Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]

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Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

Um Gin Tónico ao Fim da Tarde

Estávamos no alpendre a beber um gin tónico. Eu e ela. O calor apertava bastante, mesmo naquele fim-de-dia, e bem próximo do litoral. Sentados no alpendre, eu de calções, ela de vestido leve e fresco, cada um com um gin gelado nas mãos e que rapidamente despejámos, ouvíamos o silêncio que se estendia à nossa frente.
Foi necessário fazer outro. Ela foi fazer. Lembrei-a para espremer bastante limão.
Eu levantei-me para ir colocar música no tijolo que estava colocado em cima de um pequeno aparador frente à janela da cozinha. Ainda não tinha carregado no Play e já tinha decidido não o fazer. Estava-se bem assim, com o barulho da vida à nossa volta.
Voltei para a mesa. Apurei o ouvido. As cigarras. E havia ali algo diferente. Talvez um grilo, não sabia.
Olhei para o céu. Estava azul, mas um azul cinzento. O céu não estava nítido. Havia uma pequena película de neblina. Talvez as poeiras que vinham de África. Talvez.
Ela chegou com o gin. Sentou-se na mesa.
Sorri-lhe. Respondeu também com um sorriso.
Ao fundo, na aldeia, alguém batia com uma martelo. Dei uma pequena gargalhada a pensar no idiota que estava a martelar com aquele calor.
Depois pensei que seria necessidade. E senti-me eu o idiota.
Ao fundo do quintal, vimos passar um carro de instrução. Vinha devagar. Quase que nem o ouvimos chegar. Devia ser eléctrico. A meio da estrada, frente ao muro do quintal, percebemos o carro a deslizar e a desaparecer. Muito lentamente. A escorregar para baixo do muro.
Levantámos-nos.
Conseguimos ver o carro caído no terreno do outro lado da estrada que era mais baixo. E não só deslizou como também rebolou. Tinha capotado. Duas pessoas saíam de gatas de dentro do carro.
Eu pequei no telemóvel e chamei o 112.
Ela sentou-se, de sorriso na cara, e recomeçou a beber o gin.
Eu sentei-me e fiz-lhe companhia.
Ela ainda sugeriu Podemos ligar a mangueira e tomar um banho aqui, no alpendre. Está bem, respondi-lhe.
Enquanto ela agarrava na mangueira e ligava a torneira, eu tirei os calções e deixei que me molhasse, enquanto espreitava o carro da instrução e as pessoas à volta dele. E ainda sorri outra vez.

[escrito directamente no facebook em ]

Um Bombay Tónico com Limão Espremido

Abri as cortinas e deparei-me com o sol lá pendurado em cima. Era suposto chover. As pessoas queriam chuva. As colheitas e as barragens precisavam de chuva. A meteorologia prometia chuva. Afinal, veio sol.
Boa! Precisava de estender roupa. Não tenho máquina de secar e o estendal é curto. E para não ter de passar a roupa a ferro, tenho de a estender direita e esticada no estendal. É uma ciência.
Quando fui abrir a porta da máquina de lavar saiu lá de dentro um cheiro insuportável a bafio e humidade. A roupa estava lá há quatro dias, à espera que parasse de chover. Parou hoje. E tenho de lavar a roupa outra vez.
Voltei a colocar lá dentro outra bola de detergente e programei a lavagem para sessenta minutos, imaginando ser suficiente para tirar aquele cheiro insuportável.
Enquanto esperava pela lavagem, lavei e descasquei uma manga e comi-a. Depois tomei um duche. Vesti-me e tomei um Voltaren para as dores com que ando na perna.
A máquina ainda estava no programa.
Fiz a cama. Limpei a cozinha. Sentei-me na mesa da cozinha e esperei. Acendi um cigarro e fui acompanhando, mentalmente, o som da máquina de lavar na sua programação. A parte da centrifugação é fascinante. Estou sempre à espera que a máquina levante voo. A fumar o cigarro acabo por inalar sempre muito mais fumo. É uma resposta ao stress que me provoca.
Também olhei para a garrafa de Bombay que estava na bancada em frente, mas achei que ainda era cedo. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço: uma manga.
O programa acabou. Dirigi-me à máquina, abri a porta e reparei numa massa viscosa tombada na borracha da porta. Peguei-lhe, ou melhor, tentei pegar-lhe e escorreu-me pelos dedos abaixo. Era a bola de detergente que, como a máquina estava cheia de roupa e molhada, não consegui enfiá-la lá no meio, e ela acabou por cair para a porta e não lavou a roupa. O cheiro bafiento continuava lá. Que porra.
Tirei um monte de roupa para o chão, enfiei outra bola de detergente lá dentro, e voltei a enfiar a roupa que tinha retirado. E programei de novo para sessenta minutos. E ela começou naquela música que, agora, já me dava nervos. E resolvi sair de casa. Precisava de sair de casa.
Fui até ao café. Pedi uma bica mas não havia que a luz tinha faltado. Fumei um cigarro e fui dar uma volta pelo bairro.
Voltei para casa perto da hora do almoço. Pronto para pendurar a roupa.
Quando olhei para a máquina reparei que tinha umas luzes a piscar. Claro! Tinha faltado a luz e o programa abortou.
Comecei e rir que nem um tonto. Vieram-me as lágrimas aos olhos de tanto rir. Lá me acalmei e programei, de novo, a máquina, e liguei-a.
Sentei-me à mesa a pensar o que fazer para o almoço. À minha frente, na bancada, a garrafa de Bombay. E fui fazer um gin tónico com limão espremido.
A máquina de lavar fazia um barulho enervante e fui até à sala. Sentei-me no sofá. Bebi um grande golo de gin. E adormeci.
Quando acordei não ouvi o barulho da máquina de lavar. Levantei-me. Dirigi-me à cozinha e abri a porta da máquina de lavar e fui atingido por um cheiro agradável, fresco e limpo. E comecei a retirar a roupa que fui pendurando nas costas de uma cadeira. Quando olhei lá para fora, para a rua, através da janela da cozinha, vi que estava a chover. A chover!
Voltei a meter a roupa dentro da máquina. Fechei a porta e fui preparar outro gin.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/27]