O Campeonato de Girão

Vi, por acaso, a meia-final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins entre Portugal e Espanha, e vi a seleçcão portuguesa agigantar-se perante os crónicos vencedores do mundo.
Decidi ver a final. Era hoje. Portugal contra a Argentina.
Comprei uns amendoins com casca. Uma garrafa de Encostas de Pias, tinto. Dois maços de cigarros. O Zippo com gasolina. Fechei as cortinas da sala. Liguei a RTP1. Aguentei os programas da tarde até à hora do jogo.
Quando o jogo começou já estava bêbado. E a garrafa vazia.
Os nervos não costumam atacar-me. Não era o caso de hoje. Hoje estava nervoso. Se calhar por estar bêbado.
Deixei passar a primeira parte do jogo sem me ter apercebido que estava a acontecer. Quando despertei, percebi que o guarda-redes português, Girão, estava a defender a sua quinta grande penalidade e, à semelhança das anteriores, defendeu a baliza nacional com brio, fechando a entrada às bolas argentinas.
Foi então que me apercebi que podíamos estar à beira de sermos campeões do mundo. Sim, que eu aproprio-me destas grandes conquistas. Estava zero-a-zero. O tempo corria para o final. Os nervos caíam-me em cima e comecei a devorar os amendoins. Desfazia as cascas e mandava os amendoins a voar para dentro da boca. Triturava-os rapidamente. Repetia a acção. Voltava a repetir. E de novo. E outra vez. E novamente. E fiquei cheio de sede e enquanto Girão se dispunha a defender outra grande penalidade, fui à procura de algo para matar a sede. Encontrei uma garrafa de Brandymel que nem sabia que havia cá em casa. Uma bebida de que não gostava. Mas levei o gargalo à boca e ajudei a empurrar os amendoins pela garganta abaixo.
O jogo continuava. A Argentina mais acutilante. Portugal mais suave. Falhava muito na finalização. Mas nós tínhamos o Girão. A Argentina não. Girão era português e estava na baliza portuguesa para a defender dos adversários. E manteve-a inviolável até ao final do jogo.
Veio o prolongamento. O comentador do jogo na RTP1 não se calava com a décima falta argentina. A décima falta que permitiria à selecção portuguesa usufruir de uma grande penalidade que ainda não tinha usufruído, ao contrário dos argentinos que já levavam mais de uma mão-cheia delas a que Girão se opôs com galhardia. Mas nunca chegou esta décima falta. E o tempo foi passando. Umas vezes mais depressa. Outras vezes mais devagar. Por vezes parecia que a Argentina se posicionava para o golo. Por vezes era Portugal que falhava golos feitos, o que me levava a gritar asneiras a plenos pulmões, acender cigarros uns nos outros e a beber o Brandymel directamente da garrafa.
Há muito tempo que não me sentia tão nervoso.
Mas o prolongamento chegou ao fim.
Vieram as grandes penalidades.
E eu percebi que íamos ganhar o Mundial. Ter o Girão na baliza era quase como ter Deus a rezar a si próprio por nós.
E eles começaram por falhar. E nós também. Depois marcaram. E nós também. E depois eles falharam. E nós não. E quando falhámos a grande penalidade que nos daria a vitória, foi só para que Girão defendesse a grande penalidade argentina que nos garantiria a vitória no Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins em Barcelona 2019. E foi o que aconteceu.
Girão defendeu a última grande penalidade argentina. Portugal nem precisou de marcar a sua. Girão ganhou o campeonato para Portugal.
Mandei os amendoins ao ar. Os amendoins e as cascas. Despejei a garrafa de Brandymel, o que me deixou enjoado. Acendi mais um cigarro. Agarrei na minha bandeira de Portugal com pagodes no lugar dos castelos e vim para a rua onde estou agora para comemorar com os meus compatriotas mais este grande triunfo lusitano na alta-roda do desporto mundial.
Já estou aqui há mais de meia-hora e continuo a ser o único a correr à volta da rotunda com uma bandeira de Portugal. Já fumei os meus cigarros todos.
Se não aparecer mais ninguém nos próximos cinco minutos, vou-me embora.
No próximo quarto-de-hora.
Não. Na próxima meia-hora. É preciso dar tempo aos portugueses para levantarem a peida do sofá.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/14]

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Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semi-serrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo estava tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

Tenho a Vontade, mas Já Não Tenho a Idade

Sou muito bom a saltar à corda. Quando era miúdo, as miúdas invejavam-me o jeito para saltar à corda. Saltava com duas cordas movimentadas em sentido contrário uma da outra. Era raro perder. Quase nunca era a minha vez de dar à corda. Eu saltava. Se houvesse um campeonato de saltar à corda, eu ganhava. Não ganhei porque não havia. Mas ganhei duas medalhas em futebol de salão (na altura não havia futsal, isto foi num outro tempo, um tempo antigo e de expressões diferentes para falar do mesmo). A piada das medalhas é que as ganhei como guarda-redes da equipa que venceu, em dois anos consecutivos, o campeonato do colégio. Eu, guarda-redes! Até a mim me custa a engolir, mas foi verdade. É verdade. Na rua, nunca joguei à baliza. Ninguém da Malta da Rua conheceu esta minha faceta. Na rua, eu era um nove. Um descendente de Nené. Nunca sujava os calções. Não corria muito. Andava por ali à mama, como se dizia. Mas estava sempre no sítio certo para colocar o pé e marcar golo. Golos. E dar vitória às minhas equipas. Às minhas equipas construídas na rua. Dois gajos saltavam para a frente um do outro e depois iam andando, um pé de cada vez, um pé à frente do outro, e o tipo que pisasse o pé do adversário era o primeiro a escolher os jogadores para a sua equipa, um de cada vez em escolhas alternadas. Primeiro um, depois o outro. E repetia-se até se acabarem os jogadores disponíveis. Às vezes colocava-se o pé atravessado, como se fosse só metade, para lixar o adversário. Isso não vale, diziam uns. Vale, vale! Sempre valeu, ora!, diziam outros.
Agora, num tentativa estúpida de parar o tempo, tento regressar ao passado através da repetição de coisas em que era bom. Ao Stop. Ao King. À corda. Agarro numa corda que tenho aqui por casa e vou para a rua saltar. Imaginava a glória. Os meus treze anos. Os quinze. As miúdas à volta a gritar por mim. E eu, aos saltos entre as voltas de uma corda, a correr para a glória. E então faço a corda passar por cima da minha cabeça, dou um ligeiro pulo, insuficiente, a corda entrelaça-se nos pés, desequilibra-me, tropeço e caio atabalhoadamente no chão de brita. Coloco as mãos à frente para me aparar a queda e magoo os pulsos. Deslizo na brita e esfacelo os joelhos e os cotovelos. Rasgo as calças. Tenho sangue no corpo. Caiu-me uma das lentes para o chão. Bati com os lábios. Já incharam. Estou cheio de pó. Dói-me a anca. Espero que não me tenha acontecido nada na anca.
Deixo a corda lá, onde está caída. Não quero saber dela. Sacudo-me. Perco a esperança de encontrar a lente. Entro em casa. Penso que os tempos de glória já se foram. E a idade passa por mim a galope.
Entro na casa-de-banho. Dispo-me. Tomo banho. Limpo com cuidado as feridas. Dói-me a alma. Faço uns curativos. Visto um fato-de-treino.
Sento-me no sofá. Estou macambúzio. Acendo um cigarro. Ligo o iPad e acedo ao link para ver o jogo entre a União Desportiva Vilafranquense e a União Desportiva de Leiria para decidir quem sobe à Segunda Liga.
Este é o jogo que jogo melhor. Sentado no sofá. Um cigarro nos dedos. E um copo de vinho na mão. Porra! Falta-me o vinho. Levanto-me e vou buscar um copo.
Empate a uma bola no final da partida. Empate a uma bola no final do prolongamento. O Vilafranquense vence nas grandes penalidades. Foda-se! Despejo o vinho de um gole. Acabo o cigarro. Dói-me o corpo. Dói-me a alma.

Jogar à Bola com a Malta da Rua

Eu saltava o muro do colégio e ia jogar à bola no campo pelado. Eu e o resto da malta da rua. Havia sempre uma bola. Uma bola nova. Uma bola nova à espera de ser esfacelada na areia rugosa do campo pelado do colégio. Subia o muro, saltava as grades e corria ao longo do campo. Bola nos pés. Fintava um. Fintava outro. Cara-a-cara com o guarda-redes mandava a bola para o fundo da baliza. Marcava golo. Levantava o braço direito. Corria pelo campo, sem bola, de braço no ar, saudado pelos companheiros de equipa. Golo. Era golo.
Eu jogava à frente. Era avançado. Não era ponta-de-lança, nem extremo. Era avançado. O gajo que está mais perto da baliza, que corre menos, faz menos metros de campo e está sempre à espera da oportunidade criada pelos outros, por aqueles que, realmente, sabem jogar à bola. Eu? Eu só marcava golos.
Todos os Sábados era assim. Saltava o muro e ia jogar à bola com a malta da rua. Jogávamos Benfica-Sporting entre nós. Às vezes fazíamos pequenos campeonatos internacionais e jogávamos contra o Ajax e o Barcelona. Eu cheguei a jogar pelo Nottingham Forest. Já nem sei porquê. Com tantas equipas fixes, tinha de escolher o Nottingham Forest. Talvez tivesse um equipamento bonito. Não sei. Já não sei. Não me recordo.
Outras vezes jogava contra outras ruas. Outros bairros. Às vezes as coisas saiam do controle e, quando dava por ela, estava ao murro com alguém. Às vezes com amigos. O futebol de rua era, por vezes, violento. Às vezes o jogo da bola transformava-se em luta livre. Às vezes até havia sangue. Raramente o meu.
Naquele dia estava a chover. Eu sabia que não podia jogar à bola à chuva. Os meus pais tinham-me proibido. Fazia-me mal à bronquite. Não andes à chuva!, diziam-me. Olha a bronquite!, avisavam-me.
Mas naquele dia, naquele dia eu estava endiabrado. Já tinha metido dois golos quando começou a chover. Ninguém quis parar o jogo. Uns porque estavam a ganhar. Outros porque estavam a perder. Eu porque já tinha marcado dois golos e marquei logo outro de seguida, o terceiro, quando já caía água com fartura.
Sentia-me um jogador à séria. A chuva a cair. O cabelo encharcado. A água a escorrer-me pela cara, pelas costas. E eu de calções, camisola de manga-curta, chuteiras. De mão na anca. Parado. Parado a meio do campo à espera que a equipa adversária retomasse o jogo. Estavam irritados. O guarda-redes já não queria ser guarda-redes e não havia ninguém que quisesse ir para a baliza. Nós aguardávamos no nosso lado do campo. Eu aguardava. A meio do campo. Junto à bola à espera de ser colocada, de novo, em jogo. De mão na anca. A descansar dos três golos. Com a chuva a cair-me em cima. Quando o vi.
O carro parado na estrada. Os quatro piscas ligados. Foi o que me chamou a atenção, primeiro. Depois vi-o. Vi-o através das grades. O meu pai. A olhar para mim. A olhar para mim ali parado, à chuva, à espera de reatar o jogo da bola. À chuva. Eu, à chuva. A bronquite à minha espera. O meu pai a ver-me à espera para retomar o jogo da bola. À chuva. E eu a pensar Chego a casa e vou levar!
Olhei para o meu pai. Vi-o a olhar para mim. Vi-o à chuva, a olhar para mim, todo encharcado. Comecei a correr. Comecei a correr sem bola. Comecei a correr sem bola para o outro lado. Para o lado contrário.
Fugi.
Até hoje.
E ainda não parei.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/25]