Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]

Um Domingo de Páscoa Igual aos Outros

É Páscoa. Domingo de Páscoa.
É dia de folar. De amêndoas. De cabrito. Há quem leve com borrego. Uma espécie de gato por lebre.
É dia de padrinhos e de afilhados.
Tento lembrar-me dos meus padrinhos. Sei que os tive. Por ventura ainda os tenho. Mas já não os recordo. Não lhes consigo ver as caras. Não sei quem são. Desapareceram na minha infância. É ainda da minha infância a única memória que lhes pertence. Acho. O volume de banda-desenhada O Adivinho, da coleção do Astérix, o irredutível gaulês de Albert Uderzo e René Goscinny. Não sabia o que era. Quem era. Quem eram. Fiquei a conhecer por intermédio desse livro. Pelos meus padrinhos. Acho. Hoje não me recordo deles. Fiquei com o Astérix. Perdi os meus padrinhos. Porque é a memória tão fraca e selectiva, por vezes?
Volto a almoçar sozinho. Como ontem. Como antes-de-ontem. Como amanhã. Desci as escadas do prédio e fui ao restaurante no rés-do-chão. Estava cheio. Cheio de famílias. Crianças. Uma barulheira infernal. Criancinhas a correr por todo o lado aos berros e aos gritinhos. Os pais não têm mãos nestas crianças. Permitem-lhes tudo. Quando começam a querer comer descansados, ligam o tablet com desenhos-animados.
Como ao balcão. Sou a única pessoa a comer ao balcão. Como ao balcão, como sempre. Mas hoje estou sozinho. Hoje não tenho a companhia dos outros solitários. Hoje sou só eu. E o empregado avisa-me Não se esqueça que hoje à noite estamos fechados. Ainda avanço com a pergunta Porquê?, mas não recebo resposta. Talvez não tenha ouvido a minha pergunta. Eu estou mais inclinado para que me tenha ignorado. Porquê!?, deve ter perguntado a ele próprio. Porquê!? Oh que caralho! Sim, sou um chato. Acham que não percebo que as pessoas gostam de celebrar estes dias religiosos. A Páscoa. O Natal. O Corpo de Deus. E não, não percebo. Na verdade, para a maioria destas pessoas, este dia é só mais um dia de feriado. Não os vejo a rezar. A celebrar a morte e ressurreição de Jesus Cristo. É só um feriado. Vão à praia. Ao mar. Lotam as esplanadas. Despejam barris de cerveja. Devoram travessas de camarão. Pedem crédito ao banco para sustentar estes dias. Devia chover. Devia chover a potes para eles ficarem em casa. Eles e as criancinhas.
Mas não.
Está sol. Está calor.
Está um belo dia de praia. Não um dia de celebração de Cristo Aleluia. Está um dia de celebração da praia, das esplanadas, do mergulho no mar, de encher a pança de cerveja e decidir onde ir nas férias com o resto do crédito concedido pelo banco.
Aqui não. Aqui ao balcão está escuro. Sombrio. Só não tão escuro porque as horríveis lâmpadas fluorescentes brancas iluminam o prego no pão para onde espremo uma bisnaga de mostarda enquanto desfaço uma imperial de um só gole.
Pelo espelho à minha frente vejo as famílias em volta do cabrito. Comem de boca aberta. Sorriem com a carne presa nos dentes. Os fios verdes dos grelos que escapam dos garfos e caem para cima das camisas que já não são imaculadas tendem a fugir-lhes das gengivas. Empinam copos de tinto, do jarro que transporta o vinho dos pacote de cartão, com mais glamour e mais barato que as garrafas DOC.
Como um pudim flan. Dias-não-são-dias.
Bebo um café.
Uma Aliança Velha.
Fumava um cigarro mas vou ter de esperar até sair daqui. Vou ter de fumar em casa. Enquanto ligo a televisão nas notícias e aguardo que más novas é que o dia de hoje me traz. É que estes dias trazem sempre más novas. Já não espero outras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/21]

A Vida Era Simples e Eu Tinha de a Complicar

Eu estava sentado à mesa da sala. Sentado numa das cadeiras da mesa da sala. Era uma mesa que não era muito utilizada. Normalmente fazíamos as refeições na cozinha. Todas. Na sala víamos televisão e, em dias de festa, aí sim, a mesa era aumentada, com uma tábua que tornava a mesa um terço mais comprida, a minha mãe colocava uma toalha de linho, que era só utilizada nestas alturas, com uma toalha de plástico por baixo para não estragar a mesa, sendo que normalmente ficava furiosa porque apareciam sempre pingos de vinho e de molhos da comida, e a toalha ficava com mais uma nódoa porque Vocês são uns porcos! e O que vale é que tenho ali outra, mas não é para as vossas unhas que vocês estragam tudo!, mais o serviço de mesa inglês comprado a prestações na Lora e que, milagrosamente ainda estava inteiro, com peças que eu nunca soube para que é que serviam, mas que viam a luz da ribalta nestas alturas em que nós, todos nós, a família nuclear, de fatinho domingueiro, banhinho tomado e cabelo bem penteado, com o risco ao lado, nos sentávamos então na mesa da sala e parecíamos uma daquelas famílias da televisão, como os Buddenbrook, mas sem o glamour, a aristocracia e o dinheiro.
Eu estava sentado à mesa da sala mas não era dia de festa nem estávamos lá a fazer nenhuma refeição. Estava lá sentado porque eram as cadeiras mais altas de casa e, por causa de um ataque de bronquite, eu precisava estar sentado num sítio alto, muito direito, com os polegares enfiados nas presilhas das calças para abrir os alvéolos e me facilitar a respiração e tentar sobreviver a mais um ataque.
Estava com falta de ar.
Ainda não tinha descoberto o Ventilan.
A minha mãe fazia umas papas com linhaça, que cozinhava no fogão, fazia uma trouxa com um pano e colocava-me esse preparado sobre o peito. Parece que fazia bem à bronquite. E eu ficava assim, quieto, deitado na cama, de barriga para cima, a olhar as teias-de-aranha no tecto, com aquelas papas de linhaça quente sobre o peito, à espera que a bronquite desaparecesse e eu conseguisse voltar a respirar normalmente, como toda a gente.
Naquele dia eu sentei-me à mesa da sala para respirar melhor porque não queria ir para a cama com a trouxa de linhaça.
Naquele dia, que era já noite afinal, era um Sábado de Euro-Festival da Canção e eu queria estar ali, na sala, a ver quem ganhava, em que lugar ficava a canção portuguesa e qual a canção minha preferida para que, no dia seguinte, pudesse comentar com a Malta da Rua.
Tinha um gravador Sanyo ao pé da televisão, onde carregava nas teclas REC (a vermelha) e PLAY ao mesmo tempo para gravar todo o Festival e poder, no dia seguinte, dizer de minha justiça perante a plateia lá da rua.
Eu estava sentado à mesa da sala com dificuldade em respirar, mas atento ao fim da cassete para a virar para o lado B.
Cada vez que me sento numa mesa de sala, penso nos rituais motivados pela minha bronquite.
Cada vez que vejo o Euro-Festival da Canção, lembro-me do António Calvário, da Madalena Iglésias, da Simone, da Tonicha e do Fernando Tordo.
Cada vez que olho para a minha vida penso sempre como ela era tão simples, porque raio tive de a complicar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/13]

O Melhor de Nós

Fiquei a olhar para aquela praia tropical. Água límpida, translúcida. Um ondular suave, de embalo. Ao fundo, as palmeiras descaídas pelo vento sobre o mar. E o céu azul, azul.
É claro que este calor em Outubro não é normal. Percebe-se que toda a gente tenha ido para a praia. Que toda a gente tenha colocado fotografias de praia no Facebook. É preciso mostrar o melhor de nós. O nosso melhor perfil. As nossas escolhas. O glamour da nossa vida. Valha-me Deus!
Então, peguei naquela foto e coloquei-a no meu mural do Facebook. E escrevi O que Outubro me trouxe. Ainda mal tinha acabado de lá colocar a foto, já alguém estava a clicar um Like. Boa.
Ia continuar à procura de belas imagens para tornar a minha vida digital tão glamorosa quando apareceu a mensagem End Credit sobre o ecrã.
Levantei-me da cadeira, peguei nos vários sacos de plástico que trazia comigo e saí do cyber café.
Na rua comecei a caminhar para a baixa da cidade quando pisei uma pequena poça de água que saía de um algeroz e senti o pé molhado. Levantei o pé e reparei que a sapatilha tinha um buraco na sola e por isso tinha molhado o pé. Sentei-me no lancil do passeio. Procurei nos sacos de plástico e acabei por descobrir um jornal velho. Retirei uma folha, dobrei-a várias vezes e coloquei-a a meu lado. Depois descalcei a sapatilha e coloquei a folha de jornal lá dentro. Voltei a calçar a sapatilha e senti-me muito melhor. Muito mais confortável. Levantei-me e continuei em direcção à baixa da cidade.
Mais tarde, numa rua cheia de confusão, de gente que circulava apressada pelos passeios e de carros que queimavam o asfalto, encontrei uma boa parede junto a uma pastelaria bastante frequentada e sentei-me no chão, lá encostado. Ajeitei os sacos de plástico junto a mim. Retirei um pequeno boné e coloquei-o no chão, à minha frente. Meti a mão ao bolso das calças e descobri algumas moedas de vinte cêntimos que atirei lá para dentro.
Pensei que com um pouco de sorte conseguiria comprar um pão dos grandes, um pacote de vinho e, se sobrasse alguma coisa, amanhã poderia ir procurar imagens do Blade Runner 2049 e colocá-las no meu mural do Facebook. Sim, a minha opinião seria de um grande filme. Já tinha decidido.
A minha vida real poderia ser uma merda, mas a virtual era tão boa como a de qualquer outra pessoa.
Encostei-me à parede e esperei, enquanto ia saboreando aquele cheirinho a bolos acabados de fazer que, cada vez que alguém abria a porta, me inebriava.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/08]