Eu Vi o Mangkhut Matá-la

Eu vi aquilo a acontecer. Os vidros a estilhaçarem e a espetarem-se nela. A janela a partir-se e os vidros a rebentarem em mil-e-um pedaços mortais que se espetaram na cara, no corpo, na cabeça.
Era só sangue. Sangue e água da chuva. E pedacinhos cortantes de vidro.
Eu sabia que o Mangkhut estava a chegar lá, a Macau. Chamei-a pelo skype. Queria saber com é que ela estava. Ela atendeu e vi, atrás dela, a janela com fita-adesiva em X, a proteger os vidros do vento e da chuva. Dos excessos de vento e chuva do Mangkhut.
Não estávamos há muito tempo à conversa quando vejo, atrás dela, as janelas a rebentarem, os vidros a estilhaçarem, ela a virar-se para trás e a ser alvejada pelos mil-e-um pedaços de vidros cortantes.
Vi-a virar-se, levantar-se e ser projectada através da sala. Vi riscos de sangue a cruzar o espaço e a deixarem marcas de Pollock por todo o lado. Vi pedaços de vidros, como balas, a espetarem-se nas paredes da sala, a baterem no ecrã do computador, como se me quisessem atacar a mim, à distância de milhares de quilómetros tornados ali-mesmo-ao-lado através da magia da comunicação. Vi o Mangkhut entrar dentro de casa através da água da chuva e do vento e destruir tudo.
Enquanto ela estava agonizante caída no chão da sala e a tempestade destruía tudo lá dentro, eu sentia-me privilegiado pela distância segura de meio mundo e, ao mesmo tempo, de estar no olho-do-tufão através de um computador que sobrevivia, milagrosamente, à intempérie e uma ligação via skype que se mantinha contra todas as adversidades e expectativas.
Gritei. Gritei muito para o meu computador aqui, deste lado do mundo. Para fazer eco lá. Para que ela me ouvisse. E dissesse que estava bem. Que não me preocupasse. Que nos voltaríamos a encontrar pelo Natal.
Mas tudo o que vi foi o corpo dela tombado no chão, repleto de manchas vermelhas que se tornavam cor-de-rosa com a força da água. E o silêncio dela em contraste com o barulho da tempestade. E a quietude dela em contraste com a agitação daquele furacão ou lá o que era.
Baixei a tampa do meu computador e deixei-me morrer.
Enfiei-me na cama e cobri a cabeça. E comecei a enumerar os jogadores do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/16]

Vi à Minha Frente uma Vaca a Voar

Vi passar uma vaca à minha frente.
Vivo num terceiro andar e, da janela da cozinha, vi passar uma vaca a voar à minha frente.
Apareceu um furacão aqui na cidade. Não sei de onde é que ele veio. Não sei onde é que se formou. Mas aqui, na cidade, libertou milagres.
Só na minha rua desfez a esplanada da pastelaria. Os chapéus foram os primeiros a voar. Logo seguidos das mesas e cadeiras. Ainda vi uma pessoa agarrada a uma porta, de pernas no ar, mas que conseguiu entrar dentro da loja. Não apareceu mais ninguém na rua. As pessoas esconderam-se. Alguns carros ganharam vida. Deslizaram pela estrada empurrados pela força do vento. Uns subiram para cima de outros. Houve um que se enfaixou na varanda do primeiro andar. Placas, ramos de árvore, árvores, motas, bicicletas, arbustos inteiros, lixo, pedaços de vida tornados lixo, tudo a voar pelo meio da rua e a subir até à janela da minha cozinha.
Eu acendi um cigarro, mas não abri a janela. Era muito o vento. E assobiava. Fiquei ali a ver o drama a desenrolar-se à minha frente. Nunca tinha visto nada do género. O ar parecia riscado a grafite com a quantidade de… Coisas… Que rodopiavam num remoinho sem fim. O prédio em frente perdia as telhas. As tralhas que os vizinhos guardavam nas janelas já tinham levantado voo há muito tempo. Alguns vidros partiram-se.
E foi então que a vi. A vaca. Estava a voar à frente da minha janela. O cigarro caiu-me ao chão.
Virei-me para o interior de casa e chamei-a. Gritei Anda! Anda cá ver isto! e saí para a varanda, agarrado, com força, à grade de ferro.
A vaca deu uma volta circular e estava, de novo, a aproximar-se da varanda quando ela chegou e eu, apontando a vaca disse-lhe Olha! Olha ali! e ela olhou e abriu a boca de espanto.
Agarrou-se como eu à grade da varanda e depois estendeu o corpo para fora para ver melhor o trajecto que a vaca estava a levar.
E, de repente, tudo parou. Tudo parou para mim.
O vento parou. A chuva parou. O barulho parou. O tempo parou. Tudo parou. E eu fixei o meu olhar nela, e no seu corpo estendido sobre a grade da varanda a ver o trajecto da vaca e tive tempo para analisar todas as variáveis da minha vida, todos os prós e os contras, vi com extrema clareza os diferentes caminhos que a minha vida poderia levar ao optar pelas diferentes soluções. Pensei, analisei, estudei, desejei e decidi.
E tudo recomeçou de novo a funcionar e eu estendi o braço sobre as costas dela e empurrei-a para o meio do furacão, e foi o bastante para ela galgar a varanda e ser arrastada, juntamente com a vaca, num remoinho imparável. E vi-a ganhar altura, olhar para mim por segundos e mostrar todo o horror nos seus olhos, e depois, girar, girar cada vez mais rápido e cada vez para mais longe de mim, ela e a vaca, até desaparecerem as duas lá no alto, onde a minha vista já não conseguia alcançar e, depois, depois o tempo acalmou e tudo morreu.
Todas as coisas que estavam a voar, caíram. Parecia uma chuva de objectos bizarros. Mas houve coisas que desapareceram. Entraram noutra dimensão.
Parou de chover. De fazer vento. Parou o barulho. A esplanada tinha desaparecido. O cão do vizinho da frente, também. Nunca mais vi a vaca. Nem a vi a ela.
Fui à cozinha buscar um cigarro e voltei para a janela para ver se a via. Tinha de me certificar que não, que ela não voltaria.
Já passaram dois dias.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/05]

Cada Vez Mais Longe, Cada Vez Mais Fundo

E o patrão disse-me Não fazes mais que a tua obrigação!, e eu fiquei fodido. Obrigação? O amor não se tem por obrigação.
Hoje o dia acordou cheio de sol. Nem pensei muito. Sou dado a decisões irreflectidas. Não fui trabalhar.
Arranquei para a praia. Não me cruzei com nenhum carro na estrada. Quando lá cheguei, não vi ninguém. O café aberto, mas vazio. Desci até à praia. Entrei na areia. Caminhei. Caminhei muito. Caminhei bastante até me afastar.
Não havia ninguém na praia. Nem pescadores. Nem casais de namorados. E, no entanto, estava um dia maravilhoso para passear na praia, para namorar à beira do mar, para dar asas à loucura e fazer sei lá o quê.
Gritei. Gritei para o alto. Para o céu. Mas ninguém me ouviu. O meu grito foi comido pelo rebentar das ondas no mar. Estava um belo dia de Primavera neste Inverno, estava um belo e quentinho sol, mas o mar estava bravo. Parecia irritado. Vomitava espuma amarela que vinha subir a areia. Batia com força no fundo e nas rochas e espalhava gotas de mar por cima da praia suja e de mim.
Sentei-me na areia a contemplá-lo. Gostava de o ver. Era um bonito e assustador bailado debaixo de um som gutural que ampliava o medo.
Num salto irreflectido levantei-me e comecei a despir-me. Dobrei a roupa muito bem dobrada e coloquei-a na areia, peça em cima de peça, e as sapatilhas em cima de tudo, para fazer peso e a roupa não voar. Depois fui lentamente, mas decidido, até ao mar. E fui entrando lá dentro. Devagarinho. A água estava gelada. Fui-me adaptando, aos poucos, mas fui entrando, cada vez mais longe, cada vez mais fundo.
Fui molhando o corpo com as mãos. A água começou a subir por mim acima. A minha masculinidade ficou reduzida ao mínimo. Não a sentia. E então mergulhei. E nadei um bocado debaixo de água para fora da rebentação.
Vim ao cimo do mar um pouco longe da praia. E fiquei a vê-la como se estivesse a despedir-me.
Fiquei ali um bom bocado, a boiar em pé, a subir e a descer nas ondas, a ser levado, lentamente, pela corrente, lá mais para dentro, a ver a praia a ficar cada vez mais distante, até que comecei a pensar Eu não sou lá grande nadador. A minha filha é! A minha filha é uma grande nadadora. Eu não. Mas continuava ali, a sentir-me levado lá para dentro.
E foi então que vi um cão. O cão estava à beira do mar a ladrar. Corria de um lado para o outro a ladrar. E, num segundo, pareci reconhecer aquele cão. Aquela forma de correr de um lado para o outro. Aquela forma de ladrar, consecutiva com pausas rítmicas. E depois vi passar à minha frente, no mar, uma garrafa de plástico de litro e meio, vazia, mas fechada, e percebi que o cão estava atrás da garrafa, exactamente como…
E nadei para a garrafa, agarrei-a e comecei a nadar em direcção à praia. Mas era difícil. A corrente estava cada vez mais forte. Insisti. Dei aos braços. Forcei. Forcei-me. Nadei. Nadei com muita força. Com muita vontade. Determinação. Enfiei a cara dentro de água, prendi a respiração, e forcei os braços ao longo das ondas até ao limite das minhas forças e da minha capacidade torácica e descobri-me, finalmente, na areia, com as ondas a rebentarem-me em cima. A espumarem-se em mim.
Cambaleante de cansaço procurei o cão com a garrafa de plástico na mão. Mas não o vi. Não o ouvi. Fechei um pouco os olhos para fazer foco e perscrutei os horizontes da praia. Nada do cão. Nem ninguém. Nada.
Sentei-me na areia. Molhado. Ao lado da minha roupa. E fiquei ali um bocado. Ao sol. A secar.
Por fim vesti a roupa e saí da praia. O sol estava lá no alto. Bonito e quente. Não havia nuvens no céu. Nem gente na praia. Nem um cão.
Levei a garrafa de plástico comigo e fui-me embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/21]

Fui Defender o Pinhal do Rei e Não o Encontrei

Tínhamos acabado de jantar enquanto víamos as notícias dos incêndios no país. Ouvi que oitenta por cento do Pinhal do Rei tinha ardido. E esta notícia ficou-me na cabeça. A zumbir.
Fui lavar a louça. E quando ela fechou os estores da janela, fiquei irritado. Ainda havia luz no exterior. E gosto de ver as luzes coloridas que vêm lá de fora. Mas ela tem medo dos fantasmas que se aglomeram à entrada da janela para entrar em casa e chateá-la. Eu percebo-a. Mas irrita-me. E com esta história dos oitenta por cento do Pinhal do Rei estava realmente muito sensível. E gritei. Gritei-lhe. E ela foi sentar-se no sofá, sentida comigo que não a percebia.
Acabei de lavar a louça e fui até ao quarto. Sentei-me na cama e pensei no Pinhal do Rei. E nos oitenta por cento que arderam. E nos vinte por cento que restavam. Algo estava a nascer. Uma ideia. Uma vontade.
Fui debaixo da cama e retirei a AK-47 que tinha comprado aos tipos que assaltaram o arsenal de Tancos. Embrulhei-a numa toalha. Fui à cozinha e arranjei um farnel. Um naco de pão. Um bocado de queijo. Meio chouriço. Uma garrafa de vinho tinto das Cortes. Meti tudo numa mochila. E disse-lhe Venho tarde, e ela respondeu Tem cuidado, e eu fui, mas antes apanhei a metralhadora no quarto.
Pus a mota a trabalhar e arranquei. Fui para São Pedro de Moel. Ia procurar os vinte por cento de Pinhal que tinham sobrevivido.
Mas quando cheguei a São Pedro de Moel, percebi que ainda era de noite. Como raio é que ia descobrir os vinte por cento de Pinhal que não tinha ardido?
Parei a mota ao pé do Observatório Astronómico, que estava deserto, e resolvi descansar. Abri a garrafa de vinho tinto das Cortes e depressa dei cabo dela. Tão depressa que nem me lembro de ter acabado a garrafa, de ter adormecido e do dia ter chegado. Do que me lembro é que quando abri os olhos o sol já estava alto. Era tão grande a claridade que tive de colocar os óculos de sol. E foi aí que pensei de novo nos vinte por cento do Pinhal do Rei que tinham sobrevivido. Montei na mota e saí por ali fora à procura desses vinte por cento de Pinhal intacto. Quando o descobri, parei, escondi a mota e preparei a metralhadora. E pus-me a patrulhar a zona a pé.
Já ao final do dia, vi aproximar-se um jipe da GNR. O que raio é que eles aqui estavam a fazer? Deviam ter estado aqui era no dia do incêndio.
Mirei o jipe e disparei. Acertei na chapa. Os guardas assustaram-se e foram embora.
E pensei que ainda bem que eu estava ali. Não tinha de a aturar, a ela, e estava a defender aquilo que era meu. E o próximo que ali chegasse, levava com a mesma conta.
Agora, não há muito tempo, lá ao fundo, muito ao fundo da estrada, comecei a ouvir o barulho de camiões. Vários camiões, parece. O que será?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/20]