Uma Paisagem de Bilhete-Postal

O céu está escurecido. Riscado a grafite. As nuvens perderam as suas formas, a sua cor. O céu mudou de ambiente. Já não é o céu azul de mergulho livre nas águas quentes do rio. Agora é o céu de um filme de Hollywood em cenário pós-apocalíptico.
Cheira a queimado. Cheira a um misto de borracha queimada e churrasco em fim-de-semana grande e vizinhos convidados para o jardim onde os cães fogem dos gatos e as crianças chapinham em piscinas de borracha, de soprar na pipeta, e compradas na feira de Verão do Continente com desconto em cartão.
Verão que se prese não aparece de manhã em São Pedro de Moel e tem incêndios para alegrar o futuro. Da mesma forma que hoje as comunidades abrem as bocas desdentadas para mastigar o frango de aviário assado em brasas ecológicas nas manifestações de um idílico passado Medieval, também daqui a uns anos outras comunidades irão homenagear os mostrengos lusitanos que não descansaram enquanto não puxaram o Sahara cá para cima.
Primeiro destruíram a costa algarvia. Depois a alentejana. Aos poucos o resto do país.
Portugal haveria de se tornar o primeiro estado-nação da celulose. O país virou uma enorme fábrica. Toda a gente tinha emprego, valia-lhes isso. No único empregador do país. A enorme fábrica de celulose acima do vale do antigo rio Tejo, sulco preservado em memória colectiva do maior rio da Península Ibérica que os ibéricos acabariam por matar. Como em tudo onde puseram as mãos. Resta-lhes a memória. Mas não lhes tem servido de muito.
Sorte a minha que já cá não estava para assistir à destruição do país como ele era no tempo em que eu ainda tinha tempo. Acabaria por descobrir que, afinal, não era muito.
Mas lembro-me do ano do grande incêndio de Vila do Rei. Dois anos após o enorme incêndio de Pedrogão Grande. O país estava fadado aos grandes incêndios. Era o Euromilhões em que toda a gente acertava Este ano vai haver um grande incêndio numa grande, e ainda resistente, mancha verde. E havia. E toda a gente acertava. E toda a gente estaria rica se o conhecimento significasse milhões.
Nesse ano, dois meses antes, eu tinha andado por Vila do Rei quando subi o Tejo. Descobri um Zêzere a morrer antes de desaguar no Tejo. Descobri um Portugal abandonado. Triste. Perdido na sua distância das janelas do poder. De Lisboa não se conseguia ver para além do Campo Grande. Aquele era o país da paisagem em bilhete-postal, em fotografia de fim-de-semana na visita à terra dos avós e à casa na terra, herdada, que permanece fechada o ano inteiro à espera de ser vendida num bom negócio que favoreça a vida na capital.
Andei quilómetros sem ver vivalma. Quilómetros de verde. Seco. Aqueles dias em que subi o Tejo esteve um calor infernal. O país estava seco. Estalava. E a manutenção do país não saiu das boas intenções de decretos legislativos. E depois? Como aplicá-los? Com que gente? Com que dinheiro?
Recordo as casas perdidas nas manchas verdes. Recordo quem ainda resistia. Quem não queria partir. Quem ainda acreditava que um país não são só os passos do poder.
Recordo passar por aquelas manchas de verde, naquele país seco e abandonado, enquanto fumava um cigarro, e pensar Bastava só uma beata. Só uma beata.
Hoje o céu já não chora. Está só negro. Zangado. E quando chorar, já será tarde. Como tudo neste país de gabinetes insonorizados e ar condicionado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/22]

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Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

As Ninhadas

O Óscar não tem aparecido. Aliás, nunca mais apareceu desde que hibernou no final do Verão passado.
O tempo também não tem estado convidativo para pôr o seu sangue frio ao sol. Com excepção de alguns, poucos, dias de calor em Maio, e agora em Espanha e França, demasiado longe para ele viajar, a verdade é que o tempo não tem convidado ao bronze nem ao despertar hibernal.
O facto da população de felinos ter aumentado tanto por aqui também pode ter contribuído para a ausência do Óscar.
Quando o Óscar apareceu da primeira vez, não havia por cá gatos. Entretanto, depois do Óscar ter-se despedido do Verão, chegou a primeira gata. Prenha. Da ninhada sobreviveu uma gata. Passou quase um ano. A gata voltou a emprenhar. Deu à luz quatro gatos. A filha sobrevivente da ninhada anterior também emprenhou e deitou cá para fora cinco gatos. Entretanto, salvei dois gatos arraçados de siamês que foram largados na rua e estavam famintos. As gatas adoptaram-nos. Por isso, agora, cá por casa há… Há muitos gatos. É só contá-los.
Muitos gatos mas não o Óscar. Tenho saudades daquela pose majestática e fixa, digna da estatuária das Caldas.
Entretanto, com os gatos voltou a entrar leite cá em casa. Não lhe suporto o cheiro. Páro de respirar enquanto corto a ponta do pacote para despejar o leite por três ou quatro caixinhas de plástico para os gatos beberem. Enquanto bebem, molham-se uns aos outros a lamberem-se e a abanar os bigodes. São uns pequenos javardos. Mas são engraçados. Passam o tempo a brincar uns com os outros.
Desde que os gatos entraram cá em casa, não tenho tido necessidade de estar com pessoas. Os gatos são uma boa companhia. Andam por onde querem. Às vezes invadem a casa dos vizinhos. Já me trouxeram maços de cigarros e um pacote com erva. Caçam coelhos, ratos e pássaros. Já apanharam uma toupeira. Fez-me reler O Covil do Kafka que tinha para aí, perdido, numa edição da Europa-América. Dei conta que ainda tinha algumas edições da Europa-América. As coisas que se descobrem por casa.
Os gatos dormem bastante. Não me chateiam. Só quando estão com fome é que vêm para aqui todos miar que até parecem uma banda sinfónica. Dez mil anos depois entre Vénus e Marte.
Os gatos são também uns excelentes ouvintes. Leio em voz alta coisas que escrevo e eles ouvem. Às vezes de olhos fechados para intuírem melhor o que eu digo. Nunca dizem mal. Não refilam. Não se chateiam com a música que eu ouço. Nem se incomodam por eu não ter tomado banho nem lavado o cabelo todos os dias. Às vezes lambem-me os dedos dos pés. A rir, pergunto-me porquê.
Comecei por lhes dar nomes. Mas perdi-me. Esquecia-me. Eram demasiados. Passaram a ser todos Gato. Mesmo as gatas. E funciona.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/01]

Uma Novela Gráfica

Peguei em Sabrina e sentei-me no sofá.
Estava calor. Demasiado calor para ir para o alpendre. Demasiado calor para me passear pela estrada deserta que passa aqui em frente a casa. Demasiado calor para subir às montanhas lá ao fundo. Mesmo que ainda adivinhe neve no cume. Demasiado calor para ir até à praia. Falta-me vontade para sobreviver ao caminho. Até o cão e os gatos estão deitados ali fora, à sombra. Em cima do pequeno charco formado pela torneira mal fechada.
Eu sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. As janelas abertas para fazerem corrente-de-ar. Sem grande sucesso.
Abri o livro. Comecei a ler e a ver. É uma novela gráfica. Duas irmãs encontram-se em casa dos pais. Casa que já foi delas, também. Mas já não é. Estão de passagem. Uma delas, Sabrina, foi cuidar da gata dos pais e acabou a dormir lá. A irmã chega. Contam histórias dos seus passados uma à outra. Depois venho a descobrir que Sabrina desapareceu. Depois descubro que Sabrina foi raptada. Depois ainda descubro que Sabrina foi morta. E a minha transpiração cai sobre as páginas do livro. As folhas ficam enfoladas. As cores das pranchas ganham vida. Ficam mais fortes. Saturadas.
Levantei-me do sofá. Procurei um cigarro. Encontrei-o na cozinha. Acendi-o. Olhei em volta. Tentei perceber se queria beber alguma coisa. Sim, queria beber alguma coisa. Mas não conseguia decidir o quê. Não conseguia decidir o que é que me apetecia beber. Olhei em volta. Vi uma garrafa de vinho tinto. Vi uma de gin. Abri o frigorífico. Vi cerveja. Uma garrafa de vinho branco já encetada. Uma garrafa de plástico com água lisa. Abri o congelador. Vi uma garrafa de vodka. Não consegui escolher. Não sabia o que é que me apetecia. Conclui que não me apetecia nada. A cinza do cigarro caiu ao chão. Larguei um palavrão. Apaguei o cigarro na torneira do lava-louça. Deitei a beata molhada no caixote de lixo. Regressei à sala.
Regressei à sala e sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. Recomecei. Descubro o marido de Sabrina. Ou será melhor dizer o viúvo? Mas aqui, neste momento, eu ainda não sei que ela está morta. Só mais à frente. Aqui acompanho a chegada do corpo de um homem ausente à vida de um amigo disposto a dar-lhe tempo e disponibilidade. Uma companhia. Depois percebo quem é. Porque está assim. Acompanho as notícias. A viralização do filme da morte de Sabrina. Mas nunca vemos nada. Só sabemos porque nos contam. Eles, os que vêm. E deprimem.
Sabrina é uma deliciosa depressão.
Olhei para o ecrã escuro da televisão. Não havia corrente-de-ar. Pousei o livro ao meu lado, no sofá.
Pensei na parte gráfica da história de Nick Drnaso e achei-lhe algumas semelhanças com os desenhos de Chris Ware. Traço claro. Linhas direitas. Tudo muito enquadrado. Muito gráfico. Quadrados iguais. O desenho nunca passa para além da linhas dos quadrados. As letras pequenas. Calmas. Tranquilas. Sabrina é uma história violenta contada de uma forma suave.
Olhei para a capa do livro. Olhei para o perfil de Sabrina. Tinha os olhos cansados. A luz baixou muito. Mesmo com os óculos já tinha dificuldade em continuar a ler. Decidi deixar o resto para amanhã.
E depois? Uma conversa sobre bola na televisão? Não! Não tinha pachorra! Estava com calor. Tinha as costas coladas ao sofá. Acho que me cheirava a chulé. Seria eu?
Às vezes gostava de ser uma novela gráfica. Uma história que se repetia de todas as vezes que uma leitura lhe dava vida. Enfim. Não sei bem o que quero. Para já continuo para aqui. A ver o ecrã escuro da televisão enquanto a luz do dia baixa lá fora e aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/30]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]