O Pacote de Bechamel

Foi quando cheguei a casa que reparei que o pacote de bechamel estava rasgado. Deitei a mão ao saco de plástico. Uma garrafa de vinho. Brócolos. Cogumelos. Umas cenouras. O pacote de bechamel. Fiquei com a mão peganhenta. O pacote estava a deitar fora. Mirei-o. Um corte longitudinal. Talvez feito com um x-acto. Talvez feito ao abrir as embalagens de plástico onde vêm os pacotes. Aproximei-o para ver melhor. Cheirava mal. Cheirava mesmo muito mal. Cheirava a podre. Devia estar aberto há muito tempo. Sim, ainda estava dentro do prazo, mas lá de dentro saía um fedor a podridão.
Tinha de voltar ao Intermarché. E estava a chover.
Olhei à minha volta. As mãos na ancas. Podia esquecer. Mandar o pacote para o lixo. Aquilo custa o quê? Quanto? O problema é que assim teria de comer os legumes só cozidos. Com o resto do frango assado da véspera. Uma coisa desenxabida, portanto.
Agarrei no pacote. Pu-lo dentro do saco de plástico. Vesti o casaco. Agarrei no chapéu-de-chuva. Ia a sair de casa e lembrei-me. O talão! Abri o saco de plástico. Aproximei-o da cara. Veio-me o cheiro a podre do bechamel. E não vi lá nenhum papel. Procurei nos bolsos das calças. Nos bolsos do casaco. Em cima da mesa da cozinha. No chão. No frigorífico. No caixote do lixo. Nada! Deve ter ficado no supermercado.
Saí de casa.
Encharquei os pés mal os pus na rua. Caí numa poça de água. As botas estavam velhas. Não eram para a chuva. Não eram Gortex.
Pus-me a caminho. Consegui ir evitando os carros e a água que lançavam sobre os peões ao passar nos buracos da estrada.
Passei por um Pingo Doce. Por um Minipreço. Por um Aldi.
A chuva caía agora com mais violência. E vinha tocada a vento. Tinha-se levantado um pequeno vendaval. O chapéu já se tinha virado algumas vezes. O cabelo estava molhado. Os óculos cheios de pingos de água e embaciados. Não via nada. Ia assim por tentativa. A seguir a mancha escura da calçada à portuguesa.
Cheguei ao Intermarché. Fui ao balcão das reclamações. O pacote cortado. O cheiro. Não tinha o talão. Foi há pouco tempo. Naquela caixa ali, e apontei. Tudo tranquilo. Podia ir buscar outro pacote. Nem precisava de passar nas caixas. Era passar por ali. E lá fui. Fui buscar um pacote de bechamel. Procurei onde tinha encontrado o outro. E à volta. Nos lineares adjacentes. Nos corredores ao lado. Perguntei a uma menina com o fato da casa. Desculpe, mas já não há. Esgotou! Esgotou? Esgotou! Porra!
Deixei lá o pacote rasgado e com cheiro a podre. Nem quis trazer um vale com o valor do pacote de bechamel.
Sai para a rua.
Chapéu-de-chuva aberto. Pés encharcados. Cabelo molhado. Óculos embaciados. Frio. Fiz o caminho de regresso no automático. Não pensava em nada. Já não me preocupava com os carros e as poças de água nas bermas. Estava melancólico. Triste. Com vontade de me mandar para a frente de um autocarro.
Passei pelo Aldi. Pelo Minipreço. Entrei no Pingo Doce já perto de casa. Comprei um pacote de bechamel. Estava intacto.
Cheguei a casa. Cozi os legumes que já tinha comprado. Desfiei o resto de frango assado.
Coloquei os legumes cozidos numa travessa de pirex. Espalhei o frango desfiado. Larguei umas gotas de piri-piri. Cobri tudo com o bechamel. Levei ao forno. E enquanto gratinava, fui tomar um duche quente que estava todo molhado e cheio de frio. Mas antes ainda abri a garrafa de vinho, um Monte dos Pegos (o vinho barato não é nada mau) e bebi um copo de um só trago. Para aquecer o coração. E ainda fiz, Ah!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/30]

Quando o que Resta São as Memórias

Começou a chover quando cruzava a cidade à ida para casa.
Não tinha chapéu-de-chuva, nem anoraque. Dei uma corrida pequena até ao toldo de uma loja. A asma não me deixava correr mais. E a chuva… Já não tinha idade para enfrentar a chuva.
Encostei-me à montra da loja e acendi um cigarro.
Lá de dentro da loja saiu um senhor que, com a mão, fez sinal para me desencostar do vidro. E eu desencostei-me e sorri-lhe, um pequeno sorriso de desculpas.
Ao contrário de mim, a cidade estava preparada para a chuva. Na rua passavam homens e mulheres de chapéu na mão. Apressados. Havia alguns coloridos, de motivos alegres e bem dispostos mas, a maioria era preto e cinzento.
Os carros fizeram logo uma fila lenta, de faróis vermelhos e amarelos que reflectiam na gotas da chuva e tornavam o cenário da cidade irreal.
Um casal de namorados passava, de mãos dadas, debaixo da chuva, sem chapéu nem impermeável. Estavam molhados, mas eram adolescentes, irreverentes, e não ligavam a pormenores sem importância como a chuva. Tinham o sangue quente e a pele de gortex.
Enquanto fumava o cigarro e os via passar, lembrei-me de quando eu também não tinha medo da chuva. De quando era novo e jogava à bola na rua, debaixo de fortes chuvadas, e a minha mãe vinha à janela da cozinha gritar por mim, gritar o meu nome em diminutivo, zangada, a prometer-me uma valente tareia porque a chuva me fazia mal e eu ainda ia ficar doente, Raios partam o rapaz, dizia.
Lembrei-me, também, de um beijo trocado debaixo de um forte temporal, e que terminou em ida para casa dela, tomar banho e enfiarmo-nos debaixo dos cobertores o fim-de-semana inteiro, só pondo a cabeça de fora para fumar um ou outro cigarro e comer o que havia lá por casa. Fruta, principalmente. E não precisávamos de mais.
Acabei o cigarro, deixei-o cair no chão e fiquei a vê-lo ir na correnteza de um pequeno riacho que o levou até um bueiro à beira da estrada.
E pensei que era o que me restava, agora. Memórias. Eram as memórias que eram a minha vida, porque a minha vida, hoje, já não tinha nada que merecesse ser lembrado amanhã. Só mesmo as memórias. E nessa altura senti-me o velho que na realidade era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/08]