A Porta Fechada ao Cimo da Escadaria de Pedra

Desperto com o bater da porta. Alguém saiu de casa. Quem é que saiu de casa? Ela saiu de casa?
Abro os olhos e percebo que não estou em casa. Estou sentado numa escadaria de pedra. À minha frente passam carros. Estou na cidade. Viro-me para trás e vejo, no alto da escadaria, um homem a fechar as portas e penso São quatro da tarde.
Levo a mão ao bolso das calças e agarro o telemóvel. Olho e vejo escrito em numerário dezasseis horas. São pontuais.
Cai-me um pingo na mão. Um pingo vermelho. Sangue. Estou a deitar sangue do nariz. Apanhei muito sol. Levanto a cabeça para trás. Guardo o telemóvel e procuro um lenço de papel no outro bolso. Só tenho um lenço sujo. Um lenço já usado. Coloco-o no nariz e aguardo assim, com a cabeça lançada para trás. Ponho-me a pensar se esta é a melhor maneira de colocar a cabeça. De repente chega-me a dúvida e penso se não devia ter a cabeça virada para baixo. Deixo-me estar como estou. E estou assim durante algum tempo. Vejo o lenço de papel. Vejo o sangue no lenço de papel. Volto a dobrá-lo e a colocá-lo no nariz. Repito esta operação até deixar de ver sangue no lenço.
Levanto-me do degrau de pedra, do degrau daquela escadaria que leva, lá no cimo, a uma porta que já está fechada. Já passa das quatro da tarde.
O que é que vou fazer?
Acendo um cigarro. Sinto perder as forças nas pernas e volto a sentar-me no degrau de pedra. Fico ali sentado a fumar o cigarro. De vez em quando, a porta lá de cima abre-se para sair alguém. Eu não saio porque não cheguei a entrar.
Abro a boca. Abro muito a boca mas não estou a bocejar. Abro a boca como se quisesse abocanhar o mundo. Abro muito a boca como se quisesse gritar. Mas não grito. Estou no meio da cidade. Há muita gente a passar. Não quero que me achem maluco. Já basta o que basta.
Acabo o cigarro e deixo-o cair no degrau abaixo de mim. Vejo a ponta incandescente a consumir-se devagar.
Levanto-me. Sacudo as calças no cu que esteve sentado no degrau de pedra. Entro no circuito de gente que caminha para algum sítio. Eu não sei para onde deva ir. Não tenho para onde ir. Sinto-me no limbo. Viro-me para trás e vejo a porta ao cimo dos degraus de pedra, fechada. Não sei o que fazer nem para onde ir.
Caminho à sorte pelas ruas da cidade. Ruas barulhentas. Ruas mal-cheirosas. Ruas sujas. Descubro-me junto ao rio. Sento-me num muro que marca uma das margens nesta passagem do rio pela cidade. Olho para a água estagnada e suja. O leito deve estar bloqueado lá mais à frente e o rio está parado. Há uns patos a passearem-se lá no meio.
Sinto um arrepio nas costas e não será do frio. Tenho uma tontura. Sinto-me fraco. Aos meus pés o rio. O mundo parece girar em torno de mim. Sinto o estômago às voltas. Sinto a cabeça às voltas. Eu estou às voltas. Os patos parecem nadar no céu. Uma vertigem parece que me puxa. E eu deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/11]

Perante a Impossibilidade

Estamos a meio de uma Pandemia. Prestes a entrar numa situação de Contingência, seja lá isso o que for. O normal já não é normal. As pessoas adaptam-se. As pessoas tentam sobreviver. Alguns não conseguem. Há sempre alguns que não conseguem. Não porque sejam piores, menos capazes, insuficientes. Não conseguem porque não conseguem.
A maior frustração de um homem é estar a tentar contar uma história (a história, a sua história, afinal, a sua razão) a alguém que tem os ouvidos fechados e, como resposta só lhe sai São as regras. E as regras são invioláveis. Mesmo quando mudam. Porque às vezes têm de mudar. Porque o mundo muda. Tudo muda. Até, fartaram-se de me zurzir aos ouvidos, já não existem empregos para a vida. Tudo muda. A máquina burocrática não. É posta a funcionar por alguém. Ninguém sabe quem. Mas quando começa a trabalhar já não pára até finalizar o que tem para finalizar. O coitado do novo Josef K. será enviado de balcão para balcão, de um departamento para outro, guichet atrás de guichet, a preencher formulários cujas perguntas não entende, a dar a mesma informação que já deu tantas vezes, todas as vezes, que já não as consegue enumerar porque não tem dedos e dentes suficientes para as contar, as mesmas informações que constam do seu processo, dos seus processos, porque ele é sempre o mesmo, com as mesmas informações de sempre, para lhe darem a mesma resposta em balcões diferentes, em departamentos diferentes, por gente diferente de postos e guichets diferentes Não é aqui, e não sei onde possa ser. Talvez indo…
Em Peniche há uma espécie de promontório, de rochas bem escarpadas que entra pelo mar. Assusta caminhar lá por cima. Às vezes há pequenos buracos que levam directamente ao mar. Alguns são pequenos, o pé dentro de uma sapatilha atravessa-os, como uma ponte, de lado a lado. Sentimos a fúria do mar lá dentro, lá debaixo, mas há outros que são grandes o suficiente para nos provocarem a queda e, mesmo que não nos levem ao mar, nos levam a outro lado donde talvez não se consiga sair. Quando se caminha por estas rochas pontiagudas, escarpadas, sente-se o medo da violência do mar. A minha mãe dizia-me sempre de todas as vezes que eu ia mergulhar Com o mar não se brinca. E ali percebe-se o que ela queria dizer. Há dias em que as ondas batem nessas rochas e explodem em todo o seu esplendor e fazem cair sobre quem se aventura por ali, uma forte chuvada de água salgada que nos pode fazer escorregar, tropeçar, fazer cair nas escarpas e levar até à fúria da maré.
Às vezes quando estou perante a impossibilidade de passar para além da porta, do segurança que protege a passagem através dessa porta, uma porta que devia ser nossa mas que se porta cada vez mais como a porta de ninguém, sinto que estou a caminhar sobre as escarpas dessa espécie de promontório em Peniche, e que o rebentamento de uma onda caída sobre mim me vai fazer tombar num mar violento de onde não vou conseguir sair.
É onde eu estou agora. É como eu me sinto agora. E tomba-me em cima um desespero que me faz gritar e ouço ao lado o cochichar de pessoas que ainda não se transformaram em K. mas hão-de transformar-se, porque este momento K. calha a todos, a dizer Mais um maluco. Eles acabam todos aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/10]

Saio Cada Vez Menos de Casa

Saio cada vez menos de casa. As pessoas andam radicalizadas. Sem paciência. Explodem por qualquer coisa. Refilam por tudo e por nada. Optam por posições extremadas. Estão sempre uns contra os outros. Já não aceitam que os outros também possam ter razão. Ou que há mais verdades para além da verdade de cada um. Eu também. Eu também expludo com facilidade. Não é um acaso. Os últimos capítulos da minha vida, encaminharam-me para aí. Acho que as coisas estão a ser feitas para isso. Estamos a ser canalizado. Alguém quer pôr o mundo a arder. Eu sei que isto parece mais uma teoria da conspiração, mas a verdade é que há cada vez mais lógica na ilógica de tudo isto. É por isso que fico cada vez mais por casa. Para não fazer merda. Para não me meter por caminhos de onde não consiga sair. Para não ter de me arrepender. Para não ter de me arrepender tarde demais.
Hoje saí.
Fui à Nazaré beber café. Acabei a beber duas imperiais porque estava calor e fiquei cheio de sede. Sentei-me numa esplanada. Numa esplanada onde não havia espaço para as distâncias de segurança. As pessoas estavam ao monte. Fui também para o monte. Sentei-me. Percebi que tinha de ir ao balcão buscar o que queria. Não havia serviço de mesas, o que não deixa de ser uma contradição nos dias que correm. Entrei no café e percebi que só havia uma pessoa a trabalhar. É essa pessoa que atende os pedidos. Que coloca os pedidos em pequenas bandejas. Recebe o pagamento. Mais tarde também percebi que era essa mesma pessoa que depois ia levantar a louça usada que se acumulava nas mesas da esplanada e disparava um spray, provavelmente desinfectante, sobre as mesas e passava, rápido, um pano sobre as mesas desinfectadas e depressa regressava ao interior para atender mais gente. Há gente a ser despedida nestes dias. Há gente em lay-off nestes dias. E há gente a fazer um trabalho de cão, muitas vezes pelo preço de um salário mínimo. Há muita gente a sofrer nestes dias. Mas também há muita gente a aproveitar estes tempos para encher os bolsos à custa dos outros. A riqueza é criada quase sempre à custa dos outros.
Acho que é ver este tipo de situações que me deixa da maneira que ando.
As pessoas estão egoístas. Gananciosas. Más. As pessoas são filhas-da-puta e se se apanham com um bocado de poder, por mais pequeno que seja, são filhas-da-puta em todo o seu esplendor.
Estava já na segunda imperial quando me apercebi de um burburinho no outro lado da esplanada. Várias pessoas estavam em pé a olhar para o alto. Para o cimo do prédio onde ficava o café. Para as varandas estendidas sobre a esplanada.
Também olhei. Mas não vi nada. Só gente agitada. Vi pessoas a sacudirem-se. O bruá das vozes em crescendo. Alguém erguia um punho fechado, ameaçador, lá para cima. Depois, aos poucos, apanhando uma conversa aqui e outra ali, lá percebi. Alguém lá de cima despejou lixívia sobre as pessoas na esplanada. Havia gente a tirar as camisolas. Miúdos a chorar. Mulheres a gritar. Homens indignados. Eu próprio acabei por ver camisolas com pintas descoloridas. E depois, ouvi a pessoa que estava a trabalhar sozinha, parada à entrada do café a dizer, Já não é a primeira vez.
Um homem, um homem forte, com tatuagens a cobrir os braços e uma barba enorme que saía para fora da máscara social, disse Aí não? e levantou a cadeira de madeira onde estava sentado, mandou-a contra o chão, partiu-a em vários pedaços, pôs-se a escolher um pedaço e acabou por se decidir por uma perna, comprida e forte, arrancou em direcção à entrada do prédio, deu um pontapé na porta de vidro que se estilhaçou em mil-e-um pedaços e desapareceu dentro do prédio.
Na esplanada, e à minha volta, caiu um manto de silêncio. Sentia-se a ansiedade a bater nos corações de muitas daquelas pessoas. Outras continuavam a conversar como se não fosse nada com elas. Eu queria ir-me embora. Regressar ao sossego de casa. Mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo queria saber como é que aquilo iria terminar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/05]

Velho

Estou especado à beira do passeio, na borda da passadeira, com dois sacos de plástico pendentes nas minhas mãos de velho, a olhar a miúda do outro lado da estrada, à beira do passeio, na borda da passadeira, de máscara para baixo, à volta do pescoço, a espalhar batom sobre os lábios e a ver-se no telemóvel.
Estás bonita, miúda! apetece-me gritar. Mas ela não me iria ouvir. Nem iria olhar para mim. Não me iria ver. Já passei da idade de ser visto por miúdas novas e giras como ela.
Tinha acabado de sair do supermercado, um saco de plástico em cada mão, o corpo já flectido pelo peso dos sacos e da idade, quando parei à entrada da passadeira com o semáforo vermelho para os peões. E vi-a. Do outro lado. De vestido esvoaçante. Cabelo amarelado pelo sol, solto sobre os ombros. Um batom na mão a pintar os lábios. Mas isso eu já não via. Não via ali daquela distância. Já não tinha vista suficientemente aguçada para galgar o asfalto e permitir-me ver ao pormenor os pormenores da sedução, sedução essa que era só minha, só na minha cabeça.
Então, eu estou aqui parado, à beira do passeio, na borda da passadeira, e vejo do outro lado da estrada, à beira do passeio, na borda da passadeira, uma miúda, nova, nova e bonita, com algo nas mãos que passa pela cara. E imagino um batom, vermelho-sangue, nas mãos, e imagino o batom a carregar os lábios de pecado, e os lábios a lamberem-se um ao outro e ela a ver-se na selfie do telemóvel, e ver-se apetecível, apetecível aos seus olhos. E penso como o tempo fugiu, como o tempo me fugiu, e me deixou assim, velho, velho e solitário, a olhar as miúdas novas e bonitas com tanta vida para viver e dar a viver e eu sinto-me perdido, afastado da vida, só. Pouso um dos sacos no chão de calçada portuguesa do passeio e enfio a mão dentro do bolso das calças e tento coçar a pila, dar-lhe um alento, dizer-lhe Olha ali, que coisa mais linda, mais cheia de graça, mas não a encontro, está caída, escondida, faz-se de morta para que eu não perceba a verdadeira morte dela, mas eu já sei, já sei porque ela sou eu e estamos ambos mortos, mortos de corpo mas com uma cabeça que se recusa a morrer e quer à força toda ressuscitar um tempo que já não existe.
Suspiro. Finalmente encontro a pila perdida abaixo da cintura. Mas percebo-lhe a vergonha. A dela e a minha. É só um furúnculo.
O semáforo dos peões passa a verde e a miúda desce do passeio para a passadeira e vejo-a voar de um lado ao outro, bela, jovial, promessa de mundo cheios e bem-cheirosos, promessa de pecados originais, e tento cheirá-la quando ela passa ao meu lado, quando ela passa ao meu lado sem me ver e eu tento cheirá-la mas já não tenho olfacto. Já não tenho nada. Sou um corpo morto, putrefacto, a que a cabeça recusa seguir.
Baixo-me e apanho o saco de plástico do chão e apresso-me a passar a estrada para o outro lado antes que o semáforo volte a ficar vermelho para os peões e sorrio. Sorrio de mim. Sorrio para mim. Velho dum caralho! penso. E penso que a cabeça devia ser mais solidária com o corpo. Maldito corpo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/02]

Escondido, parte 04

[continuação de ontem]

Ficámos os dois em silêncio durante algum tempo. Eu via um sombreado onde ela estaria. Não sei se ela me via a mim. Eu estava no canto do quarto, numa zona ainda mais escura que a escuridão nocturna que tinha caído sobre a cidade, sobre a rua, sobre aquela casa.
Finalmente ela tossiu, como que para aclarar a voz. E depois perguntou Estavas na manifestação? e eu endireitei-me um pouco no meu canto, voltei a sentir as dores no rabo e nas costas por estar ali assim, sentado, mal sentado, num chão desconfortável e húmido e disse Sim.
Eu também estava na manifestação. Estava com amigos. Não sei onde é que eles estão. Perdi-me deles. Também estavas com amigos? perguntou, e eu voltei a dizer Sim. Sim estava com amigos e também não sei o que é feito deles. Perdi-me, ou perdi-os.
Voltou o silêncio. Senti os pés dela a arrastarem-se pelo chão para mais próximo do corpo. Percebi, pela silhueta, que abraçou as pernas e deixou tombar a cabeça sobre os joelhos. E pensei que eu já não conseguia fazer aquilo. Ainda conseguia abraçar as pernas encostadas a mim mas, tombar a cabeça sobre os joelhos, era pedir demais a este corpo velho e cansado. Não vou para novo, eu. Ela parece nova. E parecia.
Quantos anos tens? perguntei-lhe. Ela sorriu perante a minha ousadia e disse Vinte seis. E perguntou E tu? Eu suspirei fundo e disse-lhe Eu já passei dos cinquenta. E acrescentei Já estou velho para estas merdas. E ouvi um pequeno risinho vindo da minha companheira de infortúnio.
Regressou o silêncio. E foi então que reparei que estava mesmo silêncio. Lá de fora já não chegava o bruá caótico. Se calhar já tinha tudo terminado. Se calhar, já tinham ido todos embora, perseguidos e perseguidores. Se calhar já era altura de também irmos embora. E foi isso que disse à rapariga Já não há barulho. Já devemos poder sair.
Eu levantei-me. Tinha o corpo dorido. Estive a massajar as pernas que estavam com pequenas cãibras. Levantei o olhar para a frente e vi a silhueta dela a levantar-se também. Vi-a sacudir o pó das calças e ficar erguida à minha espera. Eu ergui-me e comecei a andar, não sem uma certa dificuldade. Passei em frente a ela e chamei-a Vamos. E fomos.
Fomos devagar. A descer as escadas do prédio na escuridão. Com cuidado para escapar à destruição, aos tijolos, ao pó, ao corrimão quebrado. Eu ia marcando o passo, um passo diante do outro, num passo tranquilo e cuidadoso e sentia-a atrás de mim, a fazer o que eu fazia, tendo o cuidado de não ficar para trás.
Descemos as escadas. Fomos parando nos patamares dos andares para recuperarmos fôlego e aguçarmos os ouvidos à procura de barulhos preocupantes. Mas continuava o silêncio.
Chegados ao rés-do-chão, abri a porta da rua e saí, logo seguido por ela. Acendi um cigarro. E depois, olhei-a. Foi a primeira vez que a vi, que a vi inteira, iluminada, e não só uma silhueta. Era bonita, a miúda. Estiquei-lhe o braço com o maço de cigarros na mão, a oferecer-lhe um. Ela abanou a cabeça. Foi então que percebi que estava nervosa. E ela deve ter percebido o que eu tinha percebido e esticou o braço e agarrou-me a mão com o maço de cigarros e disse Afinal, aceito um cigarro. Tirou um cigarro, eu dei-lhe lume e começou a fumar. Eu disse-lhe Bom, até um dia destes. Boa-sorte! antes de ir embora. Mas ela parou-me, de novo com a mão e disse Preciso de companhia para fumar o cigarro.
Anui. Nem pensei muito no que estava a acontecer. Há gente que só fuma socialmente. Há gente que só fuma quando está com outras pessoas a fumar. Mas voltei a notar o nervosismo dela. Um nervosismo que não tinha detectado lá em cima, no quarto no último andar do prédio em ruínas onde estivemos escondidos. Mas há gente nervosa.
Ouvimos alguns ruídos próximos. Eu disse Não é seguro ficarmos por aqui. É melhor irmos embora. E, então, ela deitou fora o cigarro ainda meio, abriu a boca e gritou a plenos pulmões Aqui! Está um aqui!
Eu bloqueei. Por momentos não percebi o que tinha acontecido. E o que primeiro me saiu, rápido, automático, foi Cala-te! Eles podem andar por aí! Sem ter percebido que ela era um deles e que estava a chamá-los porque me tinha capturado. Mas isto já sou eu a pensar mais tarde. Na altura não pensei logo nisso. Na altura o que me saiu foi Cala-te! Eles podem andar por aí!
Cheguei-me à frente e agarrei-lhe nos braços e abanei-a como que para a despertar para o que estava a fazer, para o que tinha acontecido, para o que podia vir a acontecer.
E foi então que ela forçou os braços dela das minhas mãos, esticou uma perna e empurrou-me e levou-me a cair na estrada de pedras de basalto bastante irregulares que me magoaram as mãos e me fizeram sangue. Perdi o cigarro. Ela voltou a gritar Aqui! Aqui! E eu ouvi o barulho de passos que se aproximavam. Recuperei-me da queda traiçoeira e pensei rápido. Mais rápido do que poderia pensar. Levantei-me de um salto e desferi um murro com a mão direita no nariz da rapariga e ouvi-o quebrar. Vi um jorro de sangue a sair pelo nariz antes dela levantar as mãos para o agarrar. Percebi que começou a chorar. Um choro que se tornou grito de desespero. E eu aproveitei e comecei a correr para sair dali, daquela rua. Corri rua acima, em direcção ao castelo mas, a meio da subida, virei à direita e parti em direcção ao Arrabalde, nas traseiras do castelo, até à zona do estádio de futebol abandonado.
Fui sempre a correr, primeiro a subir e, depois de uma pequena recta, a descer. E como dizia o meu pai, a descer todos os santos ajudam e eu senti toda a santidade católica apreendida nos anos do colégio a empurrarem-me estrada abaixo até chegar ao pé da escola do Arrabalde.
Foi ao pé da escola que parei. Estava cansado. A respiração ofegante. Dobrei-me sobre mim até recuperar a calma. Depois sentei-me num lancil à beira da estrada e pus-me à escuta. Não ouvia barulho nenhum. Nenhuma voz. Nenhum carro. Nenhuns passos. Nada.
Acendi um cigarro.
Vi a estátua do Rui Patrício à entrada do parque do estádio, que estava agora tudo ao abandono, e perguntei-me alto Como é que chegámos aqui?
Não soube responder. Nem o Rui Patrício me respondeu.
Mas a resposta, sabia que estaria algures por aí. E queria encontrá-la.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/21]

A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

Em Processo de Desconfinamento sem Grande Efeito

Acabei de fumar o cigarro e deitei-o fora. Inspirei longamente o ar fresco da rua e sorri. Coloquei a máscara na cara. Presa entre o nariz e o queixo e nas duas orelhas. Entrei no prédio da minha mãe. Ia buscá-la para darmos uma volta ao quarteirão. Andava em processo de desconfinamento.
Entrei em casa e procurei-a. Na cozinha. Na sala. Fui descobri-la no quarto. Deitada na cama. Chamei-a Mãe! ela abriu os olhos e deu um berro. E gritou Vade retro, Satanás! Sou eu, mãe! acalmei-a. A máscara!, lembrei-me. Estou de máscara de tecido preta na cara. Tirei a máscara e voltei a dizer Sou eu, mãe! Vês? E ela acalmou, mas vi o medo ainda nos seus olhos.
De pé sobre a cama, sobre ela, pergunto O que é que fazes aí deitada? e recebo logo a resposta automática Estava com os pés frios e vi-me deitar. Estava a chover. A televisão não estava a dar nada de jeito. O que é que estava ali a fazer, ao frio? A tremer de frio? Com os pés gelados?
Sento-me na cama, longe dela, mas perto o suficiente para não ter de gritar. E pergunto-lhe Mas não íamos sair? E ela logo responde Sair? Com esta chuva? Com este frio? Quem é que quer sair com este tempo?
E eu digo-lhe Precisas de sair, mãe. Quase dois meses fechada em casa, precisas de ir à rua. Mas ela não desarma. Primeiro não queres que eu saia. Agora queres que saia. Ninguém te entende. Vê lá se atinas de uma vez. Ou é para ficar em casa ou é para sair. Não vou cansar-me a vestir para ficar cá por casa. Ou para ir dar uma simples volta ao quarteirão. Já vais dizer que não posso ir ao café. Que o café só serve café e é para ir a beber na rua e com a mala e a bengala não consigo agarrar o copo de plástico que ainda por cima vai queimar-me a mão. Nem posso lanchar. Nem bater-papo com ninguém. Dizes que não posso ir ao supermercado porque não posso andar lá a mexer em nada porque há muita gente a pôr a mão em tudo onde se pode pôr a mão. Já nem sei por onde andam os velhos com quem conversava. Não me vou vestir só para ir ao talho, porque dizes que ao talho eu posso ir contigo, mas para ir contigo, vais lá tu sozinho. Não é que eu não goste de sair contigo, porque gosto, mas estar a vestir-me só para dar uma volta aqui à volta dos prédios, sem poder entrar em lado nenhum, nem sentar-me numa esplanada a lanchar e a beber um Compal e a ver as pessoas a passar, se é que já há pessoas a passar, que eu da varanda aqui de casa continuo sem ver muita gente, e depois vir logo para casa e ter de me despir toda outra vez, não. Nã!… Não vale a pena. E além do mais preciso de ir primeiro à cabeleireira que este cabelo está uma miséria e não vou assim para a rua, nem tu queres que eu vá assim para a rua, não é?
Eu percebi que a pergunta era retórica. Na verdade não estava à espera que eu respondesse, mas aproveitei a deixa para lhe dizer Oh, mãe, olha que o cabeleireiro agora é só por marcação. Queres que marque? E tens de ir com máscara. Tenho uma para ti. E tiro a máscara de uma pequeno saco de plástico, uma máscara de tecido, como a minha, e mostro-lha e ela olha para mim e olha para a máscara e volta a olhar para mim e diz Deves estar doido! e volta a deitar-se na cama. Ainda disse Está uma lista de compras na mesa da cozinha. Põe a máscara na cara e vai lá ao supermercado, vá!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/11]

A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]