Burocracia

Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Não tomei banho que estava frio e fiquei sem gás na botija. Em casa, o gás ainda está na botija e sou eu que a tenho de ir buscar ao posto e carregá-la às costas. No Inverno é um bocado chato.
Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Saio de carro.
Auto-estrada. Auto-estrada vazia. Os camiões que fazem esta zona andam pela nacional. É por isso que vou pela auto-estrada. Os camiões voam pela nacional como se voassem na auto-estrada. A auto-estrada é mais segura e mais rápida para mim.
Balcão da EDP. Espero. Jogo um Bubbles no telemóvel. O meu número. Quero electricidade. E gás. Uma coisa de cada vez. Instalação? Uma coisa de cada vez. Não dá para fazer tudo no mesmo dia? Não. Espero. Resolvido. Hei-de ser contactado. Quando? Não se sabe.
Vou a pé. Mas penso melhor. É do outro lado da cidade. Vou de carro.
Pára-arranca.
Pára-arranca.
SMAS. Muita gente à espera. Tiro senha. Espero. Jogo Bubbles no telemóvel. Vou à rua fumar um cigarro. Jogo Tetris. Ainda tenho Tetris no telemóvel? Vou ao café ao lado e bebo uma bica. Olho o Goucha na televisão em altos-berros. Fumo mais um cigarro. Volto a entrar no SMAS. Espero.
Finalmente o meu número. Peço uma instalação. Já foi desligada? O contador está lá? Não sei. Tenho de saber.
Saio do SMAS. Vou a pé à Junta de Freguesia. Espero. Há internet. Navego enquanto espero. Sou atendido. Bem atendido. Bem tratado. Ajudam-me. Explicam-me coisas. São simpáticas as senhoras.
Vou buscar o carro. Subo à Segurança Social. Tiro uma senha. Vejo o número onde vai. Tenho um ataque de riso que se transforma em ataque de tosse. Não consigo fazer as contas. São muitos números. Vou fumar um cigarro.
Penso melhor e dou um pulo às Finanças. É mesmo ali ao lado. Tiro número. Espero. Mas não espero muito. Sou atendido. Sou despachado. Pago e vou-me embora.
Regresso à Segurança Social.
Olho para o écran. Andou dois números. Dois números. Fui às Finanças e despachei-me nas Finanças e regresso aqui e passaram dois números. Sento-me. Espero. Não há internet. Jogo Bubbles. Tetris. Solitaire. Repasso na cabeça a equipa do Benfica. Repasso na cabeça a Selecção Nacional. Vou à rua fumar um cigarro. Olho as raparigas que passam a caminho do Tribunal. São advogadas. Estagiárias, com certeza. São giras.
Regresso à sala. O número ainda é o mesmo. Olho o relógio. Vejo as horas.
Desisto.
Penso que é Sexta-feira. Penso que Segunda-feira ainda é dia.
Vou-me embora. Fumo um cigarro antes de entrar no carro.
E pergunto-me São Pedro de Moel ou Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/11]

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A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

O Regresso à Cidade

Era hoje. Era hoje o dia. Estava nervoso. Já vinha nervoso desde ontem à noite. Fui várias vezes à casa-de-banho. À noite. Durante a madrugada. Mal dormi. Passei metade do tempo a levantar-me. A ir à casa-de-banho. Passava pela cozinha. Bebia um copo de água. Regressava à cama. Virava. Revirava. Completamente desperto. Acendia a luz do candeeiro. Ligava o iPad. Lia as gordas dos jornais online, mas era tudo igual. Não havia notícias novas. Ou os jornalistas estavam a dormir.
De manhã levantei-me. Não despertei porque não cheguei a adormecer. Levantei-me e arrastei-me para debaixo do duche onde fiquei a vegetar por longos minutos. A absorver a água quente que me caía em cima e deslizava por mim abaixo. Acabei por acordar em sobressalto com a água fria. Acabou o gás. A botija tinha ficado sem gás. Eu tinha adormecido. Finalmente. Tinha adormecido debaixo do duche quente. Despertei com a água fria. Saí do duche. Sequei-me. Olhei-me ao espelho. Vi as enormes olheiras. Pesei-me. Pensei Tenho de emagrecer. Olhei para a rua através da janela da casa-de-banho e disse Estou nervoso.
Vesti-me no quarto. Uma roupa sóbria. Menos eu. Mais outro eu. Pedi uma certa elegância. Tentei-a. Talvez a tenha conseguido. Olhei-me ao espelho. Não desgostei do que vi. Não sei se é bom sinal. Mas enfim. Não me sentia mal. Estava nervoso. Mas ao mesmo tempo, decidido. E até, de certo modo, confortável.
Vestido e calçado fui sentar-me no sofá. Sentei-me direito, para não engelhar a roupa. Para não fazer dobras.
Fumei um cigarro.
Abri a janela para arejar a sala. Para o fumo sair. Para eu não ficar impregnado naquele cheiro enjoativo do tabaco frio.
Não almocei. Estava demasiado nervoso para almoçar.
Também não lanchei. Não conseguia ingerir nada. Tinha o estômago às voltas. Nervos.
Continuei a fumar. O fumo do tabaco a invadir-me os pulmões, acalmava-me.
Foi ao final da tarde que me levantei do sofá. Já me doía o rabo. Tinha as pernas presas. Saí de casa e dei umas voltas a pé pela estrada. Fui até ao largo da igreja e regressei a casa. Em passo rápido. Para desentorpecer as pernas. Depois entrei no carro. E arranquei.
Finalmente estou na Praça. Na Praça da minha cidade. Na cidade onde não ia há muito tempo. Tanto tempo que já nem sei há quanto.
Vejo gente conhecida. Vejo que, alguns, falam de mim. Falam baixo. Mas eu ouço. Percebo. Eles cochicham. Eu apanho.
Estou nervoso. Olho para mim. Fecho os olhos e olho para mim. E digo-me Estás bem. Estás muito bem, assim. E na verdade estou. Estou nervoso, mas sinto-me bem.
Estou na esplanada da Praça. Bebo uma imperial. Trinco uns tremoços. Está tudo igual. Está tudo na mesma. Reconheço as pessoas. E elas reconhecem-me. Algumas fazem-me um gesto de reconhecimento. De cumprimento. Retribuo. Com um ligeiro aceno de cabeça. Com um movimento insonoro dos lábios.
Aguardo por quem me convocou. Aguardo na esplanada da Praça. Estou nervoso pelo regresso a uma cidade que já foi a minha cidade. Estou nervoso, mas estou tranquilo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/20]

Aqui Sou o que Quero

Sento-me frente ao computador. Abro as Redes Sociais. Todas. Todas as que consigo alimentar. Tornei-me virtual. Por opção.
Fugi. Larguei os amigos. Fechei a porta à rua.
Cansei-me.
Cansei-me de andar cansado atrás de quem corre à minha frente. Cansei-me de procurar justificações para acções que não eram minhas. Cansei-me de esperar que a verdade fosse uma constante. E verificar, a cada vez, que a verdade só existe quando vale a pena. Quando tem valor. Quando é quantificável.
Aqui, aqui mais especificamente no Facebook, já sei o que espero. E não espero nada de importante. Não importa que um tipo no Montijo coloque uma fotografia dele em Bali, feito com chroma. Nem que uma tipa de Freixo de Espada à Cinta aumente o tamanho das mamas no Photoshop, Não quero saber se choram as mortes de gente que não conhecem. Se se congratulam com as vitórias alheias como se fossem suas. Nem quero saber se tenho muitos ou poucos Likes nos posts que vou pondo.
A minha vitória diária está em continuar a existir aqui dentro enquanto vou apagando a minha existência lá fora.
Quem ainda se lembra de mim?
A minha vida digital é o que eu quero que ela seja, da forma que quiser, como quiser e durante o tempo que quiser. Não tenho de me preocupar em agradar ninguém. Nem espero nada de ninguém.
Aqui sou o que quero.
Mesmo que não me leve a sério.
Mesmo que seja uma mentira. Uma não-verdade.
Mesmo que construa coisas a sério. Ou ficcionadas.
Mesmo que consiga criar alguma coisa que valha a pena, mesmo que não saiba bem o quê, e do que é que estou a falar, perdido no meio de todo este folclore em que me tornei.
Estou a beber um gin.
Não. Estou a beber um café.
Não. Estou a beber um copo de vinho tinto. Um Mouchão.
Fumo um cigarro.
Estou de calções.
Não. Estou nu. De chinelos. E ainda não tomei banho hoje.
Abro outra janela do Firefox e ligo ao PerfectGirls.
E masturbo-me. Sentado numa cadeira à mesa da sala, frente ao computador, masturbo-me para o chão.
Não. Abro o Spotify e deixo-me invadir pelas notas de … and Nothing Hurt dos Spiritualized e escrevo no Facebook É tão bom, esta merda! e tenho dez Likes, que também não dá para mais e isto não é música de massas.
Não. Vou ao YouTube e vejo e ouço O Som de Cristal do Marante. Faço uma exportação para o meu Feed. Tenho trinta Likes quase instantaneamente porque é bom gostar destas coisas populares.
Na verdade estou em silêncio. Não me apetece ouvir música. Não me apetece ouvir nada. Quero furar os tímpanos. Ficar surdo.
Estou cansado.
Tomo uns comprimidos com o Mouchão.
Não. Corto as veias do pulso com uma navalha de barba, prenda da minha mãe.
Não. Enfio a cabeça no forno e ligo-o. Esqueço-me que já não é a gás, é eléctrico. Não morro, mas queimo a cara.
Não. É muito estúpido.
Mando-me da janela para baixo. Do alto do sétimo andar. E só espero que a queda faça o seu trabalho. Ficar entrevado é que não.
Mas estou aqui.
Ainda estou aqui.
Morri, mas ainda ando aqui pelas Redes Sociais.
Gosto de ser digital.
Já não tenho de alimentar os amigos.
Basta-me alimentar o meu Mural.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/01]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]