Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

A Sandes de Leitão

É meio-dia e meia. Levanto-me da cadeira, contorno a secretária e saio da sala. Não digo nada a ninguém. É meio-dia e meia. Levanto-me e saio.
Desço no elevador. Saio a porta do edifício. Viro à direita. Ando cento e vinte e cinco metros. Entro no snack-bar. É Terça-feira. Dia de sandes de Leitão. Peço uma.
Saio do snack-bar. Cruzo a estrada em frente e sento-me no banco da rua.
Começo a comer a sandes de Leitão.
À minha frente passam os carros. Furiosos. Em aceleração constante. Têm pressa. Eu não.
Continuo a comer a sandes de Leitão. Devia ter trazido uma cerveja.
Atrás de mim o jardim. O que resta do jardim. Cortaram as árvores quase todas. Estavam doentes, parece. Estão sempre doentes. Estão sempre uma coisa qualquer que leva a que sejam cortadas. Vai lá nascer um condomínio. Sim. Um condomínio em vez das árvores. Do jardim. Das flores. De oxigénio. Casas. Um condomínio. O jardim não dá dinheiro.
O molho do Leitão cai do pão. Cai nas minhas calças. Suja-me as calças. Devia ter trazido mais guardanapos. E umas batatas fritas.
A cidade está barulhenta. Tenho dificuldade em me ouvir. Trânsito em correria desenfreada. Já não há árvores. Nem quase pessoas. Só turistas. Só carros. Só pressa.
Uns miúdos passam à minha frente. Vão entre o passeio e a estrada. Os carros apitam. Mas não abrandam. Pressa. Não têm tempo. Os miúdos têm tempo. Todo o tempo do mundo. Até deixarem de ter. Todos deixam de ter. Todos têm vinte anos. Todos deixam de ter vinte anos. Um deles levanta o dedo do meio aos carros que passam. Ri-se. Riem-se.
Acabo a sandes de Leitão. Procuro um lenço de papel. Limpo a boca. As mãos. Junto os papéis todos. Faço uma bola. Lanço para o caixote do lixo. Acerto. Levanto os braços em glória. Depois percebo onde estou. Baixo os braços. Olho à minha volta. Estou um pouco envergonhado.
Fecho os olhos. Deixo-me embalar pelo som dos carros a passar. Não chego a adormecer. Não quero adormecer. Estou só a respirar. A ganhar coragem.
À minha volta só ouço o som dos carros a galgar asfalto. Não há mais sons. O cheiro é de gasolina. Gasóleo. Não me chega mais nada. Não percebo mais nada.
Acabo por ouvir uma gargalhada. Franca. Sincera. Bem disposta. Abro os olhos. Vejo duas miúdas de mãos dadas. Uma delas transporta um sorriso enorme na cara. A outra está a falar. A dizer-lhe qualquer coisa. Não ouço. Levanto o braço. Olho o relógio no pulso. Vejo as horas. Uma e vinte cinco. Hora de partir.
Olho para cima. O céu azul. O sol quente. Voltámos à Primavera em pleno Inverno. Isto anda tudo trocado.
Olho para a esquerda. Respiro fundo. Sinto-me tremer um pouco e não é de frio.
Volto a olhar para a esquerda. Vejo, ao fundo, um autocarro de passageiros a aproximar-se. Respiro fundo.
Levanto-me. Aproximo-me da beira da estrada. Espero.
Vejo novamente as horas. Uma e trinta.
Soube-me bem a sandes de Leitão.
O autocarro está mesmo a aproximar-se. Eu ponho o pé direito na estrada. E vou todo atrás dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/19]

Tiraram as Persianas e Entraram em Casa Dela

O telefone tocou. Eu atendi. Ela disse Eles entraram cá em casa. Tiraram as persianas e entraram cá em casa. E eu perguntei Levaram alguma coisa? Não! respondeu.
Sai de casa. Entrei no carro. Viajei pelo buraco da minhoca e em menos de um piscar de olhos estava em casa dela.
Ela estava à porta. Do lado de cá. Na rua. Olhou-me e perguntou A polícia? E eu respondi Eu chego para eles. Tem cuidado! pediu.
Abri a porta de casa e entrei. Fui directo à cozinha. As persianas estavam lá. Fui à sala. Também estavam lá. Entrei no quarto. Estava todo revolvido. Mas com persianas. Senti-a atrás de mim. A espreitar. Quem fez isto? perguntei. Foram eles? Não! Não! Isto fui eu à procura deles.
Já sabia quem tinha de ir arrumar tudo.
Disse-lhe As persianas estão lá, no sítio. A espreitar por trás de mim ainda disse Foram eles. Voltaram a pôr tudo no sítio para ninguém perceber. Para tu não perceberes.
Primeiro suspirei. Depois sorri. Um sorriso um pouco triste, mas era um sorriso, que diabos. No meio de tudo até tinha a sua piada. No meio de toda a merda que tem sido a minha vida, e a dela, nos últimos tempos, isto até parecia um episódio perdido de uma popular comédia revisteira. Não são todos os dias que nos entram em casa e não roubam nada. Mas iam roubar o quê? Não havia nada para roubar! Saiu-me uma gargalhada. Ela agarrou-me o braço e perguntou-me Estás bem? Sim, disse.
Fui aquecer-lhe uma sopa. Descasquei dois kiwis e cortei-os às rodelas. Enquanto ela comia voltei a colocar a cama no lugar. Arrumei as gavetas e fechei-as. Pendurei os quadros. Mudei-lhe os lençóis. Aspirei o quarto e abri a janela, mas com as persianas corridas.
Voltei à cozinha. Ela estava a lavar a louça. Fui para a janela fumar um cigarro. Ela disse Isso faz-te mal. Eu fingi que não a ouvi. Às vezes não me apetece ouvir ninguém. Nem a ela. Fumei o cigarro até ao fim. Depois mandei a beata fora.
Queres ir beber um café à rua? perguntei-lhe. Disse Não, obrigada!, depois de todas aquelas emoções precisava de descansar. Estava ainda um pouco nervosa. Tomou um Xanax e disse Vou deitar-me. Eu disse Tens a cama feita de lavado. E ela continuou Vou só estender-me em cima da cama para descansar um pouco. Mais tarde vou ao café. Se estiveres por cá, pago-te uma filhós.
Voltei a sorrir. Fiquei encostado ao lavatório da cozinha a vê-la ir para o quarto. Olhei para as persianas. Depois tirei o saco do lixo do caixote. Pus lá um saco novo. Agarrei no saco do lixo e saí de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/17]

A Mulher, parte 02

[continuação de ontem]

Os olhos fechavam-se com o cansaço. A leveza da cabeça apoiada ao acrílico atrás de si relaxavam-na. Via as pessoas a passarem, difusas, à sua frente para entrarem dentro do autocarro. Aliás, dos vários autocarros, que acabaram por ali parar vários ao longo da noite que começara já há algum tempo.
Ela esqueceu-se que estava ali. Sentada num desconfortável banco de alumínio na paragem de autocarro. Estava tão cansada que adormeceu. Esqueceu-se de que tinha um autocarro para apanhar. Esqueceu-se que tinha um filho para tratar. Simplesmente foi vencida pelo cansaço. Adormeceu ali assim, no meio daquele barulho. No meio daquela confusão. Gente. Gente ao telefone. Adolescentes na galhofa. Autocarros. O cheiro do combustível queimado dos autocarros. Os táxis. As buzinas dos táxis. Os carros. As motorizadas. O pára-arranca. O caos.
Mas ela já não estava ali. Estava em casa. Não na casa para onde devia ter ido de autocarro. Não na casa onde o filho a aguardava. A casa de onde veio, há muitos anos, de uma vida sem futuro, para tentar melhor sorte e uma nova vida. E onde é que ficava mesmo, essa nova vida? E em que futuro?
Ela estava na ilha. Dançava uma morna. Debaixo das estrelas. Umas guitarras lentas, dedilhadas. Uma voz rouca, cansada. O desejo. Ah, a porra do desejo. O dançar juntinho. Sentir em si o outro todo, inteiro. Depois a fuga para a praia. O riso. A gargalhada. As brincadeiras. O desejo. Era tão feliz nessa época! Não tinha dinheiro. Nem trabalho. Ajudava em casa. Ajudava a cuidar dos outros irmãos. Era uma irmã-mãe. Mais branca que todos os outros. Aliás, ninguém dizia, ao primeiro olhar, que ela era preta. Era branca. Sem discussões. A única branca naquele conjunto de, quantos? Quantos irmãos? Doze, treze. Talvez catorze. Não sabia quantos é que já tinham morrido. Nem quantos ainda nasceram já depois de ter vindo para cá. Com o seu homem. À procura de uma vida que não tinha lá. Eram outros tempos aqueles. Hoje, se calhar, talvez fosse diferente. Mas teve coragem. Coragem de voltar costas a casa, à família, e vir à aventura para o desconhecido. Começar uma vida do zero. Ainda se lembra. Do zero. Do nada. Do não ter nada e começar a ter alguma coisa.
Ela continuava sentada no banco de alumínio e com a cabeça encostada ao acrílico atrás de si. Estava a dormir profundamente. Ouvia-se na sua respiração. Uma respiração profunda. Descansada. A mulher sentada ao seu lado olhava-a e sorria. Um sorriso sem maldade. Compreendia o cansaço. Ela própria também se sentia assim, muito cansada, às vezes. Havia dias assim.
Já não havia fila para os autocarros. Três, quatro pessoas aguardavam debaixo da plataforma da paragem. Agora já passavam mais espaçados no tempo. Eram menos. A hora de ponta ficara lá para trás. Já era de noite. Noite cerrada. E ela continuava ali a dormir. Como se estivesse em casa.
Mas não estava ali. Nem lá. Estava na ilha. Passeava numa zona de rocha. Rocha vulcânica. Caminhava descalça sobre a lava fria. Depois corria a descer uma ladeira. Vinha a rir, desengonçada, a correr pela ladeira abaixo. Atrás dela um rapaz. Ria com ela. Como ela. Chegaram lá abaixo, ao fundo, ela parou e despiu-se. Ele também. Ficaram nus. Sem vergonhas. Ela mergulhou no mar. Ele também. Ela nadou. Ele foi ter com ela. Abraçou-a. Abraçaram-se. Beijaram-se e deixaram-se envolver pela água do mar.
Ela sorriu. No seu sono, sorriu do seu sonho. Sentia-se feliz. Era feliz. E agora? Agora que até tinha trabalho. Agora que até tinha algum dinheiro, guardado dramaticamente todos os finais de mês a tentar sobreviver sem lhe mexer até receber o novo salário. Agora que até tinha um filho. O seu filho. O filho de uma mãe. Sem pai. Sem marido. Sem homem, que eles não servem para nada. Não. É mentira. Claro que servem. Servem para lhe apagar o fogo que a invade. Aquele fogo insuportável que lhe consome o peito e as entranhas. Não há água, nem cerveja, nem grogue que mate aquele fogo. Aquele fogo só se combate com um homem. Um homem com desejo. E foi assim que nasceu o seu filho. Um filho que era filho dos dois. Que foi filho dos dois até o desejo dele esmorecer. E nascer por outra. Mas ela nunca se importou. Agora a sua vida tinha ganho um sentido. O sentido. Agora tinha um filho para cuidar. Dar vida. Oferecer-lhe as oportunidades que ela não tivera. Mas e ela? Era feliz? Era feliz, agora?
Uma lágrima caiu pela face dela a dormir. Estava tão cansada que não acordou. Passaram todos os autocarros que a podiam levar para casa. Agora já era tarde. Mesmo tarde. E ela continuava a dormir.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/14]

Assassinos com Honra

Cheguei a casa e eles estavam à entrada, ao pé do portão, junto ao muro. Uma gata, preta, brilhante, e seis gatinhos que deviam ter nascido alguns minutos antes. A gata miou para mim quando parei o carro antes de entrar o portão e subir a rampa até casa. Olhei-a. Senti-me mal. Lido mal com estas situações. Não sei o que fazer mas sei que devia fazer qualquer coisa. A gata era lindíssima. Os gatinhos muito pequeninos. Estavam espalhados por ali. Mas ela controlava-os enquanto miava para mim. Acabei por fugir dali com o carro.
Na manhã seguinte saí de casa a pé para ir ao café. Tinha-me esquecido dos gatos. Foi quando cheguei ao portão que voltei a vê-los. Mas só os que restavam. Dois gatos pequeninos. Um preto e um castanho-amarelado. Miavam muito. O castanho-amarelado subia e descia sobre o outro que não se mexia. Parecia morto. Mas não estava. Da gata e dos outros quatro gatinhos, nem sinal. Havia uma tacinha com um pouco de leite que alguém devia ter lá deixado para os gatos. Mais ao lado o cadáver de uma ratazana que a gata deve ter morto.
Deixei lá os gatinhos. Ia ao café. Quando voltasse, se ainda lá estivessem, logo se veria o que iria fazer. Mas pensava no porquê de estarem ali aqueles dois gatinhos. E só pensava que iam morrer. Que a gata os tinha deixado ali para morrer. Que eram fracos demais para sobreviver num mundo difícil e complicado. Abanei a cabeça. Não gostava de pensar nestas merdas. Deixavam-me triste. Deprimido.
Tentei pensar noutras coisas. No Benfica. Em raparigas boas a comerem meloas. Nas férias que não tive e gostaria de ter tido. Mas, invariavelmente, acabava por lá voltar. Os gatos. Os cabrões dos gatos. O preto e o castanho-amarelado. A miar. Dava por mim a sorrir. Que porra. Deprimido e a sorrir. Logo eu que nem gosto de gatos. Por vezes não consigo compreender-me. Não me entendo. Sou um mundo de contradições. Desejos e vontades antagónicas. Um chato do caralho.
No regresso não encontrei nada. Nem os gatinhos, nem a tacinha com o resto de leite nem a ratazana morta. Tudo desaparecido. Teria sonhado?
Quando entrei em casa ela lançou-se-me nos braços e disse Temos dois gatinhos cá em casa. Pode ser, não pode? Pode? e levou-me pela mão até ao alpendre e mostrou-me um caixote e lá dentro um gatinho preto e um castanho-amarelado. Ambos a miar. A miar como o raio. Que chatos! Mas disse Claro que sim, e sorri-lhe.
Depois disse Ninja e Ronin. O quê?, perguntou-me. Os nomes do gatos. Escolho eu o nome dos gatos. Ninja e Ronin. Assassinos japoneses. Mestres da arte de matar. Em silêncio. Na sombra. Mas com honra. Para matarem as ratazanas que andam por aí. Ela mandou uma gargalhada e disse Às vezes pareces mesmo um anormalzinho do caralho. E eu disse Sim, eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/17]

Um Gin Tónico ao Fim da Tarde

Estávamos no alpendre a beber um gin tónico. Eu e ela. O calor apertava bastante, mesmo naquele fim-de-dia, e bem próximo do litoral. Sentados no alpendre, eu de calções, ela de vestido leve e fresco, cada um com um gin gelado nas mãos e que rapidamente despejámos, ouvíamos o silêncio que se estendia à nossa frente.
Foi necessário fazer outro. Ela foi fazer. Lembrei-a para espremer bastante limão.
Eu levantei-me para ir colocar música no tijolo que estava colocado em cima de um pequeno aparador frente à janela da cozinha. Ainda não tinha carregado no Play e já tinha decidido não o fazer. Estava-se bem assim, com o barulho da vida à nossa volta.
Voltei para a mesa. Apurei o ouvido. As cigarras. E havia ali algo diferente. Talvez um grilo, não sabia.
Olhei para o céu. Estava azul, mas um azul cinzento. O céu não estava nítido. Havia uma pequena película de neblina. Talvez as poeiras que vinham de África. Talvez.
Ela chegou com o gin. Sentou-se na mesa.
Sorri-lhe. Respondeu também com um sorriso.
Ao fundo, na aldeia, alguém batia com uma martelo. Dei uma pequena gargalhada a pensar no idiota que estava a martelar com aquele calor.
Depois pensei que seria necessidade. E senti-me eu o idiota.
Ao fundo do quintal, vimos passar um carro de instrução. Vinha devagar. Quase que nem o ouvimos chegar. Devia ser eléctrico. A meio da estrada, frente ao muro do quintal, percebemos o carro a deslizar e a desaparecer. Muito lentamente. A escorregar para baixo do muro.
Levantámos-nos.
Conseguimos ver o carro caído no terreno do outro lado da estrada que era mais baixo. E não só deslizou como também rebolou. Tinha capotado. Duas pessoas saíam de gatas de dentro do carro.
Eu pequei no telemóvel e chamei o 112.
Ela sentou-se, de sorriso na cara, e recomeçou a beber o gin.
Eu sentei-me e fiz-lhe companhia.
Ela ainda sugeriu Podemos ligar a mangueira e tomar um banho aqui, no alpendre. Está bem, respondi-lhe.
Enquanto ela agarrava na mangueira e ligava a torneira, eu tirei os calções e deixei que me molhasse, enquanto espreitava o carro da instrução e as pessoas à volta dele. E ainda sorri outra vez.

[escrito directamente no facebook em ]

Ainda Há Pessoas Normais

Estava num restaurante da baixa a jantar. Num daqueles restaurantes pequenos, com poucas mesas, e as poucas mesas existentes estão tão encavalitadas umas nas outras que duas pessoas que não se conhecem e que estão a jantar em mesas separadas parecem estar a jantar uma com a outra e a trocar segredos íntimos.
Mas é um restaurante de comida caseira, feita por uma senhora já de certa idade que de vez em quando espreita pela guarita da cozinha para ver o andamento da sala, e que tem a vantagem de ser barato.
Estava a jantar sozinho, como quase sempre, enquanto ia espreitando o telejornal que passava na televisão pendurada no alto da parede em frente.
Ao meu lado estava uma senhora a jantar com a filha e, nessa noite, a mesa do lado roubava-me a atenção e nem conseguia ligar à tragédia grega que estava a tombar sobre os arredores de Atenas.
A senhora andaria pelos quarenta anos. Ainda jovem. Bonita. Bastante atraente. A filha não teria mais que os doze, treze anos. Adolescente. Rebelde. E estavam em guerra.
A miúda pedia Oh, mãe, corta-me a carne, ao que a mãe respondia Corta tu. A miúda agarrou no bife com as duas mãos e começou a comer assim, com o bife nas mãos, a metê-lo na boca, a tentar rasgá-lo com os dentes mas a não conseguir grandes resultados. A carne tinha nervo. A comida era caseira mas às vezes não era grande coisa.
Quando a mãe viu a figura da filha à sua frente, de bife esticado entre os dentes e as mãos, deu uma palmada rápida e funcional na mão da miúda que deixou cair o bife no prato enquanto gritava um sonoro Ai!. Claro que não doeu nada que eu vi que a palmada foi mais um ligeiro toque que uma verdadeira palmada. Mas a miúda tinha de se fazer ouvir. Afinal era a vítima.
Olha a badalhoquice que estás a fazer!, disse a mãe enquanto olhava para mim a ver se eu não estava a ligar nada aos incidentes do lado. Eu não consigo cortar a carne, guinchava a miúda, embirrenta. Já tens idade para ir ao cinema com o teu namorado, também tens idade para cortar o bife, ou se fores jantar com ele também lhe pedes para te cortar a carne?, retorquiu a mãe. Como sopa!, respondeu certeira a filha.
Eu não consegui evitar uma gargalhada tão forte e imediata que acabei por cuspir um bocado de arroz que tinha na boca.
A mãe revirou a cara maldisposta para mim. Censurou-me.
Eu estava parvo, completamente hipnotizado pela conversa delas. Com pena da mãe. Mas a achar piada à filha. Já tinha esquecido a tragédia dos gregos.
A miúda lá voltou a pegar no talher. Mas ela agarrava ao contrário. A faca na mão esquerda. O garfo na mão direita.
E eu pensei Então, pá?
E a mãe disse Então, rapariga?
E a miúda disse Então?!
É que não me dá jeito de outra maneira, continuou. E a mãe disse Não vimos mais aqui jantar!. Depois esticou os braços e, com o seu talher, acabou por cortar o bife à filha.
Eu acabei de jantar. Bebi um café. Levantei-me e paguei ao balcão. Saí.
Já na rua pensei Nem sei o que pensar!. Mas sorri. E o sorriso tornou-se gargalhada.
Aquilo pôs-me bem disposto.
Afinal ainda há pessoas normais.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/24]