(Des)Concentração

Não consigo concentrar-me.
Descubro-me frente ao computador a olhar para um formulário, a tentar ler o que lá está escrito, a tentar perceber o que me é pedido, e parece que estou a olhar para uma página escrita nalguma linguagem desconhecida. Pronuncio as palavras alto para as ouvir e entender, mas não dá resultado. Esqueço-me do que acabei de falar. Esqueço-me do que acabei de ouvir.
Baixo a tampa do computador. Levanto-me e acendo um cigarro. Olho em volta. Noto que estou na cozinha. Trabalho muito na cozinha, digo em silêncio para mim.
Coço o rabo. Suspiro.
Abro a porta da rua, do alpendre. Os gatos vêm logo ter comigo a miar. Olho para as tigelas deles e vejo que têm comida e água. São uns pedinchões, vocês, ralho-lhes. Vejo o cão ao fundo, no quintal, parado a olhar para mim. Ela não vem ter comigo. Dá o espaço aos gatos.
Disparo a beata do cigarro para longe com um golpe do dedo médio como uma mola. Como se estivesse a jogar com berlindes nas traseiras do pavilhão de ginástica do colégio, quando ainda tinha idade para andar no colégio e jogar ao berlinde e ainda não tinha medo do futuro. Este futuro.
Entro em casa. Vou até à sala. Sento-me no sofá. A televisão desligada. A janela aberta. As persianas e os vidros. Gosto da aragem que entra em casa e me afaga. Sinto um certo conforto. Ao meu lado, pousado no sofá, um livro de banda-desenhada. Os Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia. Pego-lhe. Tem uma marca. Retomo a leitura na marca. Não sei o que estou a ler. Recuo duas páginas. Quatro páginas. Seis páginas. Não recordo aqueles desenhos. As pranchas parecem-me desconhecidas. Não me lembro daquela estória. Tento ler mas não consigo. A cabeça foge para outros lados. Não consigo concentrar-me.
A cabeça começa a doer-me.
Levanto-me e regresso à cozinha. Olho a mesa e o computador em cima da mesa. Penso que há qualquer coisa no computador que requer a minha atenção. Não consigo lembrar-me do quê.
O coração começa a bater muito rápido. Cai-me uma enorme angústia em cima. O que é que se passa? O meu corpo começa a contorcer-se. Quer chorar. Mas antes que comece a chorar, o chão começa a tremer. Sinto a casa a abanar. A portas dos móveis abrem-se e fecham-se com fortes pancadas sonoras. Ouço, vindo lá de dentro, talvez da sala, o som do que me parece uma garrafa a cair no chão e a estilhaçar-se.
Não sei quanto tempo está o mundo a abanar, mas parece uma eternidade. Devia estar com medo. Não estou. Sinto mesmo um certo alívio. O tremor-de-terra é a minha trepanação. Liberto a pressão.
Sopro. Deito fora o ar que me enche os pulmões. Acendo outro cigarro. O chão ainda treme. Uns pratos escorregam no lava-loiças e caem para dentro da pia. Acho que não se partiram. Coloco a mão na mesa.
Suspiro. De repente deixo de sentir o chão a tremer. Acabou sem eu dar por isso.
Olho para o computador fechado em cima da mesa da cozinha. Deixo-o assim. Não o vou abrir. Não consigo. Não consigo ler. Não consigo perceber.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Não vejo os gatos nem o cão. Devem estar com medo. Sento-me no alpendre. Os gatos aparecem de onde estavam e vêm para cima de mim. O cão vem atrás deles e deita-se aos meus pés.
Estamos todos juntos. Juntos e vivos.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/15]

Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

As Galerias

Estou em frente ao computador e aguardo. É preciso paciência. Tenho os cotovelos cravados na mesa da cozinha e o queixo suportado nas mãos entrelaçadas, à espera. É preciso muita paciência.
No ecrã do computador, uma bolinha colorida gira sobre si própria. E continua a girar a filha-da-mãe. O computador está como eu. Velho. Velho e lento. O tempo que o computador demora a processar as informações que lhe dou é como o tempo que eu demoro a processar as informações que vou recebendo. Cada vez demoro mais. Demoro mais a receber a informação e cada vez demoro mais a descodificar essa informação. É preciso uma enorme paciência.
Acendo um cigarro.
A minha cabeça foge. Afinal, não tenho grande paciência. Ou então, é a minha maneira de escapar a este processo que me consome, antes que me consuma mesmo.
Hoje fui à cidade. Passei junto a umas antigas galerias, coisa que já não existe em nenhuma cidade moderna do mundo, mas ainda existe aqui, nesta cidade, uma cidade onde partes dela parecem paradas no tempo, enquanto outras tentam entrar no futuro. Mais ou menos, não é? porque o futuro, o futuro será o que for.
As galerias existem mas também não existem. Podem ser as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não percebo nada de física quântica mas, neste caso, o mesmo corpo é e não é ao mesmo tempo e no mesmo espaço.
Quando passei naquela zona da cidade, reparei que as galerias ainda existiam, fisicamente, quero dizer. O edifício onde houve outrora umas galerias comerciais, ainda existe, ainda continua erguido, envergonhado, no meio da cidade. Está fechado. As janelas tapadas com papéis de jornal. Umas janelas estão partidas. Acumula-se lixo. E sujidade. As portas estão fechadas. Entaipadas. Todas? Bom, afinal, não todas. Hoje, e depois de tantos anos de engano, tantos anos a passar ali ao lado a pensar naquele cancro, uma ferida aberta, mas fechada, no meio da cidade, descobri que, afinal, uma porta está aberta e nos franqueia a entrada para um edifício moribundo que ainda alberga, no seu interior, um sapateiro que trabalha, ainda trabalha, ainda arranja meias-solas, cola tacões, vende palmilhas e atacadores e dá uso a umas máquinas que, estranhamente, fazem barulho e ainda funcionam.
Esta loja deve ser uma anomalia. Deve estar perdida no tempo. No tempo e no espaço. Que espaço é este? Existe este espaço? Não descortino como é que os clientes sabem da sua existência, como é que aqui vêm. Possivelmente velhos, velhos como o que vi atrás do balcão de atender o cliente, a colocar umas meias-solas nuns sapatos que ainda querem percorrer muitos quilómetros antes de serem trocados por uns sapatos comprados na loja dos chineses e que queimam os pés e os deixam a cheirar mal. Como é que os velhos sobem as escadas das galerias? As escadas das galerias fechadas, abandonadas e deprimentes. Como é que o velho, este velho, o velho que está ali de volta das meias-solas, sobe as escadas das galerias? Dormirá lá dentro? dentro da loja? Será esta a sua casa?
Acabo o cigarro. Bebia um copo, penso. Mas olho a garrafa vazia, esvaziada durante o almoço, e era a única. Não há mais vinho cá em casa. Tenho de ir ao Intermarché. Mas descobri que fechou por ter sido descoberto um surto de coronavírus no Intermarché aqui ao pé de casa.
Maldita sorte, a minha.
A bolinha colorida continua a girar no meio do ecrã, frente aos meus olhos. Se calhar, encravou, esta merda. Nunca mais pára. É como a vida nas galerias que julgava mortas. Afinal, não está. As baratas estão por todo o lado e são sobreviventes. Até dentro do meu computador. Até dentro da minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/19]

Partir a Bacia

Parti a bacia. Pelo menos foi logo o que eu pensei Parti a bacia.
Fui para o hospital. Na minha idade, uma queda pode ser fatal. E eu caí. Tropecei em mim próprio. Estava de chinelos. Não sei o que aconteceu aos meus pés, eles puseram-se a dançar, atrapalharam-se e deitaram-me abaixo.
Fiquei colado ao chão. Não conseguia levantar-me. Parti a bacia! foi logo o que pensei.
Agarrei no telemóvel e telefonei para o cento e doze. Veio uma ambulância e levaram-me para o hospital. Fui sozinho. Estava sozinho e fui sozinho. Sou uma entidade solitária. Vivo sozinho.
Afinal, foi mais o susto que outra coisa. Quer dizer, magoei-me. Magoei-me à séria na zona da anca. Mas não parti nada. Só fiquei dorido. Acabou por nascer uma enorme nódoa negra, muito negra. Para além disso, só a tristeza de ser velho. No fundo, o que me traz aqui ao hospital não é a possível quebra da bacia na queda que dei, é a idade que me leva ao chão, que me maltrata, que me destrói com pequenas idiotices estúpidas que nem merecem ser identificadas. Quebrar a bacia numa pequena queda? Foda-se, pá!
Estou com uma canadiana para me ajudar a movimentar. Por enquanto, ainda vou na cadeira de rodas. Cruzo os corredores do hospital na cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira gira. No meu tempo as enfermeiras não eram assim tão giras. E eram sisudas. Pelo menos as que me lembro. Agora são. Ou sou eu que tenho um novo olhar sobre a beleza das enfermeiras, não sei. Mas não preciso de estar com estas merdas que ela nem me vê. Quer dizer, ver, vê. Vê um velho que quase partiu a bacia. Não vê um homem com uma vida atrás dele que o transformou numa personagem sedutora, mas um velho que já não se aguenta em pé sem tropeçar nos seus próprios pés.
Sim, não estou muito simpático comigo. Nem é a velhice que me irrita. São os problemas que a velhice me traz. Não é o facto de ter muitos anos de vida usada em cima e de o caminho do futuro ser cada vez mais curto, mas os problemas que me levam a já não poder usufruir desta maravilha que é estar vivo e dançar sem cair e partir uma parte de mim.
Levanto-me da cadeira de rodas, agradeço com um aceno de cabeça à enfermeira gira que nem me vê, mesmo quando eu baixo a cabeça num agradecimento, apoio-me na canadiana e caminho para fora do hospital.
Cruzo a porta de entrada, a minha saída, e dou com um grupo de mulheres, e um homem, a gritar Assassina! Assassina! Por momentos penso que é para mim. Depois reparo no género e percebo que não sou eu. Não sei o que se passa. Pergunto O que se passa? e uma mulher de olhos vítreos e lábios finos, com bolinhas de cuspo no canto da boca, segreda-me ao ouvido Ela quer abortar! Ela quem?, pergunto, e a mulher vocifera enquanto me cospe para cima, A meretriz! E sai de ao pé de mim para se juntar ao grupo de mulheres, e um homem, que gritam, histéricos, Assassina! Assassina!
Apanho um táxi e peço que me leve a casa.
E é quando já vou no táxi que dou graças, a Deus?, de poder entrar, agora, na minha casa solitária e silenciosa, onde não há ninguém, nem homem nem mulher, aos berros a vociferar contra seja lá o que for contra quem quer que seja.
E decido Ao chegar a casa vou ouvir o Tabula Rasa do Arvo Pärt bem alto, enquanto bebo um Bushmills com duas pedras de gelo e fumo um cigarro. Talvez vá pensar na enfermeira. Talvez consiga esquecer a vociferadora. Começo a tomar os comprimidos só amanhã. Afinal, não parti a bacia.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/17]

James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

Billy, o Botas

Era miúdo e lia muita banda-desenhada. No meio daquelas enormes pilhas de revistas, especialmente a preto e branco, que se amontoavam em prateleiras improvisadas à espera de um conhecimento metodológico que acabaria por vir só com a idade, ao contrário da bronquite que desapareceria com o adiantado da idade, diziam os médicos aos meus pais, e nunca desapareceu, havia umas revistas que eu lia mais que todas as outras, relia até à exaustão, sei que algumas delas se gastaram de tanto serem folheadas e as outras, as que restaram, não sei onde param, talvez nalgum caixote dos inúmeros que vou deixando plantados nas casas por onde vou passando à espera de os recuperar um dia mais tarde, mas sem já fazer grande fé no futuro que é cada vez mais negro que o passado alguma vez foi. Chamava-se Billy, o Botas, era da autoria de Fred Baker (argumento) e John Gillat (desenho), mas foi, depois, desenhado por outros ilustradores.
Billy, o Botas era Billy Dane, um pobre coitado, órfão, que viva com a avó, gente pobre, sem muitos recursos (por vezes, e agora que penso nisso, encontro alguns paralelos com a história do Homem-Aranha, e a vida de Peter Parker com a tia May e as enormes dificuldades económicas que enfrentam no dia-a-dia), para agravar as coisas, era uma nulidade no futebol, desporto que ele gostava acima de tudo. Um dia descobriu umas chuteiras velhas, que tinham pertencido a uma antiga glória do futebol inglês, Chuto Mortal, era assim a alcunha dessa antiga estrela, e ao calçar as chuteiras dessa antiga glória, Billy ganhava a capacidade de ser uma recriação do Chuto Mortal, como se as chuteiras tivessem memória e reproduzissem, nos pés de Billy, as jogadas do Chuto Mortal.
Estávamos nos anos sessenta, eu conheci Billy, o Botas nos anos setenta e, cá como lá, viviam-se tempos difíceis. As estórias eram sobre esses tempos difíceis e, os jogos que Billy jogava, e ganhava, quase sempre sozinho, por obra e graça do par de chuteiras velhas que tinha nos pés, eram um paliativo para a vida miserável que levava. Que levávamos. Todos nós.
Hoje, passados tantos anos, ao lembrar estas estórias com indisfarçada saudade, penso no cinema de Ken Loach que só vim a conhecer alguns, bastantes, anos depois, mas cujo ambiente também estava aqui. O realismo inglês. Problemas sociais. Os bairros sociais. As casas de renda barata. As famílias miseráveis. A pobreza extrema. A fome.
Lembro-me que, na mesma colecção, ou noutras colecções, a memória já não é como era (eram livros editados por Rossado Pinto, que também publicava o Jornal do Cuto, uma espécie de Revista do Tintim para pobrezinhos – o Jornal do Cuto era a preto e branco e tinha menos páginas, era um jornal e não uma revista – embora fosse, mesmo assim, uma revista, não é?), havia outras estórias com o desporto como pano de fundo, como Peter, o Gato, que era um guarda-redes, Kangaroo Kid, Os Pupilos de Carson, Scruffs! e Craig, o Bala de Canhão, que eram, também, todos eles sobre futebol, Kid Gloves, que era um boxeur e o Fishboy que era um nadador, mas todas as estórias tinham um cunho social muito forte, as personagens eram todas marginais, lumpens que através do desporto, conseguiam ascender a uma vida que lhes estaria vedada à partida.
Estas revistas que eu tinha (tenho? ainda terei?) eram a preto e branco e em papel de fraca qualidade. Mais tarde vim a perceber que, algumas destas histórias eram, originalmente, a cores mas que as edições de Rossado Pinto eram a preto e branco para serem mais baratas e mais acessíveis. A miúdos como eu.
Recordei estas estórias e lembrei-me de Billy, o Botas, ao ver os milhões que o futebol movimenta. Hoje. Em plena pandemia. Os milhões que alguns dos miúdos ganham. E o sonho que alguns deles ainda acalentam, alguns deles que não passam da enorme massa anónima que recebe mal, não tem grande futuro, mas que permite que os bons sobressaiam.
Com os algoritmos que tendem a afunilarem-nos o gosto e o novo conhecimento, sinto às vezes falta da descoberta feita nas escaparates montadas por gente que tinha gosto naquilo que vendia. E percebia o que tinha em mãos. Gostava dos produtos que vendiam.
Hoje sinto uma certa tristeza ao passar nos lineares dos hipermercados e ver as pilhas de livros indiferentes que estão por lá largados por alguém que se está nas tintas para todos eles. E quem os leva, na maior parte das vezes, fá-lo por desfastio. Levar um livro como quem leva duzentas e cinquenta gramas de fiambre da pá Nobre, ou cento e cinquenta gramas de queijo flamengo, em barra, que é para tostas, se faz favor!
Os livros, e em especial estas revistas simples e pobrezinhas, não só as de desporto, de onde fui relembrar o Billy, o Botas, mas todas as outras estórias de cowboys e de super-heróis (sim, da Marvel e da DC, também a preto e branco, em edições baratinhas), o Tarzan, o Fantasma e o Mandrake, carregavam em si uma magia que mesmo assim, com todas as suas lantejoulas e purpurinas, a internet não consegue combater. Eu também sou um utilizador das novas tecnologias. Também ando pelas redes sociais. Também me perco pelo Youtube. Mas quando quero mesmo evadir-me, é com um livro nas mãos, tenha só letras ou quadradinhos (era assim que se chamava a banda-desenhada naquele tempo), e sem estar preso à ditadura do algoritmo.
Quem não lê, não sabe o que perde.
E eu tenho saudades do Billy, o Botas. Gostava de um dia poder recuperar esse caixote. Esse, entre outros. Esse e outros. Todos.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/10]

O Poder do Erro

Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
O sol, envergonhado, já não conseguia furar as nuvens cinzentas permanentes sobre as nossas vidas. A chuva miudinha, era persistente. As caras fechadas das pessoas, as caras marcadas pela desgraça constante não permitiam perceber o que se passava. Quer dizer, não permitiam perceber o que se passava pessoalmente com cada um de nós mas, todas aquelas caras revelavam o mesmo.
Do ódio passou-se ao medo. Das ameaças passou-se ao medo. Dos gritos furibundos contra a corrupção, passou-se ao medo. Do apelo ao radicalismo, passou-se ao medo. Tudo passou ao medo. Medo que o dedo nos apontasse a nós.
Ele. É ele. Foi ele.
Ele é sempre o outro. Outro que se escolhe antes que nos escolham a nós. É uma maneira de manter o medo. Há que escolher um alvo antes que o alvo sejamos nós.
Era o medo o que eu via na rua. O medo tinha tomado conta de nós. Nós éramos o medo.
Os outros já não eram os negros, os muçulmanos, os ciganos, os homossexuais. Os outros éramos nós. Nós todos. Qualquer um de nós. Qualquer um de nós dominado pelo medo de estar na ponta de um dedo. A acusação não precisava de ser bem fundamentada. Bastava a suspeita. Bastava a inveja. Bastava a vingança. Bastava dizer. Bastava apontar o dedo. Ele. É ele. Foi ele.
As estradas estavam vazias de carros. Repletas de buracos. Já não havia asfalto. Não para todas as ruas. Não para estas ruas. As bicicletas ganharam novo alento. Não precisavam de combustível. Numa cidade como esta era complicado. Era fácil circular na cidade, uma cidade plana, mas sair da cidade implicava subir. A cidade fica num vale. As pessoas acartavam as bicicletas à mão no seu regresso às casas na periferia da cidade, nos arrabaldes. Era aí que cultivavam as verduras e criavam as galinhas e os coelhos que vinham vender à cidade. Mas cada vez havia menos para vender. Cada vez havia menos para comprar. Pouco dinheiro para aquisição. Poucos produtos para troca. Já assistira alguém morrer por um bocado de pão duro. Os assaltos, agora, faziam-se para lá do limite urbano. As hortas tinham de ser protegidas ou eram roubadas. A polícia não ia para além dos limites da cidade.
Os combustíveis racionados.
A internet controlada.
A televisão só a estatal.
Os jornais só os permitidos.
O SNS destruído.
A Escola Pública extinguida.
A polícia como defensora do estado.
A guarda como defensora dos poucos privilegiados.
Os militares para aguentarem tudo como tudo estava.
Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
Gente só, pobre e triste. Gente com medo. Medo de tudo menos da morte.
Já não havia livrarias. Casas de brinquedos e de jogos. Já não havia cor. Nem quadros. Os filmes eram uma reposição das matinées de Domingo. A música só para bailar. E bailar sim, poderia bailar-se aos dias indicados para bailar. Mas já ninguém bailava. Já ninguém tinha vontade de bailar. Ouvia falar que havia gente a trocar livros, mas nunca vi nenhum para além dos que consegui esconder e guardar antes da grande purga após as eleições que garantiram o poder à não-democracia.
A chuva miudinha continuava a cair. Eu continuava a caminhar ao longo da rua. Ia sem destino, mas a fingir que o tinha. Para não ser parado e inquirido. Ia pelas ruas fora a auscultar as dores da rua. Para perceber se estávamos mortos ou não. Se ainda valia a pena acreditar ou não.
Mas ao caminhar por aquelas ruas, via no que nos tínhamos tornado. E não tinha muitas esperanças no futuro. Podíamos não estar mortos, mas estávamos moribundos.

[escrito directamente do facebook em 2020/08/09]

Uma Cama Quente e Confortável

Naqueles dias eu esperava acordado até ouvir o meu pai sair de casa e depois levantava-me da minha cama e ia para a cama dos meus pais, deitar-me ao lado da minha mãe, na metade que era do meu pai, e cobria-me com o lençol e os cobertores e esperava que a minha mãe não desse por mim e não me mandasse embora de regresso à minha cama fria, e eu pudesse ficar ali, naquela metade quente e confortável, com a cabeça enterrada na almofada embrenhada no cheiro do meu pai, e nem o facto dos lençóis e cobertores estarem desalinhados me fazia qualquer problema, como me fariam hoje, e eu mal me deitava naquele bocado de cama que não era a minha e me tapava todo, a cabeça e tudo, e descansava a cabeça na almofada fofa e quente, adormecia, mas adormecia descansado como se o futuro não trouxesse problemas nem desgraças porque enquanto ali estivesse, ali naquela cama ao lado da minha mãe, estava a salvo de todas as desgraças do mundo.
Olho para a minha cama, a minha cama impecavelmente esticada, de lençóis brancos, engomados e sem um vinco e o edredão quente e farfalhudo e a almofada hipoalergénica e não consigo lá entrar, mantenho-me em pé a olhar para a minha vida tão asséptica e sem sabor, solitária e fria e sinto saudades de ficar noites inteiras em branco, no escuro, à escuta, à escuta que o meu pai saísse de casa mais cedo, bem mais cedo que o normal, e a minha mãe não desse pela minha entrada sorrateira na cama dela, mas eu sabia que ela sabia que eu lá estava, mas fingia que não sabia para não ser obrigada a mandar-me de volta para a minha cama, onde eu tinha estado a ler banda-desenhada a‪té de madrugada, e depois deixava-me estar o resto da noite atento à saída do meu pai de casa para aproveitar aquelas horas até ter de me levantar para ir para a escola e a minha mãe levantar-se e fazer-se surpresa por eu estar ali e eu ia vestir-me enquanto ela me preparava o pequeno-almoço e eu punha-me a contar os dias até que o meu pai tivesse de sair outra vez muito cedo de casa e eu pudesse, de novo, esgueirar-me até ao seu lugar da cama, onde ainda estava a forma do seu corpo gravado no colchão e o seu cheiro na almofada onde eu iria deitar a cabeça e adormecer descansado.
De pé sobre a minha cama vazia e fria, impecavelmente esticada e sem um vinco, pergunto-me porque continuo a preferir a cama desarrumada do meu pai ou se o que prefiro é a ideia de que a cama dele era mais acolhedora do que a minha? E percebo que o passado tem esta coisa fantástica em que tudo era bom, mesmo que não o fosse, e nada pode voltar a ser como era e o melhor é aceitar as coisas como elas são e pensar Tenho sempre o meu passado.
É então que me deito, dentro da cama impecavelmente esticada, sem um vinco, com uns lençóis brancos e frios, debaixo de um edredão fofo e quente, sozinho, e me deixo adormecer sabendo que vou sonhar um sonho que não me vou lembrar no dia seguinte, para que a minha vida não seja ainda mais triste ao saber que sonho com um passado que, provavelmente, nem existiu.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/30]

Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

Eu Vou para Onde For

As janelas do carro abertas. O vento a enrolar-nos o cabelo. A transpiração a escorrer pelas têmporas. Ela com os pés descalços sobre o tablier. A mão a fazer ondinhas fora da janela. A cabeça não-sei-onde. Eu ia com o braço esquerdo pousado na janela aberta e dois dedos a aparar o volante. A mão direita sobre a alavanca de velocidades.
Estávamos a chegar à Praia da Vieira. Os campos desertos. Nem uma árvore. Nem uma sombra. Estava sol. Sol e muito calor.
À entrada da Praia da Vieira, o parque de campismo. Árido. Agreste. Há uns anos ardeu. Agora não há uma árvore. Não há uma sombra. As tendas estão debaixo do sol torrencial.
Entrámos da Praia da Vieira. Eu disse Há muito tempo que não vinha cá. Ela não disse nada. Na realidade, da última vez que cá vim, vim com ela. E a impressão tinha sido a mesma. A Praia da Vieira parece uma feira. Uma feira muito popular. Uma feira cheia de tralhas para venda. Com cartazes a anunciar os preços em desconto. Já parecia e continua a parecer. Passo ao lado do auditório António Campos. Está decadente. Falta manutenção. Passamos de carro junto à marginal. A praia é lá no fundo. Num fundão. O mar é agressivo. Não é nada convidativo. Nem lhe pergunto se quer parar. Passamos em frente ao que fora outrora a Riomar, uma discoteca da minha adolescência quando as discotecas ainda eram as rainhas da noite e casa dos jovens com cio. Quando as discotecas ainda tinham espectáculo de abertura com gelo seco para os efeitos dramáticos. Depois começaram a aparecer as festas da espuma e acabaram com o glamour.
Seguimos para o Pedrogão. À saída da Praia da Vieira ainda dá para ver um parque para auto-caravanas, árido, sem uma árvore, seco, triste. Como é que as pessoas conseguem estar ali? Porque é que os municípios não plantam umas árvores? Não refrescam as terras? O que vemos não deixa antever melhorias. Nem futuro.
Fazemos a estrada Atlântica até ao Pedrogão.
Passamos no que já foi o Pinhal do Rei. Tudo isto ardeu. Nada mudou. Há pilhas de troncos à espera de qualquer coisa. Há árvores carbonizadas em pé, que não sei se estão mortas ou vivas. Há uma tristeza no ar. Faltam pinheiros.
Chego ao Pedrogão. Passei aqui alguns anos de férias na minha juventude. Vomitei em muitas esquinas. Fumei muita droga nas rochas da praia velha. Está melhor que a Vieira. Mas também não está grande coisa. Também aqui não há uma árvore. E as casas estão velhas. Estragadas. Parece que o tempo passou por elas e carregou-lhes nos anos. E há algumas casas que parecem não serem utilizadas há décadas. Há muitas marquises. Por momentos pareço estar no Cacém. Maldita sorte, a minha.
Há gente na praia, aqui no Pedrogão. Também já havia na Vieira. Os chapéus estão espalhadas ao longo do areal. Respeita-se a distância social. Mas depois há grupos de miúdos. Grupos de miúdos a brincar. Enquanto algumas pessoas percebem que estamos no meio de uma pandemia, há outras que acham que é tudo uma fantasia.
Quero parar o carro mas, ao mesmo tempo, acho que estou sem paciência. Ela desperta do seu torpor. Pede para eu encostar o carro. Sai. Vai comprar tremoços e pevides a umas senhoras que parecem vestidas para o Inverno. Traz também um bolo da festa. Eu digo-lhe que não é bem bolo da festa. Que é parecido mas não é. Ela vira-se para mim e diz Vai para o caralho! Eu rio-me. Ela também.
Arranco com o carro. Para onde vamos? pergunto-me em silêncio. Decido seguir em frente. Talvez até à Figueira da Foz. Estamos sem destino. Não temos obrigações. Podíamos ir até ao fim do mundo. Vamos andando e depois logo se vê. Ela já está outra vez com os pés descalços no tablier. Ela vai para onde eu a levar. Eu vou para onde for.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/08]