhor ir já.
De qualquer forma não consigo dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]

A Mosca Mole

Estava nu em cima da cama.
Puxei o edredão para baixo, despi-me e deitei-me em cima da cama. Estava à espera dela. Deixei a porta da rua no trinco e vim esperá-la na cama. Era uma surpresa.
Mas a porra da mosca apareceu por ali e nunca mais foi embora. Uma mosca daquelas chatas, moles, que anda ali a voar baixinho, devagarinho, que passam junto aos ouvidos e fazem iiãooo, e irritam, incomodam, dão cabo dos nervos. Pousam em todo o lado. Estão moles mas quando as tentamos apanhar, são sempre rápidas. Mas não tão rápidas que não fiquemos com a sensação que é possível apanhá-las. Mas é raro acontecer. Só com alguma sorte. Ou insistência.
Ela estava atrasada.
E a mosca não ia embora.
Estava a azucrinar-me.
Levantei-me. Agarrei na camisola que tinha largado no chão e pus-me à cata dela.
Abri os estores. As luzes do tecto. Os candeeiros das mesas-de-cabeceira. Tudo para ver melhor. Onde é que andas, minha vaca? disse alto para a mosca.
Vi-a na parede. Levei o braço atrás e mandei-lhe rápido com a camisola em chicote, mas vi-a sair. Eu vi a mosca escapar nano-segundos antes de a camisola lá chegar. Merda.
Agucei o olhar. Procurei no tecto e nas paredes brancas. Nada. Olhei para os lençóis brancos. Para a cabeceira da cama. Para uma mesa-de-cabeceira. Para a outra. Nada também. Foi embora, pensei.
Larguei a camisola no chão. Desliguei as luzes. Baixei os estores. Voltei para cima da cama. E ainda não estava deitado quando a ouvi zunir ao meu ouvido, iiãooo! Parou no meu joelho e começou a subir pela perna acima. Mandei-lhe com a mão aberta. Nada. Foda-se, pá!
Voltei a levantar-me. Puxei de novo os estores. Acendi as luzes. Todas as luzes. Agarrei na camisola e recomecei à procura da mosca.
Olhei pormenorizadamente para cima do móvel. Dos livros em cima do móvel. Nada.
Virei-me para o armário. Vi e revi cada canto das portas do armário. Nada.
E então, vi o ponto negro, solitário, parado na parede branca por cima da cabeceira da cama. E comecei a aproximar-me dela. Devagar. Devagarinho. Com o braço puxado atrás. E a camisola tombada, agarrada pela mão.
Olá! Cheguei!… ouço dizer atrás de mim. Viro-me e vejo-a à entrada do quarto. E continua O que é que estás a fazer aí todo nu?
Eu viro-lhe as costas e resmungo entre os dentes Agora não!, e reparo que a mosca já não está onde estava. Foda-se! Sai daqui que tenho uma guerra para ganhar! disse-lhe, brusco. E ela saiu.
E eu fui à procura da mosca. Tinha de a encontrar.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/31]