Ausência de Bilhete Validado

Há dias em que não consigo evitar e baixo às emoções do Correio da Manhã. A violência toma conta de mim. Por mais que lhe queira fugir, sinto-me atraído como os insectos voadores por uma lâmpada acesa na escuridão nocturna.
Então, a notícia que estava na ordem do dia era de uma mulher negra que tinha sido espancada por um agente da polícia. Li a notícia no Facebook. Li a notícia sentado no sofá com o iPad nas mãos.
Acendi um cigarro.
Fui às páginas do Correio da Manhã. Comecei a ler.
Era tarde. Não tarde de madrugada, mas já era noite. Uma noite fria. A mãe, cansada, depois de mais um dia como os outros, a correr de um lado para o outro, a cumprir todos os horários que tinha de cumprir, depois de fazer todos os trabalhos que tinha de fazer, depois do sol já se ter escondido para lá do horizonte e das luzes da cidade lhe conferirem uma falsa vida de fantasia colorida ao seu dia, estava finalmente a entrar no autocarro com a filha pequena pela mão. O autocarro que a iria levar para casa. Depois do último trabalho tinha ido a correr buscar a filha à escola antes que a escola encerrasse. E, depois da viagem, ia chegar a casa e preparar o jantar para ela, para a filha e para os outros dois filhos que já lá estavam à espera que a mãe chegasse. Verificar se os filhos tinham feito os trabalho da escola. Um banho rápido, mais um passar por água que propriamente banho. Ela e a filha, aproveitando o mesma água, o mesmo banho. E então, finalmente iria sentar-se um pouco na cadeira da cozinha a olhar, alheada, para a televisão que debitaria qualquer coisa que não lhe iria interessar mas que lhe serviria de companhia até adormecer. Iria acordar com a filha a chamá-la do quarto porque estava a ter um sonho mau e ela iria então para a cama dormir algumas horas deitada antes de ter de se levantar de novo e, de novo, retomar outra vez os mesmos rituais de todos os dias, dias iguais, dias tristes, dias alegres, dias cheios de esperança e desilusão.
Mas não foi o que aconteceu.
À entrada no autocarro, a mãe percebeu que a filha se tinha esquecido do Passe Social. O motorista-cobrador exigiu a validação da entrada das duas. Ela estava cansada. A filha estava com fome e sono. A mãe pediu para que o motorista-cobrador deixasse entrar a filha. Afinal só tinha oito anos. O motorista-cobrador mostrou-se inflexível. É a lei. A lei é para cumprir. E os dois esgrimiram razões. A mãe exaltou-se. O motorista-cobrador também. Elas tinham que abandonar o autocarro, dizia o motorista-cobrador. Que não, era noite, estava frio e a criança estava com fome e sono e ela só queria chegar a casa, dizia a mãe.
Desvairado, o motorista-cobrador arrancou com o autocarro pelas ruas da cidade e parou junto a uma esquadra de polícia. Um agente aproximou-se do autocarro. O motorista-cobrador abriu a porta da frente. Queixou-se ao agente da polícia. Queixou-se da mãe. E da ausência de passagem validada da criança. É a lei, disse o motorista-cobrador. É a lei, concordou o agente da polícia.
O agente pediu à mãe que saísse e fosse com ele à esquadra. Mas a mãe só queria ir para casa. Com a filha. E tinha lá os outros dois filhos à espera. O polícia insistiu. A mãe também. O agente chamou-lhe recusa a uma ordem da autoridade. A mãe enervou-se. Estava cansada. O agente também se enervou. Também estava cansado. Farto das más condições de trabalho. Farto da merda de vida que tinha. E depois de um dia difícil, aquilo ali assim… Para lhe estragar o resto do dia.
O agente pegou a mãe por um braço e puxou-a para fora do autocarro. A mãe gritou. Chamou nomes ao agente da polícia que ainda se enervou mais. O agente da polícia puxou a mãe à força. A criança tentava agarrar a mãe. Chorava com medo. O agente forçou a mãe a descer do autocarro. A mãe caiu para fora do autocarro. Caiu no asfalto. Arranhou a cara. Esfolou as mãos. Rasgou as calças de ganga. Depois tentou voltar a entrar no autocarro com a filha agarrada a ela. O agente deitou a mãe ao chão e tentou imobilizá-la perante o olhar assustado da filha. A mãe debateu-se. Era forte. Cuspiu no agente. O agente bateu na mãe. Deu-lhe dois murros na cara. Rebentou-lhe o lábio. Abriu-lhe um golpe no sobrolho. A mãe gritou. A mãe era preta. Assim como a filha. Mas o sangue brilhava sobre o preto da sua pele. Debateu-se. O agente em cima dela a tentar colocar-lhe umas algemas. Ao lado, a filha chorava.
Acordei.
A cigarro tinha-se consumido inteiro. Estava todo feito num rolo de cinza. Mexi-me e a cinza caiu-me em cima. Esfreguei os olhos. Sacudi a cinza para o chão. O iPad estava a negro. Voltei a acender outro cigarro. Liguei outra vez o iPad. Estava nas páginas do Correio da Manhã. Uma mulher que fora agredida pela polícia, tinha sido constituída arguida. Desliguei o iPad e larguei-o em cima do sofá. E fiquei por lá sentado, agoniado. Não consegui continuar a fumar. Estava com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/21]

Dor-de-Dentes

Acordo com dor-de-dentes.
Fico quieto na cama, debaixo do edredão, na vã-esperança que ela se vá embora. Mas sei que não vai. Quando chega, instala-se. E sei exactamente qual dos dentes é que me dói. É este aqui de cima, este aqui, oh, este que sai da enfiada dos dentes e entra para dentro do céu-da-boca. Ainda por cima estou sempre a tocar-lhe com a língua. Não lhe consigo fugir. É como o destino. É o meu destino.
Tenho de tomar um clonix.
Não me queria levantar da cama, mas não posso não me levantar. A dor-de-dentes não se vai embora. Vou ter de a empurrar.
Levanto-me da cama. Está frio em casa. Vou à cozinha e como um bocado de pão duro para o estômago não estar vazio. O pão acaba sempre por ir parar debaixo do dente que me dói. Magoa-me. Apetece-me gritar. Mas não adianta. Não há ninguém para ouvir os meus gritos.
Engulo o pão embebido na minha própria saliva. Bebo um gole de água. Meto o clonix na boca e despacho-o para o estômago com mais um ou dois goles de água.
Regresso à cama. A dor-de-dentes regressa comigo. Penso que vai demorar a ir embora. Eu deito-me e apago a luz da mesa-de-cabeceira. Sinto-me desperto. Não vou conseguir voltar a adormecer tão cedo. Não consigo fechar os olhos.
Fico virado para o mesmo sítio para não me deitar sobre a face que me dói. E sinto uma vontade enorme de me virar para esse lado. Sei que não posso pensar muito sobre o que não devo fazer porque passa a ser o que me apetece fazer.
Materializo a dor-de-dentes. O dente que me dói parece crescer e tornar-se grande demais para a minha boca. Não a consigo fechar. Respiro pela boca. E canso-me. Estou sempre a tocar no dente. Estou sempre a levar lá a língua para perceber se está mesmo maior ou se é impressão minha. E percebo como estou a ser estúpido. Mas mesmo quando não me pergunto se o dente está maior que os outros, a língua tende a lá ir lamber o dente, lamber a dor.
Tento que a boca fique quieta como o resto de mim. Mas isso só me deixa mais inquieto. Começo a salivar. Tenho a boca cheia de saliva. Pareço ter uma nascente na boca. Deve ser do clonix. Penso em levantar-me, mas está frio na casa. Engulo a saliva. Enjoo. Por momentos sinto um vómito.
Estou há tanto tempo com os olhos abertos na escuridão do quarto que já consigo ver todos os fantasmas que cá estão instalados. Puxo o edredão mais para cima de mim. Para me esconder. O silêncio é ensurdecedor. Ouço pequenos ruídos ampliados pela ausência de outros ruídos. O mundo está todo em silêncio. E eu ouço alguns barulhos na rua. Anda aí alguém. Ou é só a minha imaginação?
O clonix demora a fazer efeito. Passam as horas. Vejo-as a passar no relógio digital e luminoso na mesa-de-cabeceira. As horas transformam-se em dias. A minha dor-de-dentes é mortal. Penso no Dr. House e que devia magoar-me noutro lado de mim para esquecer esta dor. Mas não esqueço. Nem consigo magoar-me. Sou um cobarde.
Vai-te embora! Vai! digo. Mas já não me ouço. Talvez esteja já a dormir. Talvez já seja tudo um sonho. Talvez esteja a sonhar com uma dor-de-dentes e não me esteja a doer de verdade. Talvez o barulho que ouço na rua não seja de alguém a rondar a casa. Talvez esse vidro a partir-se não esteja mesmo a partir-se. Talvez essa luz que vejo a entrar pelo quarto não esteja mesmo aqui mas sim no meu sonho. Enfio-me mais dentro da cama e puxo o edredão mais para cima da cabeça. Tento pensar em qual foi o meu disco do ano. Qual foi o meu disco do ano?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Trabalho em Troca de uma Cerveja

Vejo o fumo sair da ponta incandescente do cigarro preso entre os dedos e voar lá para cima, para o canto do tecto.
Não se pode fumar aqui, disse a miúda enquanto passava.
Eu ouço o que ela diz, mas estou a ver o fumo a voar para o tecto e juntar-se no canto.
Ainda estava a pensar no que o gajo me tinha dito. Tudo assim ao mesmo tempo. Ele, ela e o fumo. Ele estava à espera de uma resposta. A mim, apetecia-me mandá-lo à merda. Mas ele é um daqueles tipos que não se pode mandar à merda. Por isso é que ia explodindo quando a miúda disse que eu não podia estar a fumar ali. Se não rebento para um lado, rebento para outro. Mas, coitada da miúda. Ela não tinha culpa. O meu problema não era com ela. Era com ele. E sim, sabia que não podia estar ali a fumar. Mas estava. Estava tão zangado que o cigarro foi a minha maneira de mandar tudo para o caralho.
Bebi o resto da bica de um trago. Já estava fria. Deixei lá cair a cinza do cigarro.
O tipo aclarou a garganta. E diz São só uma ou duas horas. Umas fotografias rápidas. Uns registos. Não posso é pagar-te, não é? Não tenho dinheiro para isto!
E é isto! o que me irrita! O isto! O nunca haver dinheiro para isto! mas, no entanto, estão sempre a contar com isto!
O fumo continua a subir para o tecto. A miúda volta a passar. Não diz nada. Mas vejo-a parar lá à frente, a olhar para mim. O olhar a fuzilar-me. A pensar que eu devo julgar-me importante. Ou parvo. Toda a gente sabe que não se pode fumar em sítios fechados que não sejam a casa de cada um. E no entanto, ali estava eu a fumar um cigarro, a colocar a cinza dentro da chávena vazia de uma bica, e a ver o fumo a subir até ao tecto.
Gostava de saber fazer argolas de fumo, como calamares. Mas não sei. Só sei puxar o fumo para os pulmões, prendê-lo e deixá-lo sair, pela boca ou pelo nariz. Nunca fui um artista do fumo. Sou só um artista da imagem. Fotografia. É o que faço. É onde sou bom. Mas há pouco trabalho para um gajo como eu. Não é que não precisem de fotógrafos. É que já têm. Já têm fotógrafos. Geralmente um. Que não chega para as encomendas, claro. Mas para quê pagar a dois gajos para andarem para trás e para a frente a passear as máquinas a tira-colo, a roçar o cu pelas paredes à espera do momento, quando um deles faz o trabalho todo? Mas o problema é que não faz o trabalho todo. Nunca faz. E depois surgem tipos como eu. Os mortos de fome. Os que estão sempre à espera da oportunidade de uma vida. É agora! É agora, porra! Mas nunca é agora. Porque o meu trabalho só é bom quando é à borla. Porque o meu trabalho não é bem trabalho, não é? Os artistas não trabalham, pá! Fazem umas cenas. Divertem-se lá com as coisas deles. E riem-se muito, dentes branquinhos escancarados no sorriso alarve, a rir, a gozar.
Acabo o cigarro. Esmago a beata na chávena. A miúda vem logo retirar a chávena da mesa com o cigarro lá esmagado.
O tipo continua Mas há umas cervejas! Há sempre umas cervejas. É o combustível que nos faz mover, a cerveja. E quando deixar de ser eu, há sempre outro morto de fome à espera da oportunidade.
Olho para o tipo e espeto-lhe um murro entre os olhos. Parto-lhe a cana do nariz. Vejo o sangue a jorrar sobre a mesa do café e a miúda a gritar e a aproximar-se com um pano para limpar a mesa do sangue.
Olho para o tipo e digo-lhe Ok! Está bem! e vejo-o sorrir, aquele sorriso cínico de quem enganou mais um. Mas não foi ele que me enganou. Fui eu que me deixei enganar.
O tipo levanta-se. Dá-me uma palmada amigável no ombro e diz Sempre gostei das tuas fotografias! Tens olho! e eu penso que sim, que tenho olho, mas não tenho mais nada. Não tenho capacidade para me vender e fazer-me render o que devia e penso que ainda não é desta que a minha vida muda.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas para ver se tenho suficiente para pagar a bica. Mas o tipo diz Não! Deixa lá! Eu pago!
Eu aceno a cabeça, agradecido. Eu sou um agradecido. Agradeço a bica enquanto ofereço o meu trabalho em troca de umas cervejas.
Mas não fui enganado. Deixei-me enganar. Porque quis. Porque gosto de fazer o que faço. Porque sei que sou bom no que faço. E porque sou melhor que estes tipos que nunca têm dinheiro para pagar o trabalho dos outros a quem têm o descaramento de pedir borlas.
Saio do café e acendo outro cigarro. Saio pela cidade. Esqueço-me do tipo que ficou lá para trás a pagar a bica e desapareço entre gente atrasada, muito atrasada para os seus trabalhos mal-pagos mas que são obrigados a aceitar porque é assim que a vida é.

A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]