Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Para um Diário da Quarentena (Segundo Andamento)

Acordei com a luz do dia a bater-me na cara. Virei-me para o outro lado. Fechei os olhos. Tentei dormir mas já não era possível. Os olhos abriam-se e olhavam para a parede em frente onde batem as sombras das árvores e produzem uma espécie de sombras chinesas. Recomeçaram de novo as histórias de todos os dias projectadas ali, naquela parede. Os ouvidos colocaram-se logo à escuta. Havia vento lá fora. Puxei o edredão mais para cima de mim. Sentia o frio à minha volta no quarto.
Estava desperto mas não tinha vontade de me levantar. Tinha de ir mijar, mas estava a protelar. Sentia-me bem ali deitado na cama. No quente da minha cama.
É início da semana. Mas que semana? Este início de semana é parecido com o fim-de-semana. Estou em casa. Estou sempre em casa. Estou sempre em casa todos os dias de todas as semanas e fins-de-semana. Trabalho em casa. Trabalho à distância que o wi-fi me permite. Trabalho como quero e quando quero e passeio-me pela rua fora, pelas ruas curvas e sombrias e solarengas e subo à serra e mando seixos ao rio e apanho fruta das árvores e oferecem-me ovos verdadeiros de galinhas verdadeiras que vivem em galinheiros no meio do campo alimentadas a milho e que passam os dias a depenicar o chão à cata sabe-se-lá-do-quê.
Não me apetece levantar.
Hoje não me apetece trabalhar.
Estou… Estou uma série de coisas que poderia enumerar. Neura. Melancólico. Deprimido. Preguiçoso. Cansado. Psicologicamente cansado.
Não me apetece ouvir música. Nem ver um filme. Nem uma série. Não quero ler um livro. Nem folhear uma revista. E tenho aqui tantas revistas atrasadas para folhear, ler, reler, guardar alguns artigos, algumas revistas inteiras. Não me apetece ver ninguém. Não me apetece falar com ninguém.
Nada. Nada de nada.
Virei-me para o tecto. Havia luz no quarto, a luz do dia, de um dia com um pouco de sol a bailar entre tufos de nuvens. O dia não estava escuro, até estava mais-ou-menos brilhante, com um sol amarelo a fugir às nuvens. Durou pouco. Ao início da tarde o sol morreu, as nuvens desapareceram e o céu escureceu e ficou cinzento. O vento mantinha-se e manteve-se. Um vento a grande velocidade e muito frio.
Não. Não me queria levantar.
Tocou o telefone. Deixei-o tocar. Chegou uma mensagem. Não a fui abrir.
Pensei que o mundo poderia ainda estar pior que na véspera. Estiquei o braço e liguei a rádio que está com o despertador. Estava na TSF. Os noticiários foram-se sucedendo. Ao longo do dia.
Eu fui dormitando. Adormecia. Acordava. Ouvia um segmento noticioso. Bocejava. Voltava a dormir. Esqueci-me que tinha vontade de mijar.
Quando dei por mim já era de noite. A TSF continuava a debitar notícias. Percebi que a vida continuava lá fora. Mas já tinha havido a primeira morte em Portugal. A fronteira com Espanha ia ser fechada. E falava-se na possibilidade de se levantar um estado de emergência.
Foda-se! Levantei-me rápido e fui mijar. Mijei. Senti-me aliviado e, por momentos, esqueci-me da quarentena e destes dias de excepção.
Lavei as mãos. Senti fome. E decidi fazer uns ovos mexidos.
Lembrei-me da mensagem que tinha recebido. Talvez tivesse recebido mais. Talvez alguns mails. Talvez… Não. Não haverá nada. Talvez só uma mensagem com a conta do telemóvel para pagar.
E pensei Amanhã não posso não fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/16]

A Vida Cá por Casa

Eu já não era o único a arrastar-me cá por casa. Agora era ela, também. Depois de nos levantarmos de manhã, depois de bebermos uma caneca de café de saco, eu, em fato-de-treino, sentava-me numa poltrona e ela, de roupão por cima da camisa de dormir, sentava-se na outra. Ligávamos a televisão e ouvíamos as notícias na CMTV. Estávamos em guerra. Estávamos em guerra contra um vírus e estávamos a perder essa guerra. Entrámos em angústia. A morte rondava-nos. Perto da hora do almoço eu carreguei no botão do comando e passamos para a SICN e sossegamos um pouco. A situação era má, mas não era desesperada como parecia.
Ao almoço aquecemos um resto de feijoada que ela tinha trazido de casa da mãe há umas semanas e tinha guardado no congelador. Havia um resto de arroz de cenoura da véspera e aquecemos tudo no micro-ondas. Acompanhámos com um copo de vinho de uma garrafa sem rótulo que ela também tinha trazido de casa da mãe. Era vinho do produtor. Uma zurrapa. Era boa para matar o bicho.
Eu já estava habituado àquela vida de andar por casa, a arrastar os chinelos do quarto para a sala, da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para a cozinha, caneca de café na mão, um cigarro e um biscoito, uma vida de desempregado de longa-duração, já entrado numa idade em que se está morto para o mercado de trabalho que os mercados financeiros gostam é de gente novinha a quem possam chupar toda a energia. Eram as minhas manhãs. Umas a seguir à outras. Em repetição. Depois de aquecer algum resto perdido pelo frigorífico para almoçar, a tarde não fugia aos mesmos passos. Vestia umas calças e uma camisola. Ia até à rua. Bebia café. Às vezes um copo de vinho. Fumava uns cigarros. Arrancava uma maçã da árvore, limpava-a às calças e comia-a por ali mesmo, pelo quintal. Depois regressava à sala. Regressava à companhia da televisão. Via um ou outro programa da tarde, programas para donas-de-casa, mulheres da limpeza ou para velhos sedentários, e esperava que ela regressasse. E ela acabava sempre por regressar. Os meus dias eram assim e eu já estava habituado a eles.
Ela não. Ela não estava habituada a estar por casa. No início tentou copiar-me os ritmos, mas não tinha estofo para aquilo. O estar ali quieta, afundada no sofá a fumar cigarros, não era para ela. Esperava não ficar muito tempo por casa. Esperava que passasse a crise do Covid-19 e a vida retomasse o seu ritmo normal. Fosse lá o que o normal fosse. Bom, para ela, era sair de casa de manhã para ir trabalhar e só regressar ao final do dia. Olá amor, Olá, um beijo, um cigarro em conjunto e o jantar para os dois antes de ver um filme requentado no canal Hollywood.
Depois de uma manhã a arrastar-se pela sala, cozinha e casa-de-banho, depois de uma dieta de cafés e cigarros e o vinho ao almoço a acompanhar aquele resto de feijoada que tinha trazido de casa da mãe, ela precisava de agitação. Foi vestir o fato-de-treino colorido, resto dos anos noventa, e foi lavar o carro. Passou-lhe cera. Aspirou-o por dentro. Verificou o óleo. Pôs-lhe água no depósito do pára-brisas. E eu à janela, a fumar um cigarro e a pensar Era eu que devia estar a fazer aquilo, não era?, mas ela gostava. Ela gostava de fazer aquelas coisas. De estar ocupada. De não ter motivos para pegar num livro. Eu gostava de ter motivos para pegar num livro, mas a televisão punha-se sempre entre mim e o livro. E deixava-me ficar por lá, frente à televisão, a enfardar entretenimento em forma de conhecimento popular.
Depois de deixar o carro num brinco, ela entrou em casa e disse Vou dar uma volta. Vou caminhar. Queres vir?
Não me apetecia nada ir. Não percebia aquela loucura por caminhar em direcção a lado nenhum, sem outro objectivo que não o caminhar, mas sabia que, ao fazer-me a pergunta, já esperava que eu dissesse que sim, e era melhor dizer sim e evitar problemas.
E disse, Sim, vou contigo.
Ela ainda vestiu um colete amarelo-fluorescente por cima do fato-de-treino colorido. Era para se ver bem na estrada. Eu fui com o fato de treino azul escuro que já tinha vestido. Ela ia suficientemente colorida por nós os dois. Fui só calçar umas sapatilhas e partimos.
Ela caminhava depressa. Aquilo não era um passeio. Era uma prova de marcha. Em ritmo acelerado. Não sei se fazia bem a caminhada. Parece que tem de haver sempre uma planta dos pés no chão. Não sei muito bem como é que isso se processa, mas fui andando atrás dela. E ela levou-me por caminhos de terra batida que eu nem conhecia. Consegui que ela parasse um pouco ao pé do ribeiro. Ainda bebi um pouco de água. Ela avisou que a montante, havia uma cerâmica Há uma cerâmica lá mais em cima. Se calhar não é boa ideia beberes do rio. Mas já era tarde. Era melhor preparar-me para um desarranjo intestinal. E lá continuámos.
Acabámos por fazer uma volta enorme e voltar pelo outro lado da casa. Doíam-me as pernas. Eu vinha cansado. À chegada a casa, vi um dos gatos morto no meio da estrada. Atropelado. O gato tinha rebentado. Havia tripas espalhadas pelo asfalto. Encostei-me a uma árvore na berma da estrada e comecei a vomitar. Ela agarrou numa espécie de cajado e puxou os resto do gato para a berma.
Agarrou em mim e ajudou-me a ir para casa. Deixou-me na casa-de-banho e foi encher um balde para enxaguar a estrada. Tirou umas sapatilhas minhas de uma caixa e levou a caixa para colocar o resto do gato.
Quando regressou já eu tinha tomado banho e estava de fato-de-treino lavado a fumar um cigarro no alpendre à espera dela. Ela pegou-me no cigarro e deu duas passas. E disse Vou tomar um duche. Depois vou fazer uma salada para o jantar. E eu respondi Está bem.
Ela foi tomar banho e eu regressei à sala. Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a responsável da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde a falar em directo. A fazer um ponto da situação da expansão do vírus. Comecei por ouvir. Acabei por adormecer.
Acordei quando ela me chamou e disse Anda! Anda, vá! Vamos comer uma salada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/10]

Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]

Na Impossibilidade de Sossego

Ela andava pelo quarto a cirandar. Tinha sempre que fazer. Não conseguia sentar-se numa cadeira e parar. Respirar fundo, deixar-se levar pelo espaço e tempo do pensamento, era uma coisa impossível para ela.
Eu sentava-me muitas vezes na poltrona junto à janela da sala, a ler, com a luz do dia, uns dias de sol outros dias não, um livro no colo, a ler. Ou deixava-me enterrar no sofá mole e de molas partidas que se espetavam no rabo, a ver uma qualquer matinée televisiva de filmes imbecis mas que me limpavam a cabeça das impurezas do dia-a-dia tão cansativo que às vezes tinha, bebia um chá de limão quente, umas gotas exprimidas a garantirem a acidez que me mantinha activo e a cabeça a desenrolar novelos à volta de uma narrativa de uma simplicidade desarmante mas que ajudava a colocar em perspectiva os assuntos, esses sim, sérios, que comandavam os meus dias, pelo menos naqueles tempos.
Ela abria e fechava gavetas e aquelas gavetas dos móveis do quarto, móveis feitos por um amigo em recuperação de consumos aditivos a querer ser útil à sociedade e a aprender a dar bom uso às mãos, nunca fluíram, eram abertas e fechadas aos empurrões, única maneira das calhas mal feitas e tortas funcionarem.
Eu estava a tentar dormir. Mas era impossível com ela ali à volta. Ela não fazia por mal. Ela nunca fazia por mal. Era assim. Acho que nem se apercebia do incómodo que estava a causar ao andar ali pelo quarto a dançar entre os móveis, a abrir e a fechar gavetas e as portas do roupeiro para arrumar a roupa que tinha acabado de passar-a-ferro, e entretanto já tinha posto mais uma máquina-de-roupa a lavar enquanto montava um estendal de roupa na varanda, Para aproveitar o sol, dizia, o pouco de sol que aqueles dias primaveris no meio de um inverno envergonhado permitiam.
É claro que aquelas horas não eram horas de estar a dormir. Mas a vida já não era assim. De horas certas e iguais. De módulos repetitivos de um dia atrás do outro. Comigo nunca tinha sido assim. Nunca tivera uma vida de emprego das nove às cinco com noites longas de Inverno para nos podermos tocar na cama revolvida pelos nossos corpos transpirados de desejo nem de fins-de-semanas caseiros sem despir o pijama, onde nos arrastávamos da cama para o sofá em tardes de tédio, a não ser quando descobríamos que estávamos livres os dois ao mesmo tempo e um de nós puxava o outro de volta para a cama ou aproveitava o conforto fundo do sofá da sala ou a bancada fresca da cozinha com vista para a vizinha da frente que algumas vezes nos apanhava a foder com a janela aberta, sorríamos uns aos outros e ela não se ia embora, ficava ali, de chávena de café na mão, a olhar para nós até que eu parava, puxava-a para o corredor e, às vezes, era mesmo ali, contra a parede fria do corredor, que acabávamos o que tínhamos começado em cima da bancada da cozinha, e eu ficava ofegante e ela a perguntar se estava tudo bem. Sim, está tudo bem. Está sempre tudo bem.
Eu nunca tinha um horário certo de trabalho. Havia trabalhos que tinha de entregar em determinado dia, até determinada hora, e trabalhava tendo essas linhas como meta. Geria o meu tempo. Às vezes passava noites acordado a trabalhar enquanto ela dormia sozinha. Tomávamos o pequeno-almoço juntos. Ela ia para o trabalho. Eu ia dormir.
Mas às vezes nem essa nossa organizada desorganização de modelo de vida que experienciávamos dava resultado. Ela simplesmente não se apercebia que eu estava a tentar descansar. Então abria as janelas de vidro para trás para deixar entrar o sol e afastar a humidade dos cantos da casa, já a ganharem bolor que ela depois andaria a limpar com lixívia num pano enrolado à volta de uma vassoura e cujo cheiro me entrava pelo nariz dentro e me despertava a bronquite e amplificava a minha pieira e ela dizia Estás bem? Pareces estar com um ataque! sem se aperceber que era ela a responsável, mesmo que inconsciente. E eu dizia Estou bem! estava sempre bem.
Então, nesses dias em que estava a tentar dormir um pouco durante a manhã, rebolava de um lado para o outro na cama à procura de lugares frescos enquanto ia ouvindo o trautear de pequenas canções populares que ela ia entoando enquanto dançava entre gavetas e portas de móveis desengonçados a arrumar roupa, limpar o pó, arejar a casa, acabar com o bolor e dignificar o seu estatuto de dona-de-casa em certos dias, eu acabava por lhe mandar com o telemóvel para cima, cheguei-lhe a partir a cabeça, parti quatro telemóveis, tivemos várias zangas bastante agressivas e acabávamos, invariavelmente, na cama, comigo a entrar dentro dela e ela a espreitar pela janela à procura do olhar voyeur da vizinha da frente que, às vezes, acabava por entrar numa ménage connosco mesmo que à distância da rua que nos separava.
Ainda hoje é assim, a nossa vida. Ela não consegue sossegar. E às vezes nem a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/10]