Não Há Natal nas Fronteiras

O que é que faz de mim uma boa ou má pessoa? Uma percepção exterior? Uma percepção exterior baseado em códigos pré-estabelecidos? Um sorriso na cara? A distância que separa o Sim do Não? A maneira como recebo o outro?
É noite de Natal. Estou em casa. Estou sozinho em casa. É uma noite banal. Não! Seria uma noite banal não se desse o caso de ser Natal. Eu estou em casa. Sozinho. Tento sobreviver à descarga de pensamentos que me consome. Pensamentos que são diários. Mas pensamentos que ganham outra dimensão neste dia. Porque sou bombardeado constantemente por toda a gente. Pelo mundo. Natal é amor. Carinho. Felicidade. Família. Dizem-me.
É noite de Natal. Estou em casa sozinho. Acabei de comer uma sandes de presunto com manteiga e de beber uma garrafa de vinho. Acabei de arrotar. E é mesmo no final do arroto que começam a chegar as mensagens do telemóvel. Ainda vejo a primeira, a segunda, a terceira… Depois desligo o telemóvel. São filmes. Pequenos filmes que alguém fez e toda a gente dispara para toda a gente. Os mesmos filmes. O mesmo filme. Sem nenhuma nota pessoal. Sem nada que diferencie essa mensagem de um pequeno clip de vídeo do Youtube feito por alguém e que toda a gente partilha. Como se fosse uma coisa pessoal. Sem o ser. Sem nenhum Beijo-te. Ou Abraço-te. Ou Amo-te. Não. O filme que alguém fez é mais um algoritmo. Alguém dispara as emoções por nós. E todos esperamos ver / sentir, a emoção nos outros. Nos olhos dos outros. Na cara dos outros. Na aproximação dos outros. Nas prendas dos outros.
Estou sozinho em casa. Já comi. Já bebi. Levanto-me e vou buscar mais uma garrafa. Preciso de um copo de vinho. De mais um copo de vinho. Tenho medo de estar demasiado agarrado ao vinho. Mas não consigo não estar. É uma companhia. E então apetece-me um cigarro. Lembro-me que são um par. Um copo de vinho e um cigarro. De regresso à sala, ouço Um tsunami na Indonésia. Um sismo em Moçambique. Um vulcão em Itália. Mortos. Muitos mortos. Feridos. Desaparecidos. É Natal. Nalguns pontos do globo não. Não é Natal.
Apercebo-me que deixei de ouvir falar na caravana que ia / vai a caminho dos Estados Unidos. Que se aproximava da fronteira do México com os Estados Unidos. Apercebo-me que deixei de ouvir falar nas famílias separadas. Pais para um lado. Crianças para outro. Não há Natal nas fronteiras. Não há Natal para refugiados. Não há Natal para quem foge.
O noticiário segue o seu alinhamento. Este Natal vendeu-se mais. Comprou-se muito mais. A SIBS garante que houve movimentos nos terminais sem comparação com os últimos anos. Vive-se a loucura, neste Natal. Há greve no comércio, nas grandes superfícies. Ninguém nota. Tudo compra. Aqui ninguém morre. Aqui consome-se.
Eu estou sentado no sofá a tentar acabar com a segunda garrafa. A deixar cair a cinza do cigarro no chão. Eu não fiz nada por ninguém. Não fiz nada pela caravana de emigrantes. Não fiz nada pelas vítimas das calamidades. Não fiz nada pelos comerciantes globais. Não fui à mercearia. Não fui à Amazon. O meu reino não é deste mundo. E nem por mim fiz alguma coisa.
Sou uma boa pessoa? Sou uma má pessoa? Sou ao menos uma pessoa?
Sou, pelo menos, alguém que está sentado no sofá. Sozinho. A beber uma segunda garrafa de vinho. A fumar um cigarro. E com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/24]

Este Ano Foi Assim, para o Ano Logo se Vê

A minha mãe costumava dizer Este ano foi assim, para o ano logo se vê.
Eu fui à Nazaré ao final do dia. Beber uma cerveja no Sítio e ver o pôr-do-sol. Estava um final de dia maravilhoso. O sol laranja incandescente ao fundo, sobre o mar. Fiquei à espera do Raio Verde, mas o sol pôs-se atrás das Berlengas. Malditas ilhas que me mataram o olhar. O sol foi-se mas o céu permaneceu, ainda durante bastante tempo, em tons púrpura. A verdade é que não parecia Dezembro. Inverno. Natal. Estava sol. Estava calor. O céu em fogo. O mar de prata. O tempo é uma coisa esquisita só ao alcance de alquimistas. Cada vez mais entendo menos o que se passa.
Quando regressava, já quase de noite, a cor púrpura a dar lugar a um azul bastante escuro, quase preto, descobri a Lua. Uma Lua enorme. Talvez a maior Lua que já vi na vida. Parei o carro. Saí. Acendi um cigarro e fiquei ali, parado na berma da estrada, a olhar aquela Lua enorme que me fazia lembrar o Elliott a voar na bicicleta com o E.T. no cesto. Ao mesmo tempo provocava-me uma angústia. Esta Lua, belíssima, transtornava-me a cabeça. Fazia-me doer. Fazia-me sentir irritado. Não sei com quê nem com quem. Só irritado. Maldita Lua cheia que ainda me ia pôr a uivar!
Regressei a casa.
Estava com fome.
Pus-me a fazer um bocado de arroz. Abri uma lata de atum e desfiz o atum em farripas. Abri uma garrafa de vinho. Uma garrafa das Cortes. Tinto. Sem rótulo. Acabei a misturar ao arroz com atum umas azeitonas que descobri no frigorífico. Despachei a garrafa de vinho. Afinal tinha era sede.
Depois, no fim de comer, levantei-me e fui fumar um cigarro à janela. Mal abri a janela chegou-me, vindo da casa de alguma vizinha, a Tempestade da Márcia. A voz desta rapariga dá-me volta à cabeça e ao coração. Prende-me a respiração. Dá-me tonturas.
Acabei o cigarro. Acendi outro. Sentia-me ansioso. Não sei se era da Lua. Da Márcia. Do Natal. Da solidão. Olhava a rua, os prédio em frente, as janelas com luz e sentia um vazio dentro de mim. Trouxe o olhar para dentro de casa. Olhei a parede branca em frente. A fruteira sobre a bancada de mármore. As cadeiras vazias à volta da mesa de madeira. O silêncio no interior de casa. A Tempestade que vinha do exterior. Eu ali no meio. A cabeça num turbilhão de conversas. Como se eu fosse muitos e estivéssemos todos a falar ao mesmo tempo.
E dou comigo a pensar Quando ouço alguém dizer, e hoje ouvi dizê-lo, no meio de uma confusão de conversas soltas, que a vida é uma dádiva, pergunto para quem? Para quem é que a vida é uma dádiva? Porque é que é uma dádiva?
Que raio!
Gostei de ter visto aquele pôr-do-sol maravilhoso. Aquela Lua enorme. Mas não me chega. Se é a vida é só isto, não é uma dádiva é um logro. Enganado pelas lantejoulas e purpurinas.
Este ano foi assim, para o ano logo se vê. Mas não espero grande coisa. Grande coisa da vida, claro. Nunca foi. Nunca é.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/22]

A Mulher Triste

Estava a jantar no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonalds, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para me dar um chupa-chupa. Ele trouxe-o. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças de idade entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou corada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpa. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café e a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um Feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Doença Ruim

A Doença Ruim é talvez a mais democrática das doenças. Doença terrível. Doença terminal. Na maior parte dos casos, sem cura. Algum paliativo.
Às vezes há quem escape. Porque é benigno. Ou, pelo menos, não é maligno. Ou porque a estirpe não é mortal. Ou porque sim. Às vezes assim, por acaso. Consegue-se explicar? Talvez. Talvez porque detectada cedo. Talvez porque atacada com ferocidade. Talvez por milagre.
Mas é democrática. Não escolhe sexo. Embora morram mais homens que mulheres. E mais no Mundo Ocidental que no Oriental. E mais no Hemisfério Norte que no Sul, embora a Austrália baralhe um pouco esta estatística. E com maior incidência nos pulmões que noutras partes do corpo. Por isso se diaboliza tanto o tabaco. Mas não está sozinho neste caminho. Acompanham-no o álcool. O excesso de peso. A inactividade física.
Não consta que seja uma doença hereditária. Mas há maior probabilidade de a contrair por quem tem historial familiar.
O meu pai morreu da Doença Ruim. A minha mãe também. A probabilidade de eu a contrair é, assim, bastante elevada.
Estou sentado na varanda. Está um pouco frio. Nada de mais. Acho que dantes, há alguns anos, esta altura do ano, início de Dezembro, era mais fria. Hoje está frio. Mas não muito. Um bocadinho. Nada que me impeça de vir para a varanda. Gosto de estar cá em cima a olhar a vida a correr lá em baixo.
Quantas destas pessoas levam consigo a Doença Ruim? E quais as que não sabem? Nem sonham? Que preferem nem saber?
Estou sentado na varanda. Ao meu lado uma garrafa de vinho tinto. Sem rótulo. Uma garrafa sobrevivente da colecção do meu pai. Vinho do produtor. A maior parte não vale uma merda. Mas às vezes, encontram-se algumas preciosidades. Este que estou a beber é mesmo carrascão. Mas marcha. Não desperdiço. Nunca desperdiço. E no fundo ajuda-me a fugir mais depressa. Bebo um copo de uma só vez. Volto a enchê-lo.
Abro a caixinha do McDonald’s. Agarro na embalagem do McRoyal Cheese. Abro-a. Coloco-a em cima dos joelhos. Não me preocupo com a gordura nas calças. Hei!, quero lá saber! Despejo as batatas fritas na parte vazia. Espalho ketchup por cima delas. Agarro no hambúrguer e começo a comer. Gosto disto. Gosto mesmo disto, de vez em quando. Hoje estava mesmo a apetecer-me. Como as batatas sofregamente. Estão estaladiças. Lambo o sal e o ketchup dos dedos. Engulo o último pedaço do hambúrguer. Parece que tenho uma bola no estômago. Mas soube-me bem. Bebo mais um gole de vinho. Amarga. Sorrio.
Acendo um cigarro. Encosto-me na cadeira. Olho a rua. Ouço o barulho das pessoas. Há uma certa agitação no ar. São as festividades.
E volto a pensar na Doença Ruim. Penso na grande possibilidade de a ter. Por exemplo, nos pulmões. E olho o cigarro entre os meus dedos. O cigarro a fumegar entre os meus dedos. E dou mais uma passa.
Por exemplo, nos testículos. Olho à volta e encontro o canivete-suíço. Baixo as calças. Agarro os testículos e corto-os. Lanço-os para a rua. Ouço um grito lá em baixo.
Não estou a sentir-me bem.
Sento-me.
Vejo o sangue a espalhar-se à minha volta na cadeira, nas pernas, nos pés, nas calças presas lá em baixo, sobre as sapatilhas a tingir.
Começo a sentir tonturas. Bebo mais um gole de vinho. Olho para o copo e bebo tudo o que lá está. Acendo outro cigarro. Agora tenho dois cigarros na mão. Sinto-me desfalecer. Mas não será da Doença Ruim. Fode-te, pá!, em mim não há democracia. Em mim mando eu! Comia outro McRoyal Cheese!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/01]

Ela Foi como Veio, sem Abrir a Boca

Caía uma chuva fraquinha.
Eu estava a apanhar azeitonas. Tinha estendido a rede por baixo da primeira árvore quando ela apareceu. Apareceu vinda do nada. Estava a agarrar no varapau para bater na oliveira quando a vi subir a pequena ladeira que ligava a estrada lá em baixo ao campo das oliveiras cá em cima.
Não tenho grande terreno mas, mesmo assim, o suficiente para me fazer trabalhar o campo de vez em quando e manter um cabaz sempre cheio. Praticamente para consumo próprio. Uma vez ou outra serve-me de troca com vizinhos. Raramente para vender. E faço o trabalho sozinho. Não tenho como pagar. E o trabalho não é assim tanto que precise de ajuda. Vou fazendo. Como posso. Quando é preciso. É a minha horta.
Estava pronto a verdascar a oliveira quando a vi surgir na ladeira. Ela viu-me a olhar para ela. Parou. Olhou para mim. Mediu-me. Olhou à minha volta. Olhou as oliveiras. Depois entrou pelo campo dentro, pegou num outro varapau que estava por lá caído e começou a bater na oliveira.
Não disse nada. Não dissemos nada. E andámos a manhã toda naquilo. De oliveira para oliveira. A apanhar a azeitona. Ofereci-lhe água. Aceitou.
A meio do dia parei. Parámos. E aquela chuva de tolos também. Também parou.
Sentei-me debaixo de uma oliveira. Abri a sacola. Cortei uma fatia de pão e estendi-lha. Ela olhou para mim. Depois aproximou-se, agarrou na fatia de pão e sentou-se ao meu lado, debaixo da oliveira. Cortei um bocado de queijo seco e dei-lho. Agarrou. Comeu. O pão e o queijo. Abri uma garrafa de vinho tinto e também lhe ofereci. E também aceitou. E também bebeu.
Depois fumei um cigarro. Não quis.
Voltámos ao trabalho.
No final do dia, com o sol já a esconder-se atrás dos montes, dei por finalizado o trabalho. Olhei para ela. Ela olhou-me. Não dissemos nada. Voltei para casa. Ela veio comigo. Atrás de mim.
Entrei em casa. Entrámos.
Entrei na cozinha. Cozi umas batatas. Juntei uns bocados de toucinho. Dois ovos. Ela foi pela casa fora. O esquentador acendeu-se.
Eu pus a mesa. Servi vinho. Cortei umas fatias de pão. Um frasco com azeite.
Ela regressou. Lavada. O cabelo molhado, penteado para trás. A mesma roupa no corpo. Sentou-se à mesa. Servi-a. Servi-me.
No fim, levantei-me e fui para a janela fumar um cigarro. Ela levantou a mesa e lavou a louça.
No fim do cigarro fui buscar umas roupas lavadas para ela. Um cobertor. Lençóis. Deixei-lhe tudo em cima do sofá.
Era já de madrugada quando a senti entrar na cama. Na minha cama. Agarrar-se a mim. Estava nua. Eu estava nu. Adormecemos. Eu adormeci com ela agarrada a mim.
No dia seguinte, quando acordei já ela estava levantada. Cheirava a café acabado de fazer. E a torradas.
E foi assim.
Vivemos anos lado a lado. Um com o outro. Partilhámos tudo. Ou quase. Não falávamos. Quer dizer, falávamos. Mas nunca um com o outro. Ela falava porque a ouvi gritar alguns palavrões quando se magoava. Quando queimou uma camisa que estava a passar a ferro. Quando cortou mal o cabelo que estava a tentar aparar.
Depois, um dia, foi-se embora. Assim. Foi-se embora como veio. Sem dizer nada. Sem levar nada. Deixou ficar as memórias. E o cheiro. O cheiro que acabou por se diluir até deixar de o sentir.
Já quase não me lembro da cara dela. Da cor dos seus cabelos. Dos olhos, desses não me lembro mesmo da cor. Mas recordo estarmos sentados no alpendre. Eu a fumar. Ela sentada ao meu lado. Ambos em silêncio. A olhar a estrada lá em baixo em companhia um do outro. Até a noite cair. E depois cairmos na cama e eu adormecer com ela abraçada em mim.
Recordei isto hoje porque comecei de novo na apanha da azeitona.
Está a cair uma chuva miudinha.
Ainda olhei lá para baixo para a estrada. Mas não havia ninguém a subir a ladeira.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/19]

The White Album dos Beatles

Este ano, 2018, faz 50 anos que os Beatles lançaram o álbum The Beatles, imortalizado com o seu título alternativo The White Album.
Não, eu não sabia isso. Não sabia isso de cor. Não fazia parte do meu conhecimento inútil. Eu nem sou grande apreciador de Beatles.
Simplesmente ia a passar por uma das ruas do Shopping Center, aproveitando que toda a gente tinha rumado à Nazaré para ver os surfistas no canhão da Praia do Norte quando vi, na montra de uma loja, um grande cartaz branco com as fotografias dos quatro músicos e o 50th Anniversary Super Deluxe Edition escrito por baixo.
Depois de ter dado umas voltas pelo Shopping e ter concluído que não havia nada de importante nem interessante que me pudesse motivar, dei de caras com o disco. Nem pensei. Entrei na loja e comprei a Super Deluxe Edition. Seis discos. Nem sei o que fazer com tantos discos. São todos sobres as mesmas músicas? Takes várias? Versões alternativas? Outtakes? Ainda não sabia. Mas ia saber. Provavelmente.
Com a caixinha na mão voltei para casa e regressei ao meu buraco no sofá. Liguei a televisão, sem som, para o boneco. Gosto da companhia. Mata-me o medo da solidão. Afasta os fantasmas que nascem nas sombras que pintam o interior da casa.
Coloquei o primeiro CD na aparelhagem. Gosto da música em objectos físicos. Gostos de lhes mexer. Nos CDs ou nos vinis. Gosto de ter a música nas mãos enquanto a ouço. Leio os encartes. Bebo toda a informação que comportam. Todas aquelas inutilidades. Não é informação relevante, mas equilibra-me. Acalma-me a fome de saber, estas merdas que não interessam a ninguém, só mesmo a mim.
Acho que nunca tinha ouvido este disco todo com muita atenção.
É um disco do caralho.
Abri uma garrafa de vinho tinto. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. E deixei-me ir atrás do disco. Deixei-me ser puxado. E fui.
Dezassete músicas. As primeiras dezassete músicas. Os lados um e dois do primeiro disco na edição de vinil. Quando chegou ao fim, reiniciei-o.
Back in the U.S.S.R. O Dear Prudence de que só me lembrava na versão de Siouxsie and The Banshees. A parolice do Ob-La-Di, Ob-La-Da. A beleza extrema de While My Guitar Gently Weeps, a música do George Harrison. Do George Harrison! Não do Paul McCartney nem do John Lennon. Do George Harrison!
Entusiasmado, abri uma segunda garrafa de vinho tinto. Uma qualquer que tinha lá na despensa. Um alentejano. Ainda lá tinha outra garrafa. Não ficou lá sozinha por muito tempo. Também marchou ao som dos Beatles.
I’m so Tired. Blackbird. Foda-se! Blackbird.
Acabei com o maço de cigarros. Lembrei-me que tinha tabaco de enrolar. E mortalhas. E filtros. E fui buscar.
Blackbird.
Pus o Blackbird em repeat.
Não percebi como nunca tinha ouvido aquele disco com atenção. Aquele disco é grande. Enorme. E aquela capa a branco? Não fazia parte da minha vida e, de repente, abalroou-me. E o Blackbird. Again & again & again.
Quando acabei a terceira garrafa de vinho já não sabia muito bem quem era nem onde estava nem o que estava a fazer. Os cigarros passaram a ser mais difíceis de enrolar. Tive pena de não ter por ali droga. Teria fumado um charro à memória dos Beatles.
E o Blackbird sempre a tocar. Sei disso porque, de manhã, no dia seguinte, quando despertei, ainda estava a tocar. As minha memórias da noite anterior eram difusas. Mas o Blackbird ainda estava a tocar.
Acho que chorei. Antes de adormecer, chorei. E vomitei. Mas acho que foi por causa do vinho.
Não cheguei a ouvir os outros cinco discos da caixinha. Mas um dia destes vou lá voltar. Tenho de arranjar erva para me acompanhar nesse dia. Haverá lá melhor companhia para ouvir os Beatles do The White Album?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/17]

Às Vezes Levanto-me…

Gosto de fumar. Gosto muito de fumar. Gosto tanto de fumar que me isolei em casa para poder fumar à vontade sem ter a brigada da boa saúde a olhar-me de lado como se eu fosse um criminoso.
Gosto tanto de fumar, especialmente depois de comer, que desisti de ir a restaurantes. Não quero que o meu fumo estrague a ausência de glúten nos pratos sadios feitos em vapor.
A verdade é que também não tenho tido grande apetite, ultimamente. Sede. Sede tenho.
Sento-me no alpendre em dias de chuva. Uma garrafa de vinho tinto. Tanto me faz a denominação. Um maço de cigarros. E um isqueiro Zippo. Gosto de cheirar a gasolina a queimar.
Sento-me na cadeira de madeira com uma almofada debaixo do cu que as carnes já não aguentam assentos duros. Beberico um copo de vinho. Fumo cigarro atrás de cigarro. Vejo a chuva a cair. E a solidão da estrada diante de mim. Ninguém se atreve a ir para a rua com este tempo. Está toda a gente enfiada em casa. Alguns já frente a lareiras. Mas não está frio. Chove, mas não está frio.
Agarro no telemóvel e procuro o podcast do Bruno Nogueira. A acidez do Tubo de Ensaio. Agora de regresso à TSF. Foi assim que voltei a ouvir rádio. Para ouvir a corrosão política do Bruno Nogueira e do João Quadros. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. O telemóvel ao colo.
Depois do podcast penso no jantar. Uma refeição por dia. O jantar. Mais para ensopar o vinho que por fome. Não tenho grande apetite. E chateia-me cozinhar só para mim. Mas às vezes faço-o. Hoje vou fazê-lo. Normalmente como uma torrada. Com manteiga. Um bocado de doce de laranja. Às vezes um bocado de queijo. Mas hoje vou fazer jantar. Vou fritar umas batatas doces. E uns ovos mexidos com espargos. Ainda vou conseguindo enfiar estes petiscos goela abaixo.
O vinho escorre bem.
É um bom companheiro do cigarro.
Depois de jantar sento-me frente à televisão. Vejo um pouco de notícias. Normalmente acabo por me chatear com o noticiário. Acabo quase sempre por desligar a televisão, zangado com as pessoas e o mundo, e deixar-me adormecer no sofá. Puxo uma mantinha e fico por ali.
Acordo bem cedo. As janelas abertas deixam entrar as primeiras luzes do dia. Ou então, é o som da chuva. Não tenho vidros duplos.
Acordo e fico ali assim, deitado no sofá a olhar o tecto e a ver as sombras a deslocarem-se com a passagem das horas.
Às vezes levanto-me e faço café.
Outras vezes tenho de me levantar depressa e ir casa-de-banho vomitar.
Acho que tenho a doença ruim. Mas não quero falar nisso. Ignoro-a. Nem vou ao médico.
Prefiro ficar ali no alpendre. A fumar um cigarro. A beber um copo de vinho. A ver a chuva a cair e a tentar perceber o que é que vim aqui fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/22]

No Dia do Pai

Era Dia do Pai e eu estava atulhado de ausências. Minhas e alheias.
Vi o dia passar comigo enterrado no sofá. Perdido na inércia.
Tinha muito para dizer, mas não conseguia falar. Tinha um nó na garganta. Um nó que vinha cá mais de dentro, do estômago. Estava tudo atado e eu sem conseguir encontrar as pontas.
Sentia-me perdido.
Olhava para o telemóvel e não conseguia pegar nele, marcar um número e falar, falar, falar. Custava-me levantar a mão, o braço. Custava-me enfrentar o presente. Custava-me olhar ao espelho.
Sentia-me um cobarde.
Ouvia e lia coisas alheias que pareciam despertar os meus sentidos. Mas não mais que isso. Acordavam-me mas não me faziam agir.
Era já noite quando consegui arrastar-me até à cozinha. Enchi um copo de vinho e acendi um cigarro. Fui até à varanda. É incrível a importância da varanda na minha vida.
Foi lá, na varanda, que vivi as últimas horas do Dia do Pai.
Bebi e fumei. Aguentei os nervos. A angústia.
Fui contando as horas que faltavam. Os minutos. Os segundos.
E de repente era outro dia.
Mas a angústia continuava cá. A passagem de um dia para outro não tinha resolvido nada. Continuei sem conseguir agarrar no telemóvel. Continuei sem conseguir falar. Continuei com aquele peso no peito. E uma enorme vontade de vomitar.
São quatro da manhã. Já vou na terceira garrafa de vinho tinto. No segunda maço de cigarros. Fui buscar uma caixa de fósforos porque já não tenho gasolina no isqueiro.
São quatro da manhã e eu estou sozinho em casa, aqui na varanda. Estou cheio de frio. Sinto-me gelado. Já tentei falar, falar comigo mesmo, alto, para me ouvir, mas não consegui. A boca mexe-se mas não sai de lá nada.
São quatro da manhã, tenho um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra. E estou indeciso se salto ou não.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/19]

Um Certo Tédio

Sentei-me à mesa. À minha frente um prato com meio frango assado e umas batatas fritas de pacote, com sabor a presunto. Ao lado um frasco com maionese. À frente um jarro com vinho tinto e um copo já devidamente servido. Lá mais ao fundo a televisão ligada passava um filme sobre a Gata Borralheira. Depois haveria de vir o telejornal. Eram as minhas companhias de Natal.
Bebi o copo e mais outro antes ainda de tocar no frango. Estava com sede. Sentia a garganta seca.
Comecei a comer o frango com as mãos. Primeiro a perna, depois a asa e, por fim, comecei a depenicar os outros pedaços que ia acompanhando com as batatas fritas que enchia com maionese.
Despejei o jarro de vinho num abrir e fechar de olhos.
O telemóvel apitou o sinal de mensagem.
Levantei-me e fui buscar mais vinho. Tive de abrir outra garrafa que despejei para o jarro.
Voltei a sentar-me e a depenicar pedaços de frango.
Estava sozinho. Mas porque não haveria de estar? Esta noite era só mais uma noite. Uma noite como todas as outras. Como todas as outras noites que passo sozinho. Porque haveria esta de ser diferente?
Ouço os barulhos nos apartamentos por cima e por baixo de mim. Imagino a quantidade de família ou amigos lá enfiados. A barulheira, a música, as conversas, algumas em altos berros. As crianças a correr ao longo dos corredores. A abrir presentes. Os adultos a gostarem mais que as crianças. Umas recebem mais que outras.
Penso naquilo que não devia pensar. Penso em parvoíces. Penso no porquê de estar sozinho. Penso…
Vou à varanda fumar um cigarro. Vejo pessoas nas outras varandas. Alguns fumam. Outros conversam. Um casal beija-se às escondidas. Algumas pessoas fumam sozinhas um cigarro e olham para mim como eu olho para elas.
Volto a entrar na sala. Ouço o sinal de mensagem a chegar ao telemóvel.
Sento-me no sofá a olhar para a televisão. Não sei o que é que está a dar. E adormeço.
Quando volto a acordar a televisão continua ligada, numa eterna companhia. Acabou-se a barulheira nos outros apartamentos. Volto à janela para fumar um cigarro, e antes de sair para fora, volto a ouvir a chegada de uma mensagem ao telemóvel. Mas não vou ver o que é. E saio. Já não há ninguém nas outras varandas. É tarde. Parece que estou sozinho no mundo. E não sinto nada. Nem medo nem tristeza. Talvez um certo tédio. E alguma impaciência.
Volto a entrar em casa.
Entro no quarto, dispo-me e entro na cama, nu.
Ouço, outra vez, o sinal das mensagens. Puxo o edredão para cima da cabeça e espero voltar a adormecer. E não voltar a acordar tão cedo.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/24]

Um Piquenique na Fonte da Felícia

Era domingo. Um domingo de Outono. O sábado tinha corrido mal. Chateámos-nos, eu e ela. Por coisas sem sentido e peso. Mas foi o que aconteceu. E ela deu-me um estalo. E eu parti uma jarra que a mãe dela lhe tinha dado.
Por isso, no domingo passei lá por casa com uma cesta para um piquenique e ela ficou sensibilizada, muito contente, agarrou-se com os braços ao meu pescoço e encheu-o de beijos até me deixar todo lambuzado.
Saímos de carro e fomos até à Fonte da Felícia, ali no Pinhal do Rei, perto de São Pedro de Moel, nas margens da ribeira.
Levei uma manta que coloquei no chão. Depois retirei do cesto uns pratos de plástico, uns talheres e uns copos. Os copos eram de vidro, claro. Retirei do cesto uns queijinhos secos, um frasco com alcaparras e uma latinha com anchovas e outra com azeitonas, e um grande pão do Soutocico. Abri uma garrafa de vinho tinto. E servi o vinho. Fizemos um brinde a nós. Petiscámos e, um pouco mais tarde, surpresa das surpresas: desvendei um tacho com arroz de frango que ainda estava quente. Ela fartou-se de rir quando me viu tirar o tacho que estava envolvido em folhas de papel do jornal A Bola. E fartámos-nos de comer.
De barriga cheia, deitámos-nos na manta, abraçados um ao outro e adormecemos. E passámos um pouco pelas brasas.
Quando acordámos estava calor e fomos tomar um banho na ribeira.
Despimo-nos e, nus, a brincar um com o outro como miúdos, fomos para o meio da ribeira, molhámos-nos, chapinhámos e pulámos ridiculamente. Não deu para nadar, porque a água era pouca, mas deu para nos entusiasmarmos e, passado pouco tempo, estávamos a fazer amor nas margens da ribeira.
Depois voltámos para a manta e fumámos uns cigarros. E mandámos as beatas fora. Estávamos eufóricos. Parecíamos dois putos apaixonados. Por isso nem ligámos ao lixo que fizemos e por lá deixámos. Arrumámos as nossas coisas e resolvemos voltar para casa para ir ao cinema. Era preciso não perder a onda da boa disposição.
Foi mais tarde, quando saímos do cinema, que ouvimos, no noticiário, que o Pinhal de Leiria tinha ardido quase todo. E foi aí que fiquei preocupado e pensei Apagámos os cigarros? Mas não comentei nada com ela. Não queria que nos chateássemos de novo.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/24]