O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

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O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

O Circo Chegou à Aldeia

Foi na Quinta-feira de manhã que as vi chegar. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Com elas vinha um altifalante a anunciar-se. Começam cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. O cão começou a ladrar. Passaram as primeiras auto-caravanas. Depois uns camiões TIR. Uns deles transportavam jaulas. A primeira que vi trazia um tigre. Um enorme tigre de Bengala. Pensava que tinham sido proibidos.
Passaram aqui em frente e desapareceram. O altifalante morreu em fade.
À hora do almoço voltei a ouvir o altifalante. Mas desta vez parecia que não queria ir embora. Fui à janela. Olhei. Estava uma carrinha estacionada na estrada aqui em frente. Uns rapazes andavam de um lado para o outro a colocar umas placas nos postes de electricidade e nas árvores. Um deles estava parado a fumar um cigarro e a olhar aqui para cima. Aqui para casa. Eu deixei-me estar quieto onde estava. Não me mexi para não me detectarem.
Depois do almoço desci à estrada. Fui ver. Tinham andado a colocar publicidade. Era o Circo. O Circo Chegou a Esta Localidade, informava um cartaz. Assim, sem identificar a localidade e dando para todas as localidades por onde passassem. Também informava 30 Animais na Arena. Voltei a pensar que tinha sido proibido haver animais no circo.
Voltei para casa.
À noite, depois de jantar, dei uma volta a pé. Fui até ao circo. Estava cheio de gente à entrada. Era dia de semana e havia muita gente pronta para assistir ao espectáculo de circo. Gente que entrava em magote para dentro da enorme tenda. Ao lado da entrada, um rapaz fumava um cigarro e olhava as pessoas. O olhar dele cruzou-se com o meu. Desviei o olhar.
Há anos que não ia ao circo. Sempre achei que era deprimente. Triste. Mas pensei em ir. Olhei o cartaz à entrada. De Quinta-feira a Domingo às 21:30’. Sábado e Domingo também às 16:30’. Tinha tempo, pensei.
Acendi um cigarro e voltei para casa a fumar.
Passaram os dias. E as noites. Foi-se o fim-de-semana. A carrinha com o altifalante continuou a passar várias vezes na estrada lá em baixo para me convidar a entrar na tenda grande e assistir à vida na arena. Mas fui empurrando a vontade, que não era nenhuma, até deixar passar a última sessão.
Era já Segunda-feira de manhã quando as vi partir. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Desta vez iam em silêncio. Não havia altifalantes a anunciar a partida. Vão cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. Primeiro passaram as auto-caravanas. Depois os camiões TIR. O último a passar transportava uma jaula. Uma jaula com o tigre de Bengala. E eu vi-o afastar-se ao longo da estrada enquanto fumava o cigarro. Depois desapareceu. Chegou o silêncio.
E estava instalado o silêncio quando ouvi o primeiro grito. Logo depois o segundo. E, em seguida, vários gritos em confusão. A localidade estava toda a acordar ao gritos. Vi gente a correr na estrada lá em baixo. Vi passar um jipe da GNR. Um vizinho viu-me no alpendre, aproximou-se do muro, ao fundo, e gritou-me As crianças! As crianças desapareceram todas! E eu perguntei-me Que crianças?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/04]

A Casa Está Fria

Acabou-se a lenha. Fiz mal as contas. Comecei a acender a lareira antes de tempo. E agora já é tarde. Já não tenho dinheiro para mais. E está mais cara. Já não tenho força para ir cortar mais árvores, ali ao pinhal, às escondidas da GNR. Nem coragem tenho para ir à respiga, ao que resta do Pinhal do Rei, buscar aquela madeira queimada que ainda paira por lá.
A casa está fria.
Durante o dia ainda se aguenta com a sol a bater nas portas de alumínio e nos vidros duplos das janelas. Mas à noite, à noite é o diabo, com a queda da geada, o nevoeiro e o ribeiro a correr gelado lá em baixo.
Estive a dobrar roupa na mesa da cozinha. Algumas camisolas estão tortas, as costuras já estão enviesadas pelo tempo e pelo uso, o que dificulta a dobragem, e isso complica-me os nervos.
À tarde, e para desanuviar, fui dar uma volta. Acalmar os nervos e aquecer um pouco o corpo. Passei pela mercearia. Consegui roubar um pacote de vinho e meia broa. Partilhei o vinho com o gato. O cabrão do gato gosta de vinho. Acho que ficou um pouco grogue. A meia broa, comi-a com um bocado de chouriço. Pena que não pude assar o chouriço.
Agora já é de noite. Estou sentado no sofá, embrulhado no edredão da cama, a olhar para a televisão. Sinto frio. Respiro para dentro do edredão para me aquecer.
Vejo, debaixo da mesa da sala, bocados de cotão. Tomo nota, mentalmente, para aspirar a casa amanhã. Acho que o aspirador já está a funcionar. Senão, vai à vassourada.
O telemóvel morreu. Devia ir buscar o carregador. Mas não me apetece. Não consigo levantar-me.
A casa está silenciosa. Quero dizer, ouço o barulho da televisão. Não está muito alto. O suficiente para eu ouvir como um zumbido de fundo. Não estou a ligar ao que está a dar. É só pela companhia.
Rio.
A minha companhia, agora, é a televisão? Como é que cheguei aqui?
Sinto a porta da rua a abanar. Um arranhar. Alguém a querer entrar? Não. Deve ser só o vento. O que é que alguém iria querer daqui?
Estou com frio.
A casa está fria.
Acho que vou dormir aqui. Não consigo arrastar-me para a cama. Fico aqui. No sofá. Na companhia da televisão. Enrolado em mim próprio e no edredão da cama.
Adormeço. Adormeço dias fora e só volto a acordar na Primavera já entrada. Quando os dias estão maiores. E já há tomates nos campos para eu roubar. Para roubar e matar a fome.
Adormeço.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/17]

Sou um Erro da Natureza

Às vezes sinto-me assim. Assim como me sinto agora. Não consigo explicar muito bem. É assim como ser e não ser, ao mesmo tempo. Como se estivesse lá no alto, no céu brilhante e lá em baixo, nas entranhas fétidas do inferno. Ao mesmo tempo. No mesmo sítio. A sentir todas as coisas diferentes possíveis de sentir, e senti-las uma-a-uma e percebê-las e distingui-las como camadas diferentes de emoções e, ao mesmo tempo, sem conseguir fazer nada para deixar de estar assim, nesta confusão, onde não queria estar.
Sim, eu sei. Isto não soou muito bem, não é? Soou muito esquisito. É difícil de perceber, não é? Eu percebo. É exactamente a mesma dificuldade que tenho para tentar explicar aquilo que também não percebo muito bem, mas ao mesmo tempo sei, só não consigo explicar.
Vamos lá por outro lado.
Estou sentado num sofá. Sentado não. Enterrado. Com o rabo enterrado pelo sofá abaixo. O sofá está no alpendre. À minha frente tenho uma oliveira. Vejo lá uns passarinhos, nuns ramos, a chilrear. A televisão está na sala. Mas vejo-a ali, por cima dos passarinhos, e vejo a Júlia Pinheiro em alegre chilrear com os passarinhos. Não entendo nada do que diz. Mas fico irritado com o que ela diz. A voz dela dá-me comichão. Coço o corpo. Coço com as unhas. Faço rasgões no corpo. Faço sangue. Há uma nuvem incolor sobre a minha cabeça. Troveja e começa a chover álcool sobre mim. A Júlia Pinheiro olha-me e começa a rir. Acho que está a rir-se de mim. Mas não tenho a certeza. Continua a chover álcool sobre mim, mas o meu corpo não arde. As feridas saram. Uma rapariga, nua, vem com uma bandeja na mão. Vem do interior de casa. Não a reconheço. Nunca a vi cá em casa. Traz um gin, num daqueles copos redondos enormes cheio de coisas a boiar lá dentro. Tira um funil do rabo e enfia-mo na boca e despeja o gin pelas minhas goelas abaixo. Deixa um pires com umas castanhas de caju na mesa ao lado e vai-se embora, a abanar o rabo e a cantar o Jingle-Bells.
Entretanto eu sou o meu pai e o meu avô e os meus filhos e os meus netos. Uns já morreram. Outros ainda não nasceram. Mas sinto-me todos eles ao mesmo tempo. E sinto-me no passado e no futuro. A comer um frango assado com pausinhos e um sushi de chouriço feito no wok. É possível? Pelos vistos é! O frango está polvilhado com zolpidem ralado e é servido numa travessa com o emblema do Benfica. E então percebo que o frango é galinha. Dou os ossos da galinha ao gato do vizinho que caga notas de quinhentos euros e estou rico. Riquíssimo. Multimilionário. E mando um berro à minha vizinha que vive a mais de mil metros de mim que me empreste uma cápsula de Nescafé que se me acabou a noz-moscada. Ela não me liga nenhuma e eu sinto-me triste e contente ao mesmo tempo, porque o café faz-me mal. Posso morrer se beber arábica.
É assim que me sinto. Algures entre uma coisa e outra com tudo misturado e a dar pontapés em pessoas enquanto afago os cães da cidade e nada disto faz sentido.
Perceberam agora? Perceberam agora a dificuldade por que eu passo para explicar como me sinto?
Não é fácil nem simples ser-se eu. É uma coisa muito complicada.
Agora começaram a sair aranhas da parede. Tenho as mão presas atrás das costas. Ou à frente. Não as sinto. Vejo as aranhas a sair da parede. Aproximam-se de mim. Tenho uma imagem da Júlia Pinheiro na cabeça e não sei porquê. Lembro-me de estar deitado na relva da Faculdade de Letras de Lisboa a fumar um charro e ouço uma voz dizer És um erro da natureza! És um erro da natureza! Não sei de onde é que vem a voz. Estou nos anos oitenta. Ou aqui. Ou nas ilhas Faroe. E os GNR eram o Vítor Rua. E o Alexandre Soares. E nem sei porque é que disse isso. Eles não são do Barreiro. Nem eu. A minha cintura é outra. E tem curvatura. A curvatura do Círculo.
Quero Óleo de Fígado de Bacalhau! Mãe! Mãe! Quero o Óleo de Fígado de Bacalhau.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/10]

Um Prego no Pneu

Eu ia na auto-estrada. Era de noite e eu ia na auto-estrada. Ia sozinho no carro. Não havia ninguém para além de mim. Era uma noite vazia. Uma viagem tranquila e solitária. Senti uma guinada para a esquerda no volante. Pensei que fosse o vento. Mas não parecia haver vento. O carro endireitou. O volante continuou a seguir as minhas mãos. O carro seguia em frente. Parecia mais pesado. A direcção parecia mais pesada. O carro começou a tentar fugir-me. Eu tentei escutar. Não ouvia nada estranho. Desliguei a música. Nem me tinha apercebido que tinha música a tocar. Desliguei a música e escutei. Parecia haver um som esquisito, mas não percebi bem o que era. A direcção do carro continuava pesada. O carro, agora, parecia teimar em virar à esquerda. Encostei na berma direita da auto-estrada.
Saí do carro. Dei uma volta em torno dele. Numa quase obscuridade não via grande coisa. Não havia carros a passar. Não havia feixes de luz. Parei no pneu da frente do lado esquerdo. Não precisei de luzes. Estava em baixo. Via-se o pneu em baixo. Completamente em baixo. A jante quase no asfalto. Tinha um furo. Pus as mãos na cintura e maldisse a minha vida.
Fui ao porta-bagagens. Abri-o. Olhei lá para dentro. Cocei a cabeça. Levantei o chão do porta-bagagens. Uma roda com ferramentas. Um triângulo, e pensei O triângulo! Tenho de ir por o triângulo. Um macaco. Mais umas coisas que não identifiquei. Tirei essa roda de ferramentas para fora do carro. Lá por baixo, uma roda pequenina com uma faixa amarela. Tirei-a também.
Peguei no triângulo e comecei a andar para trás para o colocar na estrada. Não havia carro nenhum a passar. Não havia. Logo apareceu um carro da Brigada de Trânsito. Ligou as sirenes de luz. Parou na berma depois de passar por mim. Larguei o triângulo no asfalto. Regressei. Ao passar ao pé do guarda disse Boa-noite. E ele respondeu Boa-noite? Já tem uma multa. Eu parei a olhar para ele. Não tinha percebido. Ele tinha um sorriso sacana na cara. Perguntei Como?! e ele perguntou-me O colete? E eu pensei Foda-se!
Procurei pelo carro todo. Não o encontrei.
Comecei a desmontar a roda. Desaparafusar os parafusos. Oh, pá! E força? Aquela porra é apertada com máquina. Tentei fazer força com o pé dentro de uma sapatilha que se dobrava toda com a força. Insisti. Mudei de parafuso. Fui insistindo. Fui mudando de parafuso. Fiquei com a palma da mão direita toda negra da força. Os dedos sujos do pneu. Rasguei uma sapatilha.
Um dos guardas foi colocar-se, com uma vareta luminosa nas mãos, ao pé do meu triângulo, para avisar os carros. Mas não passou nenhum. O outro ficou ao pé de mim a ver as minhas dificuldades. Eu transpirava. Rasguei a palma da mão. Fiz sangue. Finalmente um dos parafusos cedeu. Os outros foram atrás. Mais ou menos.
Enfiei o macaco debaixo do carro. Comecei a dar à manivela. Aquela merda não dá jeito nenhum. Encaixei o macaco no veio. Comecei a levantar o carro. Depois acabei de desaparafusar os parafusos. Retirei-os todos. E o pneu. Olhei para o guarda, satisfeito. Ele abanou a cabeça e sentenciou O colete!…
Voltei a fechar a minha cara. Olhei para o pneu. Um prego. A cabeça de um prego no pneu. Levei-o para o porta-bagagens e mandei-o lá para dentro. Tinha as mãos pretas. Uma delas encarnada do sangue. Peguei no pneu pequenino e levei-o até à roda. Coloquei-o. Apertei um pouco os parafusos. Baixei o macaco. O carro ficou direito no asfalto. Apertei os parafusos. Apertei com força. Apertei com toda a força que tinha. Fiz força com os pés. Carreguei. E disse Quero ver o gajo da oficina a espremer-se todo para tirar esta merda. E olhei para o guarda. Ele não disse nada. Arrumei as ferramentas e o macaco na roda das ferramentas. Uma carrinha parou atrás do carro da Brigada de Trânsito. Também tinha luzes no tejadilho. Outro carro da Brigada? pensei. Não, era o carro de serviço da auto-estrada. Ainda chegas a tempo!, voltei a pensar. Coloquei a roda das ferramentas no porta-bagagens e fechei a porta. Tinha as mão imundas. Limpei-as às calças. O guarda aproximou-se de mim e pediu-me os documentos do carro e a carta. Eu pensei A sério?!, mas fiquei calado. Tirei os documentos da carteira que tinha no bolso das calças. Sujei tudo com as minhas mãos. Uma delas estava com sangue. E suja. E se fico com tétano?, ainda pensei. Passei os documentos ao guarda. Ele pegou neles e começou a escrever num caderno. Aproximou-se o tipo da carrinha e perguntou É preciso alguma coisa? E eu abanei a cabeça. O tipo voltou para a carrinha e arrancou. O guarda acabou de escrever no caderno, rasgou uma folha e entregou-ma juntamente com os meus documentos. Disse Boa-noite! e voltou para o carro. O outro, com a vareta luminosa, já lá estava. Entraram para dentro do carro, desligaram as luzes da sirene e arrancaram devagar. Ao passarem por mim, o segundo guarda baixou o vidro e disse Não se esqueça do triângulo. O triângulo!, pensei. Estou sempre a esquecer o triângulo. O carro arrancou. Fiquei ali sozinho. De novo na escuridão nocturna. Só. Em silêncio. Cansado. Com sangue numa mão. Com as mãos sujas. As unhas cheias de óleo. As calças, a camisola e o casaco sujos. Uma sapatilha rasgada. A cara toda mascarrada, mas na altura ainda não sabia. Fui buscar o triângulo. Mandei-o para o banco de trás. Entrei no carro. E respirei fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/09]