O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

A Caixa

Encontrei-a quando fazia a mudança da minha mãe. Ao levar todas as tralhas dela de uma casa para a outra, encontrei uma tralha minha. Uma caixa. Uma caixa, guardada, guardada e perdida em casa da minha mãe há já muitos anos. Uma caixa que já não recordava. Salto de cama para sofá-cama, entre casas de amigos e conhecidos, entre camas de namoradas e restos de uma noite sem história, sem pouso certo, vou largando restos do que acumulo por aí, por onde calha, em casa deste e daquele, desta e daquela, em casa da minha mãe, afinal, a casa mais próxima do que alguma vez poderia chamar minha. E descobri-a.
Sentei-me no chão sujo (a quantidade de lixo que se vai largando enquanto se fazem mudanças! onde estava todo este pó? todo este lixo?). Esperei. Tentei refrear a ansiedade. O que estaria ali, dentro daquela caixa? O que estaria ali, debaixo daquela tampa que iria levantar?
E levantei.
A primeira coisa que vi foi a minha câmara Sony PC4, com a qual fiz o meu primeiro filme. Onde está esse filme? Onde param todas as cópias? E a montagem original? E as cassetes miniDV onde foram captadas todas as imagens e sons do filme?
Ao lado da câmara estava um action figure do Batman. Lembro-me que veio em cima de um bolo de aniversário. O bolo foi-se, o aniversário também, mas o Batman, cinzento e preto, ficou.
Há também um discman que guardei aqui quando comprei o primeiro MP3, da Creative, que, afinal, era apenas uma pen com auscultadores. Mas funcional. E era muito fácil passar música para este leitor de MP3. Não sei onde é que ele pára. Provavelmente nalguma outra caixa para onde foi remetido depois de aparecer o iPod Nano que ainda hoje tenho e funciona.
Há uma pilha de cadernos e sebentas e agendas da Moleskine cheias de palavras, textos, estórias, poemas medíocres, desenhos e outras coisas que me descrevem ao longo dos anos. É melhor queimar tudo isto. Há para aqui coisas que não são para os olhos de ninguém, algumas delas já nem sequer para os meus. Às vezes o passado envergonha-nos. Mas nem tudo é mau. Há aqui alguns textos que subscrevia. Rescrevia. Assinava. Hoje.
Há também uma caixa de Rebuçados de Ovo de Portalegre da Fábrica de Rebuçados de Santa-Clara que abro e descubro uma série infindável de canetas e lápis, lápis de várias cores e números, e todos afiados, e canetas de vários feitios. No fundo da caixa uma borracha da Rotring e uma afiadeira de metal, em forma de cunha.
Há também uma outra caixa, esta de cartão, preta, sóbria. Lá dentro tem uma caneta Mont Blanc pequena, de tinta permanente, que quis preservar. Nunca a usei. Nunca a tirei da caixa. Foi uma prenda de aniversário. Sempre tive boas prendas de aniversário. Acho que tive uma boa vida. Bons amigos. Boas memórias.
Há uma bola de neve com dois esquimós a beijarem-se. Daquelas bolas que se agitam e aparece neve a flutuar.
Uma outra caixa, de chocolate belga, alberga várias chaves, muitas chaves, quase todas com porta-chaves. São as chaves das casas por onde passei. E foram tantas. Ainda abrirão as mesmas portas? ou as fechaduras foram mudadas? Ainda estarão à minha espera? ou já me esqueceram? Acho que poderia fazer uma exposição com tanta chave, de tanta forma e feitio. Há uma delas que acusa ferrugem. Não sei o que é que esta chave abria. Uma parte do passado fugiu, outra escondeu-se. A memória é um mundo por descobrir. Poderia passar o resto da minha vida a lembrar as vidas que já vivi.
Há também uma ventoinha manual, pequenina, de agarrar numa mão, apertar uma mola e disparar a ventoinha de três pás que manda ar frio para onde quiser. As pás da ventoinha estão numa espécie de maçã com uma dentada, como se fosse o símbolo da Apple. Deve ser coisa de chineses. Sei perfeitamente quem me deu esta ventoinha. Gente que não vejo desde o princípio dos tempos.
Há ainda uma lanterna a dínamo da Quechua cuja borracha está toda peganhenta, desfaz-se nas minhas mãos e tenho de as ir lavar antes de voltar ao teclado do computador. Guardei muita merda. Muitas destas coisas são lixo.
Um maço de papéis revela as primeiras facturas de água e luz que vieram com o meu nome. As primeiras facturas que eu paguei, numa casa que era minha, cuja renda era eu que pagava, e do qual recebia um recibo com o meu nome. Há coisas que nunca mais voltam.
Por baixo das facturas, uma pequena caixa com uma pen da Kanguru para ligação à internet numa altura em que quase não havia wireless, em que éramos todos muito info-excluídos, mas nem mais felizes nem mais infelizes. Éramos só outros, numas vidas como estas mas diferentes. Será que isto ainda funciona?
Há também uma série de DVDs graváveis. Devem ter filmes e fotografias minhas. Será que descubro aqui fotografias de ex-namoradas? Fotografias de nus? Filmes de sexo? Eu a ter sexo com… Já nem me lembro. Já não recordo se as guardei aqui ou não. Tenho de descobrir uma maneira de ver isto. O meu computador já não tem leitor de DVDs.
No fundo da caixa descubro uma pequena pilha de cartas. Agarro nelas. Leio os endereços. Nomes diferentes. Moradas diferentes. Nomes de mulher. Nomes de homem. Acendo um cigarro. Encosto-me à parede. Abro uma carta. Uma qualquer. Não leio o nome de quem a envia. Não importa. Só quero ler o que já li. Só quero recuperar um tempo. E leio:
Olá meu querido, Como é que estás? É com muita saudade que olho para trás e vejo já tão distante o Verão em que nos conhecemos e passámos juntos na praia. Depois olho em frente e reparo como falta pouco para nos reencontrarmos. Voltamos ao mesmo sítio? Voltas ao mesmo sítio?
Sorrio. Escrevíamos cartas assim? Escrevi cartas assim?
Deixo cair a carta e abro outra. Sinto o coração aos saltos. Está vivo. Estou vivo. A história não é sobre os mortos. É sobre os vivos. Uma história que se perpetua nos tempos, assim a lembremos, assim nos lembremos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/25]

Trabalho em Troca de uma Cerveja

Vejo o fumo sair da ponta incandescente do cigarro preso entre os dedos e voar lá para cima, para o canto do tecto.
Não se pode fumar aqui, disse a miúda enquanto passava.
Eu ouço o que ela diz, mas estou a ver o fumo a voar para o tecto e juntar-se no canto.
Ainda estava a pensar no que o gajo me tinha dito. Tudo assim ao mesmo tempo. Ele, ela e o fumo. Ele estava à espera de uma resposta. A mim, apetecia-me mandá-lo à merda. Mas ele é um daqueles tipos que não se pode mandar à merda. Por isso é que ia explodindo quando a miúda disse que eu não podia estar a fumar ali. Se não rebento para um lado, rebento para outro. Mas, coitada da miúda. Ela não tinha culpa. O meu problema não era com ela. Era com ele. E sim, sabia que não podia estar ali a fumar. Mas estava. Estava tão zangado que o cigarro foi a minha maneira de mandar tudo para o caralho.
Bebi o resto da bica de um trago. Já estava fria. Deixei lá cair a cinza do cigarro.
O tipo aclarou a garganta. E diz São só uma ou duas horas. Umas fotografias rápidas. Uns registos. Não posso é pagar-te, não é? Não tenho dinheiro para isto!
E é isto! o que me irrita! O isto! O nunca haver dinheiro para isto! mas, no entanto, estão sempre a contar com isto!
O fumo continua a subir para o tecto. A miúda volta a passar. Não diz nada. Mas vejo-a parar lá à frente, a olhar para mim. O olhar a fuzilar-me. A pensar que eu devo julgar-me importante. Ou parvo. Toda a gente sabe que não se pode fumar em sítios fechados que não sejam a casa de cada um. E no entanto, ali estava eu a fumar um cigarro, a colocar a cinza dentro da chávena vazia de uma bica, e a ver o fumo a subir até ao tecto.
Gostava de saber fazer argolas de fumo, como calamares. Mas não sei. Só sei puxar o fumo para os pulmões, prendê-lo e deixá-lo sair, pela boca ou pelo nariz. Nunca fui um artista do fumo. Sou só um artista da imagem. Fotografia. É o que faço. É onde sou bom. Mas há pouco trabalho para um gajo como eu. Não é que não precisem de fotógrafos. É que já têm. Já têm fotógrafos. Geralmente um. Que não chega para as encomendas, claro. Mas para quê pagar a dois gajos para andarem para trás e para a frente a passear as máquinas a tira-colo, a roçar o cu pelas paredes à espera do momento, quando um deles faz o trabalho todo? Mas o problema é que não faz o trabalho todo. Nunca faz. E depois surgem tipos como eu. Os mortos de fome. Os que estão sempre à espera da oportunidade de uma vida. É agora! É agora, porra! Mas nunca é agora. Porque o meu trabalho só é bom quando é à borla. Porque o meu trabalho não é bem trabalho, não é? Os artistas não trabalham, pá! Fazem umas cenas. Divertem-se lá com as coisas deles. E riem-se muito, dentes branquinhos escancarados no sorriso alarve, a rir, a gozar.
Acabo o cigarro. Esmago a beata na chávena. A miúda vem logo retirar a chávena da mesa com o cigarro lá esmagado.
O tipo continua Mas há umas cervejas! Há sempre umas cervejas. É o combustível que nos faz mover, a cerveja. E quando deixar de ser eu, há sempre outro morto de fome à espera da oportunidade.
Olho para o tipo e espeto-lhe um murro entre os olhos. Parto-lhe a cana do nariz. Vejo o sangue a jorrar sobre a mesa do café e a miúda a gritar e a aproximar-se com um pano para limpar a mesa do sangue.
Olho para o tipo e digo-lhe Ok! Está bem! e vejo-o sorrir, aquele sorriso cínico de quem enganou mais um. Mas não foi ele que me enganou. Fui eu que me deixei enganar.
O tipo levanta-se. Dá-me uma palmada amigável no ombro e diz Sempre gostei das tuas fotografias! Tens olho! e eu penso que sim, que tenho olho, mas não tenho mais nada. Não tenho capacidade para me vender e fazer-me render o que devia e penso que ainda não é desta que a minha vida muda.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas para ver se tenho suficiente para pagar a bica. Mas o tipo diz Não! Deixa lá! Eu pago!
Eu aceno a cabeça, agradecido. Eu sou um agradecido. Agradeço a bica enquanto ofereço o meu trabalho em troca de umas cervejas.
Mas não fui enganado. Deixei-me enganar. Porque quis. Porque gosto de fazer o que faço. Porque sei que sou bom no que faço. E porque sou melhor que estes tipos que nunca têm dinheiro para pagar o trabalho dos outros a quem têm o descaramento de pedir borlas.
Saio do café e acendo outro cigarro. Saio pela cidade. Esqueço-me do tipo que ficou lá para trás a pagar a bica e desapareço entre gente atrasada, muito atrasada para os seus trabalhos mal-pagos mas que são obrigados a aceitar porque é assim que a vida é.

A Senhora que Vem Cá a Casa Falou-me na Aliança

Há uma senhora que vem cá a casa uma vez por semana. Vem cá ajudar-me a tratar da casa. Não que a casa precise muito de ajuda, que eu trato bem dela. Mas vem fazer coisas que eu às vezes me esqueço fazer ou nem sequer penso na necessidade de ser feito. Limpar os vidro das janelas, por exemplo. Ia lá lembrar-me disso? Mas ela tem razão, os vidros ficam bem melhor quando ela os limpa com Ajax, e depois passa um jornal para ficarem brilhantes e sem dedadas. É ela que traz os jornais. Normalmente, o Correio da Manhã do dia anterior que pede no café da aldeia. Eu às vezes aproveito para passar os olhos pelas catacumbas do país. Também olho para as páginas do Relax. Já tive tentado a ligar a alguns daqueles números, principalmente quando vêm acompanhados de fotografias com medidas generosas. Mas depois penso que tenho de sair de casa e ir não-se-onde, confraternizar e mais-não-sei-o-quê e desisto.
A senhora que vem cá a casa é muito prática nas suas escolhas e diz tudo o que tem para dizer com uma voz um pouco esganiçada. Ela, coitada, não tem culpa de ter a voz tão aguda. Mas às vezes abusa do tom. Gosto muito dela, é muito simpática mas, às vezes, espeta-me navalhas nos ouvidos. Trata-me sempre por doutor embora eu já lhe tenha dito, mais que uma vez, que não sou doutor. Ela responde sempre que todas as pessoas que trabalham em casa, como eu, são doutores. Doutores disto e daquilo, mas doutores. Alguns até são doutores da mula-ruça. Eu calo-me.
Quando decide que tem de lavar os tapetes, põe-se de gatas, a esfregar com uma escova e um balde de água quente e detergente a fazer espuma. Anda a manhã toda com o braço esquerda-direita, cima-baixo, a esfregar a escova nos tapetes. O rabo dela, espetado para o céu, dança de um lado para o outro a acompanhar a força com que o braço expurga o pó entranhado nos tapetes. É por isso que ela tem um braço mais grosso que outro. São os músculos. Os músculos por andar a esfregar a escova nos tapetes. Já fiquei assim, encostado a uma porta, a ver a dança do rabo. Mas nunca lhe disse que, às vezes, a apreciava.
De tempos-a-tempos aparece cá em casa com metades de notícias que não percebeu completamente mas que acha que me poderá interessar a mim, eu que vivo aqui isolado do mundo. Hoje apareceu aqui em casa com uma história que eu ainda não percebi logo bem o que era. Segundo ela, houve uma aliança que invadiu uma sede qualquer para exigir justiça.
?
Ainda lhe perguntei de estava a falar da Arca. Da Arca da Aliança que podia ter visto nalguma repetição dos Salteadores da Arca Perdida, mas ela não sabia o que era os Salteadores da Arca Perdida, nem a Arca da Aliança. Que a outra era só uma aliança, achava, sem Arca.
Perguntei-lhe se tinha algo a ver com a Amazónia, o Brasil, Macron ou a Melania Trump e o primeiro-ministro do Canadá, mas ela disse-me que achava que era em Portugal.
Fiquei curioso.
Liguei a televisão. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Nada. Quer dizer, muita coisa. Não, muita coisa não. Muita repetição da mesma pouca informação sobre os mesmos assuntos dos últimos três dias. Má-educação. Mulheres mais novas que outras. Homens boçais. Algum cinismo. Interesses vários.
E, então, vi, no oráculo, a passar rápido em letras pequeninas Pedro Santana Lopes invade ERC para exigir cobertura noticiosa ao Aliança.
Desatei-me a rir.
Fui acender um cigarro. Abri uma garrafa de Herdade dos Grous 23 Barricas que me tinham oferecido. Servi dois copos. E fui oferecer um à senhora que estava a passar-me as camisas a ferro. E pensei Então é assim que as camisas ficam esticadas, sem vincos e com aquela goma!
Ela disse Eu não devia!, mas aceitou. Eu rezei para as camisas continuassem a vir sem vincos.
Eu fui beber o meu copo para a varanda e fumar o cigarro. E dei comigo a pensar no que é que teria passado pela cabeça do Pedro Santana Lopes. Falta de mimo, de certeza!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/27]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]