Um Quarto ao Sul e um Calor Infernal

Calor. Um calor infernal.
Estamos no sul. Num quarto de hotel, à beira-mar. Numa terra a sul.
A ventoinha gira mecanicamente no tecto. Faz Flap-Flap-Flap que se mistura, languidamente, com o som das ondas do mar a bater lá em baixo na areia, e com o cântico das cigarras no monte de capim seco do outro lado da marginal.
A janela está aberta. Devia estar fechada para entrar menos calor no quarto. Mas nenhum de nós se quer levantar.
Ela está deitada sobre a cama. Nua. Está deitada, nua, sobre a cama. Tem a cama aberta. O lençol de cima puxado para baixo. Para os pés. Está transpirada. Tem uma respiração cansada. Vejo-lhe os movimentos do peito. Para cima. Para baixo. Depois pára. E de novo para cima. Para baixo. Olha para a ventoinha no tecto. Segue aquela canção com o olhar, Flap-Flap-Flap.
Eu estou sentado no sofá. Mais deitado que sentado. Esparramado. Estou esparramado e também estou nu. Também estou transpirado. Cai-me água pelo corpo abaixo. Tenho os cabelos compridos. Devia ter cortado o cabelo antes de vir para cá. Agora é a fonte da minha transpiração. Está quente, pegajoso e húmido. Tenho um cigarro por acender na mão. A outra mão agarra na pila. Está mole. Morta. Tento animá-la. Mas em vão.
Aos meus pés está uma garrafa de cerveja que larguei ainda cheia. Aqueceu mal a tirei do frigorífico. Morreu antes de a beber. Já não consigo levá-la à boca. Não consigo fumar. Não consigo foder.
Ela faz barulho. Desvio o olhar para ela, deitada sobre a cama. Vira-se ao contrário. Tem as costas marcadas a vermelho. Das dobras do lençol. Dá as costas à ventoinha. Tenta refrescar-se.
Eu olho-a. Mas nem a visão do seu rabo virado para cima me dá alento.
Está um calor de morte.
Ela balbucia qualquer coisa. Não percebo o que diz. E pergunto O quê?, e nem eu percebo o que acabei de murmurar. Aclaro a garganta. Está seca. Volto a dizer O quê? e olho para ela.
Ela continua deitada de costas na cama. Depois, muito lentamente, a arrastar-se, volta a virar-se de barriga para cima. Pára quieta a recuperar do esforço. E diz Não consigo foder contigo!
Eu olho para ela. Vejo-a debaixo da ventoinha que continua no seu Flap-Flap-Flap imparável. Tenho a pila mole na mão. E digo Está morta!
Percebo que ela não percebeu. Nem eu percebi. Tossico. Tento aclarar, de novo, a garganta seca. Digo Eu também não!
Ela levanta-se. Devagar. Senta-se na cama. Olha à volta. Agarra nas cuecas. Veste-as. Levanta-se da cama. Agarra no vestido caído pelo chão e enfia-o pela cabeça e deixa-o deslizar ao longo do corpo. Enfia os pés nas Havaianas e sai do quarto. Ouço a porta a bater.
Eu fico ali sozinho. Eu, o Flap-Flap-Flap monocórdico da ventoinha no tecto, as ondas do mar a morrer na areia, lá em baixo na praia, e as cigarras em grande festival de cantorias entre o capim do monte lá do outro lado.
Não sei se percebi o que é que acabou de acontecer.
Está muito calor. Um calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/28]

O Pacote de Bechamel

Foi quando cheguei a casa que reparei que o pacote de bechamel estava rasgado. Deitei a mão ao saco de plástico. Uma garrafa de vinho. Brócolos. Cogumelos. Umas cenouras. O pacote de bechamel. Fiquei com a mão peganhenta. O pacote estava a deitar fora. Mirei-o. Um corte longitudinal. Talvez feito com um x-acto. Talvez feito ao abrir as embalagens de plástico onde vêm os pacotes. Aproximei-o para ver melhor. Cheirava mal. Cheirava mesmo muito mal. Cheirava a podre. Devia estar aberto há muito tempo. Sim, ainda estava dentro do prazo, mas lá de dentro saía um fedor a podridão.
Tinha de voltar ao Intermarché. E estava a chover.
Olhei à minha volta. As mãos na ancas. Podia esquecer. Mandar o pacote para o lixo. Aquilo custa o quê? Quanto? O problema é que assim teria de comer os legumes só cozidos. Com o resto do frango assado da véspera. Uma coisa desenxabida, portanto.
Agarrei no pacote. Pu-lo dentro do saco de plástico. Vesti o casaco. Agarrei no chapéu-de-chuva. Ia a sair de casa e lembrei-me. O talão! Abri o saco de plástico. Aproximei-o da cara. Veio-me o cheiro a podre do bechamel. E não vi lá nenhum papel. Procurei nos bolsos das calças. Nos bolsos do casaco. Em cima da mesa da cozinha. No chão. No frigorífico. No caixote do lixo. Nada! Deve ter ficado no supermercado.
Saí de casa.
Encharquei os pés mal os pus na rua. Caí numa poça de água. As botas estavam velhas. Não eram para a chuva. Não eram Gortex.
Pus-me a caminho. Consegui ir evitando os carros e a água que lançavam sobre os peões ao passar nos buracos da estrada.
Passei por um Pingo Doce. Por um Minipreço. Por um Aldi.
A chuva caía agora com mais violência. E vinha tocada a vento. Tinha-se levantado um pequeno vendaval. O chapéu já se tinha virado algumas vezes. O cabelo estava molhado. Os óculos cheios de pingos de água e embaciados. Não via nada. Ia assim por tentativa. A seguir a mancha escura da calçada à portuguesa.
Cheguei ao Intermarché. Fui ao balcão das reclamações. O pacote cortado. O cheiro. Não tinha o talão. Foi há pouco tempo. Naquela caixa ali, e apontei. Tudo tranquilo. Podia ir buscar outro pacote. Nem precisava de passar nas caixas. Era passar por ali. E lá fui. Fui buscar um pacote de bechamel. Procurei onde tinha encontrado o outro. E à volta. Nos lineares adjacentes. Nos corredores ao lado. Perguntei a uma menina com o fato da casa. Desculpe, mas já não há. Esgotou! Esgotou? Esgotou! Porra!
Deixei lá o pacote rasgado e com cheiro a podre. Nem quis trazer um vale com o valor do pacote de bechamel.
Sai para a rua.
Chapéu-de-chuva aberto. Pés encharcados. Cabelo molhado. Óculos embaciados. Frio. Fiz o caminho de regresso no automático. Não pensava em nada. Já não me preocupava com os carros e as poças de água nas bermas. Estava melancólico. Triste. Com vontade de me mandar para a frente de um autocarro.
Passei pelo Aldi. Pelo Minipreço. Entrei no Pingo Doce já perto de casa. Comprei um pacote de bechamel. Estava intacto.
Cheguei a casa. Cozi os legumes que já tinha comprado. Desfiei o resto de frango assado.
Coloquei os legumes cozidos numa travessa de pirex. Espalhei o frango desfiado. Larguei umas gotas de piri-piri. Cobri tudo com o bechamel. Levei ao forno. E enquanto gratinava, fui tomar um duche quente que estava todo molhado e cheio de frio. Mas antes ainda abri a garrafa de vinho, um Monte dos Pegos (o vinho barato não é nada mau) e bebi um copo de um só trago. Para aquecer o coração. E ainda fiz, Ah!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/30]

Ela Foi Embora e Levou (Quase) Tudo

Cheguei a casa. Estava vazia e em silêncio.
Vazia mesmo. Vazia de quase tudo. Ela foi embora e levou tudo. A cama. A mesa da sala e as cadeiras. A mesa da cozinha e as cadeiras. Os quadros. Os quadros que os meus amigos pintores me tinham oferecido. As fotografias. Mesmo as fotografias que eu tinha tirado, desapareceram das paredes. Volatilizaram-se. Até as prateleiras onde estavam os livros. Foram embora. Mas os livros, os livros ficaram. Até me ri. Levou tudo menos a merda dos livros. Não sabia o que lhes fazer. Agarrei no primeiro que me apareceu. Mulheres de Eduardo Galeano. Levei-o comigo.
Dei uma volta pela casa. A olhar o vazio. Sentir a dor do vazio.
A sala. O quarto. A casa-de-banho sem papel higiénico. A dispensa vazia. A cozinha. Na cozinha tinham ficado a torradeira e a chaleira. Até uma cafeteira antiga, estava em cima do fogão. Mas não havia café. Nem manteiga. Nada. Nada para comer. Levou tudo.
Pousei o livro na bancada.
Abri o frigorífico. Quase vazio. Uma garrafa de vinho branco alentejano. Vidigueira. Mas já encetado. Foi por isso que ficou. Aberto não tinha valor.
Agarrei na garrafa. Abri a porta do móvel mas não havia nenhum copo. Tirei a rolha com os dentes, cuspi-a para o chão e bebi um gole pelo gargalo. Estava bom.
Pensei em ir para a sala. Mas lembrei-me que não havia sofá. Nem televisão. Tinha o computador porque o tinha levado comigo. Mas não me apetecia ligá-lo.
Fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro. Bebi mais um gole de vinho branco da Vidigueira.
Peguei no livro de Eduardo Galeano e li:
“Sukaina casou-se cinco vezes, e nos cinco contratos de matrimónio negou-se a aceitar a obediência do marido.”
Fechei o livro e desatei a rir. A rir feito tonto. Um riso que não conseguia parar. Um riso que me vez chorar, chorar de tanto rir, e foi então que disse, alto, a reverberar na casa quase vazia, repleta de livros, Estamos bem fodidos!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/19]

Odeio Adolescentes!

Abri a porta do frigorífico e vi que estava vazio. Tenho de ir às compras. Mas ando sem vontade. Os sítios estão todos sempre cheios de gente apressada, alegre, contente, a falar a torto e a direito da magnífica noite em família que estão a preparar. De repente as famílias dão-se todas bem, as pessoas amam-se todas muito e o mundo é um local feliz e cheio de amor.
Então resolvi ir jantar ao restaurante lá de baixo. É sempre bom ter um restaurante debaixo de casa. Não nos deixa ir muito longe e, se nos embebedamos, o elevador traz-nos de volta para cima.
Sentei-me ao balcão. As mesas estava dispostas ao longo do restaurante, ligadas entre si em dois grupos. Imaginei que ia haver confusão de jantar de Natal, de empresa, de anos, uma coisa dessas. Ia tentar despachar-me antes que eles chegassem. Mas não houve tempo.
Ainda não tinha atacado o queijinho fresco, já estava a entrar no restaurante uma montanha de hormonas aos saltos na forma de adolescentes. Tinha-me esquecido. O primeiro período da escola tinha terminado ontem. Hoje desceram à cidade para jantar, serem crescidos, gritarem uns com os outros, fumarem, beberem álcool e darem largas à libido. Beijos, apalpões, chupões.
A meio do bitoque já nem conseguia ouvir o som da televisão. Atrás de mim um turbilhão de excitação em forma de barulho. E pensei, Odeio adolescentes!
Mas não, não odeio adolescentes. Odeio o facto de já não ser adolescente. Odeio o facto de já não exercer aquele ritual de acasalamento dos adolescentes. Odeio já não ter aquela vontade, aquele desejo, aquela tesão, aquela vontade de foder o mundo inteiro num parque de estacionamento sem me preocupar que alguém esteja a ver. Odeio que a minha velhice me castre o desejo. Que a minha voz já não se sobreponha à deles. Odeio que o meu conhecimento não supere a inabilidade brilhante de quem ainda não sabe como fazer as coisas, mas tem uma vontade enorme de descobrir e aprender.
Na verdade, a única coisa que me irrita esta noite ao ouvir a liberdade com que se movem atrás de mim, entre todos eles, é a minha inveja. A inveja de já não ser como eles. Mesmo que as minhas memórias me alimentem. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/16]

Beber um Copo de Vinho Branco e Partir

A tempestade Ana tinha acabado de chegar. O vento abanava os estores e o barulho incomodava. Fiquei nervoso. Fui à cozinha e abri uma garrafa de vinho branco alentejano que estava no frigorífico desde o Verão. Bebi um copo quase de um gole. Depois enchi outro copo e bebi devagar. Fui até à janela e olhei lá para baixo. As mesas e as cadeiras de plástico da pastelaria, que nunca eram presas, começaram a voar. Algumas pessoas vinham a correr empurradas pelo vento. Havia chapéus-de-chuva a virarem-se ao contrário e varetas a espetarem-se na cara, no nariz, nos olhos das pessoas que arriscavam passar com aquele tempo. E eu pensava O que leva as pessoas à rua com um tempo destes?
Voltei para dentro e fui cozinhar uns cogumelos salteados com ovos mexidos.
Lavei os cogumelos e cortei-os em quartos. Coloquei-os numa tigela. Pus uma frigideira ao lume com um pouco de azeite e dois dentes de alho cortado muito aos bocadinhos. Juntei os cogumelos. Espalhei um pouco de sal grosso. Juntei um pouco do vinho branco do copo. Depois retirei a frigideira do lume e tirei os cogumelos da frigideira para uma tigela.
Parti cinco ovos grandes para outra tigela. Coloquei um pouco de sal grosso e pimenta preta. Mexi tudo um pouco e despejei para a frigideira onde tinha salteado os cogumelos e que tinha voltado a colocar ao lume. Depois misturei os cogumelos aos ovos mexidos. Retirei a frigideira do lume e despejei tudo na tigela.
Coloquei uma toalha na mesa da cozinha. Dois pratos. Um copo que enchi da garrafa de vinho branco e voltei também a encher o meu. Coloquei talheres. Dois guardanapos. A tigela com os cogumelos e os ovos mexidos. Peguei numa tábua de plástico e numa faca de cozinha e cortei umas fatias de pão caseiro do dia anterior.
E depois fui à sala chamá-la.
Quando entrou na cozinha, olhou para os ovos mexidos com cogumelos e as fatias de pão do dia anterior e disse Cheira tudo muito bem! Mas o que me estava mesmo a apetecer era uns queijinhos frescos.
Enquanto falava nos queijinhos frescos agarrou-se a mim, dengosa, e trincou-me a orelha de leve.
Lá fora, a tempestade Ana estava ao rubro. Os estores faziam um barulho ensurdecedor. A chuva fustigava os vidros das janelas.
Na mesa, o vinho branco aquecia e os ovos mexidos com cogumelos salteados arrefecia. E eu disse-lhe Está bem, eu vou ao supermercado.
Peguei no casaco, num chapéu-de-chuva e saí para os braços da Ana. Nunca mais voltei a casa.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/10]

Abrir as Janelas e Deixar Entrar o Ar

Ela abriu a porta e eu entrei.
A casa estava com um cheio a bafio. Sentia-se a humidade ao longo do corredor até chegar à sala.
Ela sentou-se numa poltrona, com os pés debaixo do rabo, e cobriu-se com uma mantinha. Encostou a cabeça a trás e deixou tombar o olhar para o chão.
Sentei-me no sofá grande. A olhar para ela. Não sabia o que dizer.
Levantei-me e fui abrir as janelas para deixar entrar o ar. Olhei em volta e vi restos de fruta espalhados por todo o lado, cheios de mosquitos. Vi uma caixa grande, aberta, com metade de uma pizza já toda ressequida. Várias garrafas de plástico de água, umas vazias, outras com restos, algumas deitaram água fora e via-se a mancha molhada em redor. Vi uma embalagem de gelado meio-cheio com um gelado já líquido.
Aproximei-me dela e sentei-me no braço da poltrona. Fiz-lhe uma festa na cara e puxei-lhe o cabelo para trás e perguntei-lhe Queres ir dar uma volta? De carro! Vamos sair, mas ela respondeu abanando a cabeça de uma forma quase imperceptível.
Levantei-me e fui até ao quarto dela. Abri as janelas. Mudei-lhe a roupa da cama. Apanhei todas as peças de roupa que estavam caídas pelo quarto e pela casa-de-banho, levei-as para a cozinha e coloquei-as na máquina de lavar. E liguei a máquina. Aproveitei e abri também as janelas da cozinha.
Abri o frigorífico. Depois fui à despensa. Fritei um tacho de arroz. Encontrei duas coxas de galinha já a entrar em fase colorida, mas ainda sem mau cheiro, e resolvi assá-las no forno. Polvilhei-as com sal e pimenta, juntei uma folha de louro, um bocado de manteiga em cima da carne e coloquei no forno.
No fim, deixei tudo em cima da mesa da cozinha.
Voltei à sala e sentei-me, de novo, no braço da poltrona. Tens tomado os comprimidos?, perguntei-lhe, e ela acenou com a cabeça. Puxei-a para mim e envolvi-a nos meus braços. E ela deixou-se abraçar. Mas algum tempo depois saiu da sala e foi para o quarto. Fui atrás dela e, da porta, disse-lhe Tenho de me ir embora, mas venho jantar contigo. Já deixei tudo feito. Tomas um banho e jantamos na sala, está bem?, e ela acenou que sim e puxou o edredão sobre a cabeça.
Fechei as janelas do quarto. Voltei à sala, e apanhei todo o lixo que por lá estava e fechei, também, as janelas. Passei na cozinha e peguei no saco do lixo que lá estava e, carregado de sacos do lixo, saí de casa dela.
Sabia que quando voltasse, ela iria estar ainda ali, dentro da cama. Mas sabia que tinha de a ajudar. Não sabia era bem como.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/01]