No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

O Ribeiro sem Fundo

Estou numa aldeia. Numa aldeia qualquer. Não reconheço esta aldeia de lado nenhum. Não sei como é que aqui vim dar.
Estou frente à igreja. A igreja é branca. Restaurada. Tem azulejos alusivos a quadros bíblicos. Um tubo de plástico contorna-lhe a fachada. Penso que sejam luzes de Natal. Mas não tenho a certeza. É dia e não estão a funcionar.
Olho em frente. Uma casa de aspecto senhorial. Não está decadente, mas já teve dias mais gloriosos. É bonita. Um pequeno quintal em volta da casa comporta um jardim. Bem tratado, por sinal.
Eu não sei o que fazer. Não sei o que estou aqui a fazer. Começo a andar para a esquerda e a estrada sobe. A rua tem casas. Casas de pessoas. Pequenas casas de aldeia. Caiadas. Com rebordo azul. Algumas. Não todas. Portas de alumínio. As janelas também. A maior parte delas, pelo menos. Algumas têm as portadas fechadas. Há um cão no meio da rua. Um cão preto. Grande. Está parado a olhar para mim. Eu páro. Acendo um cigarro. Olho para o cão. Ele rosna. Eu volto para trás.
Desço a rua. Volto a passar em frente à igreja e continuo para baixo. Há um café. Café da Aldeia. Está escrito no vidro da janela, a letras desenhadas e já quase comidas pelo tempo, e no toldo sobre uma pequena esplanada de duas mesas e oito cadeiras e cinzeiros cheios de cinza e beatas.
Entro no café. Não está ninguém. Um porco-espinho cruza a sala, assustado por mim certamente. Há uma garrafa de aguardente no balcão. Olho à volta. Não há ninguém. Só uma televisão a debitar um programa da tarde. Por baixo da televisão uma árvore de Natal. Uma árvore a sério. Um pequeno pinheiro. Com luzes a piscar. E bolas coloridas. E fitas de muitas cores. Debruço-me sobre o balcão e apanho um copo. Um copo de galão. Despejo-lhe um bocado de aguardente e bebo-o de um trago. Saio do café.
Continuo a descer a rua. Há um pequeno mini-mercado. Está fechado. Continuo. As casas vão rareando.
Há uma galinha, parada na berma da estrada, a olhar para mim. As casa vão rareando cada vez mais. Até deixarem de existir. Mas a rua, a estrada, continua. Olho para trás e ainda vejo, lá ao fundo, a galinha a olhar para mim. É uma galinha preta. Só agora dou conta disso. É uma galinha preta.
Eu continuo pelo estrada. Já deixei as casas para trás. Já deixei a aldeia para trás. Já deixei a galinha preta para trás. Estou num campo. O asfalto deu lugar à terra batida. A estrada é agora um caminho. À minha direita pereiras. À esquerda laranjeiras. As árvores estão cheias. É época da pêra?
À minha frente há um ribeiro. Uma ponte de madeira cruza-o. Aproximo-me. O ribeiro fica lá no fundo. Num buraco. Não consigo ver a água a correr lá em baixo. É fundo, o buraco. Aproximo-me mais da margem, mas sinto algum receio de cair. Deve ter uma grande profundidade. Ouço a água a correr, mas não a vejo. Mando um pedregulho. Escuto. Mas não escuto. Chegou ao fim? Há fim? Ou fui eu que não ouvi?
Começo a atravessar a ponte de madeira. A ponte range. Sinto a madeira a ceder debaixo dos meus pés. Mas não consigo voltar para trás. Tenho medo. Estou a transpirar. Dói-me a cabeça. Começo a correr. Tropeço. Caio. Caio entre as grades laterais. Caio da ponte. Caio para o ribeiro. Caio naquele buraco enorme. Sem fundo. Sinto-me cair. Sinto-me a cair mas não chego ao fim. Não vejo nada. Está tudo escuro. Lanço os braços para a frente e para os lados. Procuro alguma coisa. Não encontro nada.
E depois…
E depois estou a pular na minha cama. A pular no colchão como se tivesse caído do tecto. Aos solavancos. Estou a transpirar. Estou assustado. Com medo. Acendo a luz da mesa-de-cabeceira. Sento-me na cama. Olho à volta. É o meu quarto. Reconheço a cama. O livro de Cormac McCarthy na mesa-de-cabeceira. As calças e as cuecas largadas no chão. O cheiro a chulé das sapatilhas. Acalmo. Ponho a mão no coração para me ajudar a acalmar. Estou em casa. Estou no quarto. Estou na cama. Estou acordado. Estou vivo. Estou calmo.
Tomo um zolpidem. Apago a luz. E tento voltar a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/20]

Sou um Erro da Natureza

Às vezes sinto-me assim. Assim como me sinto agora. Não consigo explicar muito bem. É assim como ser e não ser, ao mesmo tempo. Como se estivesse lá no alto, no céu brilhante e lá em baixo, nas entranhas fétidas do inferno. Ao mesmo tempo. No mesmo sítio. A sentir todas as coisas diferentes possíveis de sentir, e senti-las uma-a-uma e percebê-las e distingui-las como camadas diferentes de emoções e, ao mesmo tempo, sem conseguir fazer nada para deixar de estar assim, nesta confusão, onde não queria estar.
Sim, eu sei. Isto não soou muito bem, não é? Soou muito esquisito. É difícil de perceber, não é? Eu percebo. É exactamente a mesma dificuldade que tenho para tentar explicar aquilo que também não percebo muito bem, mas ao mesmo tempo sei, só não consigo explicar.
Vamos lá por outro lado.
Estou sentado num sofá. Sentado não. Enterrado. Com o rabo enterrado pelo sofá abaixo. O sofá está no alpendre. À minha frente tenho uma oliveira. Vejo lá uns passarinhos, nuns ramos, a chilrear. A televisão está na sala. Mas vejo-a ali, por cima dos passarinhos, e vejo a Júlia Pinheiro em alegre chilrear com os passarinhos. Não entendo nada do que diz. Mas fico irritado com o que ela diz. A voz dela dá-me comichão. Coço o corpo. Coço com as unhas. Faço rasgões no corpo. Faço sangue. Há uma nuvem incolor sobre a minha cabeça. Troveja e começa a chover álcool sobre mim. A Júlia Pinheiro olha-me e começa a rir. Acho que está a rir-se de mim. Mas não tenho a certeza. Continua a chover álcool sobre mim, mas o meu corpo não arde. As feridas saram. Uma rapariga, nua, vem com uma bandeja na mão. Vem do interior de casa. Não a reconheço. Nunca a vi cá em casa. Traz um gin, num daqueles copos redondos enormes cheio de coisas a boiar lá dentro. Tira um funil do rabo e enfia-mo na boca e despeja o gin pelas minhas goelas abaixo. Deixa um pires com umas castanhas de caju na mesa ao lado e vai-se embora, a abanar o rabo e a cantar o Jingle-Bells.
Entretanto eu sou o meu pai e o meu avô e os meus filhos e os meus netos. Uns já morreram. Outros ainda não nasceram. Mas sinto-me todos eles ao mesmo tempo. E sinto-me no passado e no futuro. A comer um frango assado com pauzinhos e um sushi de chouriço feito no wok. É possível? Pelos vistos é! O frango está polvilhado com zolpidem ralado e é servido numa travessa com o emblema do Benfica. E então percebo que o frango é galinha. Dou os ossos da galinha ao gato do vizinho que caga notas de quinhentos euros e estou rico. Riquíssimo. Multimilionário. E mando um berro à minha vizinha que vive a mais de mil metros de mim que me empreste uma cápsula de Nescafé que se me acabou a noz-moscada. Ela não me liga nenhuma e eu sinto-me triste e contente ao mesmo tempo, porque o café faz-me mal. Posso morrer se beber arábica.
É assim que me sinto. Algures entre uma coisa e outra com tudo misturado e a dar pontapés em pessoas enquanto afago os cães da cidade e nada disto faz sentido.
Perceberam agora? Perceberam agora a dificuldade por que eu passo para explicar como me sinto?
Não é fácil nem simples ser-se eu. É uma coisa muito complicada.
Agora começaram a sair aranhas da parede. Tenho as mão presas atrás das costas. Ou à frente. Não as sinto. Vejo as aranhas a sair da parede. Aproximam-se de mim. Tenho uma imagem da Júlia Pinheiro na cabeça e não sei porquê. Lembro-me de estar deitado na relva da Faculdade de Letras de Lisboa a fumar um charro e ouço uma voz dizer És um erro da natureza! És um erro da natureza! Não sei de onde é que vem a voz. Estou nos anos oitenta. Ou aqui. Ou nas ilhas Faroe. E os GNR eram o Vítor Rua. E o Alexandre Soares. E nem sei porque é que disse isso. Eles não são do Barreiro. Nem eu. A minha cintura é outra. E tem curvatura. A curvatura do Círculo.
Quero Óleo de Fígado de Bacalhau! Mãe! Mãe! Quero o Óleo de Fígado de Bacalhau.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/10]

Os Cheiros da Minha Infância

O cheiro a guisado pairava pela casa. As portas abertas levavam-no de divisão em divisão, garantindo o odor em todos os cantos mais escondidos.
Este cheiro lembrava-me a casa de infância. Os cheiros da família. Da casa de família. Os cheiros que a minha mãe construía. Cheiros que começavam de véspera. Começavam com a minha mãe a matar uma galinha, a cortar-lhe o pescoço e a aproveitar o sangue que jorrava para mais tarde fazer uma cabidela. Depois enfiava a galinha numa panela com água a ferver para a depenar. Esta actividade era feita sempre no quintal porque espalhava um cheiro horrível, o cheiro da galinha escaldada, e que ainda hoje me agonia. Mas depois, depois no dia seguinte, o cheiro do refogado que antecedia a galinha guisada e fazia crescer água na boca tinha o condão de me fazer esquecer o cheiro da véspera.
De vez em quando regresso a essas memórias. Mas contento-me com frango. É o que arranjo no supermercado. Faço-o como a minha mãe fazia a galinha. Às vezes improviso. Se não há vinho branco, vai tinto. Se não há vinho tinto, vai cerveja. Se não há cenoura, experimento o que houver. Muitas vezes uso ervilhas. Congeladas. Depois, normalmente, misturo esparguete ao guisado.
O cheiro continua a invadir a casa. E a fazer-me viajar. É uma cápsula do tempo.
Termino de fazer o frango guisado e vou tomar um banho quente. Janela da casa-de-banho toda aberta, seja Verão ou Inverno, que gosto de sentir o frio no corpo.
E o cheiro a lavado, o cheiro do champô e do sabonete empurram o cheiro da comida para a rua, e a casa volta a ser minha. Uma casa fresca e limpa.
Nessa altura sento-me descansado à mesa e devoro o guisado que me acompanha ao longo dos anos. Agora faço-o acompanhado de um copo, ou dois, de vinho tinto. Mas continuo a ir ao tacho, com um bocado de pão, ensopá-lo no molho. Muito gosto eu do molho!
No fim fumo um cigarro na varanda enquanto olho lá para baixo, para a rua, vejo as pessoas que passam e pergunto-me Também gostarão de comida de tacho, tanto quanto eu?

Estar por Conta Própria

Estou ajoelhado frente à sanita. Estou com vómitos. Estou com vontade de vomitar. Mas não sai nada. É um impulso, uns arranques, uma má disposição, mas nada se resolve. Dói-me a cabeça. Os olhos. O estômago. E agora os joelhos por estar aqui assim. E as costas por estar dobrado.
Não sei porque estou assim. Pode ter sido alguma coisa que comi. Posso ter apanhado sol em excesso. Ou é algum vírus. Há sempre um vírus aí à solta, à espera de me apanhar.
Mas agora que estou aqui nesta situação e desta maneira é que me ponho a pensar porque é que estou aqui assim e sozinho.
Tantos livros lidos, tanto estudo feito, tanta inteligência trabalhada, tanto conhecimento adquirido para terminar assim, sem saber nada da vida, da vida com pessoas, da interacção com os outros, da luta em companhia.
Quando finalmente me levantar daqui, não tenho ninguém que me faça um chá de limão ou uma canja. Quando sair daqui, tenho de conseguir tratar de mim. Fazer o meu chá de limão. Para fazer uma canja teria de sair, ir ao supermercado e comprar uma galinha ou, em último caso, um frango. Mas hoje é Domingo. Provavelmente acabaria a comer uma canja da Knorr.
Estou a transpirar. E a tremer de frio. Quero ir para a cama, mas tenho medo destes vómitos.
O silêncio da casa é delicioso mas, ao mesmo tempo, é horrível perceber que estou por conta própria.
Tenho o telemóvel no bolso, mas vou telefonar a quem?
Devia tomar um comprimido para a dor de cabeça. Não sei se tenho um termómetro cá em casa. E posso ter febre. Devia beber um chá de limão. Devia comer uma torrada sem manteiga. Devia fazer mais por mim.
Mas depois de tanta leitura e estudo e conhecimento, acabo por continuar aqui, assim, ajoelhado frente à sanita. Sozinho. A morrer como só um homem sabe morrer. À espera que os vómitos finalmente se transformem em vomitado e me aliviem a cabeça e o estômago. E me deixem ir para a cama enfiar debaixo do edredão e sonhar que alguém me traz uma canja de galinha caseira para me compor o estômago.

[escrito directamente no facebook em 2018/15/13]