Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]

Anúncios

No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]

Tenho a Pistola na Mão

Estou a olhar para a pistola. A pistola que tenho na mão. Uma herança do meu pai. A herança do meu pai. A única coisa que me deixou, coitado. A vida não foi muito simpática com ele. Comeu-o até ao osso e depois, no fim, cuspiu-o fora.
A pistola é pesada. Bonita. Não muito grande. Cabe na palma da minha mão. O cano é que sai um pouco para fora. As minhas mãos não são muito grandes.
Acabei de ver a final da Liga dos Campeões. Vi o Liverpool regressar ao convívio dos grandes. Acho que assisti ao mudar de uma época. Acho que acabou, por uns anos, a época de glória do Real Madrid.
Vi gente a gritar de alegria. Vi gente a chorar de tristeza.
A vida é assim. Boa para uns. Má para outros.
Acendi um cigarro. Fui à janela. Abri-a. Fiquei lá debruçado a fumar e a olhar as gentes que chegavam para a noite na cidade.
Não me sentia bem.
Não tinha nada a ver com o jogo. Com a Liga dos Campeões. Com o Liverpool. Nem sequer com a cidade. Acho que tinha a ver comigo. Mas nem sei bem o quê.
Sentia a cabeça pesada. O corpo agitado. Uma certa angústia. A vida também não tem sido muito simpática comigo. Lembrei-me do meu pai. E foi por isso que fui buscar a pistola. Revi-me na vida do meu pai. Prendi um soluço na garganta. Não o deixei ir adiante. E fui buscar a pistola.
A pistola estava num cofre pequenino que tenho no fundo do guarda-fatos. Abri-o. Peguei na pistola. E fui sentar-me no sofá. Com a pistola na mão.
E aqui estou. Sentado no sofá. O jogo já terminou. Gostei que o Liverpool tivesse ganho. A pistola está carregada. A pistola está sempre carregada. Cada vez que a limpo, deixo-a carregada.
A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola. Ela tinha-a escondido. E depois, perdeu-se. Foi assim o fim oficial da pistola do meu pai. A minha mãe escondeu-a. Escondeu-a de mim. E depois perdeu-a. Esqueceu-se onde a tinha escondido. Mas eu encontrei-a. E fui eu que a escondi. Fui eu que a encontrei e escondi. Fui eu que acabei por ficar com a pistola que era do meu pai. Foi a minha herança.
Estou com a pistola na mão. Estou sentado no sofá com a pistola na mão. O Liverpool ganhou a Liga dos Campeões. A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola que era do meu pai.
Eu tenho a pistola na mão e não sei o que é que hei-de fazer.
Tenho o corpo a tremer. Sinto uma certa ansiedade. A boca seca. A perna a abanar. O pé a bater no chão. Tenho uma vontade enorme de chorar. Tenho a pistola na mão. A pistola que era do meu pai. E que a minha mãe queria esconder de mim.
Tenho a pistola na mão e medo do que possa fazer.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/01]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]