Ninguém Sabe o Quê, mas Algo se Passa!

Ela entrava e saía de casa em silêncio. Se ainda tinha voz, usava-a fora de casa. Já não a ouvia dizer nada há mais de dois anos. Dois anos nisto. Dois estranhos a viver na mesma casa mas vidas diferentes em casas diferentes.
Cada um de nós tinha o seu quarto. Cada um de nós tinha a sua casa-de-banho. A minha era no quarto. Eu fiquei com a suite. Ela é que saiu do quarto. Da cama. Da nossas vidas. Mas quando estava em casa sozinho, ia à casa-de-banho dela mijar. Às vezes mijava para cima do papel higiénico.
Todas as outras partes da casa eram de quem já lá estivesse. Quem chegasse depois, enfiava-se no quarto.
Houve uma altura em que me esqueci do nome dela.
Ela saiu do quarto, mas não tinha para onde ir. Eu muito menos. Ficámos ambos em casa. Mas ela ignora-me. Eu ignoro-a. Nunca pensei sobreviver a isto. Mas, ao fim de algum tempo, habituei-me. Ela também.
Eu nunca trouxe ninguém cá para casa. Também não tinha ninguém para trazer. Não sou muito dado às pessoas. Fujo. E acho que ainda gosto dela. Mas não tenho a certeza. Na verdade não sei muito bem. Ela também nunca trouxe ninguém cá para casa. Pelo menos que eu percebesse. E eu percebia. Passo a maior parte da minha vida aqui, em casa. Entre o quarto, a sala e a cozinha. Ela sai mais. Mas não muito mais. Lê mais que eu. Eu vejo mais televisão. Programas de merda. Gosto dos programas da tarde. Gosto daquelas conversas estúpidas sem sentido nem utilidade. Também gosto dos documentários que passam a altas horas da manhã. Sobre jornalistas infiltrados no KKK, na Máfia, na Aurora Dourada. Ela às vezes ouve música que eu ouço distante lá no quarto dela. Ela não conhece nada de música. Era eu quem lhe mostrava as coisas de que vinha a gostar. Quem é que lhe andará a mostrar músicas? É melhor nem pensar nisso! Fico com azia!
Com tanto silêncio a que já estava habituado em casa, assustei-me quando a ouvi perguntar O que é isto?
Ela estava ali. Debruçada sobre mim. Sussurrava qualquer coisa ao meu ouvido. Eu virei-me na cama. Ergui-me. O quê?, perguntei. E ela disse Não ouves? E eu insisti Não ouço o quê?. E era estranho ouvir a voz dela. Já não ligava aquela voz àquela cara, àquela boca, àqueles lábios. Ouve! dizia ela. Toma atenção! E eu tomei atenção. Mas não ouvia nada. Fiquei assim um momento. Um momento que me pareceu enorme e, quando já estava a desistir de tomar atenção, ouvi. Não sei bem o que ouvi, mas ouvi. Ela tinha razão. O que era aquilo?
Levantei-me de um salto. Fui até à janela. Ela veio atrás de mim. Abri os estores. Havia bolsas de luz no céu. Como se fosse fogo-de-artifício, mas que durava muito mais. E não fazia barulho. O barulho que se ouvia era outra coisa, mas não conseguia perceber o quê. Havia mais gente como eu na janelas e varandas a tentar perceber o que se estava a passar. Havia gente na rua. Era de madrugada, mas havia muita gente na rua. Gente a tentar sair da cidade. Começavam a arrancar carros. Motas. Camiões. Trotinetas. Havia muita gente a ir embora. Havia muita gente a pé. Não sei para onde iam. Só sei que iam embora dali. Olhei para o lado e vi o meu vizinho. Não sabia que tinha um vizinho. Estava tão aparvalhado quanto eu. O que é que se passa?, perguntou! Eu encolhi os ombros. Voltei para dentro de casa. Ela estava parada no meio da sala às escuras. Olhava para mim. Estava assustada. Eu assustei-me com ela. Por a ver ali. Já não estava habituado a vê-la por ali. Está toda a gente a sair da cidade, disse. E ela perguntou E nós? Também vamos? Eu não sabia o que responder mas disse Acho que sim! E como?, voltou a perguntar. Nós não tínhamos carro. Vivíamos na cidade. Andávamos de transportes públicos, de táxi, de uber. Quando saíamos íamos de autocarro, de comboio, de avião. Nunca precisámos de um carro. Vamos de bicicleta! disparei logo. Tínhamos duas bicicletas de quando achávamos que éramos ecologistas e jovens e desportistas. Ainda deviam estar em condições. Arranja uma mochila que consigas transportar às costas. Coisas de primeira necessidade. Alguma comida. Vou fazer o mesmo. E fomos. E quando estávamos prontos saímos de casa. Fechámos tudo. Descemos à garagem. Fomos pelas escadas. Evitámos o elevador. Encontrei logo as bicicletas a um canto. Tirei-lhes as teias-de-aranha. Soprei o pó. Dei umas bombadas nos pneus que estavam vazios, mas não estavam furados. E perguntei-lhe Consegues? E ela disse Sim.
Saímos da garagem. Do prédio. Fizemos a rua. As ruas. Saímos da cidade. Nós e outros como nós. Íamos atrás uns-dos-outros. Ninguém sabia muito bem para onde. Para fora da cidade era uma certeza. As grande bolsas de luz pareciam concentrar-se sobre a cidade. Os sons que não conseguia identificar também estavam sobre a cidade. Notámos isso à medida que nos íamos afastando.
Eu ia sempre de olho nela. A ver se estava tudo bem. Desmontámos algumas vezes nas subidas. Levámos as bicicletas à mão. E fomos.
Ainda estamos a ir. Encontramos pessoas a quem perguntamos O que se passa? Não sei! é a resposta. Ninguém sabe. Mas vamos indo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/07]

As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]

My Life in the Bush of Ghosts

1966.
A minha mãe está de pernas abertas, sobre a cama. A tentar expulsar-me de dentro dela. A parteira está com dificuldades. Não quero sair. Não quero vir para este mundo ganancioso e estúpido. Tenho de ser arrancado a ferros do conforto da minha mãe.
1975.
Estou na sala. De joelhos. A espreitar, pelos buracos da persiana não totalmente fechada, a rua. A ver a quantidade de gente que passa, a manifestar-se, a caminho da porta de armas do RAL4. Gritam O povo unido jamais será vencido. Mal sabem eles!
O meu pai entra em casa. Viro-me para dentro. Vejo-o ir ao quarto. Vejo-o trazer uma pistola na mão. Ouço a minha mãe O que é que vais fazer? O que é que vais fazer? Tem cuidado! Ouço o meu pai Anda tudo doido, lá fora!
1984.
Estou numa canadiana. Algures no Estoril. Talvez não seja bem o Estoril. Mas é na zona. Está a chover. Está a chover que Deus-a-dá! Estou enfiado dentro do saco-cama. Todo enfiado dentro do saco-cama. A cabeça coberta. Tapo os ouvidos para não ouvir a chuva a cair. Sinto a água a passar por baixo de mim. Imagino-me arrastado numa onda gigante e sugado para dentro do Atlântico.
1993.
Estou na cama. O edredão sobre a cabeça. Ouço as pessoas a passar na rua, mesmo junto à cabeceira da cama. Não consigo levantar-me. Não consigo sair da cama. Tocam à campainha. Batem à porta. Chamam-me. Gritam. Não atendo. Não estou. Não sou.
2001.
Estou em Nova Iorque. Estou em Manhattan. Estou à janela, do alto do meu apartamento. Estou de boca aberta. Incrédulo. Na linha do meu olhar, no meu horizonte, vejo um avião a espetar-se nas Twin Towers. Vejo uma das torres a cair. Depois a outra. Vejo uma enorme nuvem de pó a cobrir a ilha de Manhattan. Estou parado à janela. A ver. Não consigo desviar o olhar. Não consigo sair daqui. Não consigo mexer-me.
2018.
Estou em casa. Sentado no sofá. A casa às escuras. A televisão desligada. O telemóvel, em cima da mesa de apoio, na sala, só marca as horas. Só. Lá fora, na rua, a cidade em festa. Há fogo de artifício que me entra, às cores, em casa, pelas janelas de persianas abertas. Ouço música. Gritos de alegria. Cantoria. Passos de danças. Ponho as mãos nos ouvidos. Tento enfiar os dedos nos ouvidos. Quero bloquear os sons da alegria. Quero silêncio.
2019.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/31]

As Viagens de Carreira pelas Aldeias da Minha Terra

Entro na rodoviária e apanho uma carreira. É o que tenho feito nos últimos dias. Entro na rodoviária, vejo qual é a primeira carreira a sair para uma das aldeias à volta da cidade e lá vou eu. São as minha férias. É o meu Verão.
Houve uns dias de calor extremo em que acabei por ficar em casa, deitado no chão onde chegava o fresco, a chupar cubos de gelo e a esfregar a minha transpiração pelos tacos de madeira afagados.
Mas agora, agora ando a conhecer a minha terra.
Tenho descoberto nomes deliciosos. Alguns feios. Outros só bizarros. Janardo. Caranguejeira. Memória. Chaínça. Souto da Carpalhosa. Bajouca. Chiqueda. Pingarelhos.
Algumas terras são só uma pequena rua, deserta, outras parecem um puzzle com casas espalhadas à sorte em terrenos verdes, cheios de árvores e mato à espera de uma fagulha.
Reparo na grande quantidade de carros com matrículas estrangeiras. De França. Suíça. Alemanha. Luxemburgo. Cruzo-me nos cafés centrais, ou nos clubes da terra com gente descontraída, eles de bermudas, camisola de alças e chinelos, elas de calças de ganga riscada e manchas muito brancas e camisas estranhas com mangas grandes e em forma de balão. Eles carecas ou pouco cabelo, elas com os cabelos coloridos.
Bebem muito, falam alto e em estrangeiro.
Vejo casas a arejar. Casas que estão fechadas o ano inteiro, casas que esperam esta altura para abraçarem a vida e garantirem o regresso mais tarde e que abrem as portas e janelas para a aldeia e família.
Pelos cartazes que tenho apanhado nos postes de electricidade e nos muros das fábricas abandonadas, há festas em todas as localidades. Há festas todos os dias. Desde meados de Julho e até ao fim de Agosto, há festas todos os dias, com terras a sobreporem-se umas às outras com festas em simultâneo.
No início ainda havia uns morteiros e foguetes a avisar da festa. Agora, com medo dos incêndios, o fogo de artifício parou.
Há um nome que trago gravado na memória que se repete de terra para terra, de festa para festa, de cartaz para cartaz: Zé Café & Guida. Ainda não ouvi mas, um dia destes vou ouvir.
Depois das minhas voltas, o regresso. Volto ao ponto de partida. Chego à rodoviária de onde parti e sinto uma certa tristeza. As aldeias da minha terra são bem mais interessantes que a minha cidade.
Mas amanhã volto a partir. Deixar-me embrenhar em terras de nomes estranhos e gente esquisita e tão fascinante.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/10]

O Rapaz Caleidoscópio

Tinha roubado a bicicleta na semana anterior. Tinha roubado a bicicleta já a pensar na sua utilidade. Ou na necessidade que eu tinha dela para aquele caso em particular.
Eram sete da tarde quando saímos de casa. Quando saímos da Rua. Fomos de Leiria até à Batalha pelas estradas municipais. Cruz d’Areia, Telheiro, Barreira, Andreus e Batalha. Campo da bola na Batalha.
Uma noite amena para ver, ao vivo, UHF, Iodo, Pizolizo e Órbita.
Tinha treze anos. Tínhamos todos mais ou menos essa idade. Éramos cinco. Os Cinco. Os Cinco na Batalha. Os Cinco de Bicicleta. Os Cinco no Concerto. Os Cinco em Liberdade.
A viagem custou mais que o esperado. São mais ou menos quinze quilómetro até à Batalha por aquelas estradas secundárias cheias de curvas. Sempre a subir. No final é a descer. Mas antes, na primeira metade, é sempre a subir. É preciso força nas pernas. Bufar bastante. O descanso viria depois. Na descida.
Chegámos já com os Órbita em palco. Eram uma espécie de grupo de baile, banda de covers, apanhados na espiral do Rock Português. Tudo o que mexia, servia.
Depois foram os Pizolizo, banda de Vila Franca de Xira. Bomba Nuclear, Não. Pouco mais.
Chegaram os Iodo. As Novas das Tesouras Velhas. Uma cópia de Motels, a banda de Martha Davis. Mas também a Boneca de Cera, Ceby e, o hit que invadia as casas da Malta da Rua, o Malta à Porta, Não penses em assinar documentos em papel molhado, Porque ao fim ao cabo, Sais sempre cansado… Estava ganha a noite. Mas os Iodo não tiveram grande vida. Morreram pouco depois.
Ainda estava para vir o fogo-de-artifício e os cabeça de cartaz. O fogo-de-artifício chamava os UHF de António Manuel Ribeiro ao palco. E nós, nós os cinco, ali junto ao palco, estávamos embasbacados a olhar para toda aquela feira fascinante que só conhecíamos dos discos e dos programas de rádio e do Júlio Isidro. O António Manuel Ribeiro estava à minha frente a cantar os Cavalos de Corrida. A Rua do Carmo. O Jorge Morreu. A Geraldina e, acima de tudo, O Rapaz Caleidoscópio, Dá-me, dá-me, dá-me, Dá-me um rapaz, Calidoscópio dá-me, Dá-me um rapaz…
Chegou a madrugada. Os concertos acabaram. Regresso. Era necessário subir a primeira parte da viagem. Fomos de bicicleta à mão. A falar sobre o que tínhamos visto. O meu, o nosso, primeiro concerto ao vivo. Fora de casa. Longe de casa. Sem os pais saberem. Sem os pais sonharem.
Atrás de nós, as Serras d’Aire e dos Candeeiros em chamas. Enquanto falávamos, sentíamos algum medo de sermos apanhados pelas chamas. Era época de incêndios. Chegados aos Andreus, foi sempre a descer até Leiria, e passar na bisga ali, junto ao cemitério da Barreira, não fosse alguma alma penada pedir boleia.
Chegámos a casa e entrámos em silêncio.
Aquele foi o início de uma série de viagens e de concertos e de música que invadiu a minha vida.
Mas nunca nenhum concerto repetiu aquela magia da primeira vez. Foi como uma trip de heroína. E viciou.

Eu era o rapaz caleidoscópio.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/15]

A Felicidade, Nem que Seja à Bruta

Logo que me foi possível corri para casa. Fechei a porta da rua à chave e corri o ferrolho. Fechei todas as persianas e janelas da casa com excepção da janela da cozinha, a minha libertação para o fumo do tabaco – não gosto do cheiro frio das beatas de cigarro acumuladas no cinzeiro nem do que resta de fumo impregnado nos móveis, nos cortinados, na roupa.
Desliguei as luzes e fui até à varanda espreitar lá para baixo. E esperei. Durante algum tempo. E reinava o silêncio num deserto. Até que…
Até que as hordas vindas da periferia da cidade começaram a invadir as ruas, as estradas, entrando pelas portas dos poucos restaurantes e cafés e bares abertos para os receber e dar-lhes aquilo que vinham à procura, alimentação, álcool, música e muita alegria e felicidade. Tudo em doses industriais e brutalizadas. Em excesso. Até ao vómito, símbolo de que se chegou a algum lado.
Gente que não se falava, amigos desavindos, amantes atraiçoados e traiçoeiros, famílias de relações cortadas encontraram-se e percorreram juntos a cidade à procura da felicidade. Onde estás?
Não, em minha casa não. Aqui, a pouca felicidade que havia era minha e só minha. E não a partilharia com ninguém. As pessoas em grupo assustam-me. Não as quero aqui e por isso lhes fechei a porta.
Deixo-as procurar a felicidade onde quiserem, mas longe. Nas casas dos amigos, dos familiares, nas discotecas, em barracas improvisadas, debaixo de uma torneira de cerveja… Deixo-os exercer os seus rituais, mas à distância.
Daqui, daqui da minha varanda via-os passar em direcção ao vórtice da felicidade temporal: agora, neste momento, neste preciso momento, haveriam de ser felizes, mesmo que à bruta. Ou vai ou racha. Amanhã logo se veria. Amanhã logo lidariam com as frustrações, as ressacas, os arrependimentos, as tristezas misturadas ao sabor amargo que lhes empestaria a boca, os dentes, as línguas que guerrearam umas com as outras em batalhas inglórias e inúteis, em desejos frustrados, em ilusões que morreriam logo à nascença, em sexo forçado e provocado.
Não foi à chegada que eu quis sobreviver a esta invasão. Foi à partida. Quando a festa terminou e tombou como uma chuvada monumental, fria e agreste, a frustração de uma noite perdida. E agora? O que resta? O que fica? Para onde vou? Que braços me recebem? Que braços me acodem?
E quando os via partir, cabisbaixos, ressacados, cansados, tristes e invadidos de frustração, sentei-me na varanda e fumei o meu cigarro descansado, pensando que a seguir me ia deitar e sonhar que finalmente teria sobrevivido a mais uma passagem de ano sem ter cortado as veias de arrependimento e loucura.
E nem reparei no fogo de artifício. Nem nas mensagens caídas no telemóvel. Nem nas chamadas não atendidas. Nem que havia gente na minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/31]

O Sobrevivente

31 de Dezembro.
Eram sete da noite e não sabia o que fazer para o último jantar do ano. Ainda não tinha recebido pelos trabalhos que tinha feito em Dezembro e a carteira estava curta. Ela estava lá dentro no quarto, e não sabia de nada.
Pus-me a vasculhar o frigorífico e os armários das mercearias.
Juntei o que para lá encontrei e comecei a cozinhar. Cozi esparguete. Depois juntei-lhe um bocado de margarina por cima. Aqueci uma lata de champignons que acabei por misturar no esparguete. Peguei numa lata de atum, despejei o azeite, desfiei o atum para uma tigela e depois polvilhei sobre o esparguete. Distribui por lá umas azeitonas secas que tinha descoberto perdidas no frigorífico.
Tinha um bocado de pão duro, mas sem bolor. Cortei-o aos bocadinhos, torrei-o e verti-lhes uns fios de azeite que coloquei a decorar os pratos, à volta do esparguete. Ainda fiz uma pequena salada com um tomate e uma laranja que por lá encontrei na fruteira. O tomate já estava mirrado, mas estava bom.
Tinha um restinho de Borba tinto numa garrafa e dividi-o igualmente por dois copos.
Pus a mesa.
Fui ao quarto dela chamá-la.
Quando abri a porta ela chamou-me com a mão e disse-me Estavam ali quatro velhas com um cabrito ao colo, Não vamos comer cabrito, pois não? Não! respondi e sorri, pois já só me dava para sorrir. Já tinha passado a fase da preocupação e do desatino. Agora aguentava o embate.
Dei-lhe a mão e levei-a para a cozinha. Sentou-se e começou a comer. Não esperou por mim. Estava com fome.
Sentei-me e comecei também a comer.
No fim disse que tinha gostado bastante. Que eu me tinha esmerado. Não me perguntou nada. E eu também não disse nada. Sorri. Sorri-lhe. Só.
Depois fomos sentar-nos no sofá a ver um qualquer programa de fim-de-ano gravado previamente. Eram nove horas. E eu acabei por adormecer.
Fui acordado com o som do fogo de artifício. Já passava da meia-noite. Ela já não estava ali, no sofá. Fui ao quarto e confirmei que já lá estava, a dormir. Fui à janela da cozinha, mas não conseguia ver nada do fogo de artifício que acontecia atrás do prédio em frente.
Na televisão já tinham passado as imagens da entrada no novo ano e já estavam a dar filmes que já tinha visto várias vezes. Desliguei-a.
Fui para a janela da cozinha fumar um cigarro. Olhei lá para fora, para a rua. E, ao contrário dos outros dias, não havia ninguém a passar lá em baixo. A rua estada deserta. Eu estava sozinho. O mundo não tinha ninguém. Eu era o único sobrevivente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/29]