Bella Poeta Guerra Buenos Aires El Tango e El Mar

Estava parado num meio de uma estrada de asfalto, onde por estes dias não passam lá carros, a olhar para um ecran onde vocalistas virtuais ensaiavam cantar canções que afinal não passavam de playback para gravar as imagens vídeo a serem projectadas nos espectáculos ao vivo onde não iriam estar.
Ia bebendo uma cerveja de um copo de plástico, mas reciclável. Acendi um cigarro. Tentei. Tentei acender. Começou a chover. Este é o Verão da chuva, do frio, do mau tempo e da gripe que não me deixa em paz. Os primeiros pingos de chuva caíram em cheio no cigarro. Já não se iria acender. Muito menos deixar-se fumar. Deitei-o fora.
E agora? O que faço agora?
Corri de regresso ao carro. Precisava de fugir da chuva.
Parei debaixo de um beiral um pouco mais largo para recuperar fôlego. Encostei-me à parede. Descansei. Olhei para a luz do candeeiro público e percebi que a fúria aguaceira poderia estar de passagem. A chuva que caía era menos intensa. Aguardei.
Recuperei fôlego. Acendi um cigarro. E disse, sonoro, mas para mim Se no fim do cigarro estiver a chover menos, volto para trás, não regresso já ao carro, e vou ao concerto.
Fumei o cigarro. A chuva, que não tinha parado completamente, era uns pingos leves como flocos de neve vistos no contra-luz do candeeiro público que estava à minha frente. E decidi Vou ao concerto e seja o que Deus quiser!.
E fui.
Desci à vala. Estava bem composta. Quase cheia. O palco inundado. O PA coberto com manga plástica. Virei-me para o lado e perguntei Vai haver concerto? e o lado respondeu-me Claro, pá! Há sempre concerto! Toca aí uma! e passou-se um charro. Dei um bafo. Acabei a dar dois. Devolvi-o à precedência e disse Obrigado! e o tipo acenou com a cabeça.
Lá em baixo, no palco, um rapaz passeava-se com um balde e uma esfregona a tentar secar o que estava molhado. Por vezes o público batia-lhe palmas. Ele respondia com uma vénia. Às vezes imitava um pequeno passe de bailado. Tinha piada, o miúdo. Ainda lhe pediram para dançar. Ele recusou, envergonhado. Mas ainda ofereceu um jogo de troca de mãos nos joelhos das pernas. O público foi ao delírio.
O palco estava seco. Já não chovia. Levantaram a teia do palco. Retiraram a manga plástica de cima do PA e dos instrumentos. Chegaram os músicos. Cegou a voz. E começou. Começou a viagem.
Eu entrei no buraco da minhoca directamente para a Aula Magna. Outro tempo. Outro lugar.
Eu era jovem. Acabado de sair da adolescência. Cabelos compridos. Com caracóis. Os caracóis onde as miúdas gostavam de enfiar os dedos enquanto me sussurravam ao ouvido palavras que não repito. Magro. De barba rala e sem brancos de espécie alguma em nenhuma parte do corpo. Fugia das chinesas e dos cachimbos. Das seringas. Dos selos miniatura. Fugia de tudo aquilo que ia fazendo cair quem comigo estava e ia deixando de estar até eu ficar sozinho, eu, eu sozinho e a banda a tocar só para mim. E a voz dizia-me Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E regressei. Regressei ao meu tempo. Cabelos curtos. Já sem caracóis. Já sem os dedos das miúdas e os seus sussurros a prometerem-me a Lua. Com brancos na barba, comprida, mas muito mal semeada. A barriga proeminente salientada pela t-shirt apertada mas de uma banda cool, A respiração pesada. Um cigarro na ponta dos dedos. Sozinho, ainda e sempre, em frente à banda. A ouvir a voz, que me repetia, como à trinta anos, Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E enquanto ouvia, sentia. E pensava naqueles infelizes que me dizem que é impossível viajar no tempo. Esses nunca tiveram dezoito anos. Esses já nasceram velhos. Velhos e mortos.
No resto da noite não voltou a chover. Quando regressei ao carro, passei duas horas à procura dele. Só o encontrei quando era o único na eira. E nessa altura já não me apetecia voltar a casa. Peguei num cigarro. Sentei-me no capot e fiquei ali a fumar até o dia nascer. Depois fui beber um café e comer um croissant folhado como quando tinha dezoito anos e entrava na Bénard e achava que era fixe ser fixe.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/11]

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Uma Vida a Fugir a Sete Pés

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
O meu pai tinha-me largado nas mãos da freira e ido embora. Eu, a chorar baba-e-ranho, desesperado pelo abandono, deixado abandonada nas mãos de uma freira desconhecida, desatei aos pontapés à freira, que imediatamente me largou, e corri desalmado atrás do meu pai. Passei o portão do colégio e tentei entrar para o banco de trás do carro. Mas os carros não eram como são hoje. O meu pai já tinha aberto a porta dele, mas não havia sistema centralizado para abrir e fechar as portas dos carros. Cada porta um mundo. Corri para a porta dele a chorar. Não conseguia falar. Só um choro sofrido. A minha vida estava a acabar. Sentia-o. Os meus pais estavam a abandonar-me. Ali. Num sítio desconhecido. Mas eu não estava pelos ajustes. A mim, não! A mim ninguém me abandonava. Implorei. E o meu pai deixou-me entrar no carro. Para o banco de trás do carro.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Vi a cara sorridente da enfermeira demasiado próxima da minha. Senti-lhe o cheiro. O odor ácido. Os dentes escurecidos. A seringa na mão. A agulha preparada para me picar. A minha mãe a agarrar-me. O meu braço despido. A enfermeira a sorrir e a garantir que não ia doer nada. Mas eu não quis saber. Dei um pontapé na mão da enfermeira e vi a seringa a voar, cair e espetar-se no chão. Partiu-se. Saltei da cadeira. Fugi das mãos da minha mãe. Fugi da enfermeira. Fugi da seringa, da sala, daquele terror. Desci as escadas a correr e na rua cruzei-me com o meu pai que fumava um cigarro. E queixei-me. Queixei-me da minha mãe. Queixei-me da enfermeira. Queixei-me das pessoas que eram más e me queriam fazer mal. E o meu pai deitou o cigarro fora. Pegou-me por um braço e levou-me de volta à sala. À cadeira. Às mãos da minha mãe. Ao sorriso da enfermeira. À seringa de agulha apontada ao meu braço. Desejosa da minha veia.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Estava sentado no sofá, de Sagres na mão, à espera de ver a final da Liga das Nações entre Portugal e a Holanda, quando ouvi bater a porta da rua. Senti alguém entrar. Ouvi passos a dirigirem-se para a cozinha. Percebi sacos de plástico a serem mexidos. Portas e gavetas a abrir e fechar. Alguém arrumava coisas. Ouvi a porta do frigorífico. Garrafas a bater. Água a sair pela torneira do lava-loiça. Um pano a ser sacudido. E depois, alguém, lá de dentro, disse Temos de conversar!
Estremeci. Senti um calafrio pelas costas. Bebi o resto da Sagres de um gole. Despejei a garrafa. Peguei no maço de cigarros e saí de casa em silêncio. Desci as escadas a correr. Cheguei à rua e recuperei o fôlego. Cruzei a rua e entrei no café em frente. Estava mesmo a começar o jogo. Só era pena ter que vir à rua para fumar.

Para Onde Foi o Resto do Tempo?

Já passava da uma da manhã quando cheguei aos Restauradores. Já não havia Elevador da Glória. Arranquei a pé que, aos vinte anos, não há subida que meta medo. Principalmente quando, no cume, te prometem uma cerveja, ou duas, ou três. Miúdas giras. Música boa. Droga.
Arranquei pela calçada. Pelo meio dos carris como se fosse no Elevador. À espera do efeito placebo. Não funcionou. As pernas não se deixam enganar.
A meio da subida uma pausa. Uma pausa para respirar. Recuperar fôlego. Olhar as miúdas que também vinham a subir a pé. Cruzar o olhar com uma delas. Ou duas. E sorrir ao pensar que ainda olhavam para mim, que ainda estava em jogo. É bom sentir-me em jogo. Talvez nos encontremos lá em cima, pensei e lancei-lhes o pensamento à cabeça.
Cheguei lá acima. Antes de entrar no Bairro Alto, um cigarro. O prémio pela resistência. Pela subida. Para recuperar o fôlego.
Sentei-me nas escadinhas sujas. Parte delas vomitadas. Tentei fugir-lhes. Sentei-me num degrau menos sujo. Fumei o cigarro. Apreciei as pessoas que subiam a calçada a pé. Pensei que gostava de Lisboa. Uma capital pequena. Mas cosmopolita. Duas ou três zonas para frequentar à noite. E encontrar quem se queria encontrar. Beber um copo. Conversar. Discutir. Namorar. Dançar. Dar azo ao acaso. E, muitas vezes, cruzar os limites.
Dei por mim na Juke Box. A música era boa. Mas havia muitos carecas naquela noite. Saí. Andei às voltas pelo Bairro. Cruzei-me com uma miúda que já conhecia. Parei a olhar para ela. De onde é que te conheço?, pensei. E ela também parou a olhar para mim. Também me conhecia. Não percebia de onde. Ficámos os dois ali sozinhos, a olhar um para o outro no meio de uma rua qualquer de que já perdi a memória. E, depois, os dois ao mesmo tempo percebemos: da terra! Éramos os dois da terrinha. Da mesmo cidade da província. Frequentávamos os mesmos sítios na terra. Tínhamos amigos em comum. Pediu-me um cigarro. Sentou-se à entrada de uma casa. Sentei-me ao lado dela. Encostei-me. Senti-lhe o corpo quente. E gostei. O tempo passou e nós em câmara lenta. A conversar. A fumar. A rir. Passaram por nós todos os frequentadores do Bairro. A noite tinha terminado e nós os dois ali, sem o percebermos. Até que alguém passou e disse É melhor não ficarem por aqui. O Bairro é perigoso a esta hora! Olhámos os dois para o rapaz e ela depois olhou para mim e perguntou Queres vir lá a casa? E eu disse logo que sim.
E fomos.
Colocámos as mãos no cinto e fomos teletransportados. Como a Gente do Amanhã. Fomos teletransportados para casa dela. Para o quarto dela. Para a cama dela.
O tempo já tinha passado. Eu já tinha transpirado. Já tinha fumado um cigarro. Já tinha ido à casa-de-banho. Já me tinha deitado outra vez na cama. Deitado agarrado a ela. Nu. Nus. Já me tinha deixado adormecer.
E já tocava um despertador. Um despertador de telemóvel. Já era de manhã. O sol já entrava por entre as cortinas abertas da janela. E eu estava sozinho, afinal. Estava sozinho na cama. Sozinho no quarto. Sozinho em casa. Estava sozinho e já tinham passado trinta anos.
Onde é que se enfiou o resto do tempo?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/05]

Não Dou Beijos

Tenho os dedos das mãos inchados. Não os consigo dobrar. Devem ser frieiras. Este tempo, entre o frio e o calor extremos, mexe com o meu corpo. A minha carne. Com as articulações.
Os dedos das mãos parecem chouriços a querer romper para fora da pele que encarcera a carne no interior. A pele parece que vai estalar.
Dói.
Não consigo acender o isqueiro. Tenho de levar o cigarro ao fogão para o acender.
E penso quando ela me disse Não dou beijos.
Tinha arranjado uma miúda no Marachão. Convidei-a para vir a minha casa. Declinou o convite. Propôs uma pensão barata. Lá ao pé. Ao pé do Marachão.
Ainda não tinha os dedos das mãos assim, inchados. Ainda não me provocavam comichão. Ainda não os coçava. Ainda não doíam. Mas as costas já estavam quase em sangue. Este tempo frio provoca-me um ligeiro prurido do corpo. Nas partes do corpo que roça na roupa. As costas. As pernas. O rabo. Os sovacos. E coço. Às vezes violentamente. Costumo encostar-me às esquinas e esfregar-me nelas.
Entrei na pensão com a miúda. Cheirava a creolina. Senti-me enjoado. Agarrei-a. Tentei beijá-la. Ela disse Não dou beijos. Despiu-se. Era bonita. Muito branquinha. Seios pequenos. Um rabo teso. Umas nódoas negras nas pernas. Nos braços. Eu não me queria despir. Ela insistiu. Eu não me mexi. Ela desapertou-me o cinto. Quando me tirou a camisa não conseguiu disfarçar a aversão. O meu corpo estava arranhado. Coçado. Com riscos de sangue. A principiar uma chaga.
Fiquei nervoso. Ela também.
Voltei a vestir a camisa. O casaco. Apertei o cinto. Olhei para ela. Vi a cara de nojo. Ouvi-a dizer Não dou beijos.
Larguei duas notas de vinte euros na cama da pensão e saí do quarto. Da casa. Do prédio.
Precisava de ar.
Desci as escadas a correr. Saí da pensão a correr. Entrei na rua e cruzei a estrada sem olhar, a correr. E continuei por ali fora, a correr, a correr, até chegar às margens e ser parado pelo frio que vinha lá debaixo, da água gelada do leito do rio.
Parei. Ofegante. Faltava-me o ar. Respirei fundo. Tentei recuperar o fôlego.
Mas estava nervoso. Sentia o corpo a tremer.
Via-a a olhar para mim. Para o meu corpo. Para a bestialidade do meu corpo.
Ouvia-a dizer Não dou beijos.
Procurei os cigarros. Tentei tirar um. Não consegui. Os dedos estavam inchados. Deixei cair o maço de cigarros no chão. Dobrei-me. Apanhei o maço. Mas desisti de tentar agarrar um cigarro. Os meus dedos não eram meus. Estavam gordos. Enormes. Uma caricatura. Um desenho animado de dimensões desproporcionadas. Os dedos ardiam-me. Não conseguia dobrá-los. Cocei-os.
Coloquei o maço no bolso do casaco e fui para casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/12]