Um Lobo na Montanha

Estou na montanha. Vim tirar fotografias à montanha e perdi a noção das horas. A noite começou a cair e eu fui apanhado de surpresa. Ainda há quinze minutos havia sol. Ainda há quinze minutos estava a tirar uma fotografia a uma ventoinha eólica, daquelas que inundaram o horizonte das Serras d’Aire e dos Candeeiros, em contraluz e, agora, já quase não vejo onde ponho os pés.
A Lua já nasceu, mas está sem grande brilho. Não me parece haver nevoeiro, mas não vejo estrelas no céu. A Lua parece baça. Não é das lentes. Estou sem óculos. Só uso óculos para ler. Quando tiro fotografias não uso óculos. Não me deixa aproximar do visor da câmara. Já me magoei várias vezes no nariz por me esquecer que estava com óculos e aproximava o visor da cara e batia com os óculos na câmara e no nariz. Deixei de usar óculos a fotografar.
Vejo as luzes das aldeias lá em baixo a tremer. Lá ao fundo deve ser Porto de Mós. Há muitas luzes. É o sítio onde há mais luz. Deve ser mesmo Porto de Mós. É para ali que devo ir. Tenho de tomar cuidado. Para não me perder. Para não cair nalguma ribanceira. Nalgum buraco. Para não tropeçar.
Tenho as pernas cansadas. Trouxe botas para a montanha. Por causa das pedras. Da bicharada. Se chovesse. Não choveu. Mas agora custa-me caminhar com o peso das botas nos pés. Mas é a descer. E a descer, todos os santos ajudam.
Ouço um barulho. Um pequeno barulho. O que será?
Páro. Suspendo a respiração. Não faço nenhum barulho. Dedico toda a atenção ao som que, acho, estou a ouvir.
Sinto o coração a bater muito depressa. Estou ansioso. Pode ser um animal.
Aproximo-me de um declive. Parece um grito. Talvez um choro. Vem lá de baixo. Deixo-me deslizar devagar. As botas não deslizam bem. Acabo por ir aos tropeções. Tenho a câmara nas mãos. Mas não caio.
Ouço um grito. Mais parece um gritinho. O som é muito baixo. Mas vem dali. Parece um arbusto. Ao fundo, as luzes de uma pequena aldeia. Não sei que terra é essa. Lá mais ao fundo é Porto de Mós, com certeza.
Espera!… O que é aquilo?…
Um lobo! Parece um lobo. Parece um lobo, ao lado do arbusto. O lobo arreganha-me os dentes. Mas afasta-se. Afasta-se lentamente do arbusto.
Quero fugir!
Tento começar a andar para trás. Subir o pequeno declive. Mas ouço. Ouço nitidamente. Há um choro. Um choro pequenino e abafado, vindo do arbusto. Estou indeciso. Olho para o lobo. Disparo o flash da câmara. O lobo encandeia-se. Ladra. Ladra-me. Mas afasta-se. Arreganha-me os dentes. Rosna. Mas afasta-se. Como se quisesse que eu fosse ao arbusto.
E eu vou.
Aproximo-me devagar. Estou a tremer de medo. Tenho frio. Estou a transpirar. Não deixo de olhar para o lobo. Afasto uns ramos. E vejo. Um bebé. Um bebé a mexer os braços e as pernas. Está uma mantinha aberta à volta do bebé. Deve estar com frio. Agarro no bebé. Na mantinha. Dei as costas ao lobo. Esqueci-me dele. Quando me viro, com o bebé ao colo e enrolado na mantinha, descubro-o. Páro. Ele já não rosna. Já não me mostra os dentes. Tem o rabo entre as pernas e afasta-se de mim. Vai olhando para trás à medida em que se afasta.
Eu tenho o bebé ao colo. E a câmara na mão. Subo o declive. Devagar. Vejo as luzes de Porto de Mós lá em baixo. E começo a dirigir-me para lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/03]

O Homem à Boleia na Benedita

A Benedita, que é também um belo nome de menina que poderia ser rainha, no tempo em que as meninas não eram princesas, mas podiam ser rainhas se lhes corresse sangue azul nas veias e não este proletário encarnado que jorra quando cortado, é uma terriola ali nas margens da EN1. Ficou bastante conhecida pelo calçado, pelas facas, pelo pão e pela Venda das Raparigas. É uma terra com bastante indústria, especialmente de calçado e cutelaria. O pão foi fazendo o seu caminho e ganhou artigo: O pão da Benedita! A Venda das Raparigas era a localidade mais famosa da freguesia, terra cortada a meio pela antiga EN1 e, quando eu lá passava, de expresso, a caminho de Lisboa, e via a placa de entrada com Venda das Raparigas, imaginava um estrado num barracão (também há uma terrinha chamada Barracão, mas é para o outro lado), com uma série de raparigas semi-nuas lá em cima, em leilão, e uma data de marmanjos desdentados a fazerem lances por cada uma delas, coitadas. E eu a pensar se tal coisa poderia ser mesmo possível ou eu era mesmo só um idiota com a cabeça toda fodida dos ácidos.
Mas para além das coisas que lhe dão fama, a Benedita não tem nada de especial. É uma estrada que começa na EN1, que vai por ali fora, uma recta enorme, polvilhada de fábricas, primeiro, pequenos prédios depois, passando por duas ou três rotundas, perdi-lhes a conta, e uma série de cafés, isso sim, digno de nota, abertos à noite, coisa que já começa a rarear em terras maiores e cidades que almejam outros voos. A Benedita não tem falta de cafés. E bares. Não sei se tem vida nocturna. Se tem gente nocturna. Mas tem condições para isso. À volta das rotundas. Ao longo da estrada. No rés-do-chão dos pequenos prédios que acompanham a estrada até chegar à igreja que fica lá mesmo no topo da estrada, altaneira. Ao lado da igreja, a escola. Atrás, um auditório. Eu sei porque fui lá. Fui ao Centro Cultural Gonçalves Sapinho ver um concerto de Frankie Chavez. E foi depois do concerto que tudo aconteceu.
Saí do auditório. Ouvi uma brasileira pedir Você vai buscar o carro?, e uma voz rude de homem responder a rir, Nã, porra! O carro está já ali em baixo! Ela ainda retorquiu Mas os saltos…, mas não teve sorte. Sorri.
Entrei para o carro. Fiz o caminho no sentido inverso. Deixei a igreja atrás de mim. Na primeira rotunda estava um tipo à boleia. Nem sabia que ainda andava gente à boleia. À noite. No meio da terriola.
Segui em frente. Na segunda rotunda, outro tipo à boleia. Comecei a rir. Pensei que a Benedita já não era a terra do calçado, mas da boleia. Ao passar pelo tipo jurei que parecia o mesmo da rotunda anterior. Senti um calafrio pelas costas. Nã!…
Continuei pela estrada. Deixei os pequenos prédios para trás. E ao aproximar-me da zona das fábricas, numa parte mais sombria, onde havia um candeeiro público fundido, lá estava, outra vez, um homem à boleia. E desta vez, tinha a certeza. Era o mesmo homem. O mesmo homem que me pedira boleia lá atrás. Por duas vezes, lá atrás. Passei à frente dele. Olhei-o. Fiquei assustado. Com medo, mesmo. Tremi. Transpirei. Senti as mãos molhadas no volante. A barriga começou às voltas. Os nervos. Senti frio. Desliguei o rádio. Queria estar atento. Ouvir todos os barulhos da rua. Do carro. Da minha cabeça. Havia muitos barulhos na minha cabeça. Não os percebia. Estava com medo. Queria dar-lhes atenção.
Fiz o resto da estrada até ao fim. Depois virei à esquerda na EN1.
A Benedita é uma terra estranha, pensei. Enquanto descontraía. E estava a olhar para a estrada, atento à estrada nacional, quando o vi novamente. Agora estava lá à frente, na EN1, numa zona deserta. Numa zona escura. Não havia mais carros para além do meu. Nem para um lado, nem para outro. Nem ao longe eu via faróis de outros carros que estivessem a aproximar-se. Comecei a tremer. A tremer de medo. Espreitei pelo espelho retrovisor, mas não vi luzes nenhumas atrás de mim. A minha cabeça era uma confusão de conversas desconexas. À minha frente o homem. O homem de barba. Uma barba branca que se via ao longe. O cabelo curto. Alto. Magro. O braço esticado. O polegar para cima. Pensei no Facebook e comecei a rir, com os nervos. Eu aproximava-me dele. Ele aproximava-se de mim. Faltou-me o ar. Queria respirar e não conseguia. Abria a boca. Levei a mão ao pescoço. Estava nervoso. Com medo. Massajei-me. As mãos molhadas escorregavam pelo pescoço. Depois escorregavam no volante. Acelerei. Ou pensei que acelerava. Porque o carro parecia mover-se em câmara-lenta. Aproximei-me do homem. Ele de braço esticado. Olhámos nos olhos um do outro. Depois um relâmpago. Um flash branco. Os meus olhos encadearam. Deixei de ver. Deixei de estar. Deixei de sentir. Eu não era eu. Era só uma energia rodeada de branco. Puf!…

Estava tudo preto. Despertei na escuridão. Virava a cabeça e não via nada. Só escuro. Noite.
E depois, aos poucos, umas linhas mais claras. Uns contornos. Os contornos de uns corpos. Cores. Vozes. Vozes baixas. Sussurradas. Mas não era na minha cabeça. Era exterior a mim. Vinha de fora. Havia gente a falar ali à minha volta.
Senti os olhos a abrir. Senti-me a despertar. As linhas focaram. As imagens tornaram-se nítidas. E vi o homem. Reconheci o homem. O homem da boleia. Estava à minha frente. Debruçado sobre mim. A barba branca. Uma bata, também branca. Uma pequena lanterna sobre os meus olhos. De um para o outro. E de novo, de um para o outro. E depois disse Bem-vindo de volta, rapaz!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/24]

O que É que Lhe Terá Acontecido?

Estávamos os dois naquela pequena escuridão, de língua na boca do outro, e as mãos, marotas, a entrar por baixo das camisolas, da minha e da dela, que ambos desejávamos tocar naqueles pontos tão sensíveis e macios, quando a luz se acendeu.
Parecia o flash de uma máquina fotográfica, acender e apagar, assim em rápida acção, como a preparar o caminho para depois acender completamente. Um bocado como o balastro daquelas luzes frias e merdosas das lâmpadas fluorescentes das cozinhas antigas, que ainda são o que há, pelo menos nas casas por onde eu vivo. São umas luzes que parecem que estão com medo de acender, vai-não-vai e lá acaba por ir. Ou vir. A luz. Finalmente.
Mas habituado aquela escuridão propícia ao desejo, assustei-me com o despertar daquela luminosidade e o pigarrear de quem lá vinha, juntamente com a luz.
Assustei-me, sim. Assustei-me e levantei-me num ápice de velocidade super-sónica e subi os lances de escada que me levavam até casa. Abri a porta. Entrei. E encostei-me a ela. O coração a saltar. O ouvido na porta. Quem lá vem? Quem será?
E então pensei nela. Nela que deixei lá, no meio das escadas, com a camisola subida. O sutiã à mostra, quase de certeza. E ela lá sozinha. Quem é que lá viria? E como é que ela iria escapar daquela situação?
Percebi, então, que tinha o cinto das calças desapertado. E o primeiro botão das calças fora da sua casa. Os passos passaram pela minha porta e continuaram para cima. Não ouvi vozes. Onde é que ela se teria metido?
Deixei-me deslizar pela porta abaixo. Serenei o coração que parecia querer saltar peito fora.
Acalmei.
Abri a porta e, de novo às escuras, desci as escadas. Mas ela não estava lá. Nem nunca mais lá voltou.
Senti a língua dela na minha boca. As bocas húmidas. E frescas. As línguas a tocarem-se. O chocar dos dentes na ânsia de sentir. A minha mão a tocar-lhe numa mama por cima do sutiã. A mão dela por baixo da minha camisola. A mão dela na minha perna. A mão dela a desapertar-me o cinto. A mão dela a abrir os botões das calças. A frágil luz da Lua que entrava pela clarabóia das escadas do prédio e nos mantinha naquela intimidade de sombras e contornos. Na acolhedora escuridão.
Toca-me. Toco-te.
E depois a porra da luz!
A porra daquela luz!
Onde é que estás?, perguntei-me.
O que é que lhe terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/09]

Quando É que Estávamos?

A rádio transmitia o I Could Be Happy dos Altered Images. Acho que era a TSF.
Nós vínhamos de carro, pela nacional, ali entre Águeda e Anadia.
I would like to climb
High in a tree
I Could Be Happy
E lembrei-me Queres ir comer uma sandes de leitão ali na Mealhada?, Sim, pode ser, respondeu.
Continuámos estrada fora. Eu ia a bater os dedos no volante. E chegámos à Mealhada. Onde queres ir?, perguntei. Um qualquer, respondeu.
E eu ia a virar no primeiro e ela disse Aí não que há muitos autocarros de turistas, e desviei o carro de regresso à estrada e no seguinte, Esse não que está muito cheio, e depois, Esse não que está muito vazio, e continuou, Fui a esse uma vez com os meus pais e foi muito mau, e a seguir estava fechado e o seguinte também e depois acabou-se e disse-lhe Acabaram-se os restaurantes, o leitão e a Mealhada. Não me respondeu. Mas percebi a cara fechada dela. Ainda ia sobrar para mim.
All of these things I do
All of these things I do
To get away from you
Fomos andando. Acabei por apanhar a A1.
Viemos calados o tempo todo.
Saímos em Leiria.
Perguntei-lhe Queres ir ao Mac?, Sim, pode ser, resmungou baixinho, assim num sussurro para que ninguém ouvisse que ela até ia ao McDonalds.
Chegámos à rotunda, e a fila de carros para o McDonalds era enorme e ela disse Caga nisso, vamos para casa, e eu até a compreendi, percebi a frustração, eu também estava assim e então acelerei o carro, acelerei prego a fundo Avenida da Comunidade Europeia acima, acelerei tanto e com tanta raiva que desapareci, melhor, a estrada desapareceu, houve uma explosão a branco como se nos tivessem tirado uma fotografia com um flash gigantesco e, quando regressámos, ou a estrada regressou, não havia estrada, estávamos no campo, num caminho de terra batida entre videiras pontuadas com algumas oliveiras, com uma carroça a ser puxada por uma parelha de bois conduzida por um moço de barrete na cabeça e duas moças roliças e coradinhas sentadas em cima de um monte de roupa branca em cima da carroça.
Já não ouvia o rádio. Não havia rádio. Nem estática.
Mas continuava a ouvir na minha cabeça:
Get away
Runaway
Far away
How do I
Get away
Runaway
Far away
How do I escape from you
Olhei para o lado e vi que ela estava assustada.
Eu também estava assustado.
Onde raio é que estávamos?
Ou melhor, Quando é que estávamos?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/08]