Duas Histórias numa História

I
Saio de casa sem grande convicção. Preciso de comprar o livro, mas o ter de ir ao centro comercial destrói-me a vontade. Ainda para mais agora. Nesta altura. Nesta altura do ano. Nesta altura do ano onde anda toda a gente histérica a comprar. A comprar coisas. Não importa o quê. Coisas. Ontem ouvi alguém falar que ia a uma loja de chineses com vinte euros e comprava vinte prendas e tinha o Natal resolvido. E eu perguntei-me Porquê? Porque raio há-de gastar-se dinheiro em lixo? Em porcarias de plástico de baixo valor que acabam por ser estupidamente caras porque não servem para nada, ninguém quer saber delas, são lixo e vão directamente para o canto da tralha a que não se liga mais?
Chego ao centro comercial. Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas já o avisto. Está lá em cima, ao fundo. No fim desta enorme fila onde estou preso. Pára-arranca. O motor a trabalhar e o carro parado. Ando um metro de cada vez e queimo não-sei-quantas octanas. Leiria está toda a caminho do centro comercial. A cidade às moscas.
Finalmente entro no parque de estacionamento exterior. Eu e todos os outros que vão comigo, à minha frente e atrás de mim. Estamos à procura de milagre? Se esta gente toda aí à frente não encontra um lugar, pequenino, insignificante, esquecido por aí, como é que o vou encontrar eu?
Guino, rápido, sem pensar, para a esquerda. Entro num caminho secundário. Para tentar algo de diferente. Nada. Nada de nada. Não há nada de diferente nos trajectos diferentes. Vou tentar dar uma volta. Vou andar à sorte. Pode ser que me caia em cima. Como um Toto-Loto.
Nada.
Ao fim de duas voltas ao parque de estacionamento, atrás de outras pessoas como eu, à procura de um lugar salvífico para parar, sem o conseguir, que raio faço aqui?
Desisto.
O Natal não é para mim. Que se lixe o centro comercial, o livro e o Natal.
Sigo em frente para contornar o centro comercial por trás e por fora. Quero sair daqui. Quero sair daqui já. Estou cansado.
E então vejo-o. Parado à minha frente. A olhar para mim. Auscultadores nos ouvidos. Cigarro na boca. Óculos à frente dos olhos, mas sei que está a olhar para mim. Aparece-me do nada. Ele está na passadeira para os peões. Na passadeira e no meio da estrada. Da minha estrada. Na mesma passadeira que eu estou a cruzar. Não o vi chegar. Vejo-o agora. Vejo-o ali. À minha frente. E sei que lhe vou bater. Merda! Vou-lhe bater porque isto está a acontecer muito depressa e eu é que o estou a atrasar na minha cabeça para o poder compreender e processar. E o que compreendo é que ele estava a atravessar a passadeira e eu não o vi a chegar, deve ter passado pelo ângulo morto do carro, não o vi, vejo-o agora e sei que vou bater-lhe em cheio, não vou muito depressa mas o suficiente para o partir ao meio se lhe acertar no sítio certo. Ou no sítio errado. Que merda! Que merda, pá!…

II
É melhor que nada, estas horas. Melhor que estar em casa sem fazer nada à espera de fazer alguma coisa que nunca faço. Mas são muitas horas seguidas. Para receber o que recebo. Estou cansado.
Mas gosto desta hora de pausa quando não chove. Saio do centro comercial. Venho à rua. Como qualquer coisa que trago de casa. Tenho de poupar. Não posso estar a gastar o que estou a ganhar.
Tiro a t-shirt da loja. Visto a minha camisola. Um casaco, que lá fora na rua está frio. Ponho os auscultadores e dou uma volta aqui ao pé, pelo parque de estacionamento, e fumo um cigarro. Ou dois. E ouço música que não aquelas porras dos Wham! e da Mariah Carey que já não suporto.
Hoje trouxe um pão com mortadela. O pão é de ontem porque não consigo comprar pão fresco antes de entrar ao serviço. Mas sou burro, não sou? Posso ir, num instante, ao supermercado comprar um pão. Trazia a mortadela de casa e fazia a sandes com pão fresco. Mas deve estar muita gente para pagar nas caixas do supermercado. Pois, é possível que esteja. Afinal é Natal. Anda tudo doido por aí a comprar coisas, coisas e mais coisas.
Como o pão aqui à saída. Não está mau. Nem muito duro, afinal. E estava a precisar de mastigar qualquer coisa.
Tanto carro aí fora! Porra! A cidade veio toda ao centro comercial. Como dizia a minha mãe Pariu a galega!
Já acabei o pão. Bebia um café. Bebo depois quando voltar para dentro. É melhor pôr os óculos. Vou fumar um cigarro. Vou dar uma volta pelo parque de estacionamento e fumar um cigarro. E pode ser que encontre uma nota de vinte caída aí entre dois carros. Querias! Pois queria! Que estupidez de conversa. Acendo o cigarro. Dou umas fortes passas e sinto a cabeça um pouco tonta da nicotina. Sabe bem.
Olha aquele carro! Aquele carro que vem aí! Não pára? Estou na passadeira, pá! Não está a ver-me. Que raio, pá. O carro vai bater-me, já percebi. O carro vai bater-me. Merda! Vou partir as pernas. A cabeça. Vou estragar o casaco. Vou perder os auscultadores e o iPod. E o cigarro está na boca. Espero não engoli-lo. E como é que consigo pensar nestas merdas todas enquanto vejo o carro a vir para cima de mim sem conseguir fugir?
Aí está ele. Foda-se! E a minha mãe? Onde está a minha mãe? Mãe, ajuda-me! por favor, se fazes favor, tenho medo, mãe, mãe, mãe!…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/09]

Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

O Carteiro Toca Mesmo Sempre Duas Vezes

Eu estava a beber. Ela também. Estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Ela ficou por baixo de mim. Acabou com as costas queimadas de roçar na carpete. Eu esfacelei os joelhos e os cotovelos. No fim fumei um cigarro. Nu. À janela. Ela não, que não fumava. Mas a boa disposição não durou muito. Ela tinha parado de tomar os comprimidos para não perder a libido e não me perder. Começou a enervar-se. Primeiro foi o cigarro. O fumo do cigarro. Depois o estar nu à janela. Zangou-se comigo. Levantou-se uma discussão feia. Nem parecia que tínhamos estado tão bem alguns minutos antes. E pôs-me fora de casa. Assim. Num estalar de dedos. Põe-te a andar! disse.
Eu fiz uma pequena mochila e saí de casa.
Sentei-me num banco de jardim no pequeno largo em frente a casa. Dali eu via as janelas. De casa ela via-me ali em baixo.
Raios partam a gaja! pensava eu enquanto acendia um cigarro e ia olhando para a janela de casa dela. Não via nada. Nada de nada. As cortinas tapavam tudo. Nem me via nu, à janela, a fumar um cigarro depois de ter feito amor com ela.
Veio a noite. Deitei-me no banco. Enrolado sobre mim próprio. A cabeça sobre a mochila. Para onde é que havia de ir? Não tinha dinheiro para um hotel. Não ia para casa da minha mãe. Fiquei ali. No banco de jardim. Frente à casa dela.
Estava com fome. Mas acabei por adormecer.
Fui acordado de madrugada. Já se via o dia clarear atrás da montanha que rodeava a cidade. Fui acordado com o telemóvel a tocar. Era ela. Anda para casa! dizia.
E eu fui para casa. Para casa dela.
Mas isto voltou a acontecer mais vezes. Ela voltou a não tomar os comprimidos. Bebíamos cada vez mais. Passávamos os dias nus a andar por casa. Ela trabalhava em casa. Eu estava sem trabalho. Bebíamos e comíamos. E fazíamos sexo. Dançávamos. Dançávamos muito. Dançávamos nus, enrolados um no outro. Às vezes estávamos alguns dias sem tomar banho. Íamos para a cama. Depois para o sofá. Para a mesa da cozinha. À porta da rua a ouvir o elevador a subir e a descer. Também aconteceu no duche, numa das poucas vezes, nesse período, em que tomámos banho.
Durante essa época fui posto na rua mais três ou quatro vezes. De todas as vezes ela acabava a mandar-me subir. E eu era bem-mandado. Saía de casa quando ela me mandava embora. E voltava a subir quando ela me chamava. Foi um período um bocado esquizofrénico. Muito amor. Muito ódio. Muito sexo. Muita loucura.
Este foi um período muito estranho. Bebia muito. Ela também. Eu fumava. Ela não, não fumava cigarros. Mas acompanhava-me nas ganzas. Nessa altura fazíamos grandes banquetes. Experimentávamos cozinhados com o que havia lá por casa e, normalmente, acabávamos no chão da cozinha, um em cima do outro, às vezes violentamente, a tentar descobrir até onde é que conseguíamos ir. E fomos muito longe. E fomos, por vezes até, demasiado longe. Mas não quero falar sobre isso.
Ela continuava sem tomar os comprimidos.
A última vez que me mandou embora eu fui, mas dessa vez não fiquei no banco de jardim. Também, já era Inverno, estava frio e ameaçava chuva. Ganhei coragem e fui para casa da minha mãe. O telefone voltou a tocar de madrugada. Mas dessa vez não atendi. E durante essa semana, nunca atendi o telefone. E depois, as chamadas dela foram espaçando-se no tempo. Até se extinguirem por completo.
Eu acabei por arranjar um trabalho. Continuei a viver em casa da minha mãe. Afinal, não estava lá mal.
Hoje estava no Pingo Doce, um pequeno Pingo Doce que existe ao pé de casa da minha mãe, estava a comprar umas cavalas para ela cozer (ela gosta de cavalas cozidas com feijão verde) quando a vi. Ela estava parada, ao lado dos congelados, a olhar para mim enquanto eu pedia à senhora do supermercado para amanhar umas cavalas.
Ela tinha uma garrafa de Mouchão nas mãos. E disse Olá. Eu fiquei a olhar para ela. Para ela e para a garrafa de Mouchão. Foda-se! pensei. Larguei as cavalas e o cesto com as compras que estava a fazer para a minha mãe e saí com ela do supermercado.
Fomos para casa dela.
Eu comecei a beber. Ela também. Já estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa dela. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Eu levantei-me e vim até à casa-de-banho. Ainda cá estou. Queria ir-me embora. Não devia ter vindo. Não devia ter vindo para casa dela. Não quero voltar a passar pelo mesmo. Eu estou nu aqui dentro. Aqui na casa-de-banho. Ela está nua na sala. À minha espera. E eu quero ir-me embora. Mas não sei como.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/23]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Eu Sei!

Estou no carro. Vou a descer a estrada em direcção à Batalha. Ao fundo, sobre a montanha o céu está negro.
Estou a descer a estrada e sinto cair-me em cima uma enorme opressão sobre o peito. Não sei de onde veio. Caiu assim. Sobre mim. Entristeço. Largo por momentos o volante.
Esqueço-me que estou na estrada.
Pareço ter uma ninhada de ratos a roer-me as entranhas. A furar dentro de mim. A morder-me. A moer-me.
Ponho as mãos na barriga. Dói-me lá dentro. Mas não sinto nada. Não me dói nada físico. É só qualquer coisa lá dentro. Uma impressão. Que sobe até ao pulmões e os aperta. Dificulta-me a respiração. Respiro devagar. Respiro.
Tenho a cabeça a rebentar. Pende do pescoço. Quer cair e rebolar por mim abaixo.
Não cai. Mas eu queria que caísse. Que a cabeça caísse eu deixasse de pensar nos ratos que me comem cá por dentro.

queria fumar um cigarro beber um copo de vinho tinto ver o carmina burana pelos la fura dels baus o jogo sem interesse da selecção nacional contra a lituânia comer uma língua de vaca uma salada de orelha de porco uma salada de polvo com um molho de vinagrete beber uma cerveja belga blanche ir para a cama com a ana com a bela com carla com a dora com elas todas em separado ou juntas não importa quero mijar tomar um ben-u-ron caff contra a enxaqueca que me cega uma bombada de ventilan para respirar melhor usar preservativos para me proteger das intempéries ouvir o novo disco do devendra banhart ou ver o parasitas de bong joon-ho mas esse afinal já vi já vi e gostei bastante foda-se tanto cinema e análise social lá dentro um filme sobre a luta de classes já transportada para outro nível agora é a sobrevivência a qualquer custo e o salário mínimo é miserável e o médio não é grande merda e o salário do antónio mexia é pornográfico mas que se foda o antónio mexia e a edp e o antónio costa e o antónio saraiva e são todos antónios estes cabrões que já me chateia e agora até uma torrada de pão caseiro e barrada com manteiga milhafre dos açores ou primor meio-sal e um chá já me alegrava e podia levar para longe esta amargura que tenho dentro de mim que não sei de onde veio mas podia para lá voltar e deixar-me em paz de papo para o ar a apanhar banhos de sol na praia de são pedro de moel onde o sol nunca nasce antes do meio-dia e beijar a minha mãe o meu pai a minha filha o meu filho a mim num espelho onde me vejo de barba feita e cabelo penteado num eu que não sou mas que deveria ser dizem-me e beber uma garrafa de vinho branco talvez um verde alvarinho a acompanhar umas pernas de rã que comi uma vez e jurei que voltaria a comer porque gostei tanto mas tanto e nunca mais as vi as pernas de rã em lado nenhum e um pastel de tentúgal e um esquimó que dantes havia em todo o lado e agora em lado nenhum ou uma morcela de arroz que acho que ganhou um prémio qualquer que deve ter sido importante e eu só penso em comida não sei porquê que nem fome tenho mas ia ver o concerto do nick cave que afinal é só em abril e no altice arena que tem uma merda de som nunca lá vi nenhum concerto que me agradasse e agarrava agora na eliete da dulce maria cardoso para ler e porque é que não agarro no livro e o leio porquê porquê porquê porquê

E descubro-me dentro do carro a descer a estrada em direcção à Batalha e o céu está escuro como breu e começa a chover torrencialmente e eu vejo as mãos, as minhas mãos, a tremer por cima do volante que está solto, e baixo-as e agarro o volante e o carro e tomo a vida, a minha vida, nas minhas próprias mãos.
Sinto uma angústia enorme a consumir-me. Cá dentro. Cá dentro do peito. Do meu peito. Quero gritar mas não consigo. Tenho o volante nas mãos.
Vejo um camião TIR a vir no sentido contrário. Vem depressa. Eles andam sempre depressa nestas estradas. Eu conduzo na minha faixa. E, no último segundo, viro o volante do carro. E quero mesmo que seja o último segundo. E nesse último segundo ainda penso Eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/14]