A Cadeira Miniatura da Minha Avó

No alpendre aqui de casa há uma cadeira pequenina, de madeira, comprada numa feira de artesanato, que lembra as clássicas cadeiras grandes de madeira, mas em miniatura, que era mais decorativa que outra coisa mas que o gato adoptou e para onde costuma ir dormir, principalmente se eu estou sentado lá fora, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho e a ler um livro ou, simplesmente, a olhar as montanhas em frente, carecas, secas e verde-musgo no Verão, cheias de neve branca no Inverno.
Às vezes, quando vejo o gato a dormir nessa cadeira em miniatura, lembro-me da minha avó materna que, lá em casa, em casa dos meus pais, tinha uma cadeira assim, parecida com esta, um pouco mais resistente e cómoda, onde a minha avó se sentava. Era a cadeira dela. Sentava-se naquela cadeira estivesse na cozinha a descascar batatas, na sala a ver as suas novelas, na varanda a respirar ar fresco ou no quintal a ver-me, a mim e à minha irmã, a brincar feitos cabritos, aos pinotes por todo o lado e a subir a nespereira que lá estava, para tomar conta de nós e ver se ninguém caía e partia a cabeça.
A minha avó só não se sentava naquela cadeira às refeições porque senão não chegava à mesa.
Sempre me interroguei o porquê de ela sentar-se sempre naquela cadeira.
Talvez porque tenha sido o meu avô a fazê-la com as suas mãos, de propósito para o corpo da minha avó. Talvez porque como ela era pequena, sentada naquela cadeira em miniatura conseguia ficar com as pernas num ângulo de noventa graus e não quase de pé como eu a via quando ela se sentava à mesa para almoçar ou jantar e só se encostava com o rabo à cadeira, até que um dia a cadeira escorregou e ela caiu. Não partiu a bacia, mas andou uns dias dorida. Depois, a partir desse dia, passou a sentar-se com o rabo na cadeira e os pé passaram a ficar pendurados como ficavam os meus quando eu era pequenino e queria ser grande. Ou talvez porque na sala ela enterrava-se no sofá e não conseguia sair sem ajuda e tinha a sensação que se ia afundar no fofo do sofá e ser engolida pelo monstro do conforto e nunca mais nos veria, a mim e à minha irmã, os seus diamantes, a quem permitia todas as brincadeiras por mais estúpidas que fossem.
Mas não sei. Nunca lhe perguntei. Nem nunca perguntei à minha mãe.
Lembro-me disso agora, quando vejo o gato deitado naquela cadeira miniatura que está no alpendre aqui de casa e que comprei numa feira de artesanato nem sei bem porquê.
Nos dias frios e de cacimbo, o gato dorme lá em cima, todo enrolado nele próprio, como uma bola de pêlo. Nos dias de calor deita-se esticado, por vezes com a cabeça tombada para o chão.
Quando o cão passa por lá, dá uma lambidela no pêlo do gato. A maior parte das vezes o gato ignora. Outras vezes levanta a cabeça, olha para o cão e volta a dormir. A vida é muito complicada para os gatos.
Acho que até a minha avó, velhinha, já com muitas dificuldades de locomoção, era muito mais interactiva que o gato.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/04]

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A Morte a Rondar

De novo a morte. Ela ronda. Anda sempre a rondar. Como se quisesse dizer que está ali, sempre presente. À nossa espera. Que não somos mais que ninguém. Que todos temos um bilhete de ida e volta e, o regresso, é inevitável.
A morte não precisa de se anunciar ao nosso lado. Não precisa ser dentro de casa. Não. Basta ser à distância. É só um lembrete. Quem julgas que és?
Hoje foi assim. Primeiro um aviso noticioso no telemóvel. Depois as redes sociais. Primeiro timidamente, em seguida de jorro. Por último a televisão.
Não se lhe pode escapar. Não era dentro de casa. Era exterior. Mas um exterior que andou anos e anos a entrar em casa através da televisão, dos livros, das ideias. Um nome muito presente se bem que um pouco esquecido nos últimos anos. Mas basta um pequeno clique para que tudo venha à tona.
A morte. A morte de alguém é sempre a consciência da nossa própria mortalidade.
Dou por mim encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. O dia está limpo. O céu está azul chroma. Não há nuvens. Vejo na perfeição os contornos das montanhas e as poucas árvores existentes naqueles montes carecas estão recortados no céu.
Será assim a morte? Uma luz tão forte e tão branca que não vejo nada e só lembro os dias ensolarados da minha vida? Ou uma escuridão de breu onde nada existe a não ser o sonho da minha própria morte numa repetição sem fim?
Divago.
Tenho uma relação muito estranha com a morte. Não me mete medo, mas incomoda-me. Não tenho medo que chegue quando achar que deve chegar, mas chateia-me quando me leva quem eu amo e queria ter aqui ao meu lado para sempre. Pelo menos para todo o meu sempre.
Estou encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. Acendo um cigarro. Penso que posso morrer um dia destes de cancro do pulmão. Mas não me impede de aspirar, com algum prazer, o fumo, e prendê-lo nos pulmões.
O gato vem ter comigo. Roça-se nas minhas pernas enquanto faz curvas impossíveis entre uma perna e outra. Senta-se à minha frente a olhar, apático, para mim. Mia. Mia sem grande convicção. Acho que mia porque é da sua condição miar. Mas tem comida na tigela. E água. A areia das necessidades está limpa. A cama sacudida, embora prefira dormir em qualquer lado menos na cama que lhe destinei.
Olho para o gato e pergunto-lhe O que vai ser de ti quando eu morrer? E o gato levanta-se e vai-se embora. Ignora-me. Acho que eu preciso mais dele que ele de mim.
Apago o cigarro. Entro em casa e ponho um tacho com água ao lume. Vou cozer um bocado de esparguete. Depois misturo atum. Está a apetecer-me comer algo assim, simples e estúpido. Vou partilhá-lo com o gato.
Fico sempre assim, perante a morte. Não tenho medo. Mas incomoda-me. E dá-me para a estupidez. Como comer esparguete com atum.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/03]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

O Grito

Acordei com um grito. Um lamento de dor. Acordei com uma queixa. Abri os olhos. A escuridão. Tudo o que via era a escuridão.
Estava quieto na minha posição na cama. Deitado direito. Debaixo do edredão. A cabeça na almofada. A olhar para o tecto. Mas não o via. O tecto. Só escuridão.
Parei a respiração. Apurei os ouvidos. Tentei perceber os barulhos. Mas não ouvia nada. Nem o vento se anunciava lá fora. Nem os passos do gato. Nem os do cão. Dormiam, provavelmente.
Mas alguém gritou. Fui acordado por um grito. Um grito de dor.
Posso ter sonhado. Posso ter sonhado com um grito a pensar que era verdade. Posso ter imaginado que acordava com um grito real. Mas não costumo sonhar.
Não consegui perceber nenhum som.
Virei-me de lado. Os olhos fechados. Uma escuridão por outra. Tentei adormecer. E então, outra vez, um grito. Um grito de medo. Agora ouvi. Estou acordado e ouvi.
Levanto-me da cama. Abro as cortinas da janela do quarto. Olho lá para fora. Não há luar. A escuridão sai do quarto para a rua. Não vejo nada. Percebo uns contornos. As árvores. A casota do cão. O baloiço.
Dou a volta à casa. Espreito por todas as janelas. E em todas elas a mesma paisagem. Uma escuridão a deixar adivinhar algum contorno que decifro por conhecer a casa. Sei o que está e onde está. Mas não vejo nada. Quase nada.
E no instante da renúncia, no momento de regressar à cama, no espreitar já sem esperança de ver o que quer que fosse que conseguisse ver naquela escuridão, vejo, através da janela da cozinha, uma mulher em camisa de dormir no jardim. Está parada. De costas para mim. Virada para o fundo. Os braços esticados. Os punhos fechados. Como se estivesse a fazer força. A gerir a raiva. Saio pela porta da rua e percebo que estou nu. Corro ao quarto. Visto uns boxers. Regresso à cozinha. Olho de novo pela janela a confirmar. A mulher continua lá. De costas para mim. E eu saio da cozinha e aproximo-me dela. Agarro-a pelo braço e faço-a virar-se. Faço-a virar-se para mim. A mulher está a chorar. Parece uma mulher velha. Mas percebo que tem a cara enrugada pelo choro. Parece mais velha do que realmente é. Não a conheço. Não sei quem é. Não a posso deixar ali. Não a posso deixar na rua. Puxo-a pelo braço e trago-a para dentro de casa. Quem será?
Entro em casa, mas entro sozinho. Entro em casa e ela fica na rua. Agarro-a pelo braço e puxo-a. Puxo-a para dentro de casa. Mas ela não entra. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar em casa. Sempre que transponho a entrada de casa a minha mão larga-a e ela fica lá, do lado de fora. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar. Olho a cara dela. Está assustada. Eu também estou assustado. Porque é que não consigo fazê-la entrar em casa?
E então começa a chover. Começa a chover na rua. Começa a chover sobre ela. E ela começa a dissolver-se na chuva. Começa a desaparecer. A desintegrar-se. Eu corro para fora de casa. Tento agarrá-la. O pouco dela que ainda resta. E acordo aos pulos na cama. Sozinho. Na escuridão.
Eu não sonho. Nunca sonho. Terei mesmo ouvido um grito?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/06]

O Silêncio

Reina o silêncio cá dentro de casa.
Páro no corredor. Vou a caminhar, descalço, pelo soalho de madeira e páro. Escuto o silêncio que está em casa. Não ouço nada.
Aos poucos começo a descobrir que este silêncio é mentiroso. Aos poucos começo a descobrir pequenos sons que matam o silêncio.
O primeiro som em que reparo é o da minha respiração. Tento respirar em silêncio, mas não consigo. Tenho uma respiração pesada. Respiro pela boca. Tenho o nariz entupido. Respiro pela boca e a boca fica seca. Ouço a respiração. Não é ofegante. Mas é sonora. E não consigo que não seja.
Depois percebo uma mosca ao fundo na sala. Ou se calhar não. Se calhar é aqui mais perto de mim. Não tenho uma audição tão boa. Não me é possível ouvir uma mosca a voar ao fundo, na sala. Ou é?
Com atenção, ainda percebo um ping-ping de umas gotas que caem no depósito de água da sanita.
Ouço uns estalos nos ossos do meu corpo. Primeiro nos joelhos. Talvez pelo esforço de estar aqui assim, em pé, parado, no meio do corredor. Depois as costas. Faço força para me endireitar e os ossos das costas estalam e parece que o corredor amplia o som dos ossos a estalar como uma caixa de ressonância.
Não ouço mais nada.
Retomo o caminho. Ouço-me a caminhar. Ouço os pés nus a colarem-se e descolarem-se do soalho de madeira. Vou até à sala. E ouço uma folha do jornal a esvoaçar. Mas é impossível. Não há janelas abertas. Não há corrente-de-ar. Não se produz vento. Como é que a folha do jornal esvoaça?
Vou até à janela. Olho lá para fora. Está lá o gato, sentado num muro. O gato olha para mim e abre a boca. E eu ouço o gato miar. Eu ouço o gato miar do outro lado de uma janela com vidros duplos e a uma distância de, talvez, cinco metros.
Uma águia a planar sobre a casa chama-me a atenção. Levanto o olhar. Observo-a. E ouço o som das asas a cortar o ar fffffffffffff. Vejo-a a cair sobre a terra. Desaparece atrás de umas árvores. Logo depois volta a subir. E leva algo nas garras.
E então começo a ouvir uma música como se fosse uma banda sonora. Uma banda sonora do filme da minha vida. E isto soa-me ao que John Barry fez para o Out of Africa.
E eu penso que devo estar a sonhar. Belisco-me. Dói-me. Magoo-me. Dou um berro. Acabo com o silêncio. E não percebo o que se passa comigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/20]

Uma Toupeira Morta

Calcei os chinelos nos pés, enfiei uma t-shirt e saí de casa. Deixei a porta no trinco. Aqui não se passa nada. Ia ao Intermarché comprar vinho. Estava calor. Tinha gasosa e limões em casa. Faltava-me vinho para um Tinto de Verano.
Fui a pé estrada fora. A bater os chinelos no asfalto quente. Cruzei a aldeia. As pessoas olhavam para mim. Estava calor.
No Intermarché olhei a prateleira dos vinhos. Não precisava de um vinho muito bom. Era para misturar. Podia ser uma zurrapa. Comprei uma caixa de Parente. Cinco litros.
Ainda não tinha saído do supermercado já estava a provar o vinho.
Saí. Comecei a bater o chinelo no caminho de regresso. Com a caixa na mão. Não cheguei a cruzar a aldeia.
Encostei-me a uma árvore. À sombra. A fugir do calor. E tentei matar a sede. Bebi. Bebi o Parente. Levantei a caixa e abri a pequena torneira sobre a boca. Bebi. Mais tarde já não conseguia levantar a caixa, embora estivesse mais leve. Mais tarde era a minha cabeça que se colocava por baixo da caixa. E tentava rapar o fundo.
Depois… Depois devo ter adormecido. O calor. O vinho. A dormência. O sono.
Senti-me ir.
Ouvi vozes. Parecia-me ao longe. Mas não percebia o que diziam. Eram vozes, somente. Não sabia se estava acordado. Não sabia se estava a dormir. Não sabia se sabia alguma coisa. Senti frio. Senti uma dor no estômago. Como algo que se movesse em mim. Se calhar algo que comi. Se calhar algo que bebi. O vinho?
Pareceu-me sentir dor. Um mal-estar. Mas não via nada. Não sabia nada. Não sabia se estava acordado ou a dormir. Podia ser um sonho. Um pesadelo. Uma loucura momentânea.
E depois… E depois nada.
Acordei.
Acordei caído no meio de uma estrada de terra batida. Abri os olhos devagar. Muita claridade. Não percebi onde estava. Não reconhecia nada à minha volta. Doía-me a cabeça. A barriga. Os braços. Tinha os pés descalços. Vi um chinelo ao longe. Caído no chão. Levei a mão à cabeça e vi que tinha sangue. Devo ter caído, pensei. Depois vi os braços. Tinha pequenas picadelas com sangue. Também vi sangue na camisola. Uma mancha. Uma mancha grande. Levantei-a e vi. Uma costura na barriga. Uma costura grande e mal feita. Ainda havia sangue. Comecei a tremer. De frio. De medo.
Pensei que nesse dia de manhã o gato tinha largado uma pequena toupeira à entrada de casa. Uma toupeira morta. Era para mim. Pensei na toupeira. Pequena. Pequenina. Parecida com um rato mas com o focinho em bico. Para furar.
Pus a mão sobre a costura na barriga. A mão ficou com sangue. Senti vertigens. Má-disposição. Vontade de vomitar.
A cabeça começou a andar à roda.
Senti-me ir.
Não sei o que aconteceu depois.
Agora acho que estou num hospital. Mas não tenho a certeza. Há umas máquinas. Mas também há uma certa sujidade.
Não sei onde estou. Mas estou com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/31]

Alergias

Tenho a casa cheia de pó amarelo.
Já aspirei. Varri. Limpei com um pano húmido. Mas o pó acaba sempre por regressar. Eu vejo-o a voar pelos feixes de luz que passam pelos buracos das persianas. Vêm lá de fora. Das árvores. Das malditas árvores.
Odeio árvores.
Chega a esta altura do ano e o pó amarelo invade-me a casa. Preâmbulo para me invadir os pulmões. E depois, só à cacetada. Xoterna. Brisomax. Ventilan. Zyrtec. Aerius. Chá Erva de Príncipe. Aguardente aquecida e bochechada antes de engolir. Tudo o que vagamente me afaste destas árvores da morte.
Odeio árvores.
Houve uma época em que alguém disse aos meus pais que respirar merda de vaca fazia bem à bronquite. Passei a frequentar, todas as Terças e Quintas-feiras, o estábulo da dona Albertina, a senhora que nos vendia o leite. Ia para lá depois das aulas. Levava um livro e sentava-me lá, ao lado das vacas, no meio do estrume, a respirar aquela mistura de merda com feno, na companhia das moscas e do rabo da vaca que por vezes me abanava o cabelo. Li muito Júlio Verne na companhia das vacas leiteiras da dona Albertina. Não resolveu os meus ataques de bronquite. A falta de ar. O vício da postura. O polegar preso na presilha das calças para aguentar o corpo cansado de tanto respirar. Mas conseguiu fazer-me ler bastante.
Tenho a casa cheia deste pó amarelo.
Abro as janelas. Vejo o sol a brilhar lá em cima. Em frente à janela do quarto o campo está verde, pontilhado de amarelo das azedas. Gosto de chupar as azedas. Gosto de como fica o interior da minha boca depois de chupar uma azeda. Vejo o cabrão do gato da vizinha que vem, sorrateiro, por entre as ervas, tentar saltar para cima da minha gata. Vem cá, vem!que te despejo um balde de água em cima!, digo, mais para mim que para ele.
No outro dia apanhei-o debaixo do alpendre a fazer olhinhos à gata. Levou com uma tigela de água em cima. Fugiu. Fugiu que parecia um foguete. Esteve um tempo sem voltar. Agora está aí outra vez. Vem atrás da Primavera, o cabrão.
Odeio os gatos que me querem comer a gata.
Também odeio as árvores que largam este pó amarelo.
E algumas pessoas.
Tenho saudades do Óscar. Ele costuma aparecer por esta altura. Talvez tratasse da saúde ao gato da vizinha. E já agora da vizinha, chata do caralho que não prende o gato, tantas vezes que a avisei.
Começo a coçar o corpo. Começo a ficar com umas borbulhas que aprecem bolhas de água. Dão-me comichão. Tomo outro Zyrtec. Sinto dificuldade em respirar. Como se não houvesse oxigénio suficiente no mundo. Mando duas bombadas de Ventilan. Sinto-me inchar. Maldita cortisona.
Odeio a cortisona. Odeio o gato da vizinha e a vizinha. Odeio as árvores. E algumas pessoas.
Fecho as janelas. Baixo os estores. Puxo as cortinas. Deixo a casa na penumbra. Se não vir o pó amarelo, ele não existe.
Prendo a respiração. Conto até trinta. É difícil. Depois deixo sair o ar. E volto a engolir ar de novo. Um ar renovado.
Vou sobrevivendo. Às árvores. Ao pó. A Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/22]