A Casa do Lado

A casa do lado está sempre fechada. Parece uma casa vazia. Mas não é.
Por várias vezes, em noites de insónia, saio de casa de madrugada, naquele momento em que a claridade começa a despertar, para fumar um cigarro e caminhar um pouco ao longo da rua e desentorpecer as pernas, e já vi um carro a sair de lá. Parece-me ser uma mulher, ao volante. Mas está sempre em silhueta. Acho que se esconde de propósito.
Estou na rua, o cigarro na boca, ou nos dedos, o fumo a subir aos céus, e ouço o mecanismo da porta da garagem a abrir. Fico ali parado, ao lado da casa, a ver. O carro só sai da garagem depois da porta chegar mesmo ao cimo e parar. Então o carro sai. E pára logo lá em frente e aguarda até a porta da garagem se fechar por completo. E então vai-se embora. Tento sempre espreitar para dentro do carro. Mas não consigo ver com clareza. Parece ser uma mulher. Talvez com o cabelo apanhado. Ou curto. A silhueta é magra. É tudo o que consigo perceber.
Já aqui vivo há cerca de seis anos. A casa já estava assim. Sempre com as janelas fechadas. As portas fechadas. Nunca vi roupa estendida a secar ao sol. Nem tapetes a arejar em janelas abertas. Nunca vi ninguém a ir despejar lixo. Nunca vi ninguém a cuidar do pequeno jardim que existe à frente da casa e, no entanto, o jardim tem um ar cuidado. Nunca vi fumo a sair da chaminé. Ninguém deve cozinhar naquela casa. Ninguém deve acender a lareira, mesmo nos dias gelados de Janeiro.
Aquela casa, aqui ao lado, é um mistério. Mesmo depois de ter ido lá espreitar, uma noite destas.
A casa parece abandonada. Parece não albergar lá vida. Mas já vi sair de lá alguém que me parece uma mulher. E há, por vezes, nem sempre, mas por vezes, uma divisão com luz numa espécie de meio-andar da casa. Uma divisão com uma janela não muito alta, mas larga, como um rasgo no alto da parede da casa, por cima da garagem, o que me faz pensar numa espécie de mezzanine.
Uma noite destas, tinha ido à rua levar o lixo, já era tarde, tarde da noite, tinha largado o saco no caixote, estava a acender um cigarro quando reparei que a luz estava de novo acesa. Na tal janela rasgada quase ao longo da casa mas mais acima na parede exterior, por cima da garagem. A janela tinha cortinas japonesas puxadas para baixo. Não se via nenhuma sombra.
Fumei o cigarro na rua, ao lado do caixote do lixo, enquanto tomava a decisão.
E decidi.
Lancei o resto do cigarro fora. Subi a rua. Galguei o muro da casa vizinha. Não havia cães nem gatos. Passei o jardim que continuava bem tratado. Aproximei-me da casa. Andei à volta dela à procura de um caminho para subir à janela rasgada. Subi a uma janela e puxei-me ao primeiro telhado, o mais baixo. Depois fui andando devagar, com cuidado, até me aproximar do segundo telhado, por cima da garagem. Fui a caminhar por um friso que ficava abaixo da janela, ou por cima da garagem, agarrado ao beiral do segundo telhado, até chegar à janela rasgada com luz no interior. Tentei espreitar, mas não conseguia ver nada. As cortinas japonesas vedavam-me o acesso. Tentei encontrar sombras, mas não dava para perceber nada.
Fui andando ao longo do friso à procura de uma nesga. Devagar, para não cair. A queda também não seria muito grave. E então, aproximei-me da junção de duas cortinas. Uma pequena nesga entre uma cortina e outra. Tentei espreitar. Cheguei-me ao vidro. Andei com um olho para cima e para baixo, De um lado para o outro. E então, finalmente, vi. Vi um corpo de mulher, vestido com um fato de licra cor-de-rosa, e collants de um branco que me parecia creme, a roçar-se numa bola gigante de borracha, uma daquelas bolas de pilatos. O corpo subia e descia sobre a bola. Rolava. Esticava-se. Virava-se. Via os pés esticados, as pontas dos dedos dos pés a tocarem, muito levemente, no chão de madeira, enquanto o corpo se esticava ao longo da curvatura da bola. Não conseguia ver a cara. Tentei várias vezes. Andei com os olhos ao longo da nesga de espaço entre uma cortina e outra, mas nada. Não conseguia ver a cara. Fiquei por ali algum tempo. O corpo mexia-se, mas a cara continuava fora de visão. Era uma mulher. Isso de certeza. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem.
Depois o corpo ergueu-se. Largou a bola que vi ficar sozinha. A luz apagou-se. Não ouvi nenhum barulho. Esperei um bocado. Nada.
Desci do friso sobre a garagem. Percorri o jardim. Saltei o muro e voltei à rua. Acendi um cigarro. Virei-me para a casa e estava na escuridão. Parecia uma casa deserta. Uma casa vazia. Mas eu sabia que vivia lá alguém. Havia alguém naquela casa.
Talvez houvesse lá um portal, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/11]

As Pessoas São Porcas

Estou atrás da velha e olho-a a comer o gelado. Ela agarra o pau do gelado com o papel que o embrulhava para não se sujar se começar a derreter. E eu estou à espera. Estou à espera para ver o que é que ela vai fazer. Mas não tenho muitas dúvidas.
As pessoas são porcas. Porcas e más. E só pensam nelas. As que pensam. Há quem simplesmente nem pense. As coisas são assim porque sempre foram assim. Nem é por mal. É só por rotina ou, como é costume dizer-se nos dias que correm, por tradição.
Eu estou muito irritado. Por isso estou atrás da velha à espera para ver qual o fim daquele prazeroso gelado que lhe refresca as goelas.
Estou no Sítio da Nazaré e estou muito irritado.
Comecei a irritar-me logo de manhãzinha a caminho da cá.
Antes de chegar a Pataias apanhei um Renault Clio com a chapa toda comida pela ferrugem. Nem percebi qual a cor do carro. Que cor estaria no Livrete? Deitava uma nuvem de fumo. Pelo cheiro, óleo queimado com certeza. Obrigou-me a fechar os vidros do carro e a ligar o ar-condicionado. Coisa que nem gosto de utilizar, que me faz constipar.
Primeiro foi um pedaço de papel de alumínio que saiu pela janela do lado esquerdo e esvoaçou estrada fora até se perder no interior do Pinhal. Logo depois foi uma embalagem de iogurte lançada pela janela do lado direito. Esse caiu a pique e andou a rebolar pela estrada, passei-lhe por cima e perdi-o de vista.
Espremi a buzina. Bati várias vezes com a mão no centro do volante para chamar a atenção ao interior do Clio. Debalde.
Continuei atrás do carro.
Ainda vi sair uma casca de banana que atingiu a berma da estrada e sobre a qual pensei É biodegradável.
À chegada a Pataias parámos num semáforo vermelho. Eu atrás do Renault Clio. Um braço, na janela esquerda, cuja mão segurava um cigarro que entrava e saía do interior do carro. Quando o semáforo passou a verde, antes de arrancar, a mão largou a beata acesa que caiu no asfalto.
Irritei-me ainda mais. Acelerei atrás do carro e, no meio da vila, com traço contínuo, ultrapassei o Clio e, no momento em que estava mesmo ao lado do condutor disse Porca!, para a mulher que descobri a conduzir. Não vi quem ia ao lado da Porca.
E tive de guinar, rápido, o volante para a direita que me ia espetando na carrinha Renault Trafic que vinha no sentido contrário e que teve de se chegar à esquerda e fartou-se de apitar para mim e com razão. E eu, enquanto voltava à minha faixa só conseguia pensar Só há Renaults na estrada, hoje? É que, até eu próprio conduzia um Renault Twingo comprado através do OLX.
Continuei em frente. Deixei o Renault Clio com cor confusa para trás e segui para a Nazaré. Zangado. Furioso com esta gente. Gente porca e estúpida. Gente egoísta.
Não desci logo à Nazaré. Subi primeiro ao Sítio para comprar uns tremoços e umas pevides. E foi aí que a vi. A velha. A velha a comer o gelado junto ao penhasco. E percebi o que ia acontecer.
E está a acontecer. A velha chupou o gelado todo. Resta-lhe o pau e o papel, a envolver o pau, na mão. Olha em volta. Imagino à procura de um caixote do lixo. E não há nenhum. Sim, a velha tem razão. Mas então, larga o papel do gelado sobre o penhasco. Um penhasco cheio de lixo, de outros papéis de gelados, garrafas de plástico de água, raspadinhas, sacos de plástico das pipocas.
Estico o braço com força e empurro a velha do penhasco abaixo. E digo Porca! Ouve-se um pequeno grito abafado pela queda. Espreito para baixo e ainda a vejo a cair.
Vou-me embora. Vou à Batel comer uma sardinha e beber um café antes de ir para a praia. Ainda é época balnear? Olha, nem sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/17]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

O Tornado

Estou sentado na esplanada da Batel, na marginal da Nazaré, a beber um café. Estou na marginal virado para o mar e tento vê-lo. Espreito por uma nesga de espaço livre entre os insufláveis da Minnie, da Patrulha Pata e do Faísca McQueen, de um lado, e de uma pista de carrinhos de choque infantil e uns discos voadores que rolam em pista no chão, do outro. Mais afastado está uma barraca de hambúrgueres McDaniel’s.
As pessoas vêm à praia para se deitarem na areia, mergulhar no mar, beber uma imperial, comer uma bola de Berlim, lamber um gelado mas, antes de o conseguirem, têm de sobreviver a toda a panóplia de actividades que servem de chamariz às criancinhas que azucrinam a cabeça aos pais Papá eu quero! Papá eu quero! Papá eu quero pular no insuflável!…
A Nazaré tornou-se uma feira durante os meses de Verão. Hoje já não é possível ir para a praia descansar. Agora, as férias são o martírio maior das famílias. Já nem é só pelo dinheiro que se gasta em ninharias, mas o barulho, a confusão, o apelo, os berros, o futebol de praia, a música, há sempre música, há sempre um festival em qualquer canto, em qualquer baiuca, como se o Homem não conseguisse viver sem a confusão e o engano da companhia.
No fundo continuamos todos sozinhos.
Atrás de mim na esplanada, uma mulher dos seus cinquenta anos, de cigarro na mão, pigarreia. Puxa muco do nariz e engole-o. Eu percebo todos estes sons característicos enquanto tento ver o mar lá ao fundo, por entre a nesga de espaço livre.
Ao meu lado um casal de brasileiros, jovens, com três filhas ainda muito novas, bebem uma imperial enquanto as miúdas comem um Magnum cada uma. Os pais comentam o azar pelo mau tempo nas férias. E têm razão. O tempo está encoberto. O horizonte termina logo ali, numa neblina carregada, sobre o mar. E levanta-se vento.
A mulher atrás de mim puxa, agora, expectoração do peito e agarra-a na boca. Ouço-a cuspir para o chão e sinto-me enojado. Tenho vómitos. Mas aguento.
O vento aumenta agora bastante de intensidade. A família brasileira sai da esplanada e foge para o interior da pastelaria.
Vejo aquilo que deve ser um pequeno tornado a vir, rápido, do mar. O vento é muito forte. Cai água. Não sei se é chuva se é água do mar a viajar no vento. Recuo para a beira da esplanada, para debaixo do arco do prédio.
A mulher que pigarreia, chega-se à frente para ver melhor o que está a acontecer. A esplanada voa. A mulher está mesmo à minha frente. E eu estico o pé. Dou-lhe um empurrão no rabo e vejo-a tombar. Mas não cai. É agarrada pelo tornado que a leva na sua espiral de vento junto com as mesas e cadeiras da esplanada.
A mulher desaparece no ar. O vento acalma. A neblina dissipa-se. Volta o sol. Reparo que os insufláveis desapareceram. As pistas também. O McDaniel’s resistiu, mas sem telhado que foi não sei para onde.
As cadeiras e as mesas da esplanada também voaram para parte incerta. Os pais brasileiros avançam até à esplanada com as mesmas imperiais na mão. As miúdas ficaram no interior a comerem os gelados.
Eu acendo um cigarro enquanto reparo que agora já vejo o mar.
Volta o sol. As pessoas começam a levantar-se na praia e andam de um lado para o outro à procura das suas coisas e das pessoas que perderam naquela confusão.
Encontro uma cadeira virada no chão, que não era desta esplanada, e sento-me nela. Tenho muito para observar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/20]

Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]

Uma Mulher de Burca Passou

Está calor. Abro a janela para ter um bocado de vento em casa. Mas a aragem que corre é tão suave que mal se nota. Tiro a camisola e deixo-a cair no chão. Descalço as sapatilhas. Não me baixo. Com a ponta de uma tiro a outra. Depois é o pé que descalça a segunda sapatilha. Vão ficando pelo caminho. Tiro as calças. Fico em cuecas. Deixo-me cair no sofá. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Olho para o tecto. Penso Está um calor do caralho! E ainda não é Agosto. Pois não, ainda não é Agosto e já destilo. Transpiro bastante. Tenho de emagrecer. Tenho de cortar o cabelo. Tenho de fazer a barba. Tenho de comprar roupa mais fresca. Tenho de comprar uma ventoinha.
Estou deitado no sofá a olhar para o tecto. E sinto as costas a colarem-se ao sofá. Sinto as costas a aquecer. Penso em ir buscar um lençol para colocar em cima do sofá. Penso em ir mas não vou. Porra! Está demasiado calor para me mexer.
Olho para o tecto. Tenho os braços cruzados atrás da cabeça. O tecto parece derreter como um gelado sob o sol das três da tarde em pleno Alentejo. Mas deliro. O tecto não está a derreter. Invento estas estórias para me ajudar a passar o tempo e fazer esquecer o calor que me abate.
A vontade de fumar um cigarro é imensa. Finalmente, acabo por me levantar. Vou buscar um cigarro e vou fumar para a janela. Olho a rua. Há pouca gente lá em baixo. Há pouca gente a cruzar estas ruas sob este calor. No entanto, há quem o faça. Dois miúdos. Um tipo de bicicleta. Uma velhota agarrada a uma bengala. Um pé a arrastar o outro. E depois vejo uma mulher de burca. Tento imaginar como é que ela se há-de sentir debaixo de toda aquela roupa. Toda tapada. Imagino que trará calças debaixo do vestido. Imagino aquele corpo transpirado. Cansado. Morto. Imagino aquele corpo de mulher a manter viva uma tradição. Imagino aquele corpo morrer por uma tradição. Mas não consigo. A minha imaginação não vai tão longe.
Ao contrário do que estava à espera, o cigarro sabe-me bem, mesmo com todo este calor. Mas o corpo zanga-se comigo por estar ali em pé. Em pé a receber aquele ar quente que vem da rua. A corrente de ar é quase inexistente.
Penso nas gentes que trabalham sob este sol. Mas logo quero esquecer estes pensamentos. Não quero deprimir. Já me basta o calor. Não preciso de um momento de sociologia.
Acabo o cigarro. Disparo a beata com os dedos como se fosse um berlinde para conseguir chegar à varanda do vizinho em frente. E consigo. A beata assalta-lhe a varanda. Às vezes sou mesmo nojento. Não gosto daquele filho-da-mãe. Há muita gente de quem não gosto. Tenho de parar com estes ódios. Está demasiado calor para odiar. Para amar também.
Entro em casa. Olho para o sofá. Páro. Dou meia volta e vou ao armário. Trago um lençol branco. Abro o lençol sobre o sofá. Agarro no comando da televisão e ligo-a. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Ponho num canal nacional. Um programa da tarde sobre conversas de almanaque. Pode ser que adormeça. Quando estou muito cansado e com muito calor não consigo adormecer. Talvez estas conversas me embalem.
Enquanto tento fechar os olhos, penso naquela mulher com burca. Em todas as mulheres com burca. E penso que as tradições só servem para manter uns em cima dos outros. Uns a mandar nos outros. Uns a matar outros. Acho que é por isso que não gosto quase de ninguém. Às vezes, nem de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/02]

Dantes Era Assim

Eram cinco da manhã e o meu pai carregava-me ao colo até ao carro. Depositava-me no banco traseiro. A minha almofada já lá estava à espera da minha cabeça sonolenta. Trazia comigo o cheiro a fritos dos rissóis que a minha mãe estava a fritar. Mais umas bifanas. Uns ovos mexidos. Eu não sei bem, que estava a dormir. O meu pai carregava-me em peso até ao carro. Não lavava a cara. Nem os dentes. Nem fazia xixi. Ia da cama para o carro. A dormir. Isto tudo que sei, contava-me depois o meu pai. E a minha mãe. Descobria eu próprio ao remexer na cesta do farnel.
Eram cinco da manhã e o porta-bagagens estava cheio. Cheio e bem arrumado que o meu pai tinha mestria para pôr o Rossio na Betesga.
O meu pai a conduzir. A minha mãe ao lado. Eu atrás. Deitado no banco, a dormir. Com a cabeça enfiada na almofada que me acompanhava para todo o lado.
Era com os primeiros raios de sol, em dias que prometiam calor, que a minha mãe me acordava. Acorda, mandrião! Olha o sol! dizia.
E eu acordava, admirado por estar ali. No carro. Em andamento. Com o sol a bater-me nos olhos. Eles a não quererem abrir. Eu a esfregá-los. Olhava pela janela e via as árvores a passarem lá para trás. Os outros carros que nos ultrapassavam. E eu apertava as pernas. Com vontade de fazer xixi. E o meu pai parava o carro na berma da estrada, algures, onde fosse, e íamos os dois, eu e o meu pai, fazer xixi junto a uma árvore. Os outros carros passavam e apitavam. O meu pai levantava a mão e dizia adeus, lá para trás. Sem se virar.
Voltávamos ao carro e a minha mãe já tinha desmontado a mala que era uma mesa de campismo com quatro bancos lá dentro. Já tinha acendido um pequeno bico de gás. Fazia café para ela e para o meu pai. Aquecia leite para mim. Uma bifana para cada um. Um rissol. E regresso ao carro e à estrada.
E lá íamos nós.
Para onde quer que fosse. Naquela altura todas as viagens começavam assim. Daquela maneira. Sempre igual. Sempre fascinante. Acordava no carro. Com o sol a bater nos olhos. Fazia xixi na rua. A minha mãe tinha umas sandes substanciais para o pequeno-almoço.
Gostava de comer uma bifana assim, no meio do pinhal. Com os carros a passar por nós e a apitar. A fazer xixi contra uma árvore. E o mais importante, ir a caminho da praia.
Chegávamos junto ao Sado. Um rio que se confundia com o mar. Setúbal. Depois de já termos passado Lisboa. Depois de já termos voado sobre o Tejo. E o coração apertado. O medo. O medo das alturas. O medo de cair. Mas a sensação de estar acima de tudo e de todos. E depois esperávamos na fila com os outros carros. Entrávamos no ferry e zarpávamos para Tróia. Saía do carro e tentava ver os golfinhos. Nunca vi nenhum.
Houve um ano que almoçámos num restaurante self-service e eu ainda pude tomar banho numa das piscinas de Tróia. Foi uma boa viagem, essa. Levar o almoço num tabuleiro, como gente grande. Nadar numa piscina nova, bonita, no meio de gente desconhecida, a espreitar os meus pais na esplanada para confirmar que não fugiam e me deixavam ali no meio de estranhos.
Depois o regresso à viagem. As uvas que a minha mãe me dava. A minha mão a surfar o vento à janela até o meu pai me mandar fechar o vidro.
Chegava a saturação. Já chegámos? Ainda falta muito? E agora?
E agora tinha de beber água que a minha mãe me obrigava. Para não desidratar. E agora o meu pai tinha de parar o carro para fazer, de novo, xixi. E agora, comia umas bolachas. Queria um gelado mas não havia. Não tenho aqui gelados!, dizia a minha mãe. Pois não!, confirmava o meu pai. E eu contentava-me com umas bolachas Torrada barradas com manteiga, duas-a-duas, que a minha mãe sabia serem as minhas preferidas.
E agora chegávamos à cento e vinte cinco. A estrada.
E agora o meu pai dizia que já estávamos quase.
E agora eu via a noite cair. O carro sem parar. E já então sabia que o quase dele era diferente do meu.
E quando, finalmente, chegávamos, eu estava, de novo, a dormir. Deitado no banco de trás do carro, com a cabeça enfiada na almofada. E o meu pai iria pegar em mim e levar-me ao colo para a cama, o divã, o sofá onde eu iria dormir nos próximos dias.
E quando acordasse na manhã seguinte, então sim, estava oficialmente de férias.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/29]