Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

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É isto Dois Mil e Dezanove?

Acordo com dor de cabeça e a boca empastelada. Tenho algo colado à volta da boca. E sobre o queixo. No peito. Percebo que vomitei durante a noite. Estou todo vomitado. A cama também. Há vomitado pelos lençóis, pelo edredão, pelas almofadas. Pelo chão.
Coço a cara. A barba. As unhas arrancam qualquer coisa que não percebo bem o que é. Mas parece nojento. Massajo a pila. Tenho de urinar. Coço o pé. Mas não o sinto. Não sinto o meu pé a ser coçado. Assusto-me! Levanto-me! Levanto-me rápido demais e tenho uma vertigem. Dou um tempo. Para serenar. Olho para o pé na minha mão e descubro que não é o meu. Afasto o edredão e descubro um corpo nu deitado na cama. É de uma rapariga. Não a reconheço.
Levanto-me nu da cama. Bocejo. Coço os tomates. Tenho uma pequena erecção matinal. É tesão de mijo. Procuro os chinelos mas não os encontro. Vou descalço casa fora.
Entro na casa-de-banho. Começo a urinar e olho para a banheira. Está uma outra rapariga, nua, deitada na banheira. Acabo de urinar. Sacudo-me. Vejo os últimos pingos serem projectados pela parede da casa-de-banho. E sobre mim. Aproximo-me da banheira. Olho para a rapariga. Não se mexe. Não vejo o peito a subir e descer ao ritmo da respiração. Ponho dois dedos no pescoço. Não encontro batidas. Não encontro ritmo. Acho que não está a respirar. Mas posso ser eu. Posso estar ainda a dormir.
Vou ao lavatório. Abro a torneira. Lavo a cara. Agarro na toalha e limpo a cara. O peito. A pila. E mando a toalha para o chão.
Saio da casa-de-banho. Faço café. Bebo um copo de água da torneira. Vejo garrafas caídas no chão da cozinha. Deve ter havido festa cá em casa. Há uma garrafa de espumante quase cheia. Levo o gargalo à boca e bebo um gole. Cuspo logo de seguida. É doce. Muito doce. E está quente. Acendo um cigarro. Vou à varanda fumar o cigarro. A vizinha de frente também está a fumar um cigarro à janela. Aceno-lhe um Bom-dia, vizinha! com a cabeça. Ela ri. Percebo que estou nu. Que se lixe!
A cafeteira apita. O café está feito. Mando o cigarro para a rua e entro em casa. Sirvo-me de uma caneca. Duas colheres de açúcar. Vejo o vapor quente do café a voar. Sopro. Encosto os lábios a medo. Está muito quente. Eu começo a estar com frio.
Penso Tenho de ir vestir uma camisola. Umas calças.
Penso É isto dois mil e dezanove?
Penso Tenho uma rapariga nua na cama. E sorrio.
Lembro-me da rapariga na banheira. Procuro o telemóvel. Marco o 112.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/01]

Um Tremor-de-Terra Logo pela Manhãzinha

Estava com os copos ou aquilo tinha sido um tremor-de-terra.
Acordei aos pulinhos na cama. Abri os olhos e vi o candeeiro a girar, preso ao tecto, numa órbita circular. Enjoei. Ergui-me na cama. Sentei-me. O candeeiro parou de girar. Pararam os enjoos.
Ouvi alguma coisa a cair lá dentro, na cozinha.
Da rua chegavam os alarmes dos carros e das lojas. Todos a apitar como numa festa de Carnaval. Lá vai o comboio…
Pus os pés no chão e estranhei. Parecia areia. A praia. Vi-me a mergulhar em São Pedro de Moel. Mas não era real. Era só uma investida da imaginação sem saber bem para onde ir depois da informação da planta dos pés.
Olhei para o chão e percebi. Não era areia. Era pó da madeira do estrado da cama. Maldito bicho-da-madeira. Devia fazer qualquer coisa. Qualquer dia estou no chão.
Fui buscar o aspirador. Liguei-o. Não ligou. Esqueci-me que estava avariado. Tem estado avariado estes meses todos. Abri a janela e mandei-o para a rua. Mandei-o inteiro. Com cabo e extensor e escova. Tudo para a rua. Não queria mais saber do aspirador. Ouvi o estrondo do aspirador a bater no chão da rua. Ampliado pelo silêncio da cidade.
Fui buscar a vassoura e uma pá. Varri o pó da madeira. Apanhei com a pá e coloquei no caixote do lixo.
Depois fui à janela e olhei para baixo. O aspirador jazia morto na calçada portuguesa. Não atingira ninguém. Não havia ninguém a passar.
Sim, ainda era cedo. Não havia ninguém na rua. O sol ainda estava escondido atrás do monte que cerca a cidade.
Porque raio acordei tão cedo?
Teria sido o tremor-de-terra?
Ou estava mesmo com os copos?
Fui fazer café. Tinha de acordar de uma forma ou de outra. Entrei na cozinha e vi duas garrafas estilhaçadas no chão. Vinho por toda a parte. E vidros. Vidrinhos. Virei a cara. O café, naquele momento, era mais importante.
Vesti uns boxers. O cheiro a café inundou a casa. Enchi uma chávena. Peguei num cigarro. Acendi-o. E fui para a varanda fumar o cigarro e beber o café.
O sol começava a despertar. Já se via a luz do dia a contornar o monte. As árvores. Aquela casa que está lá em cima, mesmo na linha do nascer do sol.
Uma velhota parou, lá em baixo, enrolou os cabos e levou o aspirador de arrasto, puxando pelo extensor.
Vi o primeiro raio de sol.
Senti-me abençoado.
E pensei que tinha de arranjar um estrado novo. Mas com o historial do aspirador, não acreditava muito nestas minhas ordens.
E ainda havia as garrafas de vinho partidas no chão da cozinha.
Oh, pá!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/04]