A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]

Já Não Tenho Dezoito Anos

Já não tenho dezoito anos. Há muito tempo que cruzei essa fronteira. Já não sou adolescente. Nem jovem. Já nem quase um homem. Sou velho. Sou um velho.
Já não tenho dezoito anos. Mas esqueço. Esqueço que não os tenho. Continuo a ver-me como era. Sinto-me projectado no futuro com as graças do passado. Os anos passam por mim, mas eu continuo eu.
Tenho dezoito anos. Estou já perto do fim da minha vida e tenho dezoito anos. Continuo a gostar de gostar de coisas como quando tinha, efectivamente, dezoito anos. E as miúdas? Ah, as miúdas!…
Mas depois, a dor nas costas. O músculo da perna que prende. A perna que já não dobra como devia. Os dentes a cair. A partirem-se em pedaços pequeninos que eu engulo sem querer. Os cabelos brancos. A barba branca. A pila murcha. Os músculos puxados para baixo, obedientes à lei da gravidade. A barriga cada vez maior e mais flácida. A vista turva que obriga a óculos. O repetir, cada vez mais, O quê? O que disseste? A medicação. Os comprimidos. As visitas ao centro de saúde. Ao hospital. Vou quase tantas vezes ao médico quanto ao museu. Os cigarros que me proíbem. O vinho que me retiram. E todas as outras proibições. Não comer fritos. Não comer salgados. Não comer pão. Não comer queijo. Não comer carnes vermelhas. Fruta. Muitos legumes. Peixe. Evitar o café. Cerveja nem pensar.
É agora que percebo que já não tenho dezoito anos.
É agora que percebo que a morte espreita. Já não é um mau sonho de um azar ou de um futuro distante. A morte agora é uma realidade ao virar a esquina. À minha espera. À espera de me ceifar.
Ouve um tempo em que me ofereci. Ela rejeitou-me. Procura-me agora quando já não tenho nada para lhe dar. Agora que lhe quero fugir.
A vida troca-nos as voltas. A morte também. Quem ganha?
Estou dentro do carro. Está a chover. Não vejo nada lá para fora. Os vidros estão tapados pelas gotas da chuva que continua a cair. Os vidros estão embaciados da minha respiração. Ouço um zumbido.
Estou nervoso.
Já não tenho dezoito anos.
A minha Carta de Condução caducou. O agente da Brigada de Trânsito viu logo que a data tinha expirado. Mas vejo bem. Com óculos, mas vejo bem. E estou lúcido. Viro-me para o lado e pergunto ao meu pai Não estou lúcido? e ele acena que sim. Concorda comigo, o meu pai. O meu pai já morreu há… Há quantos anos é que ele se foi? Acho que eu ainda não tinha dezoito anos. E agora já não tenho. Tenho saudades dele. Do meu pai. E gosto quando ele me visita. Olha, já foi embora outra vez.
O agente da Brigada de Trânsito vem ali. Abre a porta do carro. Estende-me a mão para sair. Eu agarro-a e saio do carro. Sinto a chuva a cair-me em cima. Já não tenho cabelo. A chuva cai-me no crânio. Na careca. Ainda me constipo.
Passo ao lado de uma rapariga que está caída no chão. Está tapada com um pano. Mas eu sei que é uma rapariga. Eu vi quando lhe bati com o carro. Era bonita. Muito bonita. Pena que eu já não tenha dezoito anos.
O agente da Brigada de Trânsito abre-me a porta de trás do carro da polícia e faz-me entrar. Eu vejo o braço da rapariga saído do pano. É um braço branco, liso, bonito. Entro no carro da polícia. Tenho saudades do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/21]

Uma Dor de Cabeça que Me Quebra

Dói-me a cabeça. Dói-me tanto a cabeça que me sinto mal-disposto. Por vezes a dor parece descer da cabeça para os olhos e tenho de os fechar. Depois regressa à cabeça e anda por lá.
Pode ter sido do sol que apanhei.
Hoje peguei numa série de livros, meti-os num caixote e fui vendê-los para a feira. Já não os leio. Já não consigo ler. Não consigo ver as letras. Elas parecem fugir página fora quando tento ligá-las umas às outras.
Precisava de mudar as lentes do óculos. Mas não posso. Tenho de manter as mesmas. Não tenho dinheiro para as novas lentes. Nem para ir ao oftalmologista.
Por isso tentei desfazer-me dos livros. Já não me servem de nada. Alguma vez serviram? Pensei que talvez conseguisse algum dinheiro com eles. Não consegui. Já ninguém lê. Já ninguém quer ler. Agora só há gente a escrever. A leitura cedeu à escrita. Todos são escritores. Mas já ninguém lê.
Voltei para casa com o caixote com os mesmos livros que tinha levado. Não vendi nenhum. Não trouxe nem um euro. Mas trouxe uma grande dor de cabeça.
Procurei no armário dos medicamentos por algum comprimido. Encontrei uma embalagem de Clonix fora do prazo. Acho que já não se fabrica. Já é um comprimido vintage. Tomei um. Já há algum tempo. Ainda não fez efeito.
Fui até à varanda apanhar um pouco de ar. Queria fumar um cigarro mas não conseguia pô-lo na boca. Só de pensar nele sentia-me enjoar. Nunca pensei ver chegar o dia em que não conseguisse fumar um cigarro.
Ao fundo, por trás dos edifícios, vi uma nuvem enorme e muito vermelha. O resto do céu ainda estava azul, mesmo que a noite se estivesse a aproximar.
Pensei que poderia ser do céu, da Lua, da força das marés ou da gravidade a responsabilidade pela minha dor de cabeça. Mas acho que foi mesmo do sol. Devia ter levado um chapéu. Mas também não tenho nenhum cá em casa.
Amanhã vou voltar à feira e tentar vender os livros. Vou levar outros livros diferentes. Talvez consiga que os comprem. Mas vou levar um chapéu-de-chuva que comprei nos chineses e que ainda anda por cá. Tenho de me proteger do sol. Não quero mais continuar com estas dores que me quebram.
Também pode ter sido do vinho…

[escrito directamente no facebook em 2018/05/19]