Crianças Birrentas

O velho andava lá no carreiro com a serra eléctrica a cortar os ramos das árvores e a desbastar o mato do terreno. Ele tinha lá umas oliveiras que davam umas azeitonas muito azedas, mas todos os anos as ia lá apanhar. Às vezes dava-me algumas. Azedas. Nem na sopa as conseguia comer.
Chegava a esta altura e punha-se a desbastar o terreno para evitar as cobras e fazer uma pequena limpeza.
Mas as aparas da árvores do outro lado do muro, mandava-as de volta para lá. Cortava os ramos das árvores que passavam o muro para o lado dele e depois mandava o que cortava para o outro lado. Devolvia à procedência.
Eu estava em pé no alpendre a fumar um cigarro e a apreciar. Sentado não conseguia ver o homem a desbastar o terreno. E já imaginava o que lá vinha. O vizinho, o sujeito do outro lado do muro, que até é cunhado do velho, há-de mandar as braças de volta cá para este lado. Eles não se dão bem e estão sempre em guerra um com o outro. Mas o velho é mesmo o diabo em pessoa.
O ano passado, resolveu queimar os ramos das árvores podadas numa enorme fogueira numa altura em que as fogueiras estavam proibidas. Mas ele é daqueles que acha que sabe e só faz o que acha que deve fazer e a ele ninguém dá ordens. Do piorio. A guarda foi lá ao terreno e levou-o preso. Esteve dois dias numa cela. Para aclarar as ideias, disseram os guardas. Mas não serviu de nada. O velho é teimoso como o diabo.
Há uns anos, o muro que separa os dois terrenos caiu ali numa zona mais acima e tombou para o lado de cá. O velho mandou os tijolos de burro tombados para o terreno do vizinho e levantou outro muro aproveitando para entrar alguns centímetros dentro do terreno do outro. O cunhado, quando se apercebeu, deitou o muro abaixo, levantou outro entrando meio-metro dentro do terreno do velho, deixou-lhe os tijolos velhos no terreno e esperou-o com a pressão-de-ar. Quando o velho chegou, disparou sobre ele. O velho também foi buscar a pressão-de-ar e passaram ali umas horas aos tiros um ao outro até que a guarda chegou e levou os dois. Estiveram uma semana na cadeia. Não lhes serviu de nada.
Por mais estranho que pareça, as mulheres deles dão-se bem uma com a outra, são amigas, sócias no mini-mercado da aldeia e às vezes até vão juntas à cidade para ver um concerto do Tony Carreira.
Amanhã o cunhado há-de chegar ao terreno, há-de ver os ramos largados lá do seu lado, há-de mandá-los de volta para o terreno do velho e há-de esperá-lo com a pressão-de-ar carregada. Hão-de andar aos tiros um ao outro e com um pouco de sorte não se irão atingir porque têm os dois uma pontaria de merda.
Larguei o velho na sua tarefa de cortar o mato e mandar os ramos para o outro lado do muro e fui-me sentar.
Gosto de me sentar no alpendre e olhar as montanhas lá em frente, sempre lá em frente, imutáveis, serenas, a garantirem-me que a vida é assim, sempre assim, por mais que pensemos que não.
E então ouvi um tiro. Outro. E novamente.
Percebi que tudo se precipitou. O cunhado veio mais cedo e apanhou o velho em flagrante.
Levantei-me da cadeira e cheguei-me à frente no alpendre. E vi pequenos focos de incêndio no terreno do velho. O cunhado lançava cocktails molotov que incendiavam os montes de ramos secos cortados. O velho é que trazia a pressão-de-ar nas mãos e tentava disparar sobre o cunhado.
E eu disse Oh, que caralho.
Peguei no telemóvel e telefonei para a guarda. E fiquei ali a vê-los guerrear. Como duas crianças birrentas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/27]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Fecha os Olhos e Deixa-te Adormecer

Abro um olho e olho para as luzes do despertador digital. São vinte horas. Ponho uma orelha de fora e ouço o zumbido. Parece o coro das cigarras. Mas a esta hora é pouco provável. Talvez o zumbido seja dos cabos de alta tensão. Ou do incêndio que, afinal, talvez esteja já aqui à porta.
Eu vi quando o fogo apareceu lá ao fundo, na zona dos eucaliptos. Mas não liguei muito. Depois dos eucaliptos há um descampado. O fogo devia morrer por ali.
Fui deitar-me em cima da cama. Devo ter adormecido. Acordei a baterem-me na porta. A chamarem-me. Levantei-me em silêncio. Fui à janela da cozinha e espreitei lá para fora. Fui ver quem era. Era gente aqui das redondezas. E a guarda. Andava toda a gente no meu quintal. Às voltas no meu quintal. Bateram à porta. Às portas. Nas janelas. Tentavam espreitar cá para dentro para ver se eu cá estava. Se estava cá alguém.
Eu não queria ver ninguém. Eu não estava. Se eu não estivesse, eles iam embora.
Voltei para a cama. Meti-me debaixo do edredão, mesmo com todo este calor. As vozes continuavam lá por fora. À volta da casa. Ninguém se foi embora, aparentemente.
Ouvi água a cair sobre as janelas, sobre a casa. As vozes aumentavam. Tapei-me com o edredão. Tentei abafar as vozes e os ruídos lá de fora.
Devo ter adormecido, de novo.
Continua a haver barulho lá fora. Já não me parecem vozes. Ou talvez sejam vozes, mas estão diferentes. Ouço um zumbido. Há, outra vez, água a cair sobre a casa. Estará a chover?
Cheira-me a torradas. Ponho o nariz de fora. Cheira-me mesmo a queimado. O zumbido! O zumbido pode ser do pinhal a arder. Talvez o incêndio tenha ido dar a volta lá por baixo, pela estrada. Talvez o descampado não tenha apagado o incêndio. As chamas podem ter dado a volta lá por baixo. Os pinheiros chegam até aqui ao quintal. Entram dentro do quintal. Estão aqui, mesmo ao lado da casa.
O zumbido parece que está mais alto. Já não parece bem um zumbido. Parece mais um crepitar. Cheira-me a queimado. E aquilo ali? será fumo?
Enfio de novo a cabeça debaixo do edredão. Quero acordar. Acorda! digo. Destapo-me e apuro os sentidos. Sento-me na cama. Ouço um crepitar de madeira. Cheira-me a queimado. Vejo fumo a invadir-me o quarto.
Sinto-me tonto. Volto a deitar-me. Tapo-me outra vez. Pode ser que não seja nada. Tenho a cabeça às voltas. Sinto-me tonto. Será uma vertigem? Sinto-me adormecer.
E então vejo-a. E ela diz Fecha os olhos. Deixa-te adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/31]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

A Carta de Condução Caducada

Eu soube, mal saí da cama e pus o pé no chão, que aquele dia não ia ser um grande dia.
Acordei. Mandei o edredão para o fundo da cama. Senti a pila a encolher com o fresco da manhã. Levantei o corpo. Tirei os pés para fora da cama e senti, quando estavam a tocar no chão, umas cócegas, uma picada e, logo depois, uma ligeira impressão a alastrar pela planta do pé.
Abri bem os olhos. Olhei para baixo. Para os pés. E vi uma centopeia a escapar-se por entre os dedos dos meus pés e enfiar-se debaixo da cama. Vi as suas dezenas de patas a marcharem para a fuga.
Antes de ir à casa-de-banho passei pela internet e pesquisei Centopeias para perceber o que é que me tinha acontecido. Nada de grave. Mas não consegui afastar um certo nojo. Fui para o duche.
Mais tarde, numa recta que cruza uma pequena aldeia a caminho da cidade, recta de traço contínuo, duplo traço contínuo, vejo um camião TIR vir em sentido contrário a mim, vejo-o vir todo do lado de cá do traço contínuo duplo e vejo-o levar com ele o meu espelho retrovisor exterior. O estrondo do espelho a partir parecia uma bomba atómica a rebentar-me dentro da cabeça. O carro ia-me fugindo. Agarrei-o nos limites. Assustado. Maldisse os motoristas de camiões. Todos os cabrões de motoristas de camião. Pagou o justo pelo pecador. Filhos-da-Puta!, gritei com a cabeça fora da janela do meu lado, a oferecer-me em sacrifício a um outro qualquer camião. Mas não apareceu mais nenhum. Ainda bem para mim e para a minha cabeça. Olhei o camião TIR pelo espelho retrovisor interior. Olhei para o camião TIR que me rebentou com o espelho, e vi-o entrar na rotunda. Uma rotunda que tinha cinco saídas e uma entrada para a auto-estrada. Desisti da vingança. Do reparo.
Parei mais à frente. Num café. Num café à borda-da-estrada. À borda da N1. Pedi uma Amêndoa Amarga. Bebi duas. Fiquei cheio de sede com o adocicado da Amêndoa e tive de pedir uma cerveja. Bebi três. Ainda não eram dez da manhã.
Fui à casa-de-banho despejá-las.
Uma miúda entrou comigo lá dentro. Levantou a saia. Disse-me que estava fresca. Eu disse que era muito cedo para mim. E saí da casa-de-banho. À saída estava um gajo que era dois de mim. Estava de mão estendida. Dei-lhe uma nota de vinte. Não disse nada. Os olhos fixos em mim. A mão estendida. Dei-lhe mais vinte euros. Sorriu-me e disse Obrigado, pá!
Sai do café à borda-da-estrada. Entrei no carro. E voltei à Nacional.
Não tinha ainda feito dez quilómetros quando encontrei uma operação stop. Com a minha sorte, sou um dos eleitos, pensei. E fui. Um elemento da Brigada de Trânsito, no meio da estrada, fez-me sinal para parar na berma-da-estrada. Fui para a berma-da-estrada. Parei o carro. Um guarda pediu-me os documentos. Meus e da viatura. Dei-lhos para as mãos. Dei-lhe tudo o que tinha. Ele desapareceu. E ainda não voltou.
E eu estou aqui à espera. Tenho a perna a tremer. O pé a bater no pedal. Estou nervoso. Desde manhã que sei que a sorte não me deseja e o azar é o meu destino.
O guarda regressa de lá. Para onde tinha ido. Pára ao pé de mim. Dá-me os documentos do carro. Vai olhar o selo, do outro lado. Depois volta à minha janela e, com a minha Carta de Condução na mão diz-me A Carta está caducada.
Foda-se!, pensei. Estou fodido!

[escrito directamente do facebook em 2019/05/31]

Três Furos em Quinze Dias

Três furos. Três furos em quinze dias. Três furos em três pneus diferentes. Um é azar. Dois é coincidência. Três? Três é…
Coloquei um jogo de pneus há dois meses. Pneus novos, depois de anos a sobreviver a pneus carecas que nunca me deixaram ficar mal. Nunca furaram. Nunca derraparam. Sempre travaram. Sempre agarraram o asfalto.
Há dois meses troquei de pneus. Quatro pneus novos. O carro até sofreu um upgrade. Os pneus valiam quase mais que o carro. Mas não eram um luxo. Eram uma necessidade.
Há quinze dias o primeiro furo. A caminho de uma noite de Sábado. Um Sábado de chuva. Um furo a meio do caminho. Trocar de pneu à chuva. Às escuras. Regressei a casa. Já não houve noite de Sábado. Depois descobri um prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu.
Há dois dias o outro pneu da frente. Tinha ido ao supermercado. No regresso das caixas, com os sacos das compras, descobri o pneu em baixo. Mudar de pneu no estacionamento do supermercado. Entre carros e compras. Entre famílias e criancinhas. Toda a gente a olhar. E eu a mudar o pneu. Ali de cu para o ar. Outro prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu. Há coincidências.
Ontem ao sair de casa descobri o carro em baixo. Outro pneu. Desta vez um traseiro. O furo anda a dar a volta ao carro. E à minha paciência. Lá fui mudar o pneu. Acabadinho de tomar banho. Ainda com cheiro do sabonete Musgo no corpo e o Basic Homme da Vichi nos sovacos. Outro prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu. Não é uma coincidência.
O que é que se faz? O que é que se faz nestes casos?
Eu sei que os pregos foram lá colocados. Não vi quem foi. Não estava lá. Mas desconfio. Tenho quase a certeza. Mas é que é mesmo uma certeza.
Não ando com o carro em estaleiros. Nem faço rallies, nem provas de perícia. Não ando em caminhos de cabras. Sou cauteloso.
Claro que foi propositado. Claro que foi uma declaração de guerra. E eu sei de quem. Desconfio. Mas desconfio com muita certeza. De uma forma muito clara.
E sei onde é que ele vai todos os dias de manhã beber café.
E hoje de manhã fui lá. Espreitei pela vitrina do café. Vi-o sentado ao balcão. De costas. O que é que se faz nestes casos? Respirei fundo. Tentei acalmar o coração. Ganhei coragem. Entrei.
Fiz o caminho da porta até ao balcão de olhos fixos na nuca do tipo. Ele bebia um café e uma aguardente. Parei atrás dele. Respirei fundo de novo. Coloquei a mão esquerda no ombro para lhe chamar a atenção. Ele virou-se. Olhou para mim. Vi o gozo espalhado no olhar dele. Um leve sorriso trocista na boca. Eu levantei o braço direito e deixei cair, com força, o podão na cabeça dele. O podão que ia levar para cortar um pinheiro para árvore de Natal (sou contra os de plástico). Já não o iria cortar. Espetei o podão na cabeça do tipo. Ele continuou sentado. Os olhos na minha direcção. Em silêncio. E começou a escorrer um fio de sangue pela cabeça abaixo. Depois o fio já era quase um pequeno riacho. Os olhos ficaram baços. O corpo tombou um pouco, de lado, mas ficou preso ao balcão, o que lhe davam um ar estranho, ali sentado, uma aguardente ao lado, com o podão espetado na cabeça e o sangue a escorrer pela cara abaixo.
Eu estava calmo. Sentei-me ao balcão. Ao lado dele. Pedi um café. E pus-me à espera da guarda.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/13]

Um Prego no Pneu

Eu ia na auto-estrada. Era de noite e eu ia na auto-estrada. Ia sozinho no carro. Não havia ninguém para além de mim. Era uma noite vazia. Uma viagem tranquila e solitária. Senti uma guinada para a esquerda no volante. Pensei que fosse o vento. Mas não parecia haver vento. O carro endireitou. O volante continuou a seguir as minhas mãos. O carro seguia em frente. Parecia mais pesado. A direcção parecia mais pesada. O carro começou a tentar fugir-me. Eu tentei escutar. Não ouvia nada estranho. Desliguei a música. Nem me tinha apercebido que tinha música a tocar. Desliguei a música e escutei. Parecia haver um som esquisito, mas não percebi bem o que era. A direcção do carro continuava pesada. O carro, agora, parecia teimar em virar à esquerda. Encostei na berma direita da auto-estrada.
Saí do carro. Dei uma volta em torno dele. Numa quase obscuridade não via grande coisa. Não havia carros a passar. Não havia feixes de luz. Parei no pneu da frente do lado esquerdo. Não precisei de luzes. Estava em baixo. Via-se o pneu em baixo. Completamente em baixo. A jante quase no asfalto. Tinha um furo. Pus as mãos na cintura e maldisse a minha vida.
Fui ao porta-bagagens. Abri-o. Olhei lá para dentro. Cocei a cabeça. Levantei o chão do porta-bagagens. Uma roda com ferramentas. Um triângulo, e pensei O triângulo! Tenho de ir colocar o triângulo. Um macaco. Mais umas coisas que não identifiquei. Tirei essa roda de ferramentas para fora do carro. Lá por baixo, uma roda pequenina com uma faixa amarela. Tirei-a também.
Peguei no triângulo e comecei a andar para trás para o colocar na estrada. Não havia carro nenhum a passar. Não havia. Logo apareceu um carro da Brigada de Trânsito. Ligou as sirenes de luz. Parou na berma depois de passar por mim. Larguei o triângulo no asfalto. Regressei. Ao passar ao pé do guarda disse Boa-noite. E ele respondeu Boa-noite? Já tem uma multa. Eu parei a olhar para ele. Não tinha percebido. Ele tinha um sorriso sacana na cara. Perguntei Como?! e ele perguntou-me O colete? E eu pensei Foda-se!
Procurei pelo carro todo. Não o encontrei.
Comecei a desmontar a roda. Desaparafusar os parafusos. Oh, pá! E força? Aquela porra é apertada com máquina. Tentei fazer força com o pé dentro de uma sapatilha que se dobrava toda com a força. Insisti. Mudei de parafuso. Fui insistindo. Fui mudando de parafuso. Fiquei com a palma da mão direita toda negra da força. Os dedos sujos do pneu. Rasguei uma sapatilha.
Um dos guardas foi colocar-se, com uma vareta luminosa nas mãos, ao pé do meu triângulo, para avisar os carros. Mas não passou nenhum. O outro ficou ao pé de mim a ver as minhas dificuldades. Eu transpirava. Rasguei a palma da mão. Fiz sangue. Finalmente um dos parafusos cedeu. Os outros foram atrás. Mais ou menos.
Enfiei o macaco debaixo do carro. Comecei a dar à manivela. Aquela merda não dá jeito nenhum. Encaixei o macaco no veio. Comecei a levantar o carro. Depois acabei de desaparafusar os parafusos. Retirei-os todos. E o pneu. Olhei para o guarda, satisfeito. Ele abanou a cabeça e sentenciou O colete!…
Voltei a fechar a minha cara. Olhei para o pneu. Um prego. A cabeça de um prego no pneu. Levei-o para o porta-bagagens e mandei-o lá para dentro. Tinha as mãos pretas. Uma delas encarnada do sangue. Peguei no pneu pequenino e levei-o até à roda. Coloquei-o. Apertei um pouco os parafusos. Baixei o macaco. O carro ficou direito no asfalto. Apertei os parafusos. Apertei com força. Apertei com toda a força que tinha. Fiz força com os pés. Carreguei. E disse Quero ver o gajo da oficina a espremer-se todo para tirar esta merda. E olhei para o guarda. Ele não disse nada. Arrumei as ferramentas e o macaco na roda das ferramentas. Uma carrinha parou atrás do carro da Brigada de Trânsito. Também tinha luzes no tejadilho. Outro carro da Brigada? pensei. Não, era o carro de serviço da auto-estrada. Ainda chegas a tempo!, voltei a pensar. Coloquei a roda das ferramentas no porta-bagagens e fechei a porta. Tinha as mão imundas. Limpei-as às calças. O guarda aproximou-se de mim e pediu-me os documentos do carro e a carta. Eu pensei A sério?!, mas fiquei calado. Tirei os documentos da carteira que tinha no bolso das calças. Sujei tudo com as minhas mãos. Uma delas estava com sangue. E suja. E se fico com tétano?, ainda pensei. Passei os documentos ao guarda. Ele pegou neles e começou a escrever num caderno. Aproximou-se o tipo da carrinha e perguntou É preciso alguma coisa? E eu abanei a cabeça. O tipo voltou para a carrinha e arrancou. O guarda acabou de escrever no caderno, rasgou uma folha e entregou-ma juntamente com os meus documentos. Disse Boa-noite! e voltou para o carro. O outro, com a vareta luminosa, já lá estava. Entraram para dentro do carro, desligaram as luzes da sirene e arrancaram devagar. Ao passarem por mim, o segundo guarda baixou o vidro e disse Não se esqueça do triângulo. O triângulo!, pensei. Estou sempre a esquecer o triângulo. O carro arrancou. Fiquei ali sozinho. De novo na escuridão nocturna. Só. Em silêncio. Cansado. Com sangue numa mão. Com as mãos sujas. As unhas cheias de óleo. As calças, a camisola e o casaco sujos. Uma sapatilha rasgada. A cara toda mascarrada, mas na altura ainda não sabia. Fui buscar o triângulo. Mandei-o para o banco de trás. Entrei no carro. E respirei fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/09]