Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

As Pessoas São Porcas

Estou atrás da velha e olho-a a comer o gelado. Ela agarra o pau do gelado com o papel que o embrulhava para não se sujar se começar a derreter. E eu estou à espera. Estou à espera para ver o que é que ela vai fazer. Mas não tenho muitas dúvidas.
As pessoas são porcas. Porcas e más. E só pensam nelas. As que pensam. Há quem simplesmente nem pense. As coisas são assim porque sempre foram assim. Nem é por mal. É só por rotina ou, como é costume dizer-se nos dias que correm, por tradição.
Eu estou muito irritado. Por isso estou atrás da velha à espera para ver qual o fim daquele prazeroso gelado que lhe refresca as goelas.
Estou no Sítio da Nazaré e estou muito irritado.
Comecei a irritar-me logo de manhãzinha a caminho da cá.
Antes de chegar a Pataias apanhei um Renault Clio com a chapa toda comida pela ferrugem. Nem percebi qual a cor do carro. Que cor estaria no Livrete? Deitava uma nuvem de fumo. Pelo cheiro, óleo queimado com certeza. Obrigou-me a fechar os vidros do carro e a ligar o ar-condicionado. Coisa que nem gosto de utilizar, que me faz constipar.
Primeiro foi um pedaço de papel de alumínio que saiu pela janela do lado esquerdo e esvoaçou estrada fora até se perder no interior do Pinhal. Logo depois foi uma embalagem de iogurte lançada pela janela do lado direito. Esse caiu a pique e andou a rebolar pela estrada, passei-lhe por cima e perdi-o de vista.
Espremi a buzina. Bati várias vezes com a mão no centro do volante para chamar a atenção ao interior do Clio. Debalde.
Continuei atrás do carro.
Ainda vi sair uma casca de banana que atingiu a berma da estrada e sobre a qual pensei É biodegradável.
À chegada a Pataias parámos num semáforo vermelho. Eu atrás do Renault Clio. Um braço, na janela esquerda, cuja mão segurava um cigarro que entrava e saía do interior do carro. Quando o semáforo passou a verde, antes de arrancar, a mão largou a beata acesa que caiu no asfalto.
Irritei-me ainda mais. Acelerei atrás do carro e, no meio da vila, com traço contínuo, ultrapassei o Clio e, no momento em que estava mesmo ao lado do condutor disse Porca!, para a mulher que descobri a conduzir. Não vi quem ia ao lado da Porca.
E tive de guinar, rápido, o volante para a direita que me ia espetando na carrinha Renault Trafic que vinha no sentido contrário e que teve de se chegar à esquerda e fartou-se de apitar para mim e com razão. E eu, enquanto voltava à minha faixa só conseguia pensar Só há Renaults na estrada, hoje? É que, até eu próprio conduzia um Renault Twingo comprado através do OLX.
Continuei em frente. Deixei o Renault Clio com cor confusa para trás e segui para a Nazaré. Zangado. Furioso com esta gente. Gente porca e estúpida. Gente egoísta.
Não desci logo à Nazaré. Subi primeiro ao Sítio para comprar uns tremoços e umas pevides. E foi aí que a vi. A velha. A velha a comer o gelado junto ao penhasco. E percebi o que ia acontecer.
E está a acontecer. A velha chupou o gelado todo. Resta-lhe o pau e o papel, a envolver o pau, na mão. Olha em volta. Imagino à procura de um caixote do lixo. E não há nenhum. Sim, a velha tem razão. Mas então, larga o papel do gelado sobre o penhasco. Um penhasco cheio de lixo, de outros papéis de gelados, garrafas de plástico de água, raspadinhas, sacos de plástico das pipocas.
Estico o braço com força e empurro a velha do penhasco abaixo. E digo Porca! Ouve-se um pequeno grito abafado pela queda. Espreito para baixo e ainda a vejo a cair.
Vou-me embora. Vou à Batel comer uma sardinha e beber um café antes de ir para a praia. Ainda é época balnear? Olha, nem sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/17]

Elliott Smith

Acordei bem disposto. Acordei beijado pelo sol que entrava sorrateiro por entre as cortinas mal fechadas da janela. Abri um olho. O outro. Sorri ao sol. Senti o apelo do Verão e pensei É hoje que vou à praia.
Durou pouco esta sensação.
Primeiro porque mal tinha saído do banho, o sol já se tinha escondido atrás de uma nuvem escura como breu a prometer chuva.
Depois porque as redes sociais me recordaram Elliott Smith. Recordaram-me a morte de Elliott Smith pelo seu nascimento. Nasceu a seis de Agosto. Seis de Agosto de Mil Novecentos e Sessenta e Nove. Faria hoje cinquenta anos. Que não chegou a fazer. Já lá vão dezasseis anos. Dezasseis anos de ausência. Morreu em dois mil e três. Em Outubro. Num mês melancólico como convém a quem é melancólico.
Conheci-o com Figure 8. Afinal, o seu último trabalho lançado em vida. Conheci-o no fim. Só depois andei às arrecuas. E fui conhecer o resto. E depois, já depois da morte, conheci o From a Basement on the Hill, o disco em que andava a trabalhar quando morreu. Saiu algum tempo depois. Não sei o que dizer do disco. Claro que gostei. Um disco triste? Melancólico? Ele era sempre melancólico, mesmo quando a música apelava a bater o pé, com ritmo e entusiasmo. Descobrir ali a morte? Algum apelo? Não sei.
Conheci Elliott Smith tarde mas foi logo amor à primeira audição. Ouvi-o por acaso. Acho que gostei da capa do disco. Gostei da figura dele lá na capa. A figura de alguém que estava ali por acaso, porque alguém lhe disse para ficar. Mas sempre vi aquela personagem a querer ir embora para algum buraco com a guitarra na mão. Não o conhecia. Ouvi. Apaixonei-me. Quero mais, pensei.
Fui pôr o CD a tocar. Gosto muito deste disco, o Figure 8. Ainda hoje. Claro que há muito tempo que não o ouvia. Tanta coisa para ouvir nos dias de hoje que acabo por esquecer algumas das melhores coisas que fui colhendo ao longo do tempo.
Fiquei a pensar nisto tudo enquanto ouvia o disco. Fui para a varanda fumar um cigarro quando começou a chover. Não vinha tocada a vento e não me molhou. Estava-se bem na varanda. O som das colunas ainda lá chegava e lutava com o barulho furioso da cidade pela minha atenção. Mas os dois sons foram servindo de embalo. Misturaram-se um no outro. Criaram uma massa de som que servia de banda-sonora ao que não conseguia afastar da cabeça.
O sol incipiente. A chuva no Verão. A música. O prazer da música. O Elliott Smith. O Figure 8. A depressão. A morte.
Eles são sempre assim. Pessoas geniais. Pessoas magníficas. Pessoas capazes de transmitir sol em dias de chuva. Capazes de nos fazer chorar de alegria. Obrigar-nos a guerrear por um pedaço da sua genialidade. Às vezes nem os percebemos. Às vezes não queremos perceber. Às vezes mijamos para cima deles quando os sentimos frágeis. Lembro-me de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa. A chacota. O riso. O gozo. O prazer de malhar quem está no chão. Eu sei porque também eu fiz o mesmo. E hoje tenho raiva de mim por isso. Por não ter percebido. Porque nunca percebemos. E quando percebemos, geralmente é tarde demais e depois só nos resta lamentar. Que é uma coisa que fazemos muito bem, principalmente em frente dos outros. Olha com eu sofro por ele! Por eles!
Este Verão está uma neura. Eu fui fumando cigarro atrás de cigarro à varanda. A tentar a chuva. Mas a chuva não me chegou a molhar. Mas molhei a cara. A morte é terrível, mas também é um fascínio. O fascínio do abismo.
Depois parou de chover. As nuvens escuras dissiparam-se e o sol regressou. Não tardou muito para estar calor. Mas para mim já era tarde. Entrei para dentro de casa e sentei-me no sofá.
Ainda estou sentado no sofá. Não me apetece ligar a televisão. O disco já chegou ao fim. A casa está em silêncio. Mas a minha cabeça não. Aqui vai uma grande confusão. Uma gritaria. Discussões. Muitos de mim a quererem dar ordens. E eu a perder o controle.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/06]

Há Gente Brilhante a Quem a Vida Vira as Costas

Quando o pai dele morreu, ele passou a estar a maior parte do tempo aqui em casa. Até que se mudou para cá.
Já cá passava bastante tempo. Era a escapatória a que se permitia. Tinha abdicado de tudo por causa do pai. Desistira de uma carreira no cinema por causa do pai. Desistira de ter uma relação amorosa por causa do pai. No início ainda ia tendo uns casos. Nada de muito sério porque ele também não queria. Tinha o pai para cuidar. Mas depois, mais para o fim, isolou-se e deixou de se dar com outras pessoas. Família. Amigos. As namoradas que foi tendo. Desligou-se de tudo. E foi fácil desligar-se de tudo. Deixou de sair. Deixou de ter telemóvel. Desligou-se das redes sociais. Depressa também foi esquecido. Passou a viver em função do pai. Cuidava dele. Dava-lhe banho. Vestia-o. Lavava-lhe a roupa. Cortava-lhe as unhas das mãos e dos pés, o que mais lhe custava fazer, chegou a dizer-me. Cozinhava. Levava-o a passear. Todos os dias o ajudava a dar umas voltas a pé à volta do parque em frente a casa. Aos Domingos pegava no carro e levava-o mais longe. À praia. Às vezes a almoçar fora. Uma vez levou-o a ver um jogo de futebol da União de Leiria, que ele já não via há que tempos. Outra vez foi de propósito a Lisboa para o levar ao Bingo. Mas o pai não gostou. Era tudo demasiado rápido para ele. Atrasava-se a confirmar os números. Uma vez chegou a deixar passar uma linha e, depois do grito de Bingo!, já foi tarde.
Entre os cuidados com o pai, ele vinha cá a casa. Bebíamos um vinho. Fumávamos uns cigarros. Conversávamos. Conversávamos muito. Ele lia bastante e gostava de discutir os livros que lia. Às vezes eu nem sabia do que é que ele estava a falar, mas deixava-o falar. Ele era um bom orador. Um orador entusiasta. E que entusiasmava.
Viviam da pensão do pai. A casa era alugada. O carro era do pai e era a única coisa de valor que ainda tinham. Mas já era um valor residual. Os carros começam a desvalorizar mal saem do stand, não é? Aquele carro tinha sido comprado em segunda mão. O valor já não era muito. Chegaram a ter um cão mas morreu já o pai estava reformado e ele a cuidar do pai. Nunca mais quiseram ter outro cão.
Quando o pai morreu, ele não sabia muito bem o que fazer. Passou ali uns tempos um bocado complicados. Estava há muito tempo afastado do mundo para voltar a ele assim, de chofre. Começou a passar mais tempo cá em casa. Até que se mudou em definitivo para cá. Fui eu que o sugeri.
O pai morreu e acabaram-se os cheques da pensão. Ao fim de algum tempo deixou de ter dinheiro. Ainda procurou trabalho. Mas não conseguia nada. Como é que havia de conseguir? Já estava velho para o mercado de trabalho. Ainda era um tipo novo mas, para qualquer trabalho, nos dias de hoje, havia sempre meia-dúzia de miúdos esfomeados prontos a matar por uma oportunidade. Alguns sujeitavam-se até a trabalhar sem receber na esperança de fazerem bom trabalho e serem convidados a ficar. Ele não se importou muito. Custava-lhe estar com outras pessoas. Cansavam-no.
Teve de deixar a casa. Ficou sem dinheiro para a renda. Para a água, para a luz, para o gás.
Convidei-o a ficar cá em casa. De qualquer forma já cá passava tanto tempo. Foi só trazer as suas poucas coisas. Deitou quase tudo o que tinha em casa para o lixo. Trouxe a roupa. A roupa e alguns livros. E o carro. Ainda andava e já ninguém lhe dava nada por aquilo.
Aqui em casa cozinhava. Limpava. Fazia pequenos arranjos. Mesmo coisas mais complicadas, não desistia enquanto não dava conta do recado. Tratava do jardim. Nunca saía. Passava a maior parte do tempo em que não estava a fazer nada na casa ou a cozinhar, a ler. Lia muito. Leu uma grande parte dos meus livros. Livros que eu nunca li.
E então um dia, cheguei a casa e ele não estava cá. Descobri um papel na cozinha onde estava escrito Desculpa. Só isso. Desculpa.
Depois descobri-o no fundo do poço que está no jardim. Jogou-se no poço.
Acho que a vida nunca o quis. E ele cansou-se de andar para aqui assim. Numa vida sem sentido.
Desculpa, escreveu no papel que deixou na cozinha. E foi só o que deixou. Desculpa.
Gostava de conversar com ele. Era um tipo inteligente. Um tipo que merecia ter mais do que o que teve. Teve azar na vida que teve. Há gente assim. Gente brilhante a quem a vida vira as costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/24]

Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

No Dia da Morte de Agustina

No dia da morte de Agustina e da sua passagem ao panteão da imortalidade, onde se firmam os pequenos deuses da história do Homem, penso na minha própria imortalidade.
Mas a minha não é figurada. Eu não sou construtor de vidas. De obras. Eu não deixo legado. Não preciso.
Eu sou mesmo imortal. Num certo sentido, sou Deus.
Sou eu que concebo o mundo e todas as coisas que ele contém. Todas as coisas que existem acima do céu. Todas as coisas que existem abaixo da terra no cemitério e abaixo do fundo do mar. Todas as coisas tão longínquas que não consigo ver nem imaginar que lá estão. Mesmo as coisas que não percebo. Mesmo as coisas de que ignoro a existência. Tudo isso faz parte do meu processo criador. Tudo isso faz parte da parte criada por mim.
No dia da minha morte, se por ventura a minha morte, a morte de um imortal, fosse possível, o mundo deixaria de existir. Deixaria de existir num piscar de olhos. Se eu largasse o último suspiro o mundo extinguir-se-ia, não como com uma explosão, abalo ou agitação em jeito de apocalipse, mas como o sinal de televisão a morrer no cinescópio, reduzido a um ponto branco que diminui de tamanho até ao micro-qualquer-coisa e, por fim, deixar de ser. E ser nada. Sem dramas. Nem dor. Inexistir.
Penso nisso enquanto movimento o aspirador aqui por casa.
Lembrei-me que já tinha o aspirador arranjado. E lembrei-me que há já algum tempo que não aspirava a casa. Já via acumular-se o cotão pelos cantos não habitados da casa. Vi começar a aparecer algum verdete. Algum bolor. A casa é húmida. E eu não tenho muita paciência para tratar dela.
Peguei no aspirador e comecei a aspirar a casa. Comecei pelo quarto. Percebi que estou a perder cabelo. Não que me sinta careca. Mas percebi que anda a cair. A cair nas almofadas que me amparam o sono. A cair pelo chão do quarto. Na casa-de-banho reparei no mesmo. Mas também havia uns pêlos mais curtos. Presumo que da barba que aparo de vez em quando. Os pêlos haviam de ter de ir para algum lado. Vão para o chão, afinal. E eu tendo a não os ver. Mas vi agora. Agora que estou a aspirar a casa e vejo o soalho a mudar de cor, a ganhar brilho, outra luminosidade. Os tapetes a recuperarem os motivos originais.
Parece que tenho uma casa nova. Uma casa digna de um imortal.
Preciso de mudar as lentes dos óculos de ver.
A Agustina viveu uma vida cheia. Cheia e comprida. A minha vai ser ainda mais comprida. Tão comprida quanto eu quiser. Vou manter este mundo enquanto tiver paciência para o aturar.
Na sala descubro que ando a deixar cair cinza. Cinza dos cigarros. Isso desperta-me a vontade de fumar um. Desligo o aspirador. Acendo um cigarro. Vou até à janela. Abro-a. Debruço-me sobre a rua. E penso se tenho vontade de estender a minha imortalidade para além da Agustina. Para além de Matusalém. Penso se não começo já a ficar cansado deste rame-rame que se repete sempre da mesma maneira todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, todas as vezes nas minhas vidas numa só.
Às vezes estou cansado. Às vezes estou tão cansado de conceber um mundo tão imperfeito que me apetece terminá-lo. Deixo cair um bocado de cinza no chão da sala. E penso que a minha vida é uma sucessão de repetições. E penso que começo já a sentir-me farto.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/03]