Uma Novela Gráfica

Peguei em Sabrina e sentei-me no sofá.
Estava calor. Demasiado calor para ir para o alpendre. Demasiado calor para me passear pela estrada deserta que passa aqui em frente a casa. Demasiado calor para subir às montanhas lá ao fundo. Mesmo que ainda adivinhe neve no cume. Demasiado calor para ir até à praia. Falta-me vontade para sobreviver ao caminho. Até o cão e os gatos estão deitados ali fora, à sombra. Em cima do pequeno charco formado pela torneira mal fechada.
Eu sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. As janelas abertas para fazerem corrente-de-ar. Sem grande sucesso.
Abri o livro. Comecei a ler e a ver. É uma novela gráfica. Duas irmãs encontram-se em casa dos pais. Casa que já foi delas, também. Mas já não é. Estão de passagem. Uma delas, Sabrina, foi cuidar da gata dos pais e acabou a dormir lá. A irmã chega. Contam histórias dos seus passados uma à outra. Depois venho a descobrir que Sabrina desapareceu. Depois descubro que Sabrina foi raptada. Depois ainda descubro que Sabrina foi morta. E a minha transpiração cai sobre as páginas do livro. As folhas ficam enfoladas. As cores das pranchas ganham vida. Ficam mais fortes. Saturadas.
Levantei-me do sofá. Procurei um cigarro. Encontrei-o na cozinha. Acendi-o. Olhei em volta. Tentei perceber se queria beber alguma coisa. Sim, queria beber alguma coisa. Mas não conseguia decidir o quê. Não conseguia decidir o que é que me apetecia beber. Olhei em volta. Vi uma garrafa de vinho tinto. Vi uma de gin. Abri o frigorífico. Vi cerveja. Uma garrafa de vinho branco já encetada. Uma garrafa de plástico com água lisa. Abri o congelador. Vi uma garrafa de vodka. Não consegui escolher. Não sabia o que é que me apetecia. Conclui que não me apetecia nada. A cinza do cigarro caiu ao chão. Larguei um palavrão. Apaguei o cigarro na torneira do lava-louça. Deitei a beata molhada no caixote de lixo. Regressei à sala.
Regressei à sala e sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. Recomecei. Descubro o marido de Sabrina. Ou será melhor dizer o viúvo? Mas aqui, neste momento, eu ainda não sei que ela está morta. Só mais à frente. Aqui acompanho a chegada do corpo de um homem ausente à vida de um amigo disposto a dar-lhe tempo e disponibilidade. Uma companhia. Depois percebo quem é. Porque está assim. Acompanho as notícias. A viralização do filme da morte de Sabrina. Mas nunca vemos nada. Só sabemos porque nos contam. Eles, os que vêm. E deprimem.
Sabrina é uma deliciosa depressão.
Olhei para o ecrã escuro da televisão. Não havia corrente-de-ar. Pousei o livro ao meu lado, no sofá.
Pensei na parte gráfica da história de Nick Drnaso e achei-lhe algumas semelhanças com os desenhos de Chris Ware. Traço claro. Linhas direitas. Tudo muito enquadrado. Muito gráfico. Quadrados iguais. O desenho nunca passa para além da linhas dos quadrados. As letras pequenas. Calmas. Tranquilas. Sabrina é uma história violenta contada de uma forma suave.
Olhei para a capa do livro. Olhei para o perfil de Sabrina. Tinha os olhos cansados. A luz baixou muito. Mesmo com os óculos já tinha dificuldade em continuar a ler. Decidi deixar o resto para amanhã.
E depois? Uma conversa sobre bola na televisão? Não! Não tinha pachorra! Estava com calor. Tinha as costas coladas ao sofá. Acho que me cheirava a chulé. Seria eu?
Às vezes gostava de ser uma novela gráfica. Uma história que se repetia de todas as vezes que uma leitura lhe dava vida. Enfim. Não sei bem o que quero. Para já continuo para aqui. A ver o ecrã escuro da televisão enquanto a luz do dia baixa lá fora e aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/30]

Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Não Há Natal nas Fronteiras

O que é que faz de mim uma boa ou má pessoa? Uma percepção exterior? Uma percepção exterior baseado em códigos pré-estabelecidos? Um sorriso na cara? A distância que separa o Sim do Não? A maneira como recebo o outro?
É noite de Natal. Estou em casa. Estou sozinho em casa. É uma noite banal. Não! Seria uma noite banal não se desse o caso de ser Natal. Eu estou em casa. Sozinho. Tento sobreviver à descarga de pensamentos que me consome. Pensamentos que são diários. Mas pensamentos que ganham outra dimensão neste dia. Porque sou bombardeado constantemente por toda a gente. Pelo mundo. Natal é amor. Carinho. Felicidade. Família. Dizem-me.
É noite de Natal. Estou em casa sozinho. Acabei de comer uma sandes de presunto com manteiga e de beber uma garrafa de vinho. Acabei de arrotar. E é mesmo no final do arroto que começam a chegar as mensagens do telemóvel. Ainda vejo a primeira, a segunda, a terceira… Depois desligo o telemóvel. São filmes. Pequenos filmes que alguém fez e toda a gente dispara para toda a gente. Os mesmos filmes. O mesmo filme. Sem nenhuma nota pessoal. Sem nada que diferencie essa mensagem de um pequeno clip de vídeo do Youtube feito por alguém e que toda a gente partilha. Como se fosse uma coisa pessoal. Sem o ser. Sem nenhum Beijo-te. Ou Abraço-te. Ou Amo-te. Não. O filme que alguém fez é mais um algoritmo. Alguém dispara as emoções por nós. E todos esperamos ver / sentir, a emoção nos outros. Nos olhos dos outros. Na cara dos outros. Na aproximação dos outros. Nas prendas dos outros.
Estou sozinho em casa. Já comi. Já bebi. Levanto-me e vou buscar mais uma garrafa. Preciso de um copo de vinho. De mais um copo de vinho. Tenho medo de estar demasiado agarrado ao vinho. Mas não consigo não estar. É uma companhia. E então apetece-me um cigarro. Lembro-me que são um par. Um copo de vinho e um cigarro. De regresso à sala, ouço Um tsunami na Indonésia. Um sismo em Moçambique. Um vulcão em Itália. Mortos. Muitos mortos. Feridos. Desaparecidos. É Natal. Nalguns pontos do globo não. Não é Natal.
Apercebo-me que deixei de ouvir falar na caravana que ia / vai a caminho dos Estados Unidos. Que se aproximava da fronteira do México com os Estados Unidos. Apercebo-me que deixei de ouvir falar nas famílias separadas. Pais para um lado. Crianças para outro. Não há Natal nas fronteiras. Não há Natal para refugiados. Não há Natal para quem foge.
O noticiário segue o seu alinhamento. Este Natal vendeu-se mais. Comprou-se muito mais. A SIBS garante que houve movimentos nos terminais sem comparação com os últimos anos. Vive-se a loucura, neste Natal. Há greve no comércio, nas grandes superfícies. Ninguém nota. Tudo compra. Aqui ninguém morre. Aqui consome-se.
Eu estou sentado no sofá a tentar acabar com a segunda garrafa. A deixar cair a cinza do cigarro no chão. Eu não fiz nada por ninguém. Não fiz nada pela caravana de emigrantes. Não fiz nada pelas vítimas das calamidades. Não fiz nada pelos comerciantes globais. Não fui à mercearia. Não fui à Amazon. O meu reino não é deste mundo. E nem por mim fiz alguma coisa.
Sou uma boa pessoa? Sou uma má pessoa? Sou ao menos uma pessoa?
Sou, pelo menos, alguém que está sentado no sofá. Sozinho. A beber uma segunda garrafa de vinho. A fumar um cigarro. E com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/24]

Esta Ano Foi Assim, para o Ano Logo se Vê

A minha mãe costumava dizer Este ano foi assim, para o ano logo se vê.
Eu fui à Nazaré ao final do dia. Beber uma cerveja no Sítio e ver o pôr-do-sol. Estava um final de dia maravilhoso. O sol laranja incandescente ao fundo, sobre o mar. Fiquei à espera do Raio Verde, mas o sol pôs-se atrás das Berlengas. Malditas ilhas que me mataram o olhar. O sol foi-se mas o céu permaneceu, ainda durante bastante tempo, em tons púrpura. A verdade é que não parecia Dezembro. Inverno. Natal. Estava sol. Estava calor. O céu em fogo. O mar de prata. O tempo é uma coisa esquisita só ao alcance de alquimistas. Cada vez mais entendo menos o que se passa.
Quando regressava, já quase de noite, a cor púrpura a dar lugar a um azul bastante escuro, quase preto, descobri a Lua. Uma Lua enorme. Talvez a maior lua que já vi na vida. Parei o carro. Saí. Acendi um cigarro e fiquei ali, parado na berma da estrada, a olhar aquela Lua enorme que me fazia lembrar o Elliott a voar na bicicleta com o E.T. no cesto. Ao mesmo tempo provocava-me uma angústia. Esta Lua, belíssima, transtornava-me a cabeça. Fazia-me doer. Fazia-me sentir irritado. Não sei com quê nem com quem. Só irritado. Maldita Lua cheia que ainda me ia pôr a uivar!
Regressei a casa.
Estava com fome.
Pus-me a fazer um bocado de arroz. Abri uma lata de atum e desfiz o atum em farripas. Abri uma garrafa de vinho. Uma garrafa das Cortes. Tinto. Sem rótulo. Acabei a misturar ao arroz com atum umas azeitonas que descobri no frigorífico. Despachei a garrafa de vinho. Afinal tinha era sede.
Depois, no fim de comer, levantei-me e fui fumar um cigarro à janela. Mal abri a janela chegou-me, vindo da casa de alguma vizinha, a Tempestade da Márcia. A voz desta rapariga dá-me volta à cabeça e ao coração. Prende-me a respiração. Dá-me tonturas.
Acabei o cigarro. Acendi outro. Sentia-me ansioso. Não sei se era da Lua. Da Márcia. Do Natal. Da solidão. Olhava a rua, os prédio em frente, as janelas com luz e sentia um vazio dentro de mim. Trouxe o olhar para dentro de casa. Olhei a parede branca em frente. A fruteira sobre a bancada de mármore. As cadeiras vazias à volta da mesa de madeira. O silêncio no interior de casa. A Tempestade que vinha do exterior. Eu ali no meio. A cabeça num turbilhão de conversas. Como se eu fosse muitos e estivéssemos todos a falar ao mesmo tempo.
E dou comigo a pensar Quando ouço alguém dizer, e hoje ouvi dizê-lo, no meio de uma confusão de conversas soltas, que a vida é uma dádiva, pergunto para quem? Para quem é que a vida é uma dádiva? Porque é que é uma dádiva?
Que raio!
Gostei de ter visto aquele pôr-do-sol maravilhoso. Aquela Lua enorme. Mas não me chega. Se é a vida é só isto, não é uma dádiva é um logro. Enganado pelas lantejoulas e purpurinas.
Este ano foi assim, para o ano logo se vê. Mas não espero grande coisa. Grande coisa da vida, claro. Nunca foi. Nunca é.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/22]

A Mulher Triste

Estava a jantar aqui no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonald’s, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para lhe dar um chupa-chupa. Ele trouxe-mo. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Mas nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que as ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou encarnada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpas. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Doença Ruim

A Doença Ruim é talvez a mais democrática das doenças. Doença terrível. Doença terminal. Na maior parte dos casos, sem cura. Algum paliativo.
Às vezes há quem escape. Porque é benigno. Ou, pelo menos, não é maligno. Ou porque a estirpe não é mortal. Ou porque sim. Às vezes assim, por acaso. Consegue-se explicar? Talvez. Talvez porque detectada cedo. Talvez porque atacada com ferocidade. Talvez por milagre.
Mas é democrática. Não escolhe sexo. Embora morram mais homens que mulheres. E mais no Mundo Ocidental que no Oriental. E mais no Hemisfério Norte que no Sul, embora a Austrália baralhe um pouco esta estatística. E com maior incidência nos pulmões que noutras partes do corpo. Por isso se diaboliza tanto o tabaco. Mas não está sozinho neste caminho. Acompanham-no o álcool. O excesso de peso. A inactividade física.
Não consta que seja uma doença hereditária. Mas há maior probabilidade de a contrair por quem tem historial familiar.
O meu pai morreu da Doença Ruim. A minha mãe também. A probabilidade de eu a contrair é, assim, bastante elevada.
Estou sentado na varanda. Está um pouco de frio. Nada de mais. Acho que dantes, há alguns anos, esta altura do ano, início de Dezembro, era mais fria. Hoje está frio. Mas não muito. Um bocadinho. Nada que me impeça de vir para a varanda. Gosto de estar cá em cima a olhar a vida a correr lá em baixo.
Quantas destas pessoas levam consigo a Doença Ruim? E quais as que não sabem? Nem sonham? Que preferem nem saber?
Estou sentado na varanda. Ao meu lado uma garrafa de vinho tinto. Sem rótulo. Uma garrafa sobrevivente da colecção do meu pai. Vinho do produtor. A maior parte não vale uma merda. Mas às vezes, encontram-se algumas preciosidades. Este que estou a beber é mesmo carrascão. Mas marcha. Não desperdiço. Nunca desperdiço. E no fundo ajuda-me a fugir mais depressa. Bebo um copo de uma só vez. Volto a enchê-lo.
Abro a caixinha do McDonald’s. Agarro na embalagem do McRoyal Cheese. Abro-a. Coloco-a em cima dos joelhos. Não me preocupo com a gordura nas calças. Hei!, quero lá saber! Despejo as batatas fritas na parte vazia. Espalho ketchup por cima delas. Agarro no hambúrguer e começo a comer. Gosto disto. Gosto mesmo disto, de vez em quando. Hoje estava-me mesmo a apetecer. Como as batatas sofregamente. Estão estaladiças. Lambo o sal e o ketchup dos dedos. Engulo o último pedaço do hambúrguer. Parece que tenho uma bola no estômago. Mas soube-me bem. Bebo mais um gole de vinho. Amarga. Sorrio.
Acendo um cigarro. Encosto-me na cadeira. Olho a rua. Ouço o barulho das pessoas. Há uma certa agitação no ar. São as festividades.
E volto a pensar na Doença Ruim. Penso na grande possibilidade de a ter. Por exemplo, nos pulmões. E olho o cigarro entre os meus dedos. O cigarro a fumegar entre os meus dedos. E dou mais uma passa.
Por exemplo, nos testículos. Olho à volta e encontro o canivete-suíço. Baixo as calças. Agarro os testículos e corto-os. Lanço-os para a rua. Ouço um grito lá em baixo.
Não estou a sentir-me bem.
Sento-me.
Vejo o sangue a espalhar-se à minha volta na cadeira, nas pernas, nos pés, nas calças presas lá em baixo, sobre as sapatilhas a tingir.
Começo a sentir tonturas. Bebo mais um gole de vinho. Olho para o copo e bebo tudo o que lá está. Acendo outro cigarro. Agora tenho dois cigarros na mão. Sinto-me desfalecer. Mas não será da Doença Ruim. Fode-te, pá!, em mim não há democracia. Em mim mando eu! Comia outro McRoyal Cheese!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/01]