Fui Eu Quem Assaltou Tancos

Fui eu quem assaltou Tancos.
Estava ali mesmo ao lado. Tinha ido à Brandoa. Na volta passei por Tancos. O portão aberto. A guarita deserta. O paiol a chamar-me. E eu a precisar. Sim. Aceitei o convite. Como diz o povo A ocasião faz o ladrão.
Tenho andado com medo.
Fiz uma lista e fiquei com medo.
Atentem. Atentem na lista:
Donald Trump; Nicolás Maduro; Daniel Ortega; Giuseppe Conte; Matteo Salvini; Viktor Órban; Mateusz Morawiecki; Recep Erdogan; Benjamin Netanyahu; Bashar al-Assad; Teodoro Obiang; Mohammad bin Salman; Vladimir Putin; Kim Jong-Un; Rodrigo Duterte.
E agora Jair Bolsonaro.
E, agorinha mesmo, que vi a capa do jornal i pendurado no quiosque, o Tomás Taveira.
Estes são os que me lembro assim, de repente, numa lista feita de cabeça entre o semáforo Vermelho e o Verde. Há quem enfie o dedo no nariz e apanhe macacos. Eu faço listas. No Natal e Fim-de-Ano é uma paranóia sem fim.
Tinha que dar cabo deste medo antes que este medo desse cabo de mim.
Fui ao paiol. Carreguei-me. Carreguei o carro. Apetrechei a casa.
Depois fui ao supermercado. Ainda passei no Pingo Doce, que é perto de casa, mas estava uma tristeza. Pouca coisa. Coisa ruim. Fruta verde. Pouca variedade. Muita gente.
Acabei a fazer compras no Continente Online e vieram trazer a casa. O futuro é risonho.
Agora estou preparado.
Entro no Facebook e já não me assusto com tanta facilidade. Estou preparado para esta gente. Para os Haters. Para os que Acham. Para os que Sabem Sempre Tudo. Para os que Têm Certezas e Nunca se Enganam. Para os Admiradores de Cavaco Silva. Para o Hernâni Carvalho.
Agora estou preparado e não preciso mais de sair de casa.
Quer dizer, preciso de sair para comprar pão fresco, que não consigo comer pão duro e a torradeira está avariada, e pagar as contas no Multibanco, que não gosto que me saquem dinheiro directamente da conta sem confirmar se está tudo correcto. Esta gente não é de confiança.
Depois fico aqui. Deitado no corredor. Frente à porta da rua. Em cima de uns sacos de areia que fui encher à Praia do Pedrogão.
À noite, quando me deito, deixo a porta armadilhada com C4. Antes de me foderem, fodem-se a eles.
Mas agora, lembrei-me, E se precisar de uma gaja?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/04]

O Sobrevivente

31 de Dezembro.
Eram sete da noite e não sabia o que fazer para o último jantar do ano. Ainda não tinha recebido pelos trabalhos que tinha feito em Dezembro e a carteira estava curta. Ela estava lá dentro no quarto, e não sabia de nada.
Pus-me a vasculhar o frigorífico e os armários das mercearias.
Juntei o que para lá encontrei e comecei a cozinhar. Cozi esparguete. Depois juntei-lhe um bocado de margarina por cima. Aqueci uma lata de champignons que acabei por misturar no esparguete. Peguei numa lata de atum, despejei o azeite, desfiei o atum para uma tigela e depois polvilhei sobre o esparguete. Distribui por lá umas azeitonas secas que tinha descoberto perdidas no frigorífico.
Tinha um bocado de pão duro, mas sem bolor. Cortei-o aos bocadinhos, torrei-o e verti-lhes uns fios de azeite que coloquei a decorar os pratos, à volta do esparguete. Ainda fiz uma pequena salada com um tomate e uma laranja que por lá encontrei na fruteira. O tomate já estava mirrado, mas estava bom.
Tinha um restinho de Borba tinto numa garrafa e dividi-o igualmente por dois copos.
Pus a mesa.
Fui ao quarto dela chamá-la.
Quando abri a porta ela chamou-me com a mão e disse-me Estavam ali quatro velhas com um cabrito ao colo, Não vamos comer cabrito, pois não? Não! respondi e sorri, pois já só me dava para sorrir. Já tinha passado a fase da preocupação e do desatino. Agora aguentava o embate.
Dei-lhe a mão e levei-a para a cozinha. Sentou-se e começou a comer. Não esperou por mim. Estava com fome.
Sentei-me e comecei também a comer.
No fim disse que tinha gostado bastante. Que eu me tinha esmerado. Não me perguntou nada. E eu também não disse nada. Sorri. Sorri-lhe. Só.
Depois fomos sentar-nos no sofá a ver um qualquer programa de fim-de-ano gravado previamente. Eram nove horas. E eu acabei por adormecer.
Fui acordado com o som do fogo de artifício. Já passava da meia-noite. Ela já não estava ali, no sofá. Fui ao quarto e confirmei que já lá estava, a dormir. Fui à janela da cozinha, mas não conseguia ver nada do fogo de artifício que acontecia atrás do prédio em frente.
Na televisão já tinham passado as imagens da entrada no novo ano e já estavam a dar filmes que já tinha visto várias vezes. Desliguei-a.
Fui para a janela da cozinha fumar um cigarro. Olhei lá para fora, para a rua. E, ao contrário dos outros dias, não havia ninguém a passar lá em baixo. A rua estada deserta. Eu estava sozinho. O mundo não tinha ninguém. Eu era o único sobrevivente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/29]