Sentado Nu na Beira da Cama com os Pés Gelados

São quatro horas da manhã.
Não seria nada de anormal na minha vida se estivesse a acabar uma garrafa de vinho ou a acabar de fumar um cigarro ou, então, somente a abandonar uma cama ao Deus-dará que me tivesse acolhido por algumas horas em troca de algumas cabriolices. Final de proezas físicas, final de cama. Hora do Táxi ou, como é ar do tempo, hora do Uber. Como se eu vivesse numa grande metrópole.
Isto não é Nova Iorque. Nem sequer Lisboa. Isto é Leiria e, às quatro da manhã, de um Domingo para Segunda-feira, quem ainda não está na cama é meliante, anda à cata dos restos utilizáveis que gente respeitável deitou para o lixo mas ainda serve para quem tem poucos recursos económicos ou trabalha na empresa de recolha de sólidos urbanos (o famoso RSU para quem ainda não sabe).
Eu não sou nenhuma destas coisas. Não, também não sou nenhum extra-terrestre. Sou tão-só um tipo com algumas dificuldades em acompanhar o andar normal de todos os outros em todos os outros dias. E não, não estou louco. Nem acho que estejam todos errados e eu é que esteja certo. Se bem que…
São quatro da manhã. Agora, na verdade, são quatro e vinte da manhã (demorei vinte minutos a chegar aqui). Estou nu, sentado na cama, com os pés a gelar no chão de madeira (eu não uso tapetes) e acabei de acender um cigarro.
Tenho a janela aberta. As persianas e o vidro. Queria sentir o pulsar à cidade. Mas qual pulsar? Esta cidade nem existe.
São quatro e vinte da manhã, estou sentado nu na beira da cama com os pés descalços a arrefecer no chão de madeira, a fumar um cigarro cujo fumo sai pela janela de vidro aberta e que me deixa o quarto tão gelado que penso poder acordar morto no dia seguinte sem que ninguém me venha descobrir antes do cheiro começar a incomodar o prédio.
Olho para as luzes da cidade adormecida e penso Esta porra de cidade nem néon tem. São umas luzinhas. Uns candeeiros plantados pela cidade para o cidadão ver onde pousa os pés e umas pequenas e mal enjorcadas publicidades feitas, se calhar, por algum primo mais afoito que até percebe um pouco destas coisas e resolveu a necessidade com um orçamento muito mais barato e, assim, fez-se um anúncio tardio ao-seja-lá-o-que-fôr que mantém esta não existente cidade a fingir que até existe.
São quatro e vinte cinco da manhã. Acabei o cigarro e mandei a beata pela janela aberta para o meio da rua. E pensei Quero que o ambiente se foda!
São quatro e vinte cinco da manhã, já fumei o cigarro, continuo sentado nu na beira da cama e estou à espera do que se segue. E o que é que se segue?
O que é que vai acontecer na cena seguinte?
O que é que me espera?
O que é que a vida tem guardado para mim?
O que é que um tipo nu sentado à beira da cama, gelado de pés e corpo, pode esperar da vida?
São quatro e meia da manhã e não sei o que é que hei-de fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

Seis Euros

Quando saí de manhã não estava a chover. Cruzei a cidade a pé. A cidade não é grande e evito o pára-arranca de hora de ponta na única rua que cruza a cidade. Assim, a pé, faço exercício e vou olhando o desespero de alguns condutores como se estivessem numa grande metrópole.
O pior foi à hora do almoço. Fiquei de ir almoçar a casa e, já a caminho, começou a cair uma carga de água daquelas potentes, que criam inundações, arrasam culturas, mas enchem barragens.
Enfiei-me no primeiro café que encontrei. Não evitei contudo uma ligeira molha que tentei sacudir à entrada do café e para desagrado do homem que me olhava do lado de dentro do balcão.
Aproximei-me e sentei-me num dos bancos altos. Pedi um copo de branco e um rissol. A televisão estava a dar o noticiário e o meu olhar e atenção ficou por lá.
Aprendi que em Janeiro iria haver um aumento extraordinário das pensões, até quinhentos euros, de seis euros. Estava a bebericar um pouco do branco do copo quando explodi num riso tonto e espalhei o vinho que tinha na boca à minha frente, pelo balcão fora. Seis euros? Durante algum tempo não consegui parar de rir. Seis euros de aumento extraordinário nas pensões mais pequenas?
O homem do outro lado do balcão fez má cara à minha explosão e foi limpar o que eu tinha sujado.
Depois lá consegui beber um golo de vinho. E trinquei o rissol de camarão mas, azar dos azares, só apanhei massa. O recheio escorregou todo para a ponta do rissol.
Na televisão continuavam as notícias. Agora era sobre a Ilha de Man. Parece que não pertence à União Europeia, nem ao Reino Unido, embora a soberana seja a Rainha de Inglaterra. É um paraíso fiscal. E há mil e duzentos portugueses que depositaram lá mais de quatro mil milhões de euros. Não me ri. Voltei a trincar o rissol, mas achei-o muito seco. Seco e amargo. Só massa. Sem recheio. Bebi o resto do copo de vinho. Há muito dinheiro no mundo, pensei. E depois voltei a pensar nos seis euros e voltei a rir.
Senti o telefone a vibrar. Era ela. Devia querer saber onde andava. Mas já não me apetecia ir almoçar a casa. Não me apetecia vê-la. Não me apetecia ver ninguém. Larguei umas moedas no balcão e saí para a rua.
Lá fora ainda chovia, menos, mas ainda chovia e fui andando debaixo dos beirais para fugir à chuva. Até que cheguei à paragem dos autocarros. Entrei no primeiro que me levava até ao cinema. E fui ver um filme. Precisava urgentemente de um pouco de ficção. A realidade estava a deixar-me angustiado e triste. Mas, vá lá, pensei de novo nos seis euros e voltei a rir. Não estava tão triste assim. Ou se calhar estava. Já não sei. Mas precisava de estar sozinho. Fugir das pessoas. E desta vida miserável onde estava metido. E sem saber muito bem o que fazer.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/28]