Preciso de Me Levantar

Ainda ontem tremia de frio e cheguei a ponderar acender a lareira, quando percebi que não valia a pena ponderar porque não tinha lenha e também não ia para o pinhal, àquela hora, à cata de gravetos e pequenos troncos caídos para fazerem as vezes da lenha, e hoje já tenho dificuldade em respirar por causa do calor e do tempo extremamente seco. Ouço a minha própria pieira e enervo-me comigo mesmo. É uma chatice, esta respiração difícil dos asmáticos que, antes de enervarem os outros, enerva os próprios.
Então hoje está calor.
Vou à praia.
Almocei um sumo de laranja fresco. Não tinha fome para mais. Vesti uns calções de banho. Calcei os chinelos. Agarrei na toalha de praia. Na carteira, no óculos de sol, na máscara e decidi ir à praia. Uma qualquer aqui da zona. Uma das praias não oficiais. Uma das praias escondidas entre dunas à frente de mato cerrado cujos caminhos é preciso conhecer de antemão.
Chego à porta da rua, à porta da cozinha que dá para a rua, olho para as montanhas que lá estão à frente e vejo-as pouco nítidas. Está calor mas o tempo não está muito bom. Está um pouco enublado. Uma coisa muito ténue, mas real. O azul do céu está esbranquiçado, como algumas fotografias que tiro.
Penduro a toalha de praia na cadeira. Sento-me nessa cadeira, ali no alpendre, a olhar as pouco nítidas montanhas no horizonte. Acendo um cigarro. Recosto-me na cadeira.
Ainda não é tempo de ir à praia, pois não? E as praias devem estar cheias de gente, não é? Aquelas pessoas todas fartas de estarem em casa e a precisarem de sair, de sol, de água do mar e ondas e da água gelada do Atlântico a fazê-las bater o dente e de gente com quem conversar e comparar barrigas para não se sentirem tão sós.
Não, provavelmente não é a melhor altura para ir à praia.
A praia vai estar cheia de gente e vai estar frio e a água gelada.
É melhor ficar aqui por casa. Faço um gin tónico, um vodka laranja, um tinto de verano. Bebo tudo. Não tudo de uma vez, mas uns a seguir aos outros. Estendo a toalha na relva do quintal. Se me der o calor, posso sempre passar-me por água, pela água da mangueira como se fosse um repuxo.

A luz cai e eu continuo aqui sentado. Ainda não bebi nada. Ainda não me levantei para ir fazer alguma coisa para beber. Fumo. É a única coisa que consigo fazer. Fumar. Um cigarro atrás do outro. Como terá estado a praia?

Já está quase escuro. Serão horas de jantar, talvez. Não tenho fome. Tenho sede. Talvez tenha uma cerveja no frigorífico. Vou lá buscá-la. É só tirar a carica e está apta a ser bebida. Estou a acabar os cigarros.

Estou com sede e ainda não bebi nada desde o sumo de laranja natural do almoço. Já não tenho cigarros. É de noite. A Lua já está lá em cima. Devia levantar-me. Comer qualquer coisa. Beber qualquer coisa. Arranjar mais cigarros. Levantar-me. Primeiro preciso de me levantar.

Preciso de me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/25]

A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

Numa Fila de Gente

Foi a primeira vez. E a primeira vez custou. Primeiro custou estar na fila com todos os outros como eu que estavam na fila à espera. Mas o que custou mais foi ser visto por todos os outros que passavam ao largo e mandavam olhares para nós, os que estávamos na fila, à espera. Aqueles olhares entravam por mim dentro. E eu vestia-me de vergonha.
Esperámos horas a fio ao longo do passeio. Houve quem viesse muito cedo para arranjar um lugar à frente, entre os primeiros. Gente que já sabia como é que aquilo funcionava. Eu nunca tinha ido e acabei por ficar num dos últimos lugares. Só esperava era que ainda houvesse alguma coisa para mim quando fosse a minha vez de chegar lá à frente.
Nunca tinha passado por nada daquilo. E no entanto, várias vezes imaginei aquilo a acontecer. Não aquilo assim, exactamente assim, nem que achasse possível aquilo realmente acontecer daquela maneira. Mas tenho tendência para imaginar desastres terríveis e depois congratular-me pela sua não-ocorrência. Talvez seja uma forma retorcida de me sentir bem com a vida. Já imaginei vários acidentes de automóvel em que eu sobrevivia tetraplégico. Ou que que familiares meus, próximos de mim, muito próximos de mim, morriam de mortes terríveis e dolorosas. Uma vez imaginei que a minha mulher tinha caído a um poço e eu acabava a casar com a irmã dela. Logo eu que nunca fui casado. Mas a minha imaginação não tem regras, nem limites. Eu não tenho poder nenhum sobre os meus sonhos e eles, por vezes, são bem macabros, terríveis, e estão-se nas tintas para mim.
Daquela vez o sonho tornou-se realidade. Uma realidade. Mas já estava à espera. Embora tenha sido uma descida rápida, era uma descida que se vinha anunciando. Mas o que é que eu podia fazer? Não conseguia mudar o destino. Eu não sou um tipo desses, de grandes frases filosóficas e acções compatíveis que lutam contra o mundo e conseguem vencê-lo. Eu, não. Eu acho que sou um falhado. Vou andando ao sabor das ondas, sem levantar muitas. Deixo-me ir. Às vezes corre bem. Outras vezes não.
E foi assim que acabei lá, na fila. Naquela fila. Com uma série de gente como eu. E só esperava ainda chegar a tempo.
Há quanto tempo não comia? Quer dizer, comer-comer, a sério? Porque comer, tinha comido. Tinha sempre comido alguma coisa. Umas laranjas. Restos de hambúrgueres. Iogurtes fora de prazo. Às vezes conseguia roubar umas couves ali nas hortas comunitárias. Mas não tinha comido mais que isso. Isso era o que tinha comido nas últimas semanas. A última vez que tinha comido, antes de ir para a fila, foi um resto de torrada que encontrei abandonada numa esplanada. E isso já tinha sido… No dia anterior? Talvez antes, talvez antes do dia anterior.
Mas tive sorte. Quando chegou a minha vez, ainda consegui levar algumas coisas para casa. Arroz. Bolachas. Óleo. Latas de atum. Feijão. Nessa noite consegui comer quase normalmente. Nessa noite, acabei a vomitar o que tinha comido e me tinha sabido tão bem. Não vomitei por causa da comida. Vomitei por ter estado na fila, junto com todos os outros que estavam na fila, à espera de conseguirmos trazer alguma coisa para casa. Vomitei por minha causa.
Agora, já não vomito. Agora, já estou habituado. Quer dizer, o mais habituado que é possível alguém estar quando tem de se colocar numa fila de gente desesperada como eu à espera de conseguir que lhes dêem alguma coisa, qualquer coisa, para comer e mitigar a fome. Sim, porque há fome. Eu tenho fome. Todos eles, que estão na fila, têm fome. E passo, passamos, horas na fila para podermos comer alguma coisa. E é o que nos resta. Mitigar a fome de comida. O resto, o resto das coisas que nos faltam, ficam à espera de melhores dias.
A primeira vez que entrei na fila, pensei que seria a primeira e a última vez. Depois dessa vez já passou,,, Quanto? Quanto tempo?… Já não sei. Já não sei há quanto tempo foi a primeira vez. Mas sei que já me habituei. Agora faz parte da minha rotina entrar na fila e chegar lá à frente.
Um dia gostava de deixar a fila. Um dia gostava de voltar a ser como os outros, os que não vão para fila.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/08]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Primeiro Andamento)

O tempo passa e passa por mim. Vai passando. Umas vezes devagar, outras mais depressa. Eu estou desistente. A minha promessa de construir um diário da quarentena ficou-se pela vontade. Não tenho tido forças para levar com o projecto em frente. Não tenho forças para escrever. Não tenho forças para nada.
Ouço os relatórios diários sobre o número de mortos. Não sei se os ouço todos os dias. Mas vou ouvindo. Eu ainda não morri. Ainda não pertenço às estatísticas. Mas às vezes penso que teria sido uma bênção.
Há já uns dias que não visito a minha mãe. Telefono-lhe todos os dias. De manhã e à tarde. Nestes últimos dias só à tarde. As manhãs já não existem para mim. As manhãs são passadas na cama, o edredão por cima da cabeça, ausente, inerte. À espera que tudo passe sem passar.
Pergunto à minha mãe se precisa de alguma coisa. Ela diz que não. Que não precisa de nada. Eu sei que ela está a mentir. Eu sei que ela nunca iria dizer que precisava fosse lá do que fosse. Eu sei que ela sabe que eu estou sem conseguir ser alguma coisa por mais que me custe não o ser. E custa. Mas não consigo erguer a cabeça. Sinto-a pesada. E leve ao mesmo tempo. Está aqui, deitada sobre a almofada, e por vezes dói-me, e por vezes anda não sei por onde, mas sei que me leva a sítios onde eu nunca estive, mas que ela conhece bem.
Há dias que não vejo a minha mãe. Nem os meus filhos. Nem as minhas amantes. Há semanas que não me apetece ter sexo. Já nem me masturbo. Não tenho vontade nem desejo. Sinto-me morto.
Caí na cama e deixei-me apagar. Já não sei quando foi isso. Talvez ontem. Talvez na véspera. Estou deitado na cama. Acordei já o sol ia alto. Ainda não consegui levantar-me. Não fui à casa-de-banho. Não comi. Não tenho fome. Não me apetece comer. Não me apetece levantar.
Foda-se!
Faço o diário. Vá lá, não custa nada. É só organizar o que (não) vivi hoje.
Estive deitado toda a manhã. Acho que dormi. Acho que dormi toda a manhã. Acordei com o sol já bastante alto. Virei-me para o outro lado. Precisava de um comprimido para voltar a dormir.
Não preciso de ir à casa-de-banho. Não tenho fome. O tempo está cinzento. Pus o braço de fora e arrefeceu. Agora está outra vez dentro da cama. Colado ao corpo. Aquecem-se um ao outro. Procuro um comprimido na mesa-de-cabeceira. Quero voltar a dormir. Não encontro nenhum. Já os devo ter tomado todos. Vou ter de me levantar. Ir à rua. Mas não vai ser agora. Nem hoje. Talvez amanhã.
Mais logo irei telefonar à minha mãe. Vou falar sozinho e alto, um pouco antes, para que a voz não soe tão triste. Ela descobre-me nestas pequenas pontuações. Não quero que ela saiba que não consigo levantar-me.
Viro-me na cama. Agora que já decidi que o meu objectivo, hoje, é telefonar à minha mãe ao final da tarde, tenho mais algum tempo para estar deitado na cama sem me sentir culpado. Mas sinto. Sinto-me culpado desta inércia. De não fazer nada. De nem fazer a barba nem lavar os dentes. De não tomar banho. Mas a verdade é que não quero saber. Não quero saber de lavar os dentes nem se fico com os dentes todos podres e escuros e a boca e o cu a cheirar a podre. Não quero saber. Não quero saber de nada.
Às vezes queria ir para o Pingo Doce desprotegido para ser contaminado e resolver de vez esta ansiedade de ser ou não contaminado. É claro que vou ser. Vamos todos ser contaminados. E quando? Quando é que vou ser contaminado? E porque não agora?, agora que não tenho nada para fazer, que não me apetece fazer nada, agora que o corpo pode bem menos que a cabeça e a cabeça já não pode grande merda?
Dobro mais o meu corpo na cama, debaixo do edredão, fico em posição fetal, ponho as mãos entre as pernas para sentir o calor que vem de mim, e agarro na pila e está murcha, muito murcha e eu sinto-me como ela, murcho, cansado e ausente. Estou mais magro. Sinto os ossos a roçar as peles.
Logo ao final do dia terei de estar acordado e telefonar à minha mãe. Logo, logo mais ao final do dia, vou levantar-me e fumar um cigarro. Beber um copo de vinho. Ainda tenho vinho? E cigarros? Vou ter de comer qualquer coisa. Qualquer coisa. Talvez uma torrada com manteiga. E depois vou sentar-me e escrever qualquer coisa para uma espécie de diário da quarentena. Um relato destes dias. Para mais tarde me lembrar como foram estes dias. Para mais tarde alguém saber como foram estes meus dias. Qualquer coisa para o futuro. Para se saber alguma coisa sobre alguém. Mesmo alguém tão anónimo e insignificante quanto eu.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/27]

Um Dia como os Dias São

Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado. Adormeci.
Acordei com fome. Ainda chovia. Estava frio. Gosto de andar nu por casa. Mas tive de vestir um fato-de-treino e calçar umas meias. Passei na casa-de-banho. Fui à cozinha. Abri uma lata de atum. Desfiz o atum numa taça. Piquei um pouco de cebola. Acrescentei um pouco de salsa. Uma colher de sopa de maionese. Misturei. Cortei uma rodela de tomate. Abri um pão duro. Torrei-o um pouco. Coloquei o atum com maionese numa das metades do pão. Uma fatia de queijo Limiano. A rodela de tomate por cima. Coloquei a outra metade do pão. Levei-o à tostadeira. Prensei-o. Abri o frigorífico. Uma garrafa de vinho branco. Enchi um copo. Tirei a tosta de atum da tostadeira e coloquei-a num prato. Sentei-me à mesa da cozinha a comer a tosta de atum e a beber o vinho branco.
Lá fora continuava a chover. Senti um arrepio de frio pelas costas.
A maionese escorria-me pelos dedos e eu lambia-os. Acabei o copo de vinho antes da tosta e voltei a enchê-lo. A garrafa ficou vazia. Coloquei-a ao pé do lixo, dos vários sacos de lixo fechados com um nó à espera de irem para o rsu ao fundo da rua. Pensei que teria de sair. Teria de ir à rua brevemente. Mas não me apetecia.
Acabei de comer a tosta. Lambi os dedos. Despejei o segundo copo de vinho branco. Olhei as horas. Duas da tarde. Olhei a rua. Céu cinzento. Chuva. Frio. Voltei para a cama. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão.
Acordei com vontade de ir à casa-de-banho. Estava sol. Fiquei por momentos a tentar processar as informações. Ainda era o mesmo dia. O dia que amanheceu chuvoso, continuou chuvoso ao longo da manhã e início de tarde e agora estava sol. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Passei pela janela do quarto e espreitei lá para fora. A estrada estava molhada. Os poucos carros estacionados na rua estavam molhados. Fui à casa-de-banho.
Regressei ao quarto. Voltei a deitar-me.
Acordei com o barulho da buzina de um automóvel. Era de noite. A buzina não parava. Virei-me para o outro lado. A buzina continuava a tocar. Levantei-me. Espreitei à janela. Um carro bloqueava outro. Com tantos lugares vagos aqui na rua, um carro parou a bloquear outro que queria sair e não podia. Vi um sujeito a correr vindo da farmácia. Levantou o braço a pedir desculpa. Um homem saiu do carro a discutir. O sujeito entrou dentro do carro. O homem aproximou-se a gesticular com os braços. O sujeito arrancou com o carro. O homem fechou o carro e acabou por ir embora a pé. Não entendo as pessoas.
Voltei para a cama. Virei-me para o outro lado. Os olhos abertos. As sombras nas paredes. Virei-me de novo de lado. Os néons da farmácia a piscar nos vidros da janela. Estava desperto e já não conseguia dormir. Já não tinha frio. Não tinha sono. Não tinha fome. Não queria mais estar na cama.
Levantei-me. Fui nu até à cozinha. Abri uma Terra d’Alter tinto. Servi um copo. Sentei-me à mesa da cozinha. Abri a tampa do portátil. Acendi um cigarro. Estalei os dedos. Bebi um gole de vinho.
E comecei os lamentos.
Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado, escrevi.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/15]

E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]