Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]

Os Filmes Pornográficos do Meu Pai

Eu tinha onze anos quando descobri os filmes do meu pai. Os filmes super-8. Estavam numa caixa de latão. Uma caixa de latão igual às que a minha mãe usava como caixas de costura. Iguais às que a minha avó usava para colocar os biscoitos.
Andava a remexer nas coisas dos meus pais. Eles não estavam em casa. Estava só com a minha avó. Com a minha avó e a minha irmã mais nova, que era tão nova que não conta para aqui. Andava numa caça ao tesouro. Naquela altura não havia Youtube Kids, Cartoon Network ou Canal Panda. Não havia consolas de jogos. O primeiro que entrou lá em casa foi o TV Brinca e era uma espécie de jogo de matraquilhos onde só havia dois traços a defender uma baliza de um rectângulo que andava de um lado para o outro. Mas isso foi mais tarde. Já não recordo bem quando. Mais tarde. Mas foi antes do Spectrum. O Spectrum fazia muito barulho a arrancar. Era uma espécie de ritual para entrar num mundo mágico. Era como as provas de aptidão para entrar no grupo dos Pequenos Vagabundos.
Para me entreter, e como só havia televisão à hora do almoço e à noite, aventurava-me nos fundos dos armários do corredor e do quarto dos meus pais. À procura de tesouros. Foi assim que descobri que já tinha sido louro. Quando era bebé. A minha mãe tinha guardado um envelope com dois anéis de cabelo, loirinhos, e o meu nome em diminutivo, escrito à mão, no envelope.
Naquele dia descobri, nos confins do armário, debaixo de outras caixas que estavam debaixo de cobertores debaixo de vária toalhas, aquela caixa. Era de um latão dourado. E chamou-me logo a atenção. Abri-a com cuidado. Algum nervosismo.
Havia uma série de rolinhos de plástico. Com fitas. Fitas que se desenrolavam. Puxei algumas. Tinham imagens. Pareciam fotografias. Mas eu não conseguia perceber o que era. Eram muitas. Algumas dentro de caixinhas de cartão. Outras soltas.
Mais tarde falei desta minha descoberta lá na escola. Havia quem soubesse o que era. Filmes. O meu pai também tem filmes desses lá em casa, disse-me. Que filmes?, perguntei. De miúdas nuas, respondeu.
Miúdas nuas?, pensei.
Podemos vê-los lá em casa. Na máquina de projecção do meu pai, sugeriu. E eu disse Está bem! E ele ainda disse Traz amanhã. Vamos para minha casa. E eu voltei a dizer Está bem.
Foi um problema para ir buscar a caixa de latão dourada ao fundo do armário do quarto dos meus pais. Tive de esperar pela hora de me ir deitar. Não adormecer. Esperar que eles fossem para a sala. Ver televisão. Talvez A Visita da Cornélia. Talvez algum filme. Porta encostada. O som relativamente baixo. Uma pequena luz indirecta. Num candeeiro ao fundo da sala. Eu não adormeci. E em silêncio fui ao quarto deles. Às escuras. Só na companhia da luz da lua que entrava pela janela do quarto e me assustava um bocadinho. Tirei as toalhas. Os cobertores. As outras caixas. A caixa. A caixa de latão dourada. Voltei a meter tudo de novo no fundo do armário. As caixas. Os cobertores. As toalhas. O monte mais pequeno. Rezei para que a minha mãe não notasse que o monte estava um pouco mais pequeno.
Acordei cedo. Com vontade de ir para a escola. Ia fazer os trabalhos de casa com os amigos. Tudo ali na rua. Tudo vizinhança. A escola. Os colegas. Os amigos. As casas de uns e outros. E não havia medo da rua, naqueles tempos.
E no fim das aulas lá fomos. Em romaria para casa de um deles. De um de nós. A caixa. Os rolos de plástico. Que eram filmes. A máquina de projecção. A janela quase fechada para tirar luz à sala. E começou.
Éramos para aí uns cinco ou seis. Espalhados pela sala. Nos sofás. No chão. E começou o barulho da máquina. Rrrrrrrrr. E umas imagens. A cor. Umas senhoras. Talvez meninas. Num piquenique. Num parque. A comer. A beber. Depois tiraram as roupas. Começaram a brincar entre elas. Chegaram uns homens. Talvez rapazes. As raparigas foram ter com eles. Despiram-nos.
Na sala reinava o silêncio. Não se ouvia, sequer, o respirar de cinco ou seis adolescentes a verem o seu primeiro filme pornográfico. Bom, não ele. O miúdo da máquina de projecção. Esse já tinha visto os filmes do pai dele. Até sabia mexer na máquina. Mas também não respirava.
Ficámos em silêncio a ver o resto do filme daquele pequeno rolo. Um tempo curto, mas que pareceu longo. E havia muitos mais rolos para ver. Mas não vimos.
Quando aquele rolo chegou ao fim, a máquina continuou no seu barulho imparável Rrrrrrrrr. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Continuámos em silêncio, sentados exactamente como estávamos. Como estivemos sempre, a ver o filme. Como se ainda estivéssemos a ver o filme. Durante algum tempo. Até que alguém disse Vamos jogar à bola? E lá fomos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/26]

Um Lobo na Montanha

Estou na montanha. Vim tirar fotografias à montanha e perdi a noção das horas. A noite começou a cair e eu fui apanhado de surpresa. Ainda há quinze minutos havia sol. Ainda há quinze minutos estava a tirar uma fotografia a uma ventoinha eólica, daquelas que inundaram o horizonte das Serras d’Aire e dos Candeeiros, em contraluz e, agora, já quase não vejo onde ponho os pés.
A Lua já nasceu, mas está sem grande brilho. Não me parece haver nevoeiro, mas não vejo estrelas no céu. A Lua parece baça. Não é das lentes. Estou sem óculos. Só uso óculos para ler. Quando tiro fotografias não uso óculos. Não me deixa aproximar do visor da câmara. Já me magoei várias vezes no nariz por me esquecer que estava com óculos e aproximava o visor da cara e batia com os óculos na câmara e no nariz. Deixei de usar óculos a fotografar.
Vejo as luzes das aldeias lá em baixo a tremer. Lá ao fundo deve ser Porto de Mós. Há muitas luzes. É o sítio onde há mais luz. Deve ser mesmo Porto de Mós. É para ali que devo ir. Tenho de tomar cuidado. Para não me perder. Para não cair nalguma ribanceira. Nalgum buraco. Para não tropeçar.
Tenho as pernas cansadas. Trouxe botas para a montanha. Por causa das pedras. Da bicharada. Se chovesse. Não choveu. Mas agora custa-me caminhar com o peso das botas nos pés. Mas é a descer. E a descer, todos os santos ajudam.
Ouço um barulho. Um pequeno barulho. O que será?
Páro. Suspendo a respiração. Não faço nenhum barulho. Dedico toda a atenção ao som que, acho, estou a ouvir.
Sinto o coração a bater muito depressa. Estou ansioso. Pode ser um animal.
Aproximo-me de um declive. Parece um grito. Talvez um choro. Vem lá de baixo. Deixo-me deslizar devagar. As botas não deslizam bem. Acabo por ir aos tropeções. Tenho a câmara nas mãos. Mas não caio.
Ouço um grito. Mais parece um gritinho. O som é muito baixo. Mas vem dali. Parece um arbusto. Ao fundo, as luzes de uma pequena aldeia. Não sei que terra é essa. Lá mais ao fundo é Porto de Mós, com certeza.
Espera!… O que é aquilo?…
Um lobo! Parece um lobo. Parece um lobo, ao lado do arbusto. O lobo arreganha-me os dentes. Mas afasta-se. Afasta-se lentamente do arbusto.
Quero fugir!
Tento começar a andar para trás. Subir o pequeno declive. Mas ouço. Ouço nitidamente. Há um choro. Um choro pequenino e abafado, vindo do arbusto. Estou indeciso. Olho para o lobo. Disparo o flash da câmara. O lobo encandeia-se. Ladra. Ladra-me. Mas afasta-se. Arreganha-me os dentes. Rosna. Mas afasta-se. Como se quisesse que eu fosse ao arbusto.
E eu vou.
Aproximo-me devagar. Estou a tremer de medo. Tenho frio. Estou a transpirar. Não deixo de olhar para o lobo. Afasto uns ramos. E vejo. Um bebé. Um bebé a mexer os braços e as pernas. Está uma mantinha aberta à volta do bebé. Deve estar com frio. Agarro no bebé. Na mantinha. Dei as costas ao lobo. Esqueci-me dele. Quando me viro, com o bebé ao colo e enrolado na mantinha, descubro-o. Páro. Ele já não rosna. Já não me mostra os dentes. Tem o rabo entre as pernas e afasta-se de mim. Vai olhando para trás à medida em que se afasta.
Eu tenho o bebé ao colo. E a câmara na mão. Subo o declive. Devagar. Vejo as luzes de Porto de Mós lá em baixo. E começo a dirigir-me para lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/03]

Andar às Voltas, de Carro, em Silêncio

Íamos os dois em silêncio. Íamos os dois no carro. Eu a conduzir. Ela no banco do lado. Íamos em silêncio. Não estávamos chateados. Estávamos só em silêncio. Estamos muita vez em silêncio. Não precisamos de falar para nos compreendermos. Às vezes bastava olharmos um para o outro. E percebíamos. Tínhamos conversas enormes em silêncio. Eram conversas tranquilas. Mas cheias.
Íamos em silêncio no carro. Ouvíamos o rádio. Ou não ouvíamos. O rádio ia ligado. Mas acho que nenhum de nós estava a ligar ao que o rádio transmitia. Eu passava de estória em estória. A minha cabeça voava. Viajava. Constantemente. Como não sonho, no sono, sonho quando estou acordado. Sonhos estúpidos e muitas vezes incoerentes. Saltito de um para outro, sem me aperceber disso. Por vezes agarro-me a pequenas notícias de jornal. Outra vezes, em vidas alternativas. Se…
Ela não sei. Talvez saltite de estória em estória, como eu. Ou não. Talvez pense em coisas sérias. Talvez pense nos problemas. Todos temos problemas. Alguns de nós ignoram-nos. Outros tentam resolvê-los. Mas não sei. Nunca lhe perguntei.
Entrámos por uma pequena aldeia dentro. A estrada cruzava a aldeia. Um semáforo a meio para desencorajar a velocidade. Estava vermelho. Parei. O carro a trabalhar. O pé na embraiagem. A primeira engatada. A mão na alavanca das velocidades. E, depois, a mão dela sobre a minha. Acontecia muito. A mão dela sobre a minha sobre a alavanca das velocidades. A mão dela quente. Sobre a minha mão fria. Aquela mão dava-me conforto.
O semáforo passava a verde. Eu largava a embraiagem. Carregava levemente o acelerador, o carro arrancava e, antes de engatar a segunda, agarrava com os dedos da minha mão a mão dela, que estava sobre a minha, para que não se perdesse quando eu puxasse a alavanca para trás, ao engatar a segunda.
Saímos da aldeia. Já não sei para onde íamos. Andávamos muitas vezes assim. Ao deus-dará. De carro. Às voltas. A passear. A olhar o mundo que nos rodeava. Depois parávamos o carro e deixávamos que o mundo nos engolisse. Eu sentava-me num sítio qualquer e fumava um cigarro. Ela dava uma volta e tirava fotografias. Algumas vezes com o telemóvel. Para alimentar as redes sociais. Outras vezes com a câmara. Nessas alturas era mais cuidadosa com o que fotografava. Espaços. Objectos. Arquitectura. Pedaços de arquitectura. Memórias. Sobretudo memórias. Às vezes fotografava-me a mim. Mas eu não gostava de ser fotografado. São as minhas melhores fotografias.
Às vezes dava grandes voltas, enquanto eu fumava cigarro atrás de cigarro, e depois aparecia com uma garrafa de vinho. Com um queijinho seco. Um pão caseiro. Às vezes ainda quente. Eu deitava fora o cigarro e bebíamos e comíamos e, às vezes, muitas várias vezes, acabávamos enrolados um no outro. Chegámos a fazer amor assim, debaixo do sol, numa qualquer ruína, num qualquer miradouro, à sombra de uma árvore velha e frondosa.
Tudo em silêncio. Sempre em silêncio. Não precisávamos de falar para nos compreendermos. Não precisávamos de falar para dizer tudo o que queríamos.
Ainda hoje é assim. Ela continua aqui ao lado. Eu estou a conduzir. O rádio ligado. E os meus pensamentos andam assim, de um lado para o outro, numa roda-viva, a pensar em coisas simples e sem jeito nenhum.
Ela não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tem um ar feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/27]

Ela Foi Embora e Levou (Quase) Tudo

Cheguei a casa. Estava vazia e em silêncio.
Vazia mesmo. Vazia de quase tudo. Ela foi embora e levou tudo. A cama. A mesa da sala e as cadeiras. A mesa da cozinha e as cadeiras. Os quadros. Os quadros que os meus amigos pintores me tinham oferecido. As fotografias. Mesmo as fotografias que eu tinha tirado, desapareceram das paredes. Volatilizaram-se. Até as prateleiras onde estavam os livros. Foram embora. Mas os livros, os livros ficaram. Até me ri. Levou tudo menos a merda dos livros. Não sabia o que lhes fazer. Agarrei no primeiro que me apareceu. Mulheres de Eduardo Galeano. Levei-o comigo.
Dei uma volta pela casa. A olhar o vazio. Sentir a dor do vazio.
A sala. O quarto. A casa-de-banho sem papel higiénico. A dispensa vazia. A cozinha. Na cozinha tinham ficado a torradeira e a chaleira. Até uma cafeteira antiga, estava em cima do fogão. Mas não havia café. Nem manteiga. Nada. Nada para comer. Levou tudo.
Pousei o livro na bancada.
Abri o frigorífico. Quase vazio. Uma garrafa de vinho branco alentejano. Vidigueira. Mas já encetado. Foi por isso que ficou. Aberto não tinha valor.
Agarrei na garrafa. Abri a porta do móvel mas não havia nenhum copo. Tirei a rolha com os dentes, cuspi-a para o chão e bebi um gole pelo gargalo. Estava bom.
Pensei em ir para a sala. Mas lembrei-me que não havia sofá. Nem televisão. Tinha o computador porque o tinha levado comigo. Mas não me apetecia ligá-lo.
Fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro. Bebi mais um gole de vinho branco da Vidigueira.
Peguei no livro de Eduardo Galeano e li:
“Sukaina casou-se cinco vezes, e nos cinco contratos de matrimónio negou-se a aceitar a obediência do marido.”
Fechei o livro e desatei a rir. A rir feito tonto. Um riso que não conseguia parar. Um riso que me vez chorar, chorar de tanto rir, e foi então que disse, alto, a reverberar na casa quase vazia, repleta de livros, Estamos bem fodidos!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/19]

Senti-a Deslizar por Mim Abaixo

Íamos abraçados. Eu e ela. Íamos abraçados a atravessar a praça. Ela estava a dar-me um beijo no pescoço, eu sorria, quando ouvi um silvo.
E depois o silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
O corpo dela deu um esticão. Bateu no meu. Senti-a tremer. Mais que tremer, abanar, como se fosse uma folha de papel num turbilhão de vento.
O tempo abrandou. Quase que parou. Eu virei a cara para ela e vi-a cair para o chão. Ela deslizava suave, mas pesadamente, ao longo do meu corpo, para o chão.
Eu vi cada milímetro dessa queda. Eu vivi inúmeras vidas enquanto assisti a essa queda.
Eu vi-a escondida, atrás do sofá, a jogar às escondidas em minha casa. Eu vi-a a pular do prédio em obras para um monte de areia, só para fazer o mesmo que eu. Eu vi-a a gritar por mim enquanto eu marcava um golo num jogo de andebol. Eu vi-a, molhada, a sair do mar em São Pedro de Moel. Eu senti-a colada a mim, a dançar uma música xaroposa na Hot Rio, na Rio Mar, na Locopinha, na Stress Less, na Green Hill, na Princess, na Sunset, no Alibi…
E ela ainda não tinha chegado a meio da queda. A minha vida estava toda concentrada ali, naquele nano-segundo enquanto ela caía, deslizava ao longo do meu corpo, e o meu braço não a conseguia amparar. Ainda a vi no hospital, de criança nos braços, a conduzir um carrinho-de-bebé, a conduzir uma carrinha cheia de tralha infantil, na praia a brincar com um cão, de mãos dadas comigo, de braço dado comigo, a beijar-me, a acariciar-me, a sussurrar o meu nome e, finalmente, a bater com o corpo em peso na calçada da praça.
À sua volta começou a formar-se uma poça vermelha. No início não percebi bem o que tinha acontecido. Tropeçara, escorregara, desmaiara. Fugira de mim, do meu abraço. Entrara num buraco de minhoca e fugira para o passado, para uma daquelas discotecas onde dançámos músicas melosas, colados um ao outro, como se fossemos um só.
Mas não. Não fugira. Fora arrancada de mim. E caíra num buraco negro para além da minha compreensão.
Estava tombada no chão rodeada de uma poça de sangue.
À minha volta juntara-se gente. Apontavam os telemóveis e tiravam fotografias. Chamaram os paramédicos. A polícia. Trouxeram um copo de água. Dois. Uma aguardente. Uma manta.
E chegou o barulho. Uma manta de retalhos sonora. A cidade acordara ali. Eu ouvia-me gritar. Ajoelhei-me e agarrei-a. Puxei-a para mim. Puxei-a para o meu colo. Gritei-lhe o nome. Abanei-a. Abanei-a com força. Não faças isso, gritaram-me. Dei-lhe dois estalos na cara. Acorda! Acorda, caralho! Estou aqui. Não te vás embora. Eu não te deixo ir. Olha para mim! Olha para mim, foda-se!
Agarraram-me. Afastaram-me dali. Afastaram-me dela. Os paramédicos debruçaram-se sobre ela. A polícia agarrou-me e afastou-me dali. Outros polícias tentaram afastar as pessoas.
Os telemóveis continuavam no ar. Filmavam. Fotografavam. Gravavam o som das vozes caóticas.
Eu abria e fechava a boca e não conseguia fazer-me ouvir. Queria um cigarro. Eu queria um cigarro. Eu só queria um cigarro e fechar os olhos. E não estar ali.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/15]